Galatéa Egloga Primeira e Segunda Parte

Part 1

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GALATÉA

EGLOGA.

PRIMEIRA, E SEGUNDA PARTE

POR

ANTONIO JOAQUIM DE CARVALHO.

LISBOA: M. DCCCI.

NA OFFIC. DE SIMÃO THADDEO FERREIRA.

_Com Licença da Meza do Dezembargo do Paço._

AO LEITOR.

Esta primeira Egloga, ha 16 annos impressa, agora faço-a reimprimir, para tirar-lhe as lisongeiras Cartas, para emendar-lhe algumas passagens com melhor escolha, para curar-lhe alguns vicios gerados por aquelles, que duas vezes a reimprimírão, a pezar do meu gosto, e para ligar ambas as Partes, por que a primeira dá a materia para a segunda.

Se me increparem, porque faço domavel o Gigante Polyfemo, contra a opinião dos melhores Poetas, respondo: He verdade, que a Fabula nos mostra este Cyclope hum monstro de crueldade, de extraordinarias forças, e destemido: hum tragador de seis companheiros de Ulysses, e delle mesmo o seria, se astucioso não lhe fugisse: hum soberbo em fim, que declamava, que nem ao mesmo Jupiter temia; mas pergunto: Este Gigante era humano, ou não? Todos me dirão, que sim. Pois se era humano, era sugeito ao imperio da Razão, com cujas armas o ataco, e o venço: e só seria inverosimil, se eu com a razão accommettesse hum Tigre, hum Leão, huma Serpente. Se os mais não pizárão esta estrada, porque não quizerão, pizo-a eu, porque quero, e por que posso, sem atropelar a verosimilhança.

Se altero o caracter da Egloga; se me aparto da simplicidade pastoril; se faço inflammar Polyfemo, e respirar vingança, he porque eu não pinto hum daquelles Pastores do Seculo de oiro, em que reinava a mansidão, e o socego de espirito; pinto hum Cyclope, hum Pastor ferino, que abrazado no ciume, e na ira, deo barbara morte ao mancebo Ácis, lançando-lhe em cima hum penhasco: catástrofe, que eu não pinto, por não fazer huma Egloga com espirito de Tragedia.

Eu tive a fortuna, de que alguns homens (discrétos homens!) dissessem, que não era minha a minha Egloga Deploratoria intitulada JOSINO na chorada morte do Principe o Senhor D. JOSÉ. Eu serei feliz, se agora tiver a mesma fortuna, porque se esses contrastes duvidarem de ser minha esta obra, boa será ella pela sua avaliação. Esses, que duvidão, examinem, busquem, descubrão o legitimo Author, e o mostrem para gloria sua, e descredito meu. Conheça o mundo o homem virtuoso, o homem raro, que se cançou naquella composição, para renunciar em mim a posse, o lucro, e o credito della. E se eu a furtei, onde estás homem roubado, que não acodes ao teu cabedal, sabendo, que em meu poder existe? Denuncía-me; clama justiça contra mim. Ah! Ninguem falla? Ninguem me acusa? Pois acuso-me eu, mas he da temeridade de emprehender a guerra sem ter armas: de querer lugar na Républica das Letras sem ser Cidadão de Athenas: de fazer Versos sem beber da Castália, sem soccorro das Musas, sem conhecer Apollo. Os Versos (toscos Versos) que ha trinta annos escrevo, são os denunciantes, as testemunhas, e os Juizes do meu crime. Acusem-me, como eu me acuso deste delicto; porém não de roubador, officio imfame, que não cabe em almas honradas; mas se os críticos me arguirem pelos pobres, insulsos Versos, devem igualmente attender em minha defensa, que estes se não tem mel, tambem não tem veneno; se não deleitão, tambem não ferem. Isto supposto, fação-me Justiça.

GALATÉA

EGLOGA.

PRIMEIRA PARTE.

INTERLOCUTORES.

POLYFEMO, E LAURINDO.

POLYFEMO.

Ah! Campos, campos meus! Vós, que algum dia Me servieis de amavel companhia: Vós, que os ouvidos daveis ao meu canto, Prestaimos boje, para ouvir meu pranto; Se bem, que assáz me custa magoar-vos, Depois de com meu canto deleitar-vos; Mas eu adoçarei a vossa mágoa, Dando-vos de meus olhos rios de agua: Com ella florecei para os viventes, E á custa do meu mal vivei contentes, Que eu não vos lograrei, não; nem já gora A minha morte póde ter demora; Os Ceos a mandem, que em tormentos fortes Huma morte he melhor, que muitas mortes. Ah! Campos, se vós fosseis animados, E ponderasseis bem os meus cuidados, De mim aprenderieis, que a ventura, Ao que nasceo feliz, he que procura: E Aquelle, que nasceo já desgraçado, Sempre lhe foge com semblante irado. Mas quem he, que este monte vem subindo? Pelo trage he Pastor: sim, he Laurindo, Que talvez magoado d'escutar-me, Quer meios procurar de consolar-me: Em vão, em vão se cança, se o intenta; Que em vez de alivio dar-me, a dor me augmenta. Agora mais me vejo impaciente, Que até me afflige a vista de hum vivente: Mas elle vem, não posso resistir-lhe, Já não posso esconder-me, nem fugir-lhe; Se fujo desta parte, he ribanceira, Se daquella, me affogo na ribeira; Pois nella acabarei, morrer não temo; De huma só morte acabe Polyfemo.

LAURINDO.

Detem-te, amigo, e espera, que fazias? A ti mesmo matar-te pertendias? Seres comtigo mesmo ímpio tyranno, Para hum damno evitar com maior damno!

POLYFEMO.

Deixa, deixa, que eu morra por piedade, Porque morrendo, evito a crueldade Dos ímpios Deoses: ah! Viver não quero, Pois vida tão penosa não toléro: Tu contarás á falsa Galatéa, Que por ella me expuz á morte feia; Porém no peito o coração me estalla, Vendo, que Ácis tyranno ha de logralla: Mas logre-a, logre-a, embora, oh que tormento! Que eu só, por tal não ver, morrer intento.

LAURINDO.

Socega, amigo, queres dessa sorte Dar a vida, por quem te causa a morte? Queres vingar-te della socegado? Desprezou-te, despreza-a: estás vingado.

POLYFEMO.

Desprezar Galatéa, e offendella Quando só morrer por ella! Isso não, que depois de eu adoralla, Valor não tenho para maltratalla: Ella pratique embora a crueldade, Que eu não devo imitar-lhe a impiedade.

LAURINDO.

Conheces, que te offende essa perjura, E inda morres por ella? Oh que loucura!

POLYFEMO.

Sim, amigo, traidora a considero; Mas quiz-lhe bem: querer-lhe mal não quero. Eu não lhe amo o rigor, sim a belleza, Que he parto singular da natureza: Tu, que a conheces, vê, se razão tenho Para adoralla com tão grande empenho: O lindo rosto, aquelles olhos bellos, Tão matadores, que em chegando a vêllos, Parece, que do rosto lhe saltavão, E que para não vêllos me cegavão. As loiras tranças, bem como doiradas, Sobre seus alvos hombros espalhadas. Se as costas me voltava por desprezo, Como que a ellas me levava prezo: Nas lindas faces se me figuravão Duas papoilas, que entre a neve estavão. A boca, que em conceitos sempre acerta, Parecia huma rosa meia aberta; Mas quando grave, e graciosa ria, Oh quanto então mais bella parecia! Mostrando os claros dentes, que esmaltavão Seus beiços, que de nácar se formavão; E co'a força do riso as faces bellas Duas covas fazião como estrellas. As mãos por engraçadas, e pequenas Parecião formosas açucenas. Mil vezes quiz beijar-lhas; porém ella, Que o damno prevenia na cautéla, Escondendo-as, de mim mais se affastava, Que até nisto ser casta bem mostrava. Estas bellezas, esta honestidade Forão prizões da minha liberdade, E quanto as lindas mãos mais me negava, Tanto as doces prizões mais me apertava; Mas n'huma sésta vi, que ella dormia Junto do pote, que na fonte enchia: Vou-me pé ante pé, e hindo a beijar-lhas, Me arrependi, porque temi manchar-lhas. Nem só para pegar-lhes valor tinha, Porque mão tão grosseira, como a minha, Não devia tocar aquella neve, Que só com outra igual tocar-se deve; Mas immovel fiquei, pois só gostava De ver a bella acção, em que ella estava. O branco rosto sobre o curvo braço, Outra mão tambem curva no regaço: O corpo reclinado sobre a fonte, E a curta sombra, que lhe dava o monte, Só metade do rosto lhe cubria, Que muito mais formosa inda a fazia. Eu, que só me detinha em admiralla, Sem que tivesse intento de acordalla; Como de gosto estava arrebatado, Sem que eu sentisse, cahe me o cajado: Dá-lhe nos pés: acorda ella assustada, Vê-me, levanta-se, e com voz irada Me diz: "Vil, só comigo! Que fazias? "Dize: acaso offender-me pertendias? "Se por gigante intentas de vencer-me, "Matar-me poderás, mas não render-me: "Que a minha honestidade he tão constante, "Que não cede á violencia de hum gigante. Não, (eu lhe respondi) não te offendia: Nem de ti outra cousa pertendia, Mais do que ao menos, pois te não lograva, Ver-te: e so com te ver me contentava. Se nisto te offendi, ou me desculpa, Ou me castiga, se me achares culpa: Que se eu da tua mão for castigado, Serei ditoso, se antes desgraçado. Mas dize-me, cruel, se me estimaste, Porque razão sem culpa me deixaste? E se indigno me achavas para amante, Porque juraste de me ser constante? Que resposta daria a fementida? "Vai-te louco, (me diz) que aborrecida "Até de ouvir-te estou, nem posso dar-te "Outra razão maior de desprezar-te, "Senão, que as Leis de Amor já não tolero: "Amei-te, em quanto quiz, hoje não quero. "Em fim, tu não és do meu agrado: "Basta: vai-te, que estás desenganado. E com este rigor aquella ímpia Foge: chamo-a, mais ella me fugia: Eu vendo a ir tão bella, quanto irada, Corpo gentil, cintura delicada, Afflicto exclamo: Ah! Deshumana féra! Nunca te eu víra, ou nunca te perdêra.

LAURINDO.

Ainda louvas a ingrata por formosa, Quando enorme se fez, sendo aleivosa? Polyfemo, se queres ser discreto, Não recordes a offensa, nem o affecto: Que o affecto tambem o tempo o gasta, E a offensa he parto de huma louca, basta Que á razão nunca os olhos tem abertos, E sem luz que fará? Mil desacertos: Por isso áquelle, que extremoso a trata, A paga, que lhe dá, he ser-lhe ingrata. Bem como o bravo lobo carniceiro, Que vê, que a innocencia de hum cordeiro Não péde entranhas ter para aggravallo, Por isso mesmo quer despedaçallo; Mas se este acha hum rafeiro, que o extingue, Tambem ella achará quem bem te vingue: E no entanto o melhor he esquecella, E se possivel for, nunca mais vella.

POLYFEMO.

Tambem deixar de a ver he impossivel, Porque sem vella, a dor mais insoffrivel Creio, que dentro n'alma padecesse, Como a flor, que sem Sol murcha, e não cresce. Ah! Se eu agora a visse, e lhe fallasse, Talvez que a meus gemidos se abrandasse: E póde ser, que a achasse arrependida De perder, quem por ella perde a vida. Oh quão feliz seria a minha sorte, Se ella abrandasse aquelle genio forte! Do desprezo, e d'affronta eu me esquecêra, Se hum riso, se hum sinal de amor me déra. Tudo, tudo por ella perderia: Sem gado, sem choupana ficaria: Sujeitar-me-hia pelos seus amores A viver das esmolas dos Pastores: Pois sem logralla, tudo me he penoso, E logrando-a, sou pobre; mas ditoso.

LAURINDO.

Se amas com tanto extremo a huma traidora, Que mais fizeras, se fiel te fôra?

POLYFEMO.

Esta alma, que me anima, se pudesse, Creio, que em paga d'esse amor lha désse, Amando-te, era justo premialla; Mas desprezando-te, he loucura amalla: Sim, que o homem não mostra ser discreto Amando a falsa, que tem outro objecto: Pois daqui nasce a mancha da deshonra, E antes se perca a vida, do que a honra. Que se havia dizer na nossa Aldêa, Se depois dessa ingrata Galatéa Por outro te deixar, tu a buscasses, Esquecido d'affronta inda a estimasses? E não tremias, não te envergonhavas De dizerem, que a honra desprezavas? Ah! Querias do amor ser arrastado, Perdendo a fama, e credito de honrado? Dize, responde, a falla não escondas; Mas ou me vence, ou nada me respondas.

POLYFEMO.

Nada responderei por defender-me, Pois por sábio chegaste a convencer-me: Se a paixão me cubrio de escuridade, Tu me mostraste as luzes da verdade: Agora já conheço, que essa ímpia Mais féra, que o dragão, que o monte cria, Nem amor, nem piedade já merece, Pois por outro me deixa; e assim se esquece Da fé, que me jurou, e da lealdade, Com que sempre a tratei; que a falsidade Não podia caber n'hum peito amante, Que ainda offendido mostra ser constante. Eu, que até ás Pastoras, quando as via, Nem ainda, o Ceo vos guarde, lhes dizia: E se acaso de longe as avistava, Por lhes fugir, a estrada rodeava. Tudo isto por fineza áquella infame, Que, só tão feio nome, he bem lhe chame; Porque a saber, que ás outras eu fallava, Não julgasse, que alguma me agradava; Porém que premio vim a tirar disto? Sabes o que? Com todos ser malquisto: Desprezarem-me todos, ver-me agora Aqui só, sem amigos, nem Pastora: E a falsa, tanto extremo desprezando, Amar outro, e ficar de mim zombando! E soffro tal injúria sem vingar-me! Poderei socegar sem despicar-me! Não, não socegarei, que hum peito irado Socega só depois de estar vingado. Sim, vou já despicar-me... Mas que intento! Que faço! Aonde vou! Que pensamento He este, que me occorre! Oh quanto errado Gyra o discurso de paixão cercado! Eu matar Galatéa! Oh que vileza! Naquella rara imagem da belleza Descarregar o golpe penetrante! E havião ver meus olhos nesse istante Aquelle brando peito traspassado! O rosto, bem qual Sol quando eclipsado! E os olhos, que daquelle Sol são raios, Perdendo a luz na sombra dos desmaios! Aquellas lindas faces tão córadas Eu poderia vellas desmaiadas! A boca rubicunda, e graciosa, Bem qual entre jasmins a linda rosa, Eu teria valor, teria vida, Para vella sem graça amortecida! E havião escutar-lhe os meus ouvidos O pranto, os ais, e os ultimos gemidos: Já com trémola voz, e a cada instante Vella convulsa, afflicta, e delirante, Sem alento, sem côr desfalecida, Dando hum suspiro, e acabando a vida! Oh Ceos! Que horror concebo em ponderallo! Eu tremo, gélo-me, e de dor estallo: Que coração tão barbaro haveria, Que obrasse tão enorme tyrannia? Eu teria valor, se a offendesse, Para vella morrer, sem que eu moresse? Não, não teria tanta impiedade, Que vendo cahir morta hume Deidade, Não me sahisse deste insano peito? O duro coração de dor desfeito. Nem mais contemplar quero tal desgraça, Que parece, que o Ceo já me ameaça, Que a terra vejo abrir, que já comigo Se abate, e me confunde por castigo. Ah! Minha Galatéa, vive embora, Bem que me sejas infiel, traidora: Ainda te amo, se bem, que o não mereças; Eu padeça, mas sem que tu padeças: Vive feliz, e logra o teu amante: Oh justos Ceos, que dor tão penetrante! Mal posso respirar, que até o alento Me soffoca a violencia do tormento. Vai-te, amigo, e me deixa só hum pouco, Que eu não estou em mim, eu estou louco: Oh! Venha embora a morte rigorosa Acabar-me esta vida tão penosa.

LAURINDO.

Deixa, amigo, esse louco desvario, Que o ser de homem deslustra, offende o brio: E que o mundo dissesse pertendias, Que por huma mulher enlouquecias?

POLYFEMO.

Tambem dirá, que não me altéra a offensa, Pois toléro a inimiga na presença.

LAURINDO.

Perdoando-lhe tu por generoso, Que ha de o Mundo dizer? Que és virtuoso. Mas se a fraca mulher ímpio punias, Só de cubarde o nome vil terias.

POLYFEMO.

Sim, perdoada está: eu lhe perdoo, Pois da sua fraqueza me condoo; Tambem, porque talvez seja innocente, Se bem que a culpa a accuse delinquente; Galatéa he honesta, he recatada: Pois quem duvida fosse requestada D'aquelle Ácis traidor, e que a enganasse Com vãs promessas, para que o amasse?

LAURINDO.

Pensas bem que a mulher de honesto estado, Se dá seu coração, sempre he rogado; Se bem que o rogo algumas não convence; Mas a feia ambição a muitas vence.

POLYFEMO.

Sim? Pois hoje verás, que a minha ira Só contra aquelle infame se conspira: Elle, por me arrancar de amor a palma, Me roubou a doce alma da minha alma, Vista dos olhos meus, bem como estrella, Que luz me dava, para poder vêlla. Clara luz, doce vida, alma preciosa, Tudo perdi. Oh scena lastimosa! Tudo o vil me roubou; porém protesto Fazer o seu castigo manifesto Ao Ceo, á terra, a todos os viventes: Elle me offende, as culpas são patentes; Pois o proprio delicto he, que o condemna, A que segundo a culpa, sinta a pena.

LAURINDO.

Queres que a morte de Ácis justifique Huma céga paixão, hum vil despique?

POLYFEMO.

Quero, porque da injúria se não gave, Que o proprio sangue a sua culpa lave: E se neste lugar já o apanhára, O coração do peito lhe arrancára.

LAURINDO.

Dize: se a Galatéa perdoaste, Depois que a culpa enorme lhe provaste, O Pastor, que he talvez menos culpado, Porque não he, como ella, perdoado?

POLYFEMO.

Ella sim: me offendeo; mas obrigada, E merece perdão por violentada; Mas elle não he digno de clemencia, Pois mais culpado está pela violencia.

LAURINDO.

Aqui não ha violencia, ha certa culpa, Que Amor condemna, e logo Amor desculpa, Delicto immensas vezes praticado Por quem ama, e pertende ser amado.

POLYFEMO.

Assim se obra; mas sempre he falsidade, Quando offende as leis santas d'amizade.

LAURINDO.

He máo quebrar a Lei; mas que te espanta, Se ella te jurou fé, e a fé quebranta? Polyfemo, discorre mais prudente; Vence-te a ti, se queres ser valente: Eu teu amigo sou, eu sou mais velho, Tu, que és mais moço, toma o meu conselho No falso Amor não faças confiança: Desterra a ira, foge da vingança, Que esta inquieta, aquella te amofina: De qualquer dellas sempre vem ruina. Males, que tu não queres supportallos, Não deves para os outros desejallos, Que ás vezes são, qual pedra despedida, Que no mesmo que a deita, abre a ferida: Queres a morte de Ácis? Não ponderas, Que póde em ti cahir, se nelle a esperas? Teme o Ceo vingador, teme-lhe a ira: O Ceo, que a vida dá, só elle a tira: Só elle sobre as vidas tem dominio, E não deves oppôr-te ao seu designio; Nem ao menos vingar-te levemente Poderás, sem que fiques delinquente. Olha, que para Jupiter Supremo He menos, que hum mosquito, hum Polyfemo. Á voz só do seu raio penetrante Treme de susto a rocha mais constante. Foge, foge de o veres irritado, E não faças, que a mão levante irado. Ah! Já, mudas de côr, tremes, e pensas? Pois a ti mesmo, espero, te convenças.

POLYFEMO.

Tremo de confusão, e de mim tremo; Os castigos do Ceo Respeito, e temo; Mas o affecto, a paixão, a honra, a offensa Não me deixão acção, em que eu me vença: Vejo a justa razão, quero seguilla; Mas a paixão vem logo a destruilla: Que este meu coração nunca descança De chamar-me ao caminho da vingança.

LAURINDO.

Qualquer paixão, qualquer impaciencia Se vence com discurso, e com prudencia.

POLYFEMO.

Tão desgraçado sou, que neste empenho Nem já discurso, nem prudencia tenho: Quem vio tão enredado labyrintho Como este, que na idéa, e n'alma sinto! Deoses, se justos sois, ou dai-me a morte, Ou me livrai de confusão tão forte; Eu se vingar-me vou, me precipito; Porque aos Deoses offende o meu delicto: Se assento em perdoar, não persevero, Porque em vendo o offensor, logo me altero; Porém hum novo meio já me occorre: Melhor acerta, quem melhor discorre. Eu não quero incitar ao Ceo clemente, Mas para não vingar-me do insolente, Eu fugirei de o ver, que ao vêllo, logo A cinza quente exhalaria fogo. Deixarei estes monte, estes prados, Que a verdura me davão para os gados: Irei viver nas mais occultas brenhas, Onde gente não veja, mas só penhas: Da vingança, e d'affronta assim me privo, E ninguem sabe se sou morto ou vivo.

LAURINDO.

Resolves bem, amigo; sim, he justo Fugires do perigo a todo o custo; Porque busca a desgraça todo aquelle, Que vendo o damno, não se aparta delle: Perca-se a Patria, perca-se a fazenda, Perca-se tudo, e nunca o Ceo se offenda. Tu sim perdes lavoiras, e o serrado; Mas o Ceo, que esses bens te havia dado, Te dará novos campos mais extensos, Donde possas colher frutos immensos: Quem perder pelo Ceo, fique esperando, Que em vez da perda, ficará lucrando: Se a tua choça perdes, caro amigo, A minha he grande, vivirás comigo: Para a tua lavoira dar-te-hei terra Da campina, que tenho, além da serra; Dar-te-hei duas palmeiras mui frondosas, Donde colhas as tâmaras gostosas: Dar-te-hei duas formosas aveleiras, Tortas sepas, viçosas oliveiras: E do mais fruto, que o Ceo der, pendente Repartiremos ambos irmãmente. Para o gado lá tens viçosa relva, Lá tens para o recreio a linda selva, Onde acharás hum bosque mui sombrio, De huma parte arvoredo, d'outra hum rio: Alli se ouvem os pássaros cantando, Alli se escuta o rio murmurando, Nelle andão de contínuo os pescadores, Nelle pescão tambem alguns Pastores O saboroso peixe á longa cana, Ou com o iscado anzol, que mais o engana: Em fim, he campo ameno, he deleitavel, Fructuosa a terra, o clima saudavel: Lá vivirás, amigo, descançado, Sem ver a causa do mortal cuidado: Pois naquella distancia por extensa Não vês o offensor, nem vês a offensa.

POLYFEMO.

Discreto amigo, amigo verdadeiro, Tu fostes dos humanos o primeiro, Que me soube vencer: eu que algum dia Nem a razão, nem Deoses conhecia, Hoje a razão abraço, os Deoses temo; Tu me fizeste hum novo Polyfemo.

LAURINDO.

Convence-te a razão, porque és humano, Que a razão só não doma o bruto insano.

POLYFEMO.

Oh grande, oh raro exemplo d'amizade! Oh coração, gerado de piedade! Despido d'ambição, e d'avareza, Só inclinado á mísera pobreza! Deixa, que por mostrar-me agradecido, A teus honrados pés chegue abatido; E esta boca, por quem serás louvado, Beije o chão duro, dos teus pés tocado.

LAURINDO.

Suspende, Polyfemo, eu não pertendo A tua gratidão, antes me offendo, De a meus pés te prostares abatido, Acatamento só ao Ceo devido.

POLYFEMO.

Oh quanto és digno de louvor completo, Por liberal, humilde, e por discreto! Aprenda o avarento ambicioso A ser mais liberal, mais caridoso: O que da santa, e mísera pobreza Foge, como quem foge da vileza, Veja, que o rico, o paderoso, o nobre Talvez, chegue a pedir esmola ao pobre: Esse, que as minas abre, e colhe o ouro, Julgando a vida ter no seu thesouro, Veja, que a vida, e ouro n'hum momento He como o fumo, que consome o vento: Siga os teus passos o soberbo inchado, Que julga, que a ventura tem ao lado: Olhe, que a seca o grosso rio esgota, E até com vento o cedro se derrota. Longe, longe de nós, ó vicio forte, Vicio mais feio, do que a feia morte.

LAURINDO.

Não terão parte em nós vicios danados, Nem pizaráõ a flor dos nossos prados; Que esta lã, que nos cobre, esta pobreza Contra o vicio nos serve de defeza. Vamos gozar a santa paz ditosa, Vamos colher a fruta saborosa Da minha bella Aldêa: vem, amigo, Que eu não me ausento, sem que vás comigo.

POLYFEMO.