Part 5
TELMO, MAGDALENA; _depois_ JORGE _e_ MANUEL DE SOUSA
*Magdalena*, _ainda de fóra_. Jorge, meu irmão, Frei Jorge, vós estaes ahi, que eu bem sei; abri-me por charidade, deixae-me, dizer uma unica palavra a meu... a vosso irmão:--e não vos importuno mais, e farei tudo o que de mim quereis, e... (_Ouve-se do mesmo lado ruido de passos appressados, e logo a voz de Frei Jorge_.)
*Jorge*, _de fóra_. Telmo, Telmo, abri se podeis... abri ja.
*Telmo*, _abrindo a porta_. Aqui estou eu so.
*Magdalena*, _entrando desgrenhada e fóra de si, procurando, com os olhos, todos os recantos da casa_. Estaveis aqui so, Telmo! E elle para onde foi?
*Telmo*. Elle quem, senhora?
*Jorge*, _vindo á frente_. Telmo estava aqui aguardando por mim, e com ordem de não abrir a ninguem em quanto eu não viesse.
*Magdalena*. Aqui havia duas vozes que fallavam: distinctamente as ouvi.
*Telmo*, _aterrado_. Ouvistes?
*Magdalena*. Sim, ouvi. Onde está elle, Telmo? onde está meu marido... Manuel de Sousa?
*Manuel*, _que tem estado no fundo, em quanto Magdalena, sem o ver, se adiantára para a scena, vem agora á frente_. Esse homem está aqui, senhora; que lhe quereis?
*Magdalena*. Oh que ar, que tom, que modo esse com que me fallas!...
*Manoel*, _internecendo-se_. Magdalena... (_Cahindo em si e gravemente_) Senhora, como quereis que vos falle, que quereis que vos diga?--Não está tudo ditto entre nós?
*Magdalena*. Tudo! quem sabe? Eu parece-me que não. Olha: eu sei?... mas não dariamos nós, com demasiada precipitação, uma fe tam cega, uma crença tam implicita a essas mysteriosas palavras de um romeiro, um vagabundo... um homem emfim que ninguem conhece? Pois dize...
*Telmo*, _áparte a Jorge_. Tenho que vos dizer, ouvi. (_Conversam ambos áparte_.)
*Manuel*. Oh Magdalena, Magdalena! não tenho mais nada que te dizer.--Crê-me, que t'o juro na presença de Deus: a nossa união, o nosso amor é impossivel.
*Jorge*, _continuando a conversação com Telmo, e levantando a voz com aspereza_. É impossivel j'agora...--e sempre o devia ser.
*Magdalena*, _virando-se para Jorge_. Tambem tu, Jorge!
*Jorge*, _virando-se para ella_. Eu fallava com Telmo, minha irman.--(_Para Telmo_) Ide Telmo, ide onde vos disse, que sois mais preciso lá. (_Falla-lhe ao ouvido; depois alto_) Não m'a deixes um instante, ao menos até passar a hora fatal.
(Telmo sái com repugnancia, e rodeando para ver se chega aopé de Magdalena. Jorge, que o percebe, faz-lhe um signal imperioso; elle recúa, e finalmente se retira pelo fundo.)
SCENA VIII
MAGDALENA, MANUEL DE SOUSA, JORGE
*Magdalena*. Jorge, meu irmão, meu bom Jorge, vós, que sois tam prudente e reflectido, não dais nenhum pêso ás minhas dúvidas?
*Jorge*. Tomára eu ser tam feliz que podésse, querida irman.
*Magdalena*. Pois intendeis?...
*Manuel*. Magdalena... senhora! Todas éstas coisas são ja indignas de nós.--Até hontem, a nossa desculpa, para com Deus e para com os homens, estava na boa fe e seguridade de nossas consciencias. Essa acabou. Para nós ja não ha senão éstas mortalhas, (_tomando os habitos de cima da banca_) e a sepultura d'um claustro.--A resolução que tomámos é a unica possivel; e ja não ha que voltar atrás... Ainda hontem fallavamos dos condes de Vimioso... Quem nos diria... oh incomprehensiveis mysterios de Deus!... Ánimo, e ponhamos os olhos n'aquella cruz!--Pela última vez, Magdalena... pela derradeira vez n'este mundo, querida... (_Vai para a abraçar e recúa_) Adeus, adeus! (_Foge precipitadamente pela porta da esquerda_.)
SCENA IX
MAGDALENA, JORGE, _côro dos frades dentro_.
*Magdalena*. Ouve, espera; uma so, uma so palavra: Manuel de Sousa!... (_Toca o orgam dentro_.)
*Côro*, _dentro_. De profundis clamavi ad te, Domine; Domine, exaudi vocem meam.
*Magdalena*, _indo abraçar-se, com a cruz_. Oh Deus, Senhor meu! pois ja, ja? nem mais um instante, meu Deus?--Cruz do meu Redemptor, oh cruz preciosa, refúgio d'infelizes, ampara-me tu, que me abandonaram todos n'este mundo, e ja não posso com as minhas desgraças... e estou feita um espectaculo de dor e d'espanto para o ceu e para a terra!--Tomae, Senhor, tomae tudo...--A minha filha também?... Oh! a minha filha, a minha filha... tambem essa vos dou, meu Deus.--E agora, que mais quereis de mim, Senhor? (_Toca o orgam outra vez_.)
*Côro*, _dentro_. Fiant aures tuæ intendentes; in vocem deprecationis meæ.
*Jorge*. Vinde, minha irman, é a voz do Senhor que vos chama. Vai começar a sancta cerimonia.
*Magdalena*, _inchugando as lagrymas e com resolução_. Elle foi?
*Jorge*. Foi sim, minha irman.
*Magdalena*, _levantando-se_. E eu vou. (_Sahem ambos pela porta do fundo_.)
SCENA X
_Corre o panno do fundo, e apparece a egreja de San'Paulo: os frades sentados no côro. Em pé juncto ao altar-mór, o_ PRIOR DE BEMFICA. _Sôbre o altar dois escapularios dominicanos_. MANUEL DE SOUSA _de joelhos com o hábito de noviço vestido, á direita do Prior. O_ ARCEBISPO _de capa-magna e barrete no seu throno, rodeado dos seus clerigos em sobrepelizes. Pouco depois entra_ JORGE _acompanhando_ MAGDALENA _tambem ja vestida de noviça e que vai ajoelhar á esquerda do Prior.--Toca o orgam_.
*Côro*. Si iniquitates observaveris, Domine; Domine, quis sustinebit?
*Prior*, _tomando os escapularios de cima do altar_. Manuel de Sousa-Coutinho, irmão Luiz de Sousa, pois em tudo quizestes despir o homem velho, abandonando tambem ao mundo o nome que n'elle tinheis!--Soror Magdalena! Vós ambos, que ja fostes nobres senhores no mundo, e aqui estais prostrados no pó da terra, n'esse humilde hábito de pobres noviços; que deixastes tudo, até vos deixar a vós mesmos... filhos de Jesus Christo, e agora de nosso padre San'Domingos, recebei com este bento escapulario...
SCENA XI
O PRIOR DE BEMFICA, _o_ ARCEBISPO, MANUEL DE SOUSA, MAGDALENA, etc. MARIA, _que entra precipitadamente pela egreja em estado de completa alienação; traz umas roupas brancas, desalinhadas e cahidas, os cabellos soltos, o rosto macerado, mas inflammado com as rosetas ethicas, os olhos desvairados; pára um momento, reconhece os pais e vai direita a elles.--Espanto geral: a cerimonia interrômpe-se_.
*Maria*. Meu pae, meu pae, minha mãe! levantae-vos, vinde. (_Toma-os pelas mãos; elles obedecem machinalmente, veem ao meio da scena: confusão geral_.)
*Magdalena*. Maria! minha filha!
*Manuel*. Filha, filha!... Oh, minha filha!... (_Abraçam-se ambos n'ella_.)
*Maria*, _separando-se com elles da outra gente, e trazendo-os para a bôcca da scena_. Esperae: aqui não morre ninguem sem mim. Que quereis fazer? Que cerimonias são éstas? Que Deus é esse que está n'esse altar, e quer roubar o pae e a mãe a sua filha?--(_Para os circumstantes_) Vós quem sois, espectros fataes?... quereis-m'os tirar dos meus braços?... Esta é a minha mãe, este é o meu pae... Que me importa a mim com o outro? Que morrêsse ou não, que esteja com os mortos ou com os vivos--que se fique na cova ou que resuscite agora para me mattar?... Matte-me, matte-me, se quer, mas deixe-me este pae, ésta mãe, que são meus.--Não ha mais do que vir ao meio de uma familia e dizer: «Vós não sois marido e mulher?... e ésta filha do vosso amor, ésta filha criada ao collo de tantas meiguices, de tanta ternura, ésta filha é...»--Mãe, mãe, eu bem o sabia... nunca t'o disse, mas sabia-o: tinha-m'o ditto aquelle anjo terrivel que me apparecia todas as noites para me não deixar dormir... aquelle anjo que descia com uma espada de chammas na mão, e a atravessava entre mim e ti, que me arrancava dos teus braços quando eu adormecia n'elles... que me fazia chorar quando meu pae ia beijar-me no teu collo.--Mãe, mãe, tu não hasde morrer sem mim... Pae, dá ca um panno da tua mortalha... dá ca, eu quero morrer antes que elle venha: (_incolhendo-se no hábito do pae_) quero-me esconder aqui, antes que venha esse homem do outro mundo dizer-me na minha cara e na tua--aqui deante de toda ésta gente: «Essa filha é a filha do crime e do peccado!...» Não sou; dize, meu pae, não sou... dize a essa gente toda, dize que não sou. (_Vai para Magdalena_) Pobre mãe! tu não podes... coitada!... não tens ánimo...--nunca mentiste?... Pois mente agora para salvar a honra de tua filha, para que lhe não tirem o nome de seu pae.
*Magdalena*. Misericordia, meu Deus!
*Maria*. Não queres? Tu tambem não, pae?--Não querem. E eu heide morrer assim... e elle vem ahi...
SCENA XII
MARIA, MAGDALENA, MANUEL; o ROMEIRO e TELMO _que apparecem no fundo da scena sahindo detrás do altar-mór_.
*Romeiro*, _para Telmo_. Vai, vai; ve se ainda é tempo: salva-os, salva-os, que ainda podes... (_Telmo dá alguns passos para deante_.)
*Maria*, _apontando para o romeiro_. É aquella voz, é elle, é elle.--Já não é tempo... Minha mãe, meu pae, cobri-me bem éstas faces, que morro de vergonha... (_Esconde o rosto no seio da mãe_) morro, morro... de vergonha... (_Cái e fica morta no chão. Manuel de Sousa e Magdalena prostram-se ao pé do cadaver da filha_.)
*Manuel*, _depois de algum espaço, levânta-se de joelhos_. Minha irman, rezemos por alma... incommendemos a nossa alma a este anjo que Deus levou para si.--Padre prior, podeis-me lançar aqui o escapulario?
*Prior*, _indo buscar os escapularios ao altar-mór e tornando_. Meus irmãos, Deus afflige n'este mundo áquelles que ama. A coroa de glória não se dá senão no céu.
(_Toca o orgam; e cái o panno_.)
FREI LUIZ DE SOUSA
Depois do brilhantissimo livro «Viagens na minha terra», de que os maiores escriptores, como Rebello da Silva, Castilho, Gomes d'Amorim, Theophilo Braga, etc., disseram ser um monumento immorredouro da litteratura portugueza, a melhor obra de Garrett é, sem contestação, o «Frei Luiz de Sousa». Vegezzi Ruscalla, na revista «Cornelia» de Florença, diz, a pag. 180, que Portugal tem no auctor do «Frei Luiz de Sousa» o seu Goethe, o seu Byron, o seu Lamartine e o seu Manzoni, ajuntando: «Questo drama é un vero capolavoro». A. P. Lopes de Mendonça («Memorias da litteratura contemporanea», Lisboa 1855) escreveu: «...talvez pareçam demasiadamente singelos os dados d'esta funebre tragedia, e todavia cremos que a litteratura moderna não possue monumentos de mais superior e acabado molde...» Th. Braga («Questões de litteratura e arte portugueza», Lisboa 1882, pag. 384) chama-lhe _tragedia unica, e sem rival nas litteraturas modernas_. Rebello da Silva acha que as scenas do terceiro acto do «Frei Luiz de Sousa» são as mais tragicas que conhece, e o quarto acto é o maior esforço dramatico de que tem noticia.
«Frei Luiz de Sousa» tem tres traducções francezas; está tambem vertido em hespanhol, italiano, inglez e allemão. Foi representado em Paris. Muito se tem escripto sobre a grandiosa tragedia, sendo a ultima producção--_«Frei Luiz de Sousa» de Garrett_--Notas com um prefacio de Th. Braga, por Joaquim d'Araujo.