Part 7
Calar somente, não adormecel-a, por que ella ahi lhe ficou,--companheira daquella noite cruel, para velarem ambas. Quando os olhos cançaram, e foram mais intervallados os soluços, Helena jazeu immovel no leito, com o rosto sobre o travesseiro, fugindo com a vista á realidade exterior. Uma hora esteve assim, muda, prostrada, quasi morta, uma hora longa, longa, longa,--como só as tem o relogio da afflicção e da esperança.
Quando a tormenta pareceu extincta, a moça sentou-se na cama e olhou vagamente em torno de si. Depois ergueu-se; dirigiu-se tropega á _toilette_, que communicava com a alcova por uma porta; alli parou deante do espelho, mas fugiu logo, como se lhe pesasse encarar consigo mesma. Uma das janellas estava aberta; Helena foi alli aspirar um pouco do ar da noite. Ésta era clara, tranquilla e quente. As estrêllas tinham uma scintillação viva que as fazia parecer alegres. Helena enfiou um olhar por entre ellas como procurando o caminho da felicidade. Esteve á janella cêrca de meia hora; depois entrou, sentou-se e escreveu uma carta.
A carta era longa, escripta a golphadas, sem nexo nem ordem; continha muitas queixas e imprecações; uma ternura expansiva de mistura com um desespêro profundo; fallava daquelles que, tendo nascido sob a influência de ma estrêlla, só tem felicidades intermittentes e mutaveis; dizia que para ella a propria felicidade era um germen de morte e dissolução,--ideia que repetia tres vezes, como se tal observação fosse o transumpto de suas experiencias certas. A carta fallava tambem de um homem, cujo egoismo de pae não conhecia limites, e que a todo o trance queria que a filha desposasse uma grande riqueza e uma grande posição,--«homem--dizia ella, que me viu a principio com olhos avessos, pela diminuição que eu trazia á herança.» No fim dizia que havia naquellas linhas muito de obscuro e incompleto; que opportunamente contaria tudo; mas que desde ja podia dar a triste notícia de que lhe era forçoso abster-se de sahir.
Helena releu o escripto e meditou longo tempo sôbre elle; accrescentou ainda algumas linhas; depois, rasgou o papel em dous pedaços, chegou-os á vela, e os destruiu. Como arrependida, voltou a escrever outra carta, mas não chegou a acabar seis linhas; rasgou-a como fizera á primeira, e só então recorreu ao remedio melhor de uma alma ulcerada e pia: rezou. A prece é a escada mysteriosa de Jacob: por ella sobem os pensamentos ao ceu; por ella descem as divinas consolações.
Entretanto, a noite começava a inclinar a urna das horas ás mãos da madrugada. O somno fugira dos olhos de Helena; mas era forçoso repousar. Assim mesmo vestida atirou-se sôbre o leito. Não dormiu, não se póde dizer que dormisse; ficou alli n'um estado, que não era vigilia nem somno, até que a manhã rompeu inteiramente. Abrindo os olhos, pareceu accordar de um sonho; sua imaginação recompoz as phases todas do acontecimento da vespera. Depois suspirou, e ficou longo tempo a olhar para o chão, com a fixidez tragica e solemne da morte.
--Era justo! murmurava de quando em quando.
Levantou-se emfim; levantou-se abatida e cançada. Viu-se ao espelho; a descorada face e a linha roxa que lhe circulava as palpebras difficilmente podiam deixar de impressionar a familia. Helena disfarçou como pôde esses vestígios da tempestade; explicou-os do modo mais verosimil: o cançasso da vespera e a insomnia de toda uma noite. A explicação não achou obstaculo no ânimo da tia e do irmão. Somente o padre Melchior, presente a ella, fitou na moça um olhar dubitativo, que a obrigou a baixar os cilios.
Se Helena padecia, o logar de Estacio não era ao pe della? Assim o pensou o sobrinho de D. Ursula, que em todo esse dia resolveu não sahir de casa. Cercou-a de cuidados, buscou distrahil-a, pediu-lhe que fosse repousar um instante. Para justificar a explicação que dera, Helena obedeceu ás instrucções do irmão. Este foi encerrar-se no gabinete, onde se occupou em examinar e colleccionar alguns papeis. Era o dia marcado para solicitar de Eugenia o consentimento matrimonial, e elle não cogitava em ir ao Rio Comprido. Na irmã, sim; na irmã pensava elle, ora relendo as páginas de sua predilecção, ora mandando saber se dormia socegada, ora contemplando o desenho com que ella o presenteára na vespera. Sentia-se tão feliz naquella aurora do anno!
Pouco antes do jantar ouviu no corredor um rumor de saias, e não tardou que a irmã apparecesse á porta. Vinha como fôra; mas a Estacio pareceu que effectivamente o descanço e o somno lhe haviam restaurado as fôrças. A razão era o sorriso estudado que lhe avivava o rosto. Helena parou e Estacio foi ter com ella, travou-lhe da mão, fel-a entrar.
--Estás melhor? perguntou.
--Estou boa.
--Não dizia eu que era melhor desistir da ideia da reunião? Éstas festas prolongam-se, e fatigaram, sobretudo as pessoas franzinas...
Helena ergueu os hombros.
--Anda sentar-te um pouco.
--Primeiro hade responder-me a uma cousa.
--Que é?
--Que dia é hoje? perguntou ella.
--Anno bom.
--Lembra-se do que me prometteu?
--Perfeitamente. Ves estes papeis? disse elle mostrando sôbre a secretária uma porção de papeis classificados e postos por ordem. Occupei-me até agora em liquidar o passado; faltam-me umas últimas contas, que o procurador hade trazer amanhã. Depois, irei...
Helena abanou a cabeça com ar de desaprovação.
--Não, disse ella; não hade ir depois, hade ir hoje mesmo. Que tem as contas com a autorisação que deve pedir a Eugenia? Va logo de noite. Sou supersticiosa; creio que o pedido feito no dia de hoje é de excellente agouro. Dará um anno feliz.
--Minha intenção era ir dentro de quatro ou cinco dias, respondeu Estacio depois de silêncio; mas não tenho dúvida em fazel-o ja. Uma vez preenchida a formalidade.
--Pedil-a-ha immediatamente ao pae.
--Não!
--Porque?
--Porque precisarei meditar ainda vinte e quatro horas, pelo menos. Vinte e quatro horas não é muito para quem tem de amarrar-se eternamente. Quero sondar meu proprio espirito, e...
--Mas tudo isso é uma estravagancia! interrompeu Helena sentando-se na borda da rede em que Estacio costumava ler. Pretenderá voce recuar depois de lhe falar a ella?
--Oh! não! Mas uma vez que caminho para solução tão grave, não ha inconveniente em ir pe ante pe. Admiras-te? perguntou elle vendo que a irmã fazia um gesto de impaciencia.
--Zango-me.
--Mas...
--Voce é insupportavel. Falta ao que prometteu.
--Ja disse que hei de cumprir.
--Não recuará?
--Não.
--Irá pedil-a hoje mesmo?
--A ella.
--A ella e ao pae.
--Ao pae escreverei uma carta.
--Pois seja uma carta! Contanto que acabe com isso. O casamento será...
--Quando convier ao Dr. Camargo.
--Antes do fim do mez.
--Tão cedo!
--Dou-lhe mez e meio. Nem uma hora mais! Estou morta por vel-os casados, tanto por voce como por ella, coitada! que o ama tanto...
--Cres? perguntou vivamente Estacio.
--Se creio! Posso affirmal-o. Não será amor como voce quizera que fôsse, mas é o amor que ella lhe pode dar, e é muito. Está dito! Palavra?
Estacio estendeu silenciosamente a mão, que Helena apertou.
--Vou confiar todo o meu destino á cabeça mais leve do universo, disse Estacio com os olhos fitos no chão. Não é de seu coração que me queixo; mas de seu espirito, que nunca deixou as roupas da infancia. Demais, á medida que me approximo da hora solemne, sinto que me repugna o estado conjugal. É tão boa a minha vida de solteiro! tão cheios os meus dias...
Helena tapou-lhe a boca com uma das mãos; com a outra fez-lhe um gesto para que se calasse. Depois, fugiu. Uma vez só, Estacio reflectiu longamente na situação em que se achava; reconheceu que estava moralmente obrigado a pedir Eugenia, desde que seus corações se tinham aberto um para o outro, celebrando um contracto, que elle só não podia romper. A consciencia rebellou-se contra as resoluções do coração, e a decisão foi curta.
Naquella mesma noite, ouviu Eugenia a esperada palavra. A alegria que se lhe derramou nos olhos foi immensa e caracteristica. Um pouco mais de recato não era descabido em tal occasião. Não houve nenhum; seu primeiro acto de mulher foi uma meninice. Eugenia ignorava tudo, até a dissimulação de seu sexo. Concedendo a mão a Estacio, não era uma castellã que entregava o premio, mas um cavalleiro que o recebia com alvorôço e submissão.
Transposto o Rubicon, não havia mais que caminhar direito á cidade eterna do matrimonio. Estacio escreveu no dia seguinte uma carta ao Dr. Camargo pedindo-lhe a mão de Eugenia, carta sêcca e digna, como as circumstâncias a pediam. Antes de a remetter, mostrou-a a Helena, que recusou lel-a. Não a leu, nem lhe pegou. Elle teve-a alguns instantes na mão, sem atrever-se a dal-a ao escravo que esperava por ella. Por fim, deitou-a sôbre a secretária.
--Amanhã, disse elle sorrindo para Helena.
Helena lançou mão da carta e deu-a ao escravo.
--Leva á casa do Sr. Dr. Camargo, ordenou a moça. Não tem resposta.
CAPITULO XIV
Camargo ia sentar-se á mesa quando lhe entregaram a carta de Estacio; leu-a pura si, mas a filha leu-a nos olhos delle. Uma aura de bemaventurança desrugou a fronte do médico; seus labios,--cousa pasmosa!— abriram-se n'um sorriso perenne e franco, sorriso que uma vez chegou a desabrochar em gargalhada, a primeira que D. Thomasia lhe ouviu. Acabado o jantar, Camargo deu conta do pedido á mulher, e os dous paes chamaram a filha á sala. Eugenia ouviu a notícia sem baixar os olhos nem corar. Interrogada, respondeu que era muito do seu gosto o casamento.
--Sim? perguntou Camargo simulando um espanto que não sentia.
Eugenia fez uma leve inclinação de cabeça, com certo ar de quem dizia não acreditar no espanto do pae. Este pegou nas mãos da filha e puxou-a para si.
--Assim, pois, meu anjo,--disse elle,--casas-te por tua livre vontade? Estacio é o eleito de teu coração? Louvo a escolha, que não podia ser mais digna. Serás herdeira das virtudes de tua mãe, que te proponho como o melhor modelo da terra.
--O mais consciencioso pelo menos, acudiu D. Thomasia satisfeita e vaidosa do louvor do marido. Ha de ser boa espôsa, modesta, solicita, e economica.
--Economica, sem avareza,--emendou Camargo. A riqueza não deve ser dissipada; mas é certo que impõe obrigações imprescindiveis, e seria da maior inconveniencia viver a gente abaixo de seus meios. Não farás isso, nem cahirás no extremo opposto; procura um meio termo, que é a posição do bom senso. Nem dissipada, nem miseravel.
D. Thomasia concordou com ésta explicação do marido, em quanto Eugenia, olhando alternadamente para um e outro, parecia não lhes dar a minima attenção. Seu pensamento estava em Andarahy; ella viaja na imaginação, a cerimonia do consorcio, as carruagens, o apuro do noivo, a sua propria graça, a coroa de flores de larangeira, que a havia de adornar, emfim talhava ja o vestido branco e pregava as rendas de Malines com que havia de levar os olhos a ambas as metades do genero humano. Daquelle sonho foi despertada pelo pae, que lhe imprimiu na testa o seu segundo beijo, o primeiro, como o leitor se hade lembrar, foi dado na noite da morte do conselheiro. O terceiro seria provavelmente no dia em que ella casasse.
--Sabes que te amo, Eugenia? disse Camargo olhando para ella.
--Papae!
Camargo não pôde dizer mais nada. Seu amor, um instante expansivo, volveu a aninhar-se no fundo do coração, onde sempre estiveram. A satisfação do médico precisava do silêncio e do recolhimento para saborear-se. Foi então que Eugenia passou ás mãos de D. Thomasia. A mulher do Dr. Camargo via aquelle casamento com olhos differentes do marido. O que ella sobretudo viu eram as vantagens moraes da filha. Sentou-a ao pe de si e recitou-lhe um catecismo de deveres e costumes, que Eugenia interrompia de quando em quando, com exclamações de obediencia filial:
--Sim, mamãe!... Deixe estar!... Mamãe hade ver!...
D. Thomasia sentia-se feliz. Seu rosto, cuja expressão era vulgar, tinha naquella occasião alguma cousa que o tornava sublime. Ella fez com que a filha se lhe sentasse ao collo; e ésta, sentindo que a molestava, deixou-se lentamente cahir de joelhos, ficando entre os della, a olhar para ella.
Camargo, entretanto, ja não era daquelle mundo. Passeava de um para outro lado, com as mãos para traz, a morder a ponta do bigode. De quando em quando parava e olhava para o grupo das duas senhoras, mas era só machinalmente; seu olhar baço indicava que elle ia mergulhado em profundas cogitações.
Naquelle homem sceptico, moderado e taciturno, havia uma paixão verdadeira, exclusiva e ardente: era a filha. Camargo adorava Eugenia: era a sua religião. Concentrára esforços e pensamentos em fazel-a feliz, e para o alcançar não duvidaria empregar, se necessario fôsse, a violencia, a perfidia e a dissimulação. Nem antes nem depois sentira egual sentimento; não amou a mulher; casou por que o matrimonio é uma condição de gravidade. O maior amigo que teve foi o conselheiro Valle; mas essa mesma amizade que o ligára ao pae de Estacio nunca recebêra a contra-prova do sacrificio; alias appareceria em toda a sinceridade a natureza do médico. Elle só conhecia os affectos por assim dizer caseiros e inertes, os que não sabem nem podem afrontar as intemperies da vida. Nas relações moraes dos homens possuia somente o trôco miudo da polidez; a moeda de ouro dos grandes affectos nunca lhe entrára nas arcas do coração. Um só existia alli: o amor de Eugenia.
Mas esse mesmo amor, alias violento, escravo e cego, era uma maneira que o pae tinha de amar-se a si proprio. Entrava naquillo uma somma larga de fatuidade. Menos graciosa, Eugenia seria talvez menos amada. Elle contemplava a com o mesmo orgulho, com que o joalheiro admira o aderêço que lhe sahiu das mãos. Era a ternura do egoista: amava-se na propria obra. Caprichosa, rebelde, superficial. Eugenia não teve a fortuna de ver emendados seus defeitos, antes fui a educação que lh'os deu. Dos labios de Camargo nunca sahiu a expressão correctiva; nenhum de seus actos revellou esse procedimento vigilante e director, que é a nobre attribuição da paternidade. Se a indole da filha fosse ma, a complicidade do pae fal-a-hia pessima.
Não era felizmente; seu coração conhecia as doçuras da bondade; sua rebeldia era um hábito, não um vicio nativo. A propria frivolidade foi-lhe desenvolvida pela educação, nada podendo o zelo da mãe contra as complacencias do pae. Ésta era a explicação tambem da fascinação que exercia nella o tumulto exterior da vida. Quasi se póde dizer que ella não conhecêra o vestido curto: a modista a desmamou; uma contradança foi a sua primeira communhão.
Não era facil dar a Eugenia a felicidade que o pae ambicionava e a que mais lhe apetecia a ella. Posto não fosse perdulario, eram poucos os haveres do médico, de modo que á filha não podia caber peculio sufficiente a satisfazer todas as velleidades. Elle espreitou durante longo tempo um noivo, armando com algum dispendio a gaiola em que o passaro devia cahir. No dia em que percebeu a inclinação de Estacio, fez quanto pode para prendel-o de vez. Esperou muitos mezes a iniciativa de Estacio; e quando ella lhe entrou a fugir para a região das cousas problematicas, suspeitou a influência de Helena. Ja era muito que ésta moça diminuisse a herança do futuro genro; arrancar-lhe o genro era de mais. Camargo não hesitou um instante; foi direito ao fim. O resultado confirmou-lhe a suspeita.
O casamento era muito, mas não bastava. Camargo cuidára na carreira política de Estacio, como um meio de dar certo relevo público ao marido da filha, e, por um effeito retroactivo, a elle proprio, cuja vida fora tanto ou quanto obscura. Se o marido de Eugenia se confinasse no repouso doméstico, entre a horta e a algebra, a ambição de Camargo padeceria immenso. Vimol-o apresentar a Estacio a maçan política; recusada a princípio, foi-lhe de novo apresentada, e finalmente acceita com a noiva. Ésta dupla victória foi o momento maximo da vida do médico. Elle ouvia ja o rumor público; sentia-se maior,--ante-gostava as delícias da notoriedade;--via-se como que sogro do Estacio e pae das instituições.
--Vou entrar na cova dos leões, sem a convicção de Daniel,--suspirou Estacio na occasião em que cedeu ás instancias de Camargo.
--Seu talento amansará os leões,--acudiu este.
Assentou-se logo alli que o casamento seria celebrado na primeira semana de março. Os dous mezes de intervallo foram destinados ás formalidades ecclesiasticas e ao preparo do enxoval. Estacio aceitou tudo sem objecção. D. Ursula e Helena approvaram o plano. A primeira accrescentou uma clausula:--os noivos viriam morar com ellas em Andarahy.
O padre Melchior, consultado sôbre o casamento, deu-lhe inteira approvação, e só lhe pareceu que o prazo era longo de mais. A effusão com que abraçou Estacio, as palavras de applauso que lhe disse impressionaram vivamente o mancebo.
--Desejava muito este casamento? perguntou elle.
--Muito! Seu pae ha de approval-o no ceu!
Até os mortos conspiravam contra elle; Estacio aceitou resolutamente seu destino. A alegria do padre, ordinariamente contida e digna, transpoz os limites do costume, para se mostrar quasi infantil; D. Ursula não cabia em si do contente; Helena parecia colhêr naquelle casamento a sua propria felicidade. Era a bemaventurança universal que Estacio ia comprar a trôco de um vínculo eterno.
Surgiu, entretanto, um obstaculo temporario. A madrinha de Eugenia, a fazendeira que lhe mandara um dia a opala, que a moça admirou namorando ao mesmo tempo os olhos do futuro noivo, a madrinha de Eugenia adoeceu gravemente, menos ainda da molestia que a accommetteu que dos annos que lhe pesavam nos hombros. Era senhora rica, viuva, flanqueada por duas sobrinhas solteiras, uma cunhada, um primo, dous filhos destes e uma vintena de afilhados. Ja daqui se póde inferir a estreiteza das esperanças de Camargo. Posto que elle não tivesse nunca preterido os deveres que lhe impunha o vínculo espiritual, dando á fazendeira todas as provas possiveis de um grande affecto, ainda assim era de recear que a ultima vontade da moribunda não trouxesse o cunho da estricta justiça, ou, quando menos, de razoavel equidade. Nestas circumstâncias, a viagem a Cantagallo era urgentissima, e cumpria realizal-a á custa dos maiores incommodos. Todo o incommodo é aprazivel quando termina em legado. Camargo não perdia a esperança desse desenlace egualmente affectuoso e pecuniario. Resolveu ir com a familia toda, e avisou por carta ao futuro genro.
Estacio estimou o obstaculo, mas não contou com o que elle trazia no bojo. Chegando ao Rio Comprido achou afflictos o médico e D. Thomasia; Eugenia recusava sair da Corte. Em vão lhe mostravam a conveniencia de corresponder, em occasião tão grave, á affeição da madrinha; debalde lhe diziam que era ser ingrata não ir recolher o último suspiro da veneravel senhora, sua mãe espiritual. Eugenia recusava a pes junctos.
Assistiu o noivo á ultima phase da lucta entre os paes e a filha. Ésta trazia os olhos vermelhos de chorar; batia com as mãos uma na outra, declarando que só iria á fôrça. Estacio procurou chamal-a á razão, apoiando as reflexões do pae, sem alcançar mais do que elle. Emfim, Eugenia poz uma condição á sua acquiescencia:
--Irei, se o Dr. Estacio fôr comnosco.
Camargo approvou a condição _in petto_; verbalmente, oppoz-se ao sacrificio. Estacio enfiára; posto entre a espada e a parede, ja a viagem de Eugenia lhe parecia superflua.
--Acompanha-nos? insistiu a moça,
--Não é possivel, acudiu o médico; tamanho incommodo por um simples capricho.
--Pois então não vou!
D. Thomasia ficou um tanto vexada com a teima de Eugenia. Estacio mordia o labio, olhando para a moça, cujo rosto o interrogava instantemente. Venceu-o o decoro; considerando Eugenia sua mulher, quiz cortar por uma scena que lhe parecia ridicula.
--Acompanhal-os-hei,--disse elle sem enthusiasmo.
A solução era favoravel a todos: os tres aceitaram de boa feição. Marcou-se a viagem para dous dias depois. D. Ursula, apezar dos bons olhos com que via o casamento, achou desnecessaria a ida do sobrinho, mas não emprehendeu dissuadil-o. Helena approvou tudo. Elle fez sentir ás duas parentes a extensão do sacrificio, e esteve a ponto de retirar a palavra. Era tarde. A ultima noite passada em Andarahy foi cruel para elle; as horas voaram ligeiras como nunca. Como devia sahir no dia seguinte, logo cedo, alli mesmo se despediu da tia e da irmã, despedida de alguns dias que lhe custou como si fôra de annos. Prometteu, entretanto, que o regresso seria breve.
O que elle não podia prometter era conjurar o drama que se lhes preparava, drama que ia em fim devolver-se, intenso, funesto e irremediavel,--do qual não o consolariam jamais nem as doçuras da paz doméstica, nem as glórias da vida pública.
CAPITULO XV
Estacio levantou-se ao amanhecer. Uma vez prompto, quiz sorprehender a tia e a irmã com uma lembrança sua, e escreveu n'uma folha de papel éstas simples palavras: «Até á volta; 6 horas da manha.» Dobrou-a e foi pol-a sôbre a mesa de costura de D. Ursula. Dalli passou á sala de jantar, depois á varanda. Aqui chegando deu com os olhos em Helena, que o esperava ao pe da escada.
--Silêncio! disse graciosamente a moça. Não faça espantos que póde accordar titia. Vim saber se voce precisa de alguma cousa.
--De nada, respondeu Estacio commovido. Mas que imprudencia foi essa de se levantar tão cedo?
--Cedo! O sol não tarda comprimentar-nos. Adeus! muitas recommendações a Eugenia. Não lhe falta nada, não é?
--Nada.
Estacio recebeu a mão que Helena lhe estendêra e ficou a olhar para ella.
--Olhe que é tarde!
Dizendo isto, Helena apertou-lhe a mão e procurou retirar a sua; Estacio reteve-a.
--Se soubesses como me custa ir!
--São apenas alguns dias...
--Valem por mezes, Helena! Adeus, não te esqueças de mim. Escreve-me; eu escreverei logo que chegar. Não faças imprudencias; não saias a passeio em quanto eu estiver ausente.
--Adeus!
--Adeus!
Estacio quiz dar-lhe o abraço da despedida; mas a moça, menos ainda com a palavra que com o gesto, fel-o recuar.
--Não, disse ella affastando-se; as despedidas mais longas são as mais difficeis de supportar.
Recuou até á porta da sala de jantar, fez um gesto de despedida e entrou. Estacio desceu a custo as escadas. Helena viu-o descer e sahir; depois subiu cautellosamente ao seu aposento. Alli sentou-se alguns minutos, pensativa e triste. Ergueu-se enfim, vestiu rapidamente as roupas de montar; collocou o chapellinho preto sôbre os cabellos penteados á ligeira, e desceu. Na chacara esperava-a Vicente, com a egua ajaezada e prompta. Helena montou sem demora; o pagem cavalgou uma das duas mulas que havia na cavallariça e os dous sahiram a trote na direcção da casa do alpendre e da bandeira azul.
A casa estava ainda silenciosa; porta e janellas conservavam-se hermeticamente fechadas. Helena apeou-se e bateu de mansinho; repetiu as pancadas progressivamente mais fortes. Ninguem lhe respondeu. Helena impaciente rodeou a casa; mas parece que achou egualmente fechadas as portas do fundo, por que volveu logo. Collou o ouvido á porta e esperou. Quando lhe pareceu que era baldado o esfôrço, tirou da algibeira um lapis e um pedacinho de papel; collocou o pe no degrau de tijolo e sôbre o joelho escreveu algumas palavras; dobrou depois o papel e introduziu-o por baixo da porta. Esperou ainda alguns minutos, caminhou para a egua, montou e regressou a casa.
Vinha triste e pensativa. A egua, a passo vagaroso, não sentia o esfôrço da cavalleira, que a deixava ir, frouxa a redea, inutil o chicote. O pagem levava os olhos na moça com um ar de adoração visivel; mas, ao mesmo tempo, com a liberdade que dá a confiança e a complicidade, fumava um grosso charuto havanez, tirado ás caixas do senhor.