Historia Antiga

Chapter 5

Chapter 53,750 wordsPublic domain

Ignora-se completamente quaes foram a origem e o modo de formação dos Chins, habitantes do _Celeste Imperio_ ou _Imperio do Meio_. Até ao seculo XXII antes de Christo os imperadores eram electivos; d'aquella epocha em deante estabeleceu-se o principio heriditario na successão, modificado n'um ponto (e era que os grandes do imperio podiam escolher entre os filhos do soberano defuncto o que julgassem digno de succeder-lhe).

O imperador Yu foi fundador da dynastia dos _Hia_, que durou quatro seculos e que acabou no meio de grandes desordens e de uma atroz tyrannia. A segunda dynastia, a dos _Chang_, foi fundada por um principe de merecimento superior cujas virtudes foram celebradas por Confucio, e veio a acabar como a anterior, sendo o seu ultimo representante um tyranno abominavel, desthronado por Wu-Wang, principe de _Tehéu_, que contra elle se revoltou. Este, tomando o governo, reorganizou o antigo «tribunal da historia», cujos membros gozavam de inamobilidade, que lhes assegurava a independencia. Durante esta dynastia os reinos feudatarios da China, que já desde antiga data existiam, augmentaram até ao numero de 125, e na China constituiu-se um verdadeiro feudalismo. Este, porêm, acabou em perfeita anarchia; o imperador chegou a absoluta impotencia, e um dos seus feudatarios offereceu sacrificio ao céu (prerogativa exclusiva do soberano), e prendeu no palacio o ultimo imperador d'aquella dynastia. Começou nova dynastia, a dos _Thsin_ que, destruindo todos os pequenos principados, reconstruiu com sua unidade e poderio o grande imperio. Um imperador d'ella, Chi-Hoang-Ti, concluiu aquella transformação, abriu grande numero de estradas, perfurou montanhas e, para impedir as correrias dos Tartaros nomadas, mandou construir a _grande muralha_, que mede 2:500 kilometros de comprimento. Tornou-se porêm, tristemente celebre pela perseguição dos lettrados e pelo incendio dos livros. Na sua enorme vaidade, queria que tudo datasse do seu reinado e pretendeu assim apagar os vestigios do passado. Não poude, felizmente, matar todos os sabios, nem destruir todos os livros. A monarchia chineza, que n'aquella data foi perturbada por tão violento e insensato reformador, voltou depois á sua tradicional quietação; os sabios recuperaram a sua influencia; e o paiz augmentou consideravelmente em prosperidade. Mas depois, minada por vicios de dissolução interior, não teve força para resistir ás invasões dos Mongoes que, transpondo a grande muralha, foram causa da divisão da China em dois reinos, separados pelo rio Azul, e nos quaes houve differentes dynastias, que todas tiveram uma existencia obscura. Li-Ang tornou a reunil-os no anno 618 da era actual; mas não conseguiu robustecer o imperio restaurado, de modo que pudesse resistir ás repetidas Invasões mongolicas. Estas invasões continuaram durante a Edade-Média, e são já estranhas ao assumpto do presente livrinho.

É a civilização da China uma das mais antigas que se conhecem; mas, apezar d'isso, é a que menos tem progredido ou, melhor diremos, a que por maior decurso de tempo tem permanecido estacionaria. Tem sido causas d'esse estacionamento o temperamento proprio da raça chineza, a sua fórma de governo, a sua religião e o isolamento em que a nação se tem conservado a respeito do resto do mundo.

A fórma de governo tem sido sempre como que patriarchal. O imperador é simultaneamente soberano e pae de todos os seus subditos, que de um extremo a outro do imperio formam uma unica familia, sem distincção de castas ou hierarchias. As doutrinas de Confucio têem contribuido principalmente para conservar ás instituições chinezas a sua estabilidade.

Confucio viveu no seculo VI antes de Christo. Os seus livros, sendo como que o evangelho do Imperio Celeste, são estudados por todos os que têem que sujeitar-se aos exames que habilitam para os titulos litterarios e para o exercicio dos cargos publicos. Confucio não foi legislador, nem teve auctoriade para promulgar leis; mas ensinou a «sabedoria». E na práctica das doutrinas por elle professadas assenta todo o edificio politico e religioso na China.

Segundo elle, a moral dos antigos sabios, que é a da verdadeira e eterna sabedoria, consiste na observancia das tres leis fundamentaes das relações entre o soberano e os subditos, entre o pae e os filhos, e entre o marido e a mulher; e tambem em practicar as cinco virtudes capitaes (que são: a humanidade, isto é, uma caridade universal para com todos os individuos da nossa especie sem distincção; a justiça, que dá a cada um o que lhe é devido, sem favorecer um em prejuizo de outro; a conformidade aos ritos prescriptos e aos usos estabelecidos, a fim de que os que formam a sociedade tenham uma maneira commum de viver, e participem todos de eguaes vantagens e de eguaes incommodos; a rectidão, ou a inteireza de espirito e de coração, que faz que cada um busque a verdade, sem se deixar offuscar pelo interesse, proprio ou alheio; a sinceridade e boa fé, ou a lisura e confiança, que exclue toda a dissimulação e toda a falsidade, quer nos actos quer nas palavras).

Os seus principios religiosos fundamentaes são os seguintes. O céu é o principio universal, a origem fecunda de que todas as coisas procederam. Os nossos antepassados, d'elle oriundos, foram a origem das gerações seguintes. Dar ao céu testemunhos de agradecimento é o primeiro dever do homem; mostrar gratidão aos antepassados é o segundo. É por isso que Fou-Hi estabeleceu ceremonias em honra do céu e dos antepassados.

CAPITULO X

OS GREGOS

Na Antiguidade, a Grecia propriamente dita era apenas uma região constituida por uma pequena porção de territorio do continente europeu, e pela peninsula que na bacia Oriental do Mediterraneo termina o mesmo continente, entre o mar Jonio ao occidente e o mar Egeu (hoje denominado Archipelago) ao oriente. Tambem pertenciam á Grecia as numerosas ilhas que ha nas proximidades d'aquella região. As diversas populações que na Grecia vieram a ter importancia historica derivaram-se todas da raça aryana, da qual constituiam um grupo especial (o hellenico). Este grupo, pela brilhante civilização que no seu seio se elaborou, constitue um dos mais nobres da historia, e formou uma individualidade distinctissima atravez dos seculos.

Na obscuridade dos primitivos tempos, parece que os primeiros habitadores da Grecia foram os Pelasgos e os Jonios. Os primeiros povoaram com suas tribus a Asia Menor, a Grecia e a Italia, lançaram n'estes paizes os primeiros fundamentos da civilização, e por toda a parte deixaram nos seus monumentos provas eternas da sua actividade e das suas poderosas aptidões. Desappareceram, porêm, sem que sobre o seu destino ulterior haja tradição segura.

Quando a Grecia apenas sahia do estado selvagem, vieram (segundo antigas tradições) colonias dos paizes mais civilizados da Asia e da Africa trazer-lhe os conhecimentos das artes uteis e uma religião mais pura. Foi assim que Cecrops, oriundo do Egypto, desimbarcou na Attica, reunindo os habitantes d'ella em diversas povoações, das quaes Athenas veio a ser a capital; ensinou-lhes algumas culturas, promulgou as leis do casamento e instituiu o tribunal do Areopago, destinado a julgar os pleitos. Do mesmo modo na Beocia, Cadmo introduziu o alphabeto phenicio e edificou Cadméa, emtorno da qual se elevou mais tarde a cidade de Thebas. Dano introduziu em Argos algumas das artes do Egypto; e Pelops, phrygio, estabeleceu-se na Elida, d'onde a sua raça se espalhou por toda a peninsula que d'elle tirou o nome. O acontecimento dominante d'aquella epocha foi a invasão dos Hellenos que do norte da Grecia, sua primeira habitação, se derramaram por todas as outras partes da peninsula, á custa dos Pelasgos que foram absorvidos pela população invasora.

Apoz esta epocha primitiva seguiram-se os tempos heroicos, em que homens de grande valor physico percorriam a Grecia, para a libertar dos salteadores, dos oppressores e dos animaes selvagens. Passando a sua vida a combater todos os flagellos, aquelles heroes recebiam dos povos agradecidos as honras de semi-deuses; mas muitas vezes abusavam da sua força e das suas vantagens pessoaes. Entre outros foram notaveis Hercules e Theseu. Tambem ficaram nas tradições poeticas: os Argonautas e a sua viagem aventurosa até á Colchida, em busca do _vellocino de oiro_; os septe chefes que foram cercar Thebas, infamada pelos crimes de Oedipo e pelas dissenções entre seus filhos; o sabio Minos; etc.

Foi n'este periodo que se deu a guerra de Troya. Esta cidade era a capital de um poderoso reino estabelecido no noroeste da Asia Menor e o ultimo resto do dominio dos Pelasgos. O celebre Páris, filho de Priamo (rei de Troya), fez uma viagem ao Peloponeso e d'alli furtou e levou para a sua patria Helena, mulher de Meneláu (rei de Esparta ou Lacedemonia). Pedindo-a depois o marido e os mais Gregos aos Troyanos, estes negaram-se a intregál-a, pelo que lhes foi por aquelles declarada a guerra. Quasi toda a Grecia com seus principes foi a esta expedição, levando por general supremo o rei Agamemnon. Ás ordens d'este principe iam Achilles (capitão de grande valor), Ajax Tellamonio, Ajax Oileu, Diomedes, Menesteu, Ulysses (rei de Itaca), e Nestor (varão de edade já muito avançada). Foi posto cêrco a Troya; mas durante quasi dez annos não houve batalha decisiva. Troya, defendia-se e parecia disposta e habilitada a continuar a defender-se com vantagem, não obstante a falta de Heitor, que a commandava e que morreu ás mãos de Achilles. Os Gregos usaram por fim de um estratagema; fingiram retirar-se, deixando no campo, como presente, um gigantesco cavallo de madeira, que os Troyanos recolheram dentro de suas muralhas. Mas no corpo do animal occultavam-se os mais bravos d'entre os Gregos, que assim se introduziram na cidade, cujas portas abriram ao resto do exercito. Desse modo cahiu Troya, sendo Priamo assassinado ao pé dos altares. Os principes gregos que não haviam morrido na lucta, voltaram a caminho da sua patria; mas grandes infelicidades os esperavam. Uns morreram na viagem; outros, como Ulysses, andaram muito tempo desviados do caminho por ventos adversos; outros (como Agamemnon) ao chegarem aos seus paizes, incontraram os thronos occupados por usurpadores, de que foram victimas; outros, emfim, viram-se obrigados a ir estabelecer habitação em regiões longiquas, como Diomedes e Idomeneu.

Toda a historia d'esta epocha está tão eivada de fabula, que é quasi impossivel apurar-se a verdade.

Os oitenta annos que se seguiram á guerra de Troya foram todos occupados por dissenções intestinas, que derrubaram as antigas dynastias, e transferiram a preponderancia para as mãos de novos povos. Estas revoluções, e outras que mais tarde houve, deram logar a varias correntes de emigração; e ao longo das costas da Asia Menor, da Africa, da Sicilia, e da Italia, formou-se uma nova Grecia, que cresceu e prosperou, e por muito tempo foi mais rica do que a metropole. Foi assim que os Gregos se estabeleceram em Smyrna, Phocéa, Epheso e Mileto (na Asia Menor); em Cyrena (na Africa); em Messina e Syracusa (na Sicilia); e em Taranto, Napoles e Sybaris (na Italia). Nas colonias da Asia, em contacto com as velhas sociedades do Oriente, começou a evolução civilizadora, de que Athenas veio a ser mais tarde o brilhantissimo fóco.

Mas, apezar de tão grande dispersão da população grega, apezar da divisão da Grecia em tantos estados, a grande familia hellenica conservou a sua unidade nacional, pela communidade da lingua e da religião, pela celebridade de alguns oraculos (o de Delphos principalmente, ao qual concorria gente de todos os pontos do mundo grego), e por algumas instituições geraes que conservavam estreitos os laços moraes das populações entre si.

Entre 800 e 700 annos antes de Christo, houve de notavel na Grecia o apparecimento das leis de Lycurgo. Este personagem nasceu em Esparta. A viuva do rei Polydecto, seu irmão, offereceu-lhe com a sua mão de esposa o throno de Esparta, com a condição d'elle matar seu sobrinho Charilaus. Recusou-se a isso Lycurgo; e, como os grandes do reino se mostrassem contra elle irritados pela sabia administração que usára como regente, durante a menoridade do sobrinho, resolveu exilar-se e viajou por muito tempo, estudando a legislação dos outros povos e voltando a Lacedemonia, depois de uma ausencia de dezoito annos, com o intento de fazer adoptar reformas importantes nas leis do reino. A pythonisa de Delphos apoiou com a sua auctoridade religiosa as reformas propostas; e os Espartanos, fatigados das suas dissenções intestinas, que laceravam o estado, acolheram-n'as favoravelmente.

As leis politicas de Lycurgo mantiveram as relações estabelecidas entre os Espartanos, como povo dominador, e os Laconianos, como povo subjugado. Regularam os direitos da realeza distribuidos por duas casas soberanas; os do senado, composto de varões de edade superior a sessenta annos; os da assembléa geral, que podia acceitar ou regeitar as propostas feitas pelo senado ou pelos reis; enfim, os dos _ephoros_, magistrados annuaes, que administravam a justiça. As suas leis civis são muito mais notaveis e de muito maior alcance; e tiveram por fim estabelecer a egualdade entre todos os cidadãos. Para chegar a tal fim, dividiu elle as terras em 39:000 porções (30:000 para os Laconianos e 9:000 para os Espartanos). Para manter a egualdade entre os cidadãos, Lycurgo prohibiu o luxo e a moeda de oiro e de prata; e instituiu as refeições publicas, em que reinava a maior frugalidade. Vedou aos Espartanos o commercio e a cultura das artes e das lettras, sujeitando-os todos a eguaes exercicios physicos, com a mira de formar cidadãos robustos para a defesa da patria. Ao mesmo fim era dirigida a educação das creanças, que mais pertenciam ao estado do que á familia; a creança que nascia disforme, matavam-n'a.

Acabadas por esta legislação rigorosa as discordias interiores, e robustecida assim Esparta, concluiu esta a conquista da Laconia e imprehendeu a do Peloponeso. Combateu a tribu dorica dos Messenios, com a qual teve duas guerras, (uma que durou vinte annos e a outra dezesepte). As victorias n'estas luctas alcançadas deram grande nomeada aos Espartanos, que no seculo VI antes da era christan eram considerados como o primeiro povo da Grecia.

Pelo mesmo tempo florescia tambem Athenas, comquanto os defeitos da sua organização social déssem origem a grande mal-estar interior e a repetidas perturbações. A grande desegualdade dos haveres tinha dado origem á formação de duas classes: a dos _eupatridas_, ou senhores das terras, e a dos _thetas_, ou servos que as cultivavam. Além d'estas duas havia ainda a dos escravos propriamente ditos.

A morte de Codro, ultimo rei dos Athenienses, deu logar a estabelecer-se uma nova fórma de governo. Os dois filhos d'elle, Medon e Nileu, disputaram entre si a corôa. Os Athenienses, que tinham sido sempre muito ciosos da sua liberdade, aproveitaram este ensejo para a reivindicarem completamente; declararam que depois de Codro não havia ninguem digno do titulo de rei e puzeram á testa da republica um primeiro magistrado a que deram o nome de _archonte_, e cuja auctoridade era muito limitada. Durante mais de tres seculos foi esta magistratura vitalicia e hereditaria; no fim d'esse tempo tornou-se electiva, e as funcções de _archonte_ foram limitadas a dez annos. Mais tarde ainda, o poder foi distribuido por nove _archontes_, cujo mandato durava um anno. D'ahi provieram grandes dissenções, divisões de partidos, rivalidades e desordens.

Para obviar a tantos males viu-se que era necessario fazer leis, que fossem superiores a todas as magistraturas. Foi escolhido para as formular Dracon, homem de virtudes austeras e que gosava da estima geral. Dracon apresentou um codigo de leis de tal severidade, que revoltaram os espiritos mais exigentes e que não puderam ser executadas. Como novas dissenções puzeram em novo perigo o estado, recorreu-se a Solon, varão illustrado e de grande patriotismo, a quem foi dada a missão de fazer as necessarias leis e organizar uma constituição fundada em principios racionaes e estaveis.

Dividiu Solon o povo em quatro classes, segundo o rendimento de cada um. Os cidadãos das tres primeiras classes eram os unicos que podiam exercer cargos publicos; os da quarta, composta da infima plebe, eram admittidos a votar nas assembléas publicas, das quaes se excluiam os estrangeiros. Decretou a pena de morte contra todo o _archonte_ que se embriagasse, e declarou excluido da tribuna e indigno de falar ao povo todo o homem de vida depravada. Estabeleceu que os _archontes_ se informassem da occupação de todos os cidadãos e que declarassem infames os que persistissem na ociosidade, depois de por ella terem soffrido tres condemnações. Decretou que o estado sustentasse até á edade de vinte annos todos os filhos dos cidadãos que morressem no serviço da patria. Das leis draconianas apenas conservou as que eram dirigidas contra os assassinos. Não fez lei penal contra o parricidio, porque não julgou possivel que tal crime se commettesse em Athenas. Para tornar duravel a sua legislação, fêl-a gravar toda em pranchas de madeira, e depois sahiu de Athenas por algum tempo para ir estudar a sabedoria das antigas nações do Oriente.

Quando regressou, notaveis acontecimentos o esperavam. Os partidos tinham re-apparecido e das luctas entre elles tinha surgido a tyrannia de Pisistrato, o qual, sem abolir a constituição, exercia tal influencia, que dominava todos os magistrados. Pisistrato duas vezes foi expulso do poder e de Athenas; mas duas vezes conseguiu recuperar o governo, que por fim conservou até á morte. Depois d'esta succederam-lhe seus dois filhos Hipparco e Hippias, que governaram conjunctamente; mas em seguida houve novas e continuadas dissensões, até ao tempo de Themistocles, no qual a Grecia, ingrandecida com as conquistas de Milciades e arvorada já em verdadeira potencia maritima, viu ainda o seu poder naval accrescentado com 200 navios, mandados construir com o producto das minas de prata de Laurion.

Foram esta armada poderosissima, e o valor e pericia dos seus generaes, que salvaram a Grecia das expedições contra ella organizadas por Dario e Xerxes, de que já falámos no capitulo VII d'este livrinho.

Foi sobre todos notavel na Grecia o periodo d'estas guerras e o tempo que se lhes seguiu. Appareceram então distinctissimos generaes, e excellentes estadistas; e o povo grego, não obstante o seu animo irrequieto e o seu espirito sedicioso, parece que reprimiu todos os ardores que podiam ser prejudiciaes á causa publica, para só dar livre curso a todas as tendencias conducentes ao ingrandecimento da patria e á sua victoria contra os ataques dos inimigos.

Por esta epocha appareceu Pericles--homem de tal merito, que deu o seu nome ao seculo em que viveu e em que a Grecia foi o grande fóco da civilização do mundo.

Era filho de Xanthippo, o vencedor de Mycale. Educado pelos sabios mais notaveis do seu tempo, mostrou-se desde a adolescencia muito instruido em todos os ramos do saber humano. Apesar de estar pelo seu alto nascimento destinado a ser chefe do partido aristocratico, que no começo da vida d'elle tinha a maior influencia em Athenas, esposou a causa do povo, fazendo-se chefe do partido democratico. Fez reformas profundas, em que cerceou as attribuições dos altos poderes do estado em beneficio do povo. Em virtude d'essas reformas, todas as funcções publicas, ainda as mais elevadas, ficaram sendo accessiveis aos cidadãos mais humildes, contanto que a sorte ou a eleição a ellas os chamassem.

Como o imperio sujeito á pequena cidade de Athenas fosse demasiado vasto, para que ella pudésse mantêl-o sujeito, Pericles expediu numerosas colonias que não formaram, como as anteriores, cidades independentes da metropole, mas sim fortalezas e estabelecimentos militares que mantinham na sujeição a Athenas os paizes onde existiam.

Não teve Pericles sómente em vista a grandeza e o poderio de Athenas; cuidou tambem da gloria d'ella. Chamou para alli todos os homens eminentes que então havia na raça hellenica, os quaes todos para lá concorreram, como para a capital da intelligencia. Celebravam-se alli festas esplendidas, que attrahiam enorme concurso de todas as povoações gregas.

Athenas chegou assim a ser um dos mais intensos fócos de civilização que o mundo tem visto. Ao lado do eminente vulto de Pericles, viram-se então alli brilhar: Sophocles e Euripedes, dois dos maiores poetas tragicos conhecidos; Lysias, orador eloquentissimo; Herodoto, narrador admiravel; Aristophanes, o maior poeta comico da Antiguidade; Phidias, o mais illustre dos seus artistas; Apollodoro, Zeuxis, Polygnoto e Parrhasios, pintores bastante celebres; Anaxagoras e Socrates, philosophos notabilissimos. Ainda depois d'estes vultos de primeira ordem vieram Eschylo, Thucydides, Xenophonte, Platão e Aristoteles. Athenas teve por aquella epocha, a honra de ser não só a «mestra da Grecia», como lhe chamaram, mas tambem a mestra do mundo.

Depois de vencida a batalha de Salamina, tinha-se Athenas collocado á frente de uma confederação dos gregos insulares e asiaticos, afim de proseguir na guerra contra os Persas; mas tendo-se os sitiados cançado de combater, havia ella acceitado os seus tributos em vez de contingentes militares e continuára por si só a sustentar a lucta, no interesse commum. Depois da guerra, continuou a cobrar os mesmos tributos, pretextando que precisava estar prompta para impedir uma nova invasão. Os alliados, com o tempo, intenderam que era duro estar a pagar para as festas e para os monumentos de Athenas; e queixaram-se. As suas queixas, porêm, foram duramente repellidas, pelo que elles dirigiram as suas supplicas a Esparta. Esta, ciosa sempre da grandeza e das glorias de Athenas, procurou formar uma liga continental, cujas forças oppuzesse ás das cidades maritimas e insulanas sujeitas aos Athenienses. A principio houve só hostilidades parciaes; mas mais tarde tornou-se geral a guerra, depois do ataque de Platéa (alliada dos Athenienses) pelos Thebanos (alliados de Esparta). Essa lucta é conhecida pela designação de «guerra do Peloponeso».

Durante dez annos correu esta guerra, com vantagem ora para uma ora para outra das contendoras, até que Nicias assignou um tratado de paz, que tem o seu nome. A paz, porêm, contrariava os calculos de Alcibiades, que contava com a guerra para se elevar; por isso propoz este a expedição á Sicilia, que teria sido bem succedida, se elle, accusado de sacrilegio, não fosse privado do commando do exercito. Alcibiades retirou-se então para Esparta, d'onde dirigiu duros golpes contra a sua patria. Os Athenienses puzeram cêrco a Syracusa; mas, em resultado da pouca energia de Nicias, tal cêrco terminou pela destruição da esquadra e do exercito atheniense, cujos chefes foram mortos pelos Syracusanos e os soldados reduzidos á escravidão. Este desastre foi um enorme golpe para Athenas.

Comtudo a guerra continuou; e os Athenienses ainda por vezes obtiveram vantagens, que obrigaram Alcibiades a fugir de Esparta. Entretanto em Athenas rebentou uma revolução, na qual a democracia foi sacrificada a um conselho superior composto de 400 membros, que substituiu o senado, e a uma reunião de 5:000 cidadãos escolhidos, que substituiu a assembléa do povo; mas pouco depois um exercito que operava em Samos fez uma contra-revolução, restabelecendo o governo democratico e acclamando Alcibiades. Este foi chamado a Athenas, e com a sua vinda restabeleceu-se a auctoridade do povo. Os Athenienses ganharam duas batalhas navaes no Hellesponto, uma grande victoria, tanto em terra como no mar, em Cyzica, e por fim tomaram Byzancio. Estas victorias foram, porêm, o resultado de um grande esforço, que exhauriu o resto da vitalidade de Athenas.