Helena

Part 15

Chapter 151,288 wordsPublic domain

Ao sentir o braço de Estacio, Helena estremeceu e fez um movimento para arredal-o de si; mas a fraqueza trahiu-lhe o instincto de seu melindroso pudor. Ella fitou no moço uns olhos de corça moribunda; as pernas fraquearam, e o corpo esmorecido iria a terra, se lh'o não sustivessem as mãos de Estacio.

--Deixe-me morrer! murmurou ella.

--Não! bradou o mancebo.

Com um gesto rapido, tomou nos braços, estendida, o corpo exhausto de Helena, e caminhou na direcção da casa. O vento flagellava-os; a chuva, que subitamente cahia a jorros, alagava-os sem misericordia; elle ia andando, o mais depressa que lhe permittia o pêso de Helena, cuja cabeça pendia para a terra, e de cujos labios brotavam trechos soltos de phrases sem sentido.

D. Ursula viu entrar aquelle doloroso expectaculo; correu a receber Helena, que Estacio depositou em um sopha, donde foi transferida ao leito. A febre, ja começada antes della sahir, tomára conta emfim da pobre moça. Um médico foi chamado á pressa; o padre Melchior correu por baixo d'agua até a casa de Estacio. As primeiras horas foram de anciedade e susto; o estado da doente era grave; assim o disse o médico; assim o tinham já sentido os corações amigos.

D. Ursula pagou naquella occasião os serviços que, em caso analogo, lhe prestára Helena, mau grado e pêso dos annos, que lhe não permittiam longas vigilias nem aturado trabalho. Velou a boa senhora á cabeceira da enferma, durante essa primeira noite de incerteza e terror. Mendonça, que alli fôra sem suspeitar nada, por que a doença que lhe disseram ter padecido Helena, suppunha elle ser passageira, e em tudo caso, estar quasi extincta, Mendonça recebeu essa triste notícia com a morte no coração.

Durante sete dias o estado de Helena apresentou alternativas que lançavam na alma dos seus a confiança e a desesperação. Algumas horas houve de delirio, durante o qual dous nomes volviam frequentemente aos labios da enfêrma,--o de Estacio e o de seu pae. Nas horas da razão, falava pouco, não proferia nenhum nome, salvo o de Melchior que ella queria ver juncto de si. O capellão obedecia docilmente. Ao pe della, via-a com pena, mas sem desesperação; primeiramente, por que elle aceitava sem murmurio os decretos da vontade divina; depois, porque não sabia ao certo se, em tal situação, era a vida melhor do que a morte. Em todo o caso consolava-a; e suas palavras cahiam no coração de Helena como um orvalho do ceu.

No quarto dia chegou a familia de Camargo, sabendo da doença de Helena apressou-se a ir a Andarahy. Ao ver Eugenia, a moça sorriu tristemente, lampejo de inveja, que para logo se apagou e morreu no coração.

Estacio mal ousava entrar na alcova da doente e não podia viver fóra della. Sua afflicção era patente. Elle promettia a si mesmo todos os sacrificios em troca da vida de Helena, espreitava uma esperança no rosto do médico, e interrogava o coração da tia e do padre. Na noite do setimo dia da scena do jardim, D. Ursula, que ficára ao pe de Helena, mandou chamar á pressa o sobrinho e o padre Melchior, que estavam na sala contigua. Accorreram os dous. Helena tivera uma syncope, que D. Ursula cuidára ser a morte. Voltando a si, leu a moça a sua sentença no rosto de todos tres.

--Ainda não, murmurou ella: ainda não é a morte.

D. Ursula chegou-se-lhe mais perto, beijou-a, disse-lhe algumas palavras de conforto.

--Deixe estar, respondeu ella, deixe que eu não morro; estou só muito doente.

Estacio buscou animal-a, mas a voz morreu-lhe ás primeiras expressões, e elle sahiu. Melchior acompanhou-o.

--Uma cousa poderia talvez saval-a, disse afflicto o moço; era o presença do pae. Vou mandal-o procurar por toda a parte. Havemos de achal-o; é preciso que o achemos.

Melchior approvou a ideia do mancebo: e não lhe disse que o remedio viria talvez tarde, se viesse. Estacio ordenou as cousas para a seguinte manhã. Voltaram á alcova da enferma. Ésta fechara os olhos como se dormisse. Houve então entre aquellas quatro paredes meia hora de silêncio, interrompido apenas, de quando em quando, pelos movimentos que a doente fazia, como a querer mudar de posição. No fim desse tempo, abriu os olhos e murmurou algumas palavras. Chegou o médico, viu-a e desenganou a familia.

Em quanto Melchior dava as ordens precisas para que Helena tivesse os socorros espirituaes, Estacio sahiu dalli, para ir, longe, desabafar seu desespêro; desceu á chacara, vagou por ella delirante, a soluçar como uma creança, ora abraçado a uma árvore, ora ajoelhado e pedindo a Deus a vida de Helena. Seu coração não conhecia o fervor religioso; mas a imagem da morte deu-lhe o que a vida lhe levára, e elle rezou, rezou sosinho, sem hypocrisia nem dúvida. Mendonça veiu achal-o nessa lucta derradeira entre a realidade e a esperança. Não o consolou; seu peito não tinha consolações que distribuir, porque tambem a dor lhe devastára o coração. Nos braços um do outro, choraram o mesmo bem que se lhes ia embora.

Um escravo veiu chamar Estacio á pressa; elle subiu tropego as escadas, atravessou as salas, entrou desvairado no quarto, e foi cahir de joelhos, quasi de bruços, juncto ao leito do Helena. Os alhos desta, ja volvidos para a eternidade, deitaram um derradeiro olhar para a terra, e foi Estacio que o recebeu,--olhar de amor, do saudade e de promessa. A mão pallida e transparente da moribunda procurou a cabeça do mancebo; elle inclinou-a sobre a beira do leito, escondendo as lagrymas e não se atrevendo a encarar o final instante. Adeus!--suspirou a alma de Helena rompendo o envolucro gentil. Era defuncta.

A noite foi cruel para todos. D. Ursula, profundamente abatida pela dor e pelas vigilias, não consentiu, ainda assim, que outras mãos amortalhassem Helena; ella mesma lhe prestou esse derradeiro e triste obsequio. A morte não diminuíra a belleza da donzella; pelo contrário, o reflexo da eternidade parecia dar-lhe um encanto mysterioso e novo. Estacio contemplou-a com os olhos exhaustos, o padre com os seus humidos. Melchior supportára a dor até o momento da definitiva separação; agora, que a moça se ia de vez, deixou-se abater emfim, ao pe daquelles pallidos restos, despôjo último de generosas illusões.

No dia seguinte, prestes a sahir o entêrro, as senhoras deram á donzella morta as despedidas derradeiras. D. Ursula foi a primeira que lhe prestou esse dever; seguiu-se Eugenia e seguiram as outras. Estacio viu-as subir, uma a uma, o estrado em que repousava a eça. Depois, quando ia fechar-se o feretro, caminhou lentamente para elle; trepou ao estrado, e pela ultima vez contemplou aquelle rosto,--séde ha pouco de tanta vida,--e a coroa de saudades que lhe cingia a cabeça, em vez de outra, que seu coração tinha direito de pousar nella. Emfim inclinou-se tambem, e a fronte do cadaver recebeu o primeiro beijo de amor.

Fecharam o feretro; ao moço pareceu que o encerravam a elle proprio. Sahindo o entêrro, deixou-se Estacio cahir n'uma cadeira, sem pensar nada, sem sentir nada. Pouco a pouco despovoou-se a casa; os amigos sahiram; um só de tantos ainda alli ficou, a lastimar consigo a noiva, tão cedo promettida e tão cedo roubada. Esse mesmo sahiu, emfim, não ficando mais do que a familia, cujo pae espiritual era Melchior.

Sosinho com Estacio, o capellão contemplou-o longo tempo; depois, alçou os olhos ao retrato do conselheiro, sorriu melancholicamente, voltou-se para o moço, ergueu-o e abraçou com ternura.

--Animo, meu filho! disse elle.

--Perdi tudo, padre-mestre! gemeu Estacio.

Ao mesmo tempo, na casa do Rio Comprido, a noiva de Estacio, consternada com a morte de Helena, e aturdida com a lugubre cerimonia, recolhia-se tristemente ao quarto de dormir, e recebia á porta o terceiro beijo de seu pae.

FIM