Part 13
--A mãe de Helena, disse Salvador, cuja belleza foi a causa, a um tempo, da sua ma e boa fortuna, era filha de um pobre lavrador do Rio Grande do Sul, onde tambem nasci. Apaixonamo-nos um pelo outro. Meu pae oppoz-se ao casamento; tinha alguns bens, mandara-me estudar, queria ver-me em posição brilhante. Angela podia ser obstaculo á minha carreira, dizia elle. Oppoz-se, e eu resisti; raptei-a; fomos viver na campanha oriental, d'onde passamos a Montevideo, e mais tarde ao Rio de Janeiro. Tinha vinte annos quando deixei a casa paterna; possuia alguns estudos poucos, meio duzia de patacões, muito amor e muita esperança. Era de sobra para a minha edade, mas insuficiente para o meu futuro. A lua de mel foi desde logo uma noite de privações e trabalhos. Minha vida começou a ser um mosaico de profissões; aqui onde me veem, fui mascate, agente do foro, guarda-livros, lavrador, operario, estalajadeiro, escrevente de cartorio; algumas semanas vivi de tirar cópias de peças e papeis para theatro. Trabalhava com energia, mas a fortuna não correspondia á constancia, e o melhor dos annos gastei-o em luta aspera e desegual. Uma compensação havia, a mais doce de todas: era o amor e o contentamento de Angela, a egualdade de animo com que ella encarava todas as vicissitudes. Pouco tempo depois da nossa fuga havia outra compensação mais: era Helena. Essa menina nasceu em um dos momentos mais tristes da minha vida. Os primeiros caldos da mãe foram obtidos por favor de uma mulher da visinhança. Mas nasceu, em boa hora, e foi um laço mais que nos prendeu um ao outro. A presença de um ente novo, sangue do meu sangue, fez-me redobrar de energia. Trabalhava com alma, luctava resoluto contra todas as fôrças adversas, certo de encontrar á noite a solicitude da mãe e as ingenuas caricias da filha. Os senhores não são paes; não podem avaliar a fôrça que possue o sorriso de uma filha para dissolver todas as tristezas accumuladas na fronte de um homem. Muita vez, quando o trabalho me tomava parte da noite, e eu, apezar de robusto, me sentia cançado, erguia-me, ia ao berço de Helena, contemplava-a um instante e parecia cobrar fôrças novas, Se o proprio berço era obra de minhas mãos! Fabriquei-o de alguns sarrafos de pinho velho; obra grosseira e sublime: servia a adormecer metade da minha felicidade na terra.
Salvador interrompeu-se commovido.
--Perdoem-me,--continuou elle depois de alguns instantes, se éstas memorias me abalam o coração. Eu era pobre, tão pobre como hoje. Desse tempo só resta um echo doloroso e consolador. Crescia Helena e cresciam suas graças. Era o encanto e a esperança do meu albergue. Quando pôde aprender os rudimentos da leitura, dei-lhe as primeiras licções; assisti pasmado á aurora daquella intelligencia que os senhores veem hoje tão desenvolvida e lucida. Aprendia com facilidade, por que estudava com amor. Angela e eu construiamos os mais lindos castellos do mundo. Nós a viamos ja mulher, formosa como viria a ser, porque ja o era, intelligente e prendada, espôsa de algum homem que a adorasse e elevasse. Viviamos dessa antecipação, que era apenas um sonho, e não sentíamos os golpes da fortuna.
--Porque razão,--perguntou Melchior,--dado esse amor e nascida uma filha, não sanctificou o senhor a situação singular em que se achavam?
--A curiosidade é justa, replicou Salvador, mas a resposta é decisiva. Casar era a nossa justificação; era um argumento contra o resentimento de meu pae. Nos primeiros dias da nossa fuga do Rio Grande a propria embriaguez da felicidade desviou qualquer ideia de sanctificar e legalisar uma união consentida pela natureza. Depois vieram os trabalhos e as necessidades. Como eu tinha certeza de não fugir ao dever que tomára em meus hombros, ia adiando o acto de mez para mez, de anno para anno. Afinal o projecto esvaiu-se de todo. Estavamos ligados pela miseria e pelo coração, não pretendiamos o respeito da sociedade; triste desculpa, e ainda mais triste recordação, por que o casamento teria talvez obstado aos acontecimentos posteriores. Helena contava seis annos. Minha fortuna, adversa sempre, com intermittencias favoraveis, parecia abrandar um pouco. Ia encetar um novo meio de vida, quando uma circumstância grave me chamou ao Rio Grande. Meu pae adoecêra; mandava-me o seu perdão, ordenando-me que o fôsse ver sem demora. Obedeci promptamente. Do que elle me remetteu para as despezas dr viagem e outras, deixei alguma cousa a Angela e Helena, e parti. Vinte e quatro horas depois de ver meu pae, tive a dor de o perder. A liquidação dos negocios foi curta; os bens todos ficaram pertencendo aos credores; restavam-me alguns patações. Recebi esse golpe novo com a philosophia da insensibilidade. Quem sabe se não era eu o culpado do acontecimento? Os negocios entretanto, apezar de curtos, demoraram-me mais do que eu pretendia e convinha. A ancia de voltar cresceu desde que não recebi a resposta das últimas cartas que escrevi a Angela. Enfim, pude regressar ao Rio de Janeiro com um luto mais e uma esperança menos. Neste ponto entra a pessoa de seu pae.
Estacio desviou os olhos.
--Logo que cheguei,--continuou Salvador,--corri a casa; achei-a fechada. Um visinho, testemunha da minha afflicção, deu-me notícia de que Angela se mudára para S. Christovão. Não sabia nem o numero nem a rua; mas deu-me algumas indicações, que me guiaram. Ainda hoje tenho ante os olhos o sorriso com que aquelle homem me respondia. Era um sorrir de compaixão que humiliava. Sem nunca haver recebido de mim a menor offensa, vejo que elle tinha um prazer secreto com o meu infortunio. Porque? Deixo aos philosophos liquidarem esse enigma da natureza humana. Voei a S. Christovão; gastei tempo em procurar a casa, mas dei com ella. Quando a vi, duvidei de meus olhos ou das indicações. Era uma casa elegante, escondida entre o arvoredo, no meio de um pequeno jardim. Podia ser aquella a residencia da companheira de minha miseria? Receioso de ir bater alli, vi assomar ao portão um homem, que me pareceu ser o jardineiro. Perguntei pela dona da casa, a quem dei o seu proprio nome, dizendo que lhe desejava falar. «A senhora sahiu,» respondeu elle distrahidamente. Dispuz-me a esperar, mas o jardineiro observou-me que ia sahir e fechar o portão, e que a senhora só voltaria á noite. «Esperarei até a noite», redargui. O jardineiro mediu-me de alto a baixo, circulou um olhar cautelloso pela rua e disse-me baixinho: «Aconselho ao senhor que não volte; o patrão não hade gostar.» Não escrevo um romance; dispenso-me de lhes pintar o efeito que produziram essas palavras. O que senti excede a toda a descripção. Ha catastrophes mais solemnes, ha situações mais patheticas; mas naquella occasião parecia-me que todas as dores do mundo se tinham convergido para meu coração. O jardineiro era verdadeiramente compassivo; lendo em meu rosto o effeito de suas palavras, disse-me alguma cousa de que absolutamente me não lembro. Convidou-me com brandura a sahir; obedeci machinalmente. Podendo informar-me acerca de Angela, não o fiz. A febre reteve-me tres dias de cama, n'uma pobre cama alugada em pessima estalagem da Cidade Nova. No terceiro dia recebi uma carta de Angela. Pedia-me que lhe perdoasse o passo que dera; que uma paixão nova e delirante a havia guiado, e que, se viesse a arrepender-se, seria essa a minha vingança. Quando li a carta, tive impeto de ir ter com ella e esganal-a; mas o impeto passou, e a dor desfez-se em reflexões. Poucos dias antes, a bordo, um engenheiro inglez que vinha do Rio Grande para esta Côrte, emprestara-me um volume truncado de Shakespeare. Pouco me restava do pouco inglez que aprendi; fui soletrando como pude, e uma frase que alli achei fez-me estremecer, na occasião, como uma profecia; recordei-a depois quando Angela me escreveu. «Ella enganou seu pai, diz Brabantio a Otelo, há de enganar-te a ti tambem.» Era justo; pelo menos, era explicavel. Dous dias depois da carta de Angela, escrevi-lhe pedindo meia hora de conversação; nada mais. Angela concedeu-me a entrevista. Meu plano era arrebatar-lhe Helena; ela parece que o previu, recebendo-me sosinha, no jardim, ás nove horas da noite.
--Por que razão recorda todas essas minucias? interrompeu Melchior com brandura; nós desejamos somente saber o essencial.
--Tudo é essencial na minha narração, disse Salvador. Aquella entrevista mostrou-me a toda a luz o caracter de Angela. Que outra mulher se arriscaria, em taes circumstâncias, a affrontar a colera do homem desprezado? Angela era um complexo de qualidades singulares. Capaz de supportar as maiores angústias, forte e risonha no meio das maximas privações, esqueceu n'um instante as virtudes que tinha para correr atraz de uma fantasia do amor. Não foi a riqueza que a seduziu; ella iria, ainda que tivesse de trocar a riqueza pela miseria. Angela nasceu metade freira e metade bailarina; capaz das austeridades de um claustro, não o era menos das pompas da scena. E dahi... não fui eu mesmo que a desviei da estrada real para mettel-a por um atalho obscuro? Disse-lh'o naquella noite em que procurei ser tranquillo e superior aos acontecimentos. «Meu fim,--declarei eu,--é só um: levar Helena; Helena é minha filha, não quero deixal-a entregue a seus maus exemplos.» As lagrymas com que me banhou as mãos, as rogativas que me fez, ajoelhada a meus pes, para que lhe deixasse Helena, não ha negar que foi tudo sincero. Cedi apparentemente. Minha resolução estava assentada; sem Helena a vida parecia-me impossivel. Que outro vínculo me prendia ao mundo? A morte e a miseria tinham feito em redor de mim completa solidão. A unica felicidade sobrevivente era ella.
--Segundo rapto, observou o padre. O senhor condemnava-se a só adquirir um vislumbre de felicidade por meios violentos.
--Tem razão, respondeu Salvador com tristeza; um abysmo chamava outro abysmo... Felizes os que sabem o caminho recto da vida, e nunca se arredaram delle! Quiz arrebatar Helena; espreitei-a noite e dia. Não a via nunca; a propria casa rara vez tinha uma porta ou janella aberta. Havia alli o recato e o mysterio. Um dia resolvi ir ter com o protector de Angela. A noticia que me deram do conselheiro Valle era a mais honrosa do mundo. Assentei que me ouviria e cederia a meus justos rogos. O demonio do orgulho impediu a execução do plano. Quasi a entrar em casa do conselheiro, recuei. Decorreram assim cêrca de dous mezes. Emmagreci; as longas vigilias fizeram-me pallido; o trabalho não me attrahia; cheguei a padecer fome. O poeta que disse que a saudade é um pungir delicioso não consultou meu coração. Acerbo o achei eu; é certo que a ella misturava-se a colera, a colera da impotencia e o desgôsto mortal do abandono. Um dia, dirigi-me para S. Christovão, disposto a empregar a violencia, com tanto que trouxesse Helena ou fôsse dalli para o Aljube. Era á tardinha. Approximei-me do jardim de Angela, ouvi a voz de minha filha. Era a primeira vez depois de longos mezes! Parou-me o sangue todo. Passado o primeiro abalo, caminhei cautelloso encostado á cêrca, Helena falava a alguem. Por uma abertura da cêrca, pude espreital-a. Estava ao collo de um homem. Esse homem era o conselheiro. Olhei para um e outro; ora para o meu rival, ora para a minha Helena. Helena acariciava as barbas delle; este sorria para ella com um ar de ternura, que o absolvia quasi da offensa a mim feita. O coração porém apertou-se-me, ao ver dar a outro, affagos a que só eu tinha direito. Era um roubo feito á natureza; mas, se meu proprio sangue me repudiava, que podia eu exigir de alheios corações? Dahi a algum tempo,--não sei se foi curto ou longo, por que eu ficára a olhar para ambos, pasmado de amor e de colera, ouvi que falavam de mim. «Mas, olhe,--dizia Helena,--papae quando vem?» O conselheiro deu um beijo na menina, e falou de uma borboleta que nesse momento pairara sôbre a cabeça della. As creanças porém são implacaveis; aquella repetiu a pergunta. «Papae não volta» respondeu o conselheiro. Helena ficou muito séria. «Não volta? porque?» «Tua mamãe disse hontem que papae está ao ceu.» Helena levou as mãos aos olhos, donde lhe rebentaram lagrymas copiosas. Uma nuvem passou-me pelos olhos, tentei dar alguns passos, entrar no jardim, dizer quem era e exigir minha filha. Os musculos não corresponderam á intenção; senti fraqueza nas pernas; achei-me de bruços. Quando dei accôrdo de mim, volvi de novo os olhos para o logar onde os víra. Ainda alli estavam, mas a attitude era differente. O conselheiro erguera-se, tendo nos braços Helena, que ja não chorava. Elle beijava-lhe as mãosinhas e dizia-lhe: «Se papae foi para o ceu, fiquei eu no logar delle, para dar-te muito beijo, muito doce e muita boneca. Queres ser minha filha?» A resposta de Helena foi a do náufrago; estendeu-lhe os braços em volta do pescoço, como se dissesse; «Se não tenho ninguem mais no mundo!» O gesto foi tão eloquente que eu vi borbulhar uma lagryma nos olhos do conselheiro. Essa lagryma decidia do meu destino; vi que elle a amava, e de todos os sacrificios que o coração humano póde fazer, aceitei o maior e mais doloroso: eliminei a minha paternidade, desisti da unica herança que tinha na terra, fôrça da minha juventude, consolo de minha miseria, coroa de minha velhice, e voltei á solidão mais abatido que nunca!
Salvador interrompeu a narração; levou a mão direita aos olhos; por entre seus dedos escorreram algumas lagrymas, que elle, de envergonhado, enxugou rapidamente.
--Essas recordações são penosas, disse o padre; não convem despertal-as de uma vez; seria abrir feridas que o tempo cicatrisou. Sabemos o essencial...
--Não, resta ainda alguma cousa, disse Salvador.
Estacio erguera-se. Visivelmente commovido, procurava luctar contra o sentimento que o dominava, afim de conservar a necessaria independencia de espirito para julgar da narrativa e do alcance que ella podia ter. Tinha involuntariamente apertado a mão de Salvador, ao escutar-lhe as últimas palavras; e arrependera-se desse primeiro movimento, que podia parecer uma absolvição summaria. A verdade é que elle não reflectia nem sentia claramente; sua mente e seu coração eram um campo de ideias e commoções contrárias.
--Vou acabar,--disse Salvador depois de alguns minutos. Resta explicar o procedimento de Helena.
CAPITULO XXVI
--Seu pae,--continuou Salvador dirigindo-se a Estacio, que, para acabar de compor o rosto, tinha ido até á janella e voltára a sentar-se, seu pae era honrado e cavalheiro. Arrebatando-me Angela, não me trahiu, por que não me vira nunca; não contribuiu directamente para a traição della, por que suppunha cortadas nossas relações. Soube depois que Angela, quando elles se apaixonaram um pelo outro, lhe occultára completamente o motivo da minha viagem; dera-se como separada de mim. Mentiu, como mentiu mais tarde, dizendo que eu havia morrido, O conselheiro não sabia sequer o meu nome. A mentira no primeiro caso, não teve fim nenhum; não houve cálculo; foi uma suggestão de amor ou um esquecimento; foi talvez um modo de respeitar-me: no segundo caso, houve cálculo; era o de redobrar o affecto que o conselheiro tinha a Helena. Assim aconteceu, por que o conselheiro sentiu-se pae de Helena, e assumiu esse caracter desde aquella tarde. Do contracto, feito alli entre o homem e a creança, cumpriu elle toda as clausulas com generosa pontualidade. Póde crer que lhe fiquei profundamente grato. Uma vez, passando por uma lithographia, vi um retrato delle; comprei-o e conservo-o alli ao lado do de Helena.
Melchior e Estacio olharam para a parede, onde pendiam dous quadrinhos, ainda cobertos, conforme Estacio os vira, no primeiro dia em que alli foi.
--Os mezes e os annos passaram,--continuou Salvador,--Helena deu entrada em um collegio de Botafogo, onde recebeu apurada educação. O conselheiro a levou alli, dando-a como orphã de um amigo, de Minas; Angela, que se dera por sua tia, ia buscal-a aos sabbados. Omitto mil circumstâncias intermediarias, e as vezes, poucas, em que pude ver minha filha, de passagem e a occultas. Se o tempo houvesse produzido em mim os seus naturaes effeitos, se a natureza não se ajustasse em fazer contraste com a fortuna, conservando-me o vigor e o viço da mocidade, é possivel que eu achasse meio de empregar-me no collegio ou nas immediações, afim de ver mais frequentemente Helena. Mas eu era o mesmo: passado o primeiro abalo, voltaram-me as carnes, voltou-me a côr, e eu era e mesmo que antes de partir para o Rio Grande. Helena podia reconhecer-me; e eu faltava á convenção tacita que fizera com o conselheiro. Um sabbado, porém, tinha Helena doze annos, vindo ambas do collegio, parou o carro defronte do Passeio Publico. Vi-as descer e entrar. Levado por um impulso irresistivel, entrei tambem. Queria contemplal-as de longe sem lhes falar; mas a resolução estava acima das minhas fôrças. Que pae não faria outro tanto? No logar mais solitario do Passeio, corri para Helena. Vendo-me, a menina pareceu não reconhecer-me logo; mas attentou um pouco, recuou espavorida e agarrou-se á mãe, abraçando-a pela cintura. Conheci que não estava alli um pae, mas um espectro que regressava do outro mundo. Ia affastar-me, quando ouvi a voz de Helena perguntar á mãe: «Papae?» Voltei-me. Angela envolvêra o rosto da creança entre seus vestidos. O gesto equivalia a uma confissão; mas ésta foi ainda mais clara quando a mãe, cedendo á boa parte da sua natureza, ergueu resoluta os hombros, descobriu o rosto da filha, pousou-lhe um beijo na testa, fitou-a e fez com a cabeça um gesto affirmativo. A menina não exibiu mais; correu para mim e atirou se me nos braços. Angela não se atreveu a impedir o movimento da filha; o passado e o sacrificio falavam em meu favor. Abracei Helena e beijei-a como doudo. Angela interveio: «Basta!» disse ella. Pegou na mão da filha e estendeu-me a sua. Apertei-a machinalmente; meus olhos estavam pregados na creança. Era tão gentil, com o vestido rico que trazia, os cabellos enlaçadas com fitas azues, um chapellinho de palha e os pesinhos calçados com botinas de seda! «Fez bem, disse eu a Angela, depois de alguns instantes; deu-lhe um pae melhor do que eu.» Reparei então que ella propria se transformára; trajava com elegancia e estava superiormente bella. A abastança aperfeiçoára a natureza. Olhei-a sem inveja nem colera,--mas com saudade,--dessa vez deliciosa, porque rememorei os bons tempos da nossa ebriedade e loucura. O passado é um peculio para os que ja não esperam nada do presente ou do futuro; ha alli sensações vivas que preenchem as lacunas de todo o tempo. «Fez mal,»--disse-me ella baixinho. E suspirou. «Sei que morri,--disse eu, e não pretendo resuscitar.» Depois voltei-me para Helena:--«Minha filha, faze de conta que me não viste; morri, para ti e para o mundo. Teu pae é outro. Promettes que não dirás nada?» Helena fez um leve signal de cabeça e beijou-me a mão a furto, como se não quizesse ser vista de Angela. Nesse simples gesto reconheci que ella ia obedecer-me; mas a tristeza que lhe ficou foi o castigo de sua mãe. Pediamos á natureza mais do que ella podia dar.
Salvador fez uma pausa, ergueu-se foi à commoda, e de uma das gavetas tirou uma caixinha, que collocou sôbre a mesa. Melchior e Estacio trocaram um olhar de curiosidade. Salvador sentara-se de novo.
--Angela morreu,--proseguiu elle,--dahi a um anno. Seu pae e alguns amigos poucos foram leval-a á sepultura. Tambem eu la me achei. A differença é que elle enterrava uma aventura, e eu via enterrar o meu passado. Vi-o triste e taciturno, como sinceramente pezaroso da creatura que perdéra. Helena, entretanto, não podendo estar só na mesma casa, foi removida para o collegio, onde ficou residindo definitivamente. O conselheiro ia visital-a todas as semanas. Pela minha parte, certo da discrição de minha filha, encetei com ella uma correspondencia que era toda a consolação que me podia caber. Uma escrava do collegio servia de intermediaria entre nós. Então, como hoje, achei uma alma compassiva que me ajudou a ser feliz com mysterio; a differença é que naquelle tempo era precisa a intervenção pecuniaria. Eu tinha pouco, mas dava o jantar de um dia para ler cartas de Helena. Conservo-as todas, tanto as de outr'ora, como as destes últimos mezes; estão fechadas aqui.
Salvador mostrou a caixinha que collocára sôbre a mesa.