Chapter 4
Parece-me demasiado longo.
HAMLET
Para o encurtar manda-se a um barbeiro ao mesmo tempo que a tua barba. (Ao actor.) Continúa, peço-to eu; se não lhe apresentam um bailado grutesco, ou uma scena immoral adormece logo. Continúa, pois, chegámos a Hecuba.
PRIMEIRO ACTOR
Mas quem visse, oh, quem visse a rainha embuçada!
HAMLET
A rainha embuçada.
POLONIO
Optimo, _embuçada_ é bom.
PRIMEIRO ACTOR
Correndo, nus os pés; com lagrimas que chora As chammas, apagando; a fronte coroada Por um farrapo vil, a fronte onde ainda agora Brilhava um diadema; apenas mal vestida Por coberta alcançada á pressa na fugida; Quem visse tanto horror, acaso concebêra Que a fortuna só tem entranhas de uma fera; Mas se os deuses do Olympo houvessem escutado, Quando ella vira Pyrrho entregue ao estranho goso De cortar membro a membro, o corpo ao morto esposo, De seu peito fremente, o grito amargurado A não ser que da terra ao céu não suba a magua Sentiriam como ella os olhos rasos d'agua!
POLONIO
Vejam, empallidece, o pranto inunda-lhe os olhos. Basta, peço-to.
HAMLET
Está bem, o resto m'o recitarás n'outra occasião; (a Polonio) queira prover que estes actores sejam bem tratados, percebeu? que nada lhes falte, porque são a chronica resumida e viva da epocha. Mais lhe valeria, Polonio, um mau epitaphio depois da sua morte, do que o seu vituperio em vida.
POLONIO
Tratal-os-hei segundo os seus merecimentos.
HAMLET
Melhor, meu caro, melhor; se se tratasse cada um segundo os seus merecimentos, de poucos se faria caso. Trate-os como o deve á jerarchia e á sua propria dignidade. Quantos menos titulos tiverem á sua benevolencia, mais se deve esmerar no seu tratamento. Agora póde-se retirar com elles.
POLONIO
Venham, senhores.
HAMLET
Sigam-o, meus amigos, ámanhã teremos a representação, (Polonio sáe com os actores, menos um a quem Hamlet faz signal que fique.)
HAMLET (continuando)
Dize-me, meu caro amigo, poderias representar a morte de Gonzaga?
PRIMEIRO ACTOR
Com mil vontades, senhor.
HAMLET
Então ámanhã. Dize-me mais, poderias tu aprender de cór, sendo preciso, doze ou dezeseis linhas que eu desejava intercalar na peça? pódes, não é verdade?
PRIMEIRO ACTOR
Posso perfeitamente, meu senhor.
HAMLET
Fica pois ajustado, segue aquelle senhor, e só te peço que não zombes d'elle. (O actor sáe.)
HAMLET (a Rosencrantz e Guildenstern)
Meus bons amigos, até á noite, estimei vel-os em Elsenor.
ROSENCRANTZ
Meu senhor. (Sáe com Guildenstern.)
HAMLET
Finalmente estou só. Que miseravel eu sou! Pois não será monstruoso que este actor, n'uma ficção, na expressão de uma dor simulada, podesse elevar a sua alma, identificando-se com a sua parte, exaltando-se a ponto de empallidecer, de lhe borbulhar o pranto nos olhos, de se lhe pintar o desespero nas feições, entrecortada está a sua voz, e o seu todo faz uma verdade, de que não é senão uma situação fingida! E tudo, por quem? por Hecuba; que é Hecuba para elle, ou elle para Hecuba, para que a sua memoria lhe arranque lagrimas tão sentidas? Que faria elle no meu logar, se tivesse tantos motivos de dor, quantos eu tenho. Inundava de pranto a scena, aterrava os espectadores pela sua expressão terrivel, fulminava o culpado, atemorisava o innocente; attonitas ficavam as almas simples, e a commoção aos sentidos da vista e do ouvido seria geral. E eu, alma tibia, intelligencia confusa, fico n'uma estupida inacção, indifferente á minha propria causa, e nada acho que dizer, nada, mesmo nada a favor de um rei que perdeu a corôa e a vida pelo mais inaudito attentado! Ah como sou cobarde! Infame me deveriam chamar, esbofetear-me, arrancar-me as barbas, lançar-m'as ao rosto com o desprezo; insultar-me deveriam todos, dizer-me que pela gorja menti, e obrigar-me a soffrer calado todos os vilipendios possiveis. Quem quer fazel-o. Por vida minha que era justo; é forçoso que eu seja inoffensivo como uma pomba sem fel, para levantar uma offensa, para não ter feito pasto dos abutres as entranhas d'esse miseravel, sanguinario e impudico scelerado. Monstro de perfidia, juntas ao assassinio o adulterio! Como sou estupido! É bello na verdade ver-me, a mim, o filho de um rei e pae assassinado, a quem céus e terra instigam á vingança, gastar a minha indignação em palavras e vãs imprecações, como a mais vil e desprezivel prostituta. Que vergonha!! Procuremos Uma idéa... (depois de uma pausa prolongada) Eil-a, achei. Ouvi dizer que criminosos, assistindo a representações dramaticas, de tal modo se perturbaram vendo a sua culpa em scena, que espontanea e immediatamente fizeram confissão do seu crime, porque o assassino embora mudo trahe-se e falla. Quero que os actores representem, na presença de meu tio, a morte de meu pae, observarei as suas feições, sondarei as suas impressões; se se perturbar, sei o que me cumpre fazer. O espirito que me appareceu talvez seja um demonio, porque póde revestir-se da fórma de um objecto amado, tem poder sobre as almas melancholicas, e quem sabe se na minha fraqueza e dor acha os meios para me perder, condemnando-me para sempre. Quero ter a certeza completa; o drama em questão será o laço armado á consciencia do rei. (Sáe.)
Fim do acto segundo
ACTO TERCEIRO
SCENA I
Uma sala no castello de Elsenor
Entram o REI, a RAINHA, POLONIO, OPHELIA, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN
O REI
Então ainda não poderam, nas suas conversas com elle, descobrir a causa da desordem da sua intelligencia; d'aquella perigosa e turbulenta demencia que se apoderou do seu espirito e lhe rouba o descanso?
ROSENCRANTZ
Confessa sentir esvaír-se-lhe a rasão; mas não conseguimos que elle nos revelasse a causa.
GUILDENSTERN
Parece pouco disposto a deixar sondar os seus sentimentos. Na sua loucura não o abandona um resto de sagacidade; conserva-se na defensiva todas as vezes que tentâmos encaminhal-o a uma confissão tocante ao seu estado.
A RAINHA
Recebeu-os bem ao menos?
ROSENCRANTZ
Com toda a affabilidade de um homem bem educado.
GUILDENSTERN
Mas evidentemente constrangido.
ROSENCRANTZ
Perguntando pouco, mas respondendo ás nossas perguntas com a maior naturalidade.
A RAINHA
E experimentaram algum divertimento para o distrahir?
ROSENCRANTZ
O acaso fez-nos encontrar no caminho alguns actores; fallámos-lhe n'elles, esta nova pareceu agradar-lhe. Estão aqui no palacio, e creio já terem recebido ordem para representarem esta noite na sua presença.
POLONIO
É verdade, e pede a vossas magestades que assistam á representação.
O REI
Com o maior prazer; estimo vêl-o assim disposto. Queiram estimulal-o, senhores, e dirigir a actividade do seu espirito para estes divertimentos.
ROSENCRANTZ
Assim o faremos. (Sáe com Guildenstern.)
O REI
Deixa-nos tambem, querida Gertrudes. Mandámos chamar secretamente a Hamlet, para como por acaso o pôr na presença de Ophelia. Seu pae e eu, legitimos espias, collocar-nos-hemos de maneira que, sem sermos vistos, assistamos á entrevista e possamos julgar pelas suas palavras, se é um amor infeliz que assim o faz padecer.
A RAINHA
Obedeço retirando-me. Quanto a ti, Ophelia, desejo ardentemente que os teus encantos sejam a feliz causa da demencia de Hamlet; porque terei então esperança que as tuas virtudes o restituirão, a contento de ambos, ao primitivo estado.
OPHELIA
Quanto o desejo, senhora.
POLONIO
Ophelia, passeia aqui n'esta sala; (ao rei) vamo-nos collocar, senhor; (a Ophelia) lê n'este livro; esta leitura simulada servirá de pretexto á tua solidão. Enganâmo-nos tantas vezes, e quão frequentemente acontece, com uma capa de santidade e attitude reservada conseguirmos fazer um santo do proprio demonio!
O REI
Oh é bem verdade; que pungente dor esta observação inflige á minha consciencia! O rosto da prostituta não é mais asqueroso debaixo da mascara do seu arrebique, do que o é o meu crime debaixo do falso verniz do meu discurso. Oh peso terrivel!
POLONIO
Hamlet approxima-se, retiremo-nos, senhor. (O rei e Polonio occultam-se atrás da cortina.)
Entra HAMLET
_Ser ou não ser_, eis o problema. Uma alma valorosa, deve ella supportar os golpes pungentes da fortuna adversa, ou armar-se contra um diluvio de dores, ou pôr-lhes fim, combatendo-as? _Morrer, dormir, mais nada_, e dizer que por esse somno pomos termo aos soffrimentos do coração e ás mil dores legadas pela natureza á nossa carne mortal; e será esse o resultado que mais devamos ambicionar? _Morrer, dormir, dormir, sonhar talvez_; terrivel perplexidade. Sabemos nós porventura que sonhos teremos, com o somno da morte, depois de expulsarmos de nós uma existencia agitada? E não deverei eu reflectir? É este pensamento que torna tão longa a vida do infeliz! Quem ousaria supportar os flagellos e ultrages do mundo, as injurias do oppressor, as affrontas do orgulhoso, as ancias de um amor desprezado, as lentezas da lei, a insolencia dos imperantes, e o desprezo que o ignorante inflige ao merito paciente, quando basta a ponta de um punhal para alcançar o descanso eterno? Quem se resignaria a supportar gemendo o peso de uma vida importuna, se não fosse o receio de alguma cousa alem da morte, esse ignoto paiz, do qual jámais viajante regressou? Eis o que entibia e perturba a nossa vontade; eis o que nos faz antes supportar as nossas dores presentes do que procurar outros males que não conhecemos. Assim, somos cobardes todos, mas pela consciencia; assim a brilhante côr da resolução se transforma pela reflexão em pallida e livida penumbra, e basta esta consideração para desviar o curso das emprezas mais importantes, e fazer-lhes perder até o nome de acção. Mas silencio, vejo a linda Ophelia. Joven beldade, lembra-te dos meus peccados nas tuas orações.
OPHELIA
Como tem vossa alteza passado estes dias ultimos?
HAMLET
Bem, agradeço-te do coração.
OPHELIA
Senhor, tenho dadivas e lembranças suas que ha muito lhe desejava restituir. Permitta-me que lh'as devolva.
HAMLET
Eu! de certo que não, nunca te dei nada.
OPHELIA
O principe sabe perfeitamente que me fez essas dadivas, e as doces palavras que as acompanharam ainda lhes realçaram o valor; agora que perderam todo o seu perfume, tome-as, principe, porque para uma alma nobre, as mais ricas dadivas perdem o seu valor, no momento em que aquelle que nol-as fez só nos mostra indifferença. Receba-as, pois, senhor.
HAMLET
Ah, ah, és virtuosa.
OPHELIA
Meu senhor.
HAMLET
És bella.
OPHELIA
Que diz vossa alteza?
HAMLET
Digo que se és virtuosa e bella, deves evitar toda a communicação entre a tua virtude e a tua belleza.
OPHELIA
Que melhor commercio ha para a belleza que o da virtude?
HAMLET
A influencia da belleza será mais prompta em metamorphosear a virtude em vil cortezã, do que a força da virtude em transformar a belleza á sua imagem. Antigamente seria paradoxo, hoje é um facto provado. Amei-te n'outro tempo, é verdade.
OPHELIA
Vossa alteza bem m'o fez acreditar.
HAMLET
Fizeste mal em acreditar. Porque embora a virtude se inocule na nossa primitiva natureza, sempre nos ficam restos d'ella. Nunca te amei.
OPHELIA
Maior foi o meu engano.
HAMLET
Professa, Ophelia, encerra-te n'um claustro. Para que queres continuar uma raça de peccadores; quanto a mim julgo-me ainda assás honesto; e comtudo podia formular contra mim taes accusações, que melhor teria valido, que minha mãe me não tivesse dado á luz. Sou orgulhoso, vingativo e ambicioso; gero no meu cerebro tantas acções más, que o meu pensamento não basta para as distinguir, nem a minha imaginação para lhes dar uma fórma, e falta-me o tempo para as executar. Que vantagem haverá pois que seres como eu se rojem como reptis entre o céu e a terra? Todos somos infames, não te fies em nenhum homem; vae, recolhe-te a um claustro. Onde está teu pae?
OPHELIA
Em casa, meu senhor.
HAMLET
Que lhe fechem as portas para impedir que represente de louco fóra de casa. Adeus.
OPHELIA
Deus misericordioso, tende piedade de Hamlet.
HAMLET
Se alguma vez te casares, dar-te-hei como dote esta triste verdade. Sê tu fria como o gêlo; se fores pura como a neve a calumnia não te poupará. Entra para um claustro, professa, adeus. Mas se absolutamente precisas um marido, então escolhe um louco, porque os homens assisados sabem em que monstros vós as mulheres os tornaes. Professa, recolhe-te a um convento, mas avia-te. Adeus.
OPHELIA
Poderes celestes, restitui-lhe a rasão!
HAMLET
Tambem ouvi fallar da vossa loquacidade. Deus deu-vos um porte e vós o transformaes por vossa culpa. Saltitaes, requebrae-vos; gestos e affabilidade são artificio, zombaes das creaturas de Deus, e fazeis passar por ignorancia o que é simples e pura affectação. Nem quero pensar em vós, mulheres; foi o que me enlouqueceu. Digo que não teremos mais casamentos, todos que estão casados viverão, excepto um, os outros ficarão como estão. Professa, entra para um convento, vae. Adeus. (Hamlet sáe.)
OPHELIA (só)
Oh que nobre intelligencia está ali desthronada. A perspicacia do homem de côrte, a espada do guerreiro, a palavra do sabio, o futuro d'este reino, o espelho do bom tom, o typo dos modos nobres, o modelo em que todos fictavam os olhos, tudo destruido e destruido sem esperança; e eu, a mais afflicta e infeliz das mulheres, eu que saboreei a inebriante ambrosia dos seus juramentos de amor, estou condemnada a ver essa potente e elevada rasão, similhante ao bronze fendido, não dar senão sons falhos e dissonantes; e tanta belleza e juventude crestadas pelo sôpro da demencia! Oh infeliz, oh desgraçada, que vi o que vi, e vejo o que vejo!!!
Sáem de trás da cortina o REI e POLONIO
O REI
O amor! não é a ella que elle dedica a sua affeição; alem d'isso o seu fallar, aindaque um pouco falto de logica, não tem cunho de loucura. Ha na sua alma alguma dor secreta. Receio algum perigo que nos seja fatal. Para prevenir esse resultado, eis o plano que formei e no qual assentei. Quero que Hamlet parta sem demora para Inglaterra, para reclamar o tributo a que esse paiz se nega e a que é obrigado. Talvez que o mar, a mudança de clima, a vista de objectos novos, lhe restituam a rasão, expulsando do seu coração aquella obstinada preoccupação. Que lhe parece?
POLONIO
Parece-me acertado. Comtudo persisto na minha idéa, que um amor desprezado é a causa unica da sua dor. (A Ophelia) Não precisas referir-nos o que te disse o sr. Hamlet. Tudo ouvimos. (Ao rei) Senhor, faça o que lhe parecer conveniente, mas se me quer dar ouvidos, diga á rainha, que, depois da representação, o chame a sós e inste para conhecer d'elle a causa da sua mágua; porém cumpre que lhe falle severamente: com o vosso assentimento ouvirei escondido toda a conversação. Se a rainha não podér penetrar aquelle espirito rebelde a toda a confidencia, ordene-lhe então a partida, e desterre-o, senhor, para o logar que a prudencia lhe dictar.
O REI
Concordo plenamente comtigo; nos grandes é que a demencia deve ser mais vigiada. (Sáem todos.)
SCENA II
Uma sala no castello de Elsenor
Entram HAMLET e differentes actores
HAMLET (a um dos actores)
Não esqueças de dizer aquelle trecho, tal qual o declamei na tua presença; mais que tudo fogo e energia; mas se o recitares como a maior parte dos actores, mais me valeria ouvir a minha prosa na bôca de um pregoeiro. Não movas descompassadamente os braços, acciona moderadamente; no meio mesmo da torrente, da tempestade, do tufão, da paixão, procura ser comedido. Nada impressiona mais desfavoravelmente, do que ver homens robustos reduzirem a pó uma paixão e escorchar os ouvidos dos assistentes, que, pela maior parte, não merecem senão uma declamação absurdamente arrebatada e uma acção desordenada. Açoutados mereciam esses actores, cujo accionado mais parece renhida batalha, e que mais crueis se fingem que um Herodes de comedia. Peço-te que evites esses defeitos.
PRIMEIRO ACTOR
Pela minha parte, prometto-lh'o, senhor.
HAMLET
Não vás tambem caír no excesso contrario, sirva-te de guia a tua intelligencia. Accommoda a acção ás palavras, as palavras á acção, tendo sempre em vista a naturalidade; só é proprio da scena intelligente, que foi e é o espelho em que se deve reflectir a natureza, mostrar a virtude tal qual é, a vaidade sem véu, e cada tempo e cada idade com a sua physionomia propria e com o cunho de verdade. Se se excede, ou se fica áquem do fim proposto, poderá excitar-se a hilaridade do homem ignorante, mas afflige-se o sensato, cujo juizo vale mais que o suffragio de uma sala inteira. Oh! vi representar e ouvi elogiar actores, que, Deus me perdôe, nada tinham de christão na voz, nada de christão, pagão ou mesmo humano no porte, e que se estorciam e bramavam de tal modo, que sempre os julguei obra de algum aprendiz da natureza, que, querendo fabricar homens, errou a vocação, e não tinha produzido senão uma desgraçada imitação da humanidade.
PRIMEIRO ACTOR
Espero em Deus, que vossa alteza não nos poderá notar taes defeitos; entre nós, senhor, estão banidas de todo as exagerações.
HAMLET
Mas que o estejam na verdade; que os bobos não digam mais do que ao que são obrigados pela sua parte; alguns ha que introduzem alguma facecia para excitar o riso dos espectadores ignaros no ponto em que mais attenção se reclama da parte do publico. É um desacerto, e o bobo que recorre a esses expedientes, mostra uma pretensão desgraçada. Vão-se agora preparar. (Os actores sáem.)
Entram POLONIO, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN
HAMLET (a Polonio)
Então o rei está decidido á nossa peça?
POLONIO
Com certeza, e a rainha tambem. Não tardam.
HAMLET
Diga então aos actores que se aviem. (Polonio sáe.)
HAMLET (continuando, a Rosencrantz e Guildenstern.)
Querem fazer-me o favor de tambem ir apressar os preparativos.
AMBOS
Sim, meu senhor. (Sáem.)
Entra HORACIO
HAMLET
Ah, és tu, Horacio?
HORACIO
Estou sempre ás suas ordens, meu senhor.
HAMLET
Meu caro Horacio, és a flor dos homens, cujo trato tenho cultivado.
HORACIO
Meu querido senhor.
HAMLET
Não julgues que te lisonjeio; que posso eu esperar de ti, cujas unicas rendas são a jovialidade e a honestidade. Quem lisonjeia um pobre? Não, que a lisonja roja-se aos pés da opulencia estupida, e o servilismo curva o joelho, á espera do comprador. Escuta, depois que a minha alma pôde livremente escolher e soube distinguir os homens, marcou-te com o sêllo da predilecção, porque reconheceu em ti um homem que não se abate pelos revezes; um homem que acceita com a mesma indifferença os favores e os rigores da fortuna; felizes os mortaes em quem o juizo e as paixões têem igual imperio, e não são um joguete nas mãos da fortuna. Mostrem-me um homem que não seja escravo das paixões, e terá conquistado, como tu, o meu coração, e abrir-lhe-hei o santuario da affeição mais íntima. Basta sobre o assumpto. Deve-se hoje representar na presença do rei um drama, no qual ha uma scena, que é a historia da morte de meu pae, cujos pormenores já em tempo te contei. Quando se approximar a scena, observa meu tio, com toda a vigilancia que auctorisam as minhas suspeitas; se o segredo do seu crime se não revelar por alguma palavra, então era a apparição obra do demonio, e as minhas imaginações são mais negras que as lavas e cinzas de um vulcão. Tu observa-o attentamente, eu não o perderei de vista; depois, juntando os nossos juizos, concluiremos conforme ao que virmos.
HORACIO
Muito bem, senhor, tão firme estarei no meu posto de observação, que juro por Deus, que me não escapará um movimento, uma impressão da sua alma.
HAMLET
Eil-os que chegam para a representação; agora, cumpre-me ser espectador indifferente. (Ouve-se a marcha real e clarins.)
Entram o REI, a RAINHA, POLONIO, OPHELIA, ROSENCRANTZ, GUILDENSTERN e a CORTE
O REI
Como passa nosso sobrinho Hamlet?
HAMLET
Melhor não póde ser; em verdade passei a viver como os camaleões, nutro-me só de ar, e alimento-me de promessas, as iguarias mais finas não me satisfariam melhor.
O REI
A tua resposta é-me inintelligivel; não é de certo a mim que ella é dirigida.
HAMLET
Pois nem a mim. (A Polonio.) Não me disse que já tinha representado uma vez, quando cursava a universidade?
POLONIO
É verdade, senhor, e era reputado um habil actor.
HAMLET
Que parte representou?
POLONIO
A de Julio Cesar; assassinaram-me no capitolio; Bruto apunhalava-me.
HAMLET
Que brutalidade apunhalar, e n'aquelle logar, um tão excellente bezerro. Os actores já estão promptos?
ROSENCRANTZ
Sim, meu senhor, esperam só as ordens.
A RAINHA
Vem, meu Hamlet, sentar-te a meu lado.
HAMLET
Não, minha mãe; (mostrando Ophelia) este metal tem mais força de attracção.
POLONIO
Que me diz agora, senhor?
HAMLET
Ser-me-ha permittido estar a vossos pés, senhora? (Senta-se no chão aos pés de Ophelia.)
OPHELIA
Não, meu senhor.
HAMLET
Queria dizer, recostar a cabeça sobre vossos joelhos.
OPHELIA
Sim, meu senhor.
HAMLET
Pensaveis talvez que tivesse outra idéa?
OPHELIA
Nada pensava.
HAMLET
É um pensamento este digno de um coração de donzella.
OPHELIA
O que, senhor?
HAMLET
Nada.
OPHELIA
Vejo-o hoje alegre, senhor.
HAMLET
Quem, eu?
OPHELIA
Sim, vossa alteza.
HAMLET
Sou o seu bobo e nada mais. Cousa alguma ha melhor para o homem do que a alegria. Repare, veja como minha mãe está hoje muito alegre, e ainda não ha duas horas que meu pae morreu.
OPHELIA
Vossa alteza engana-se por certo; ha mais de duas vezes dois mezes.
HAMLET
Tanto tempo!! n'esse caso use o demonio o lucto, eu quero vestir-me de arminhos. Oh céus, morto ha dois mezes, e ainda não esquecido, não é então de estranhar que a recordação de um grande homem dure mais de seis mezes; mas, pela Virgem Santa, deve então ter edificado igrejas, aliás arriscava-se a que o esquecessem, como aquelle a quem lavraram este epitaphio:
_Aqui jaz esquecido um cavallo de pau._
Soam os clarins, começa a pantomima
(Um rei e uma rainha entram em scena, o seu aspecto é de namorados, abraçam-se. A rainha ajoelha aos pés do rei, mostrando pelos seus gestos que lhe protesta o mais vivo amor. O rei levanta-a, e inclina a cabeça sobre o seu hombro; depois deita-se n'um banco coberto de flores. A rainha vendo-o adormecido, sáe. Apparece um personagem que lhe tira a corôa e a leva aos labios, lança veneno n'um ouvido do rei, e sáe em seguida. Volta a rainha, acha o rei morto, e dá mil signaes de desespero. O envenenador seguido por duas ou tres pessoas, chega e parece lamentar-se com a rainha. O cadaver é levado da scena. O envenenador requesta a rainha, dá-lhe presentes. Ella mostra a principio repugnancia, mas acaba por acceitar o amor offerecido. Sáem.)
OPHELIA
Que significa esta scena, senhor?
HAMLET
Nada que seja bom, é um laço armado ao crime.
OPHELIA
Esta pantomima indica sem duvida o entrecho da peça?
Entra o PROLOGO
HAMLET
Vamos sabel-o, os comediantes não podem guardar um segredo, têem por costume fallar sempre.
OPHELIA
Explicará elle o que significa a pantomima?
HAMLET
Sem duvida, não só essa, mas todas as que lhe quizer apresentar, qualquer que seja a sua especie, e terá a explicação prompta.
OPHELIA
O principe é mau, deixe-me seguir a peça.
O PROLOGO
Pedimos, para nós, toda a vossa indulgencia; Para a nossa tragedia, attenta paciencia.
HAMLET
Parece antes divisa de annel do que prologo.
OPHELIA
Tão curto, senhor.
HAMLET
Como o amor de uma mulher.
Entram um REI e uma RAINHA
O REI DA PEÇA
Trinta vezes de Phebo o carro luminoso De Tellus e Neptuno, o largo giro ha feito, E trinta vezes doze a lua, astro saudoso, De refrangida luz, á terra ha dado o preito, Desde que as nossas mãos, com mutuo amor se deram, E as bençãos d'Hymeneu o sacro nó teceram.
A RAINHA DA PEÇA