# Frei Luiz de Sousa

## Part 4

Book page: https://www.cyberlibrary.org/pt/books/frei-luiz-de-sousa-17591/index.md

*Romeiro*. Agora acabo; soffrei, que elle tambem soffreu muito.--Aqui estão as suas palavras: «Ide a D. Magdalena de Vilhena, e dizei-lhe que um homem que muito bem lhe quiz... aqui está vivo... por seu mal... e d'aqui não pôde sahir nem mandar-lhe novas suas de ha vinte annos que o trouxeram captivo.»

*Magdalena*, _na maior anciedade_. Deus tenha misericordia de mim!--E esse homem, esse homem... Jesus! esse homem era... esse homem tinha sido... levaram-n'o ahi de donde!... de Africa?

*Romeiro*. Levaram.

*Magdalena*. Captivo?...

*Romeiro*. Sim.

*Magdalena*. Portuguez?... captivo da batalha de?...

*Romeiro*. De Alcacer-Kebir.

*Magdalena*, _espavorida_. Meu Deus, meu Deus! Que se não abre a terra debaixo dos meus pés?... que não cahem éstas paredes, que me não sepultam ja aqui?...

*Jorge*. Callae-vos, D. Magdalena: a misericordia de Deus é infinita; esperae. Eu duvido, eu não creio... éstas não são coisas para se crerem de leve. (_Reflecte, e logo como por uma idea que lhe acccudiu derepente_) Oh! inspiração divina... (_Chegando ao romeiro_) Conheceis bem esse homem, romeiro: não é assim?

*Romeiro*. Como a mim mesmo.

*Jorge*. Se o vireis... ainda que fôra n'outros trajes... com menos annos--pintado, digamos--conhece-lo-heis?

*Romeiro*. Como se me visse a mim mesmo n'um espelho.

*Jorge*. Procurae n'estes retrattos, e dizei-me se algum d'elles póde ser.

*Romeiro*, _sem procurar, e apontando logo para o retratto de D. João_. É aquelle.

*Magdalena*, _com um grito espantoso_. Minha filha, minha filha, minha filha!... (_em tom cavo e profundo_) Estou... estás... perdidas, deshonradas... infames! (_Com outro grito do coração_) Oh minha filha, minha filha!... (_Foge espavorida e n'este gritar_.)

SCENA XV

JORGE e o ROMEIRO, que seguiu Magdalena com os olhos, e está alçado no meio da casa com aspecto severo e tremendo.

*Jorge*. Romeiro, romeiro! quem es tu?

*Romeiro*, _apontando com o bordão para o retratto de D. João de Portugal_. Ninguem.

(Frei Jorge cái prostrado no chão, com os braços estendidos, deante da tribuna. O panno desce lentamente.)

ACTO TERCEIRO

_Parte baixa ao palacio de D. João de Portugal, communicando, pela porta á esquerda do espectador, com a capella da Senhora-da-Piedade na egreja de San'Paulo dos Dominicos d'Almada: é um casarão vasto sem ornato algum. Arrumadas ás paredes, em diversos pontos, escadas, tocheiras, cruzes, ciriaes e outras alfaias e guizamentos d'egreja de uso conhecido. A um lado um esquife dos que usam as confrarias; do outro uma grande cruz negra de tábua com o letreiro J. N. R. J., e toalha pendente, como se usa nas cerimonias da semana-sancta. Mais para a scena uma banca velha com dois ou tres tamboretes; a um lado uma tocheira baixa com tocha accesa e ja bastante gasta; sôbre a mesa um castiçal de chumbo, de credencia, baixo e com vela accesa tambem,--e um hábito completo de religioso dominico, tunica, escapulario, rosario, cinto, etc. No fundo, porta que dá para as officinas e aposentos que occupam o resto dos baixos do palacio.--É alta noite_.

SCENA I

MANUEL DE SOUSA, _sentado n'um tamborete, aopé da mesa, o rosto inclinado sôbre o peito, os braços cahidos e em completa prostração d'espirito e de corpo; n'um tamborete do outro lado_ JORGE, _meio incostado para a mesa, com as mãos postas, e os olhos pregados no irmão_.

*Manuel*. Oh minha filha, minha filha! (_Silencio longo_) Desgraçada filha, que ficas orphan!... orphan de pae e mãe... (_pausa_)... e de familia e de nome, que tudo perdêste hoje... (_Levânta-se com violenta afflição_) A desgraçada nunca os teve!--Oh Jorge, que ésta lembrança é que me matta, que me desespera! (_Appertando a mão do irmão, que se levantou após d'elle e o está consolando do gesto_.) É o castigo terrivel do meu êrro... se foi êrro... crime sei que não foi. E sabe-o Deus, Jorge, e castigou-me assim, meu irmão!

*Jorge*. Paciencia, paciencia: os seus juizos são imperscrutaveis. (_Acalma e faz sentar o irmão: tornam a ficar ambos como estavam_.)

*Manuel*. Mas eu em que mereci ser feito o homem mais infeliz da terra, pôsto de alvo á irrisão e ao discursar do vulgo?... Manuel de Sousa-Coutinho, o filho de Lopo de Sousa-Coutinho, o filho do nosso pae, Jorge!

*Jorge*. Tu chámas-te o homem mais infeliz da terra... Ja te esquecêste que ainda está vivo aquelle...

*Manuel*, _cahindo em si_. É verdade. (_Pausa; e depois como quem se desdiz_) Mas não é, nem tanto: padeceu mais, padeceu mais longamente, e bebeu até ás fezes o calix das amarguras humanas... (_Levantando a voz_) Mas fui eu, eu que lh'o preparei, eu que lh'o dei a beber, pelas mãos... innocentes mãos!... d'essa infeliz que arrastei na minha quéda, que lancei n'esse abysmo de vergonha, a quem cobri as faces--as faces puras, e que não tinham córado d'outro pejo senão do da virtude e do recato... cobri-lh'as de um veo d'infamia que nem a morte hade levantar, porque lhe fica, perpétuo e para sempre, lançado sôbre o tumulo a cobrir-lhe a memória de sombras... de manchas que se não lavam!--Fui eu o auctor de tudo isto, o auctor da minha desgraça e da sua deshonra d'elles... Sei-o, conheço-o; e não sou mais infeliz que nenhum?

*Jorge*. Ve a palavra que disseste: «deshonra»: lembra-te d'ella e de ti, e considera, se podes pleitear miserias com esse homem a quem Deus não quiz accudir com a morte antes de conhecer ess'outra agonia maior.--Elle não tem...

*Manuel*. Elle não tem uma filha como eu, desgraçado... (_pausa_)--uma filha bella, pura, adorada, sôbre cuja cabeça--oh! porque não é na minha!--vai cahir toda essa deshonra, toda a ignominia, todo o opprobrio que a injustiça do mundo, não sei porquê, me não quer lançar no rosto a mim, para pôr tudo na testa branca e pura de um anjo que não tem outra culpa senão a da origem que eu lhe dei.

*Jorge*. Não é assim, meu irmão; não te cegues com a dor, não te faças mais infeliz do que es. Ja não es pouco, meu pobre Manuel, meu querido irmão! e Deus hade levar em conta essas amarguras. Ja que te não póde apartar o calix dos beiços, o que tu padeces, hade ser descontado n'ella, hade resgatar a culpa...

*Manuel*. Resgate! sim, para o ceu: n'esse confio eu... mas o mundo?...

*Jorge*. Deixa o mundo e as suas vaidades.

*Manuel*. Estão deixadas todas. Mas este coração é de carne.

*Jorge*. Deus, Deus será o pae de tua filha.

*Manuel*. Olha, Jorge: queres que te diga o que sei decerto, e que devia ser consolação... mas não é, que eu sou homem, não sou anjo, meu irmão--devia ser consolação, e é desespêro, é a coroa d'espinhos de toda ésta paixão que estou passando... é que a minha filha... Maria... a filha do meu amor--a filha do meu peccado, se Deus quer que seja peccado--não vive, não resiste, não sobrevive a ésta affronta.

(Desata a soluçar, cái com os cotovelos fixos na mesa e as mãos appertadas no rosto: fica n'esta posição por longo tempo. Ouve-se de quando em quando um soluço comprimido. Frei Jorge está em pé, detrás d'elle, amparando-o com seu corpo, e os olhos postos no ceu.)

*Jorge*, _chamando timidamente_. Manuel!

*Manuel*. Que me queres, irmão?

*Jorge*, _animando-o_. Ella não está tam mal; já lá estive hoje...

*Manuel*. Estiveste?... oh! conta-me, conta-me; eu não tenho... não tive ainda ânimo de a ir ver.

*Jorge*. Haverá duas horas que entrei na sua camera, e estive aopé do leito. Dormia, e mais socegada da respiração. O accesso de febre, que a tomou quando chegámos de Lisboa e que viu a mãe n'aquelle estado,--parecia declinar... quebrar-se mais alguma coisa. Dorothea, e Telmo... pobre velho coitado!... estavam aopé d'ella, cada um de seu lado... disseram-me que não tinha tornado a... a...

*Manuel*. A lançar sangue?... Se ella deitou o do coração!... não tem mais. N'aquelle corpo tam franzino, tam delgado, que mais sangue hade haver?--Quando hontem a arranquei d'aopé da mãe e a levava nos braços, não m'o lançou todo ás golfadas aqui no peito? (_Mostra um lenço branco todo manchado de sangue_) Não o tenho aqui... o sangue... o sangue da minha víctima?... que é o sangue das minhas veias... que é o sangue da minha alma--é o sangue da minha querida filha! (_Beija o lenço muitas vezes_) Oh meu Deus, meu Deus! eu queria pedir-te que a levasses ja... e não tenho ânimo. Eu devia acceitar por mercê de tuas misericordias que chamasses aquelle anjo para junto dos teus, antes que o mundo, este mundo infame e sem commiseração, lhe cuspisse na cara com a desgraça do seu nascimento.--Devia, devia... e não posso, não quero, não sei, não tenho ânimo, não tenho coração. Peço-te vida, meu Deus (_ajoelha e põe as mãos_) peço-te vida, vida, vida... para ella, vida para a minha filha!... saude, vida para a minha querida filha!... e morra eu de vergonha, se é preciso; cubra-me o escarneo do mundo, deshonre-me o opprobrio dos homens, tape-me a sepultura uma loisa de ignominia, um epitaphio que fique a bradar por essas eras deshonra e infamia sôbre mim!... Oh meu Deus, meu Deus! (_Cái de bruços no chão... Passado algum tempo, Frei Jorge se chega para elle, levanta-o quasi a pêso, e o torna a assentar_.)

*Jorge*. Manuel, meu bom Manuel, Deus sabe melhor o que nos convem a todos: põe nas suas mãos esse pobre coração, põe-n'o resignado e contricto, meu irmão, e Elle fará o que em sua misericordia sabe que é melhor.

*Manuel*, _com vehemencia e medo_. Então desinganas-me... desinganas-me ja?... é isso que queres dizer? Falla, homem: não ha que esperar?... não ha que esperar d'alli, não é assim? dize: morre, morre?... (_desanimado_) Tambem fico sem filha!

*Jorge*. Não disse tal. Por charidade comtigo, meu irmão, não imagines tal. Eu disse-te a verdade: Maria pareceu-me menos opprimida; dormia...

*Manuel*, _variando_. Se Deus quizera que não acordásse!

*Jorge*. Valha-me Deus!

*Manuel*. Para mim aqui está ésta mortalha: (_tocando no hábito_) morri hoje... vou amortalhar-me logo; e adeus tudo o que era mundo para mim! Mas minha filha não era do mundo... não era, Jorge; tu bem sabes que não era: foi um anjo que veiu do ceu para me acompanhar na peregrinação da terra, e que me apontava sempre, a cada passo da vida, para a eterna pousada d'onde viera e onde me conduzia... Separou-nos o archanjo das desgraças, o ministro das iras do Senhor que derramou sôbre mim o vaso cheio das lagrymas, e a taça rasa das amarguras ardentes de sua cholera... (_Cahindo de tom_) Vou com ésta mortalha para a sepultura... e, viva ou morta, ca deixo a minha filha no meio dos homens que a não conheceram, que a não hãode conhecer nunca, porque ella não era d'este mundo nem para elle... (_Pausa_)--Torna lá, Jorge, vai vê-la outra vez, vai e vem-me dizer; que eu ainda não posso... mas heide ir, oh! heide ir vê-la e beijá-la antes de descer á cova... Tu não queres, não podes querer...

*Jorge*. Havemos de ir... quando estiveres mais socegado... havemos de ir ambos: descança, hasde vê-la.--Mas isto inda é cedo.

*Manuel*. Que horas serão?

*Jorge*. Quatro, quatro e meia. (_Vai á porta da esquerda e volta_) São cinco horas, pelo alvor da manhan que ja dá nos vidros da egreja. D'aqui a pouco iremos; mas socega.

*Manuel*. E a outra... a outra desgraçada, meu irmão?

*Jorge*. Está--imagina por ti--está como não podia deixar de estar: mas a confiança em Deus póde muito: vai-se conformando. O Senhor fará o resto.--Eu tenho fe n'este escapulario (_tocando no hábito em cima da mesa_) para ti e para ella. Foi uma resolução digna de vós, foi uma inspiração divina que os allumiou a ambos. Deixa estar; ainda póde haver dias felizes para quem soube consagrar a Deus as suas desgraças.

*Manuel*. E isso está tudo prompto? Eu não soffro n'estes hábitos, eu não aturo, com estes vestidos de vivo, a luz d'esse dia que vem a nascer.

*Jorge*. Está tudo concluido. O arcebispo mostrou-se bom e piedoso prelado n'esta occasião: e é um sancto homem, é. O arcebispo ja expediu todas as licenças e mais papeis necessarios. Coitado! o pobre do velho velou quasi toda a noite com o seu vigario para que não faltásse nada desde o romper do dia. Mandou-se ao provincial, e pela sua parte e pela nossa tudo está corrente. Frei João de Portugal, que é o prior de Bemfica, e tambem vigario do Sacramento, sabes, chegou haverá duas horas, noite fechada ainda, e ca está: é quem te hade lançar o hábito, a ti e a Dona... a minha irman.--Depois ireis, segundo o vosso desejo, um para Bemfica, outro para o Sacramento.

*Manuel*. Tu es um bom irmão, Jorge: (_apperta-lhe a mão_) Deus t'o hade pagar. (_Pausa_) Eu não me atrevo... tenho repugnancia... mas é forçoso perguntar-te por alguem mais. Onde está _elle_... e o que fará!...

*Jorge*. Bem sei, não digas mais: o romeiro. Está na minha cella, e de lá não hade sahir--que foi ajustado entre nós--senão quando... quando eu lh'o disser. Descança: não verá ninguem, nem será visto de nenhum d'aquelles que o não devem ver. Demais, o segrêdo de seu nome verdadeiro está entre mim e ti--além do arcebispo, a quem foi indispensavel communicá-lo para evitar todas as formalidades e delongas que aliás havia de haver n'uma separação d'esta ordem.--Ainda ha outra pessoa com quem lhe prometti--não pude deixar de prometter, porque sem isso não queria elle entrar em accôrdo algum--com quem lhe prometti que havia de fallar hoje e antes de mais nada.

*Manuel*. Quem? será possivel?... Pois esse homem quer ter a crueldade de rasgar, fevra a fevra, os pedaços d'aquelle coração ja partido?--Não tem intranhas esse homem: sempre assim foi, duro, desapiedado como a sua espada.--É D. Magdalena que elle quer ver?...

*Jorge*. Não, homem; é o seu aio velho, é Telmo-Paes. Como lh'o havia de eu recusar?

*Manuel*. De nenhum modo: fizeste bem; eu é que sou injusto. Mas o que eu padeço é tanto e tal!...--Vamos; eu ainda me não intendo bem claro com ésta desgraça: dize-me, falla-me a verdade: minha mulher...--minha mulher! com que bôcca pronuncio eu ainda éstas palavras!--D. Magdalena o que sabe?

*Jorge*. O que lhe disse o romeiro n'aquella fatal sala dos retrattos... o que ja te contei. Sabe que D. João está vivo, mas não sabe aonde; suppõe-no na Palestina talvez; é onde o deve suppor pelas palavras que ouviu.

*Manuel*. Então não conhece, como eu, toda a extensão, toda a indubitavel verdade da nossa desgraça. Ainda bem! talvez possa duvidar, consolar-se com alguma esperança de incerteza.

*Jorge*. Hontem de tarde não; mas ésta noite começava a raiar-lhe no espirito alguma falsa luz d'essa van esperança. Deus lh'a deixe, se é para bem seu.

*Manuel*. Porque não hade deixar? Não é ja desgraçada bastante?--E Maria, a pobre Maria!... Essa confio no Senhor que não saiba, ao menos por ora...

*Jorge*. Não sabe. E ninguem lh'o disse, nem dirá. Não sabe senão o que viu: a mãe quasi nas agonias da morte. Mas o motivo, so se ella o adivinhar.--Tenho medo que o faça...

*Manuel*. Tambem eu.

*Jorge*. Deus será comnosco e com ella!--Mas não: Telmo não lhe diz nada por certo; eu já lhe asseverei--e accreditou-me--que a mãe estava melhor, que tu ias logo vê-la... E assim espero que, até lá por meio dia, a possamos conservar em completa ignorancia de tudo. Depois ir-se-lhe-ha dizendo, pouco a pouco, até onde for inevitavel. E Deus... Deus accudirá.

*Manuel*. Minha pobre filha, minha querida filha!

SCENA II

JORGE, MANUEL DE SOUSA, TELMO

*Telmo*, _batendo de fóra á porta do fundo_. Acordou.

*Manuel*, _sobresaltado_. É a voz de Telmo?

*Jorge*. É. (_Indo abrir a porta_) Entrae, Telmo.

*Telmo*. Acordou.

*Jorge*. E como está?

*Telmo*. Melhor, muito melhor, parece outra. Está muito abatida, isso sim; muito fraca, a voz lenta, mas os olhos serenos, animados como d'antes e sem aquelle fusilar de hontem. Perguntou por vós... ambos.

*Manuel*. E pela mãe?

*Telmo*. Não: nunca mais fallou n'ella.

*Manuel*. Oh filha, filha!...

*Jorge*. Iremos vê-la. (_péga na mão do irmão_) Tu promettes-me?...

*Manuel*. Prometto.

*Jorge*. Vamos.--(_Chamando a Telmo para a bôcca da scena_) Ouvi, Telmo: lembraes-vos do que vos disse ésta manhan?

*Telmo*. Não me heide lembrar?

*Jorge*. Ficae aqui. Em nós sahindo, puchae aquella corda que vai dar á sineta da sachristia: virá um irmão converso; dizei-lhe o vosso nome, elle ir-se-ha sem mais palavra, e vós esperae. Fechae logo ésta porta por dentro, e não abraes senão á minha voz. Intendestes?

*Telmo*. Ide descançado.

SCENA III

TELMO, _depois o_ IRMÃO CONVERSO

*Telmo* _vai para deitar a mão á corda, pára suspenso algum tempo, e depois_: Vamos: isto hade ser. (_Ouve-se tocar longe uma sineta: Telmo fica pensativo, e com o braço alevantado e immovel_.)

*Converso*. Quem sois?

*Telmo*, _estremecendo_. Telmo-Paes.

(O converso faz venia e vai-se.)

SCENA IV

*Telmo* _so_. Virou-se-me a alma toda com isto: não sou ja o mesmo homem. Tinha um presentimento do que havia de acontecer... parecia-me que não podia deixar de succeder... e cuidei que o desejava em quanto não veiu.--Veiu, e fiquei mais aterrado, mais confuso que ninguem!--Meu honrado amo, o filho do meu nobre senhor está vivo... o filho que eu criei n'estes braços... vou saber novas certas d'elle--no fim de vinte annos de o julgarem todos perdido--e eu, eu que sempre esperei, que sempre suspirei pela sua vinda...--era um milagre que eu esperava sem o crer! Eu agora tremo... É que o amor d'est'outra filha, d'esta última filha, é maior, e venceu... venceu, apagou o outro. Perdoe-me Deus, se é peccado. Mas que peccado hade haver com aquelle anjo?--Se me ella viverá, se escapará d'esta crise terrivel!--Meu Deus, meu Deus! (_ajoelha_) levae o velho que já não presta para nada, levae-o por quem sois! (_Apparece o romeiro á porta da esquerda, e vem lentamente approximando-se de Telmo que não dá por elle_.) Contentae-vos com este pobre sacrificio da minha vida, Senhor, e não me tomeis dos braços o innocentinho que eu criei para vós, Senhor, para vós... mas ainda não, não m'o leveis ainda. Já padeceu muito, já traspassaram bastantes dores aquella alma: esperae-lhe com a da morte algum tempo!

SCENA V

TELMO _e o_ ROMEIRO

*Romeiro*. Que não oiça Deus o teu rôgo!

*Telmo*, _sobresaltado_. Que voz!--Ah! é o romeiro.--Que me não oiça Deus! porquê?

*Romeiro*. Não pedias tu por teu desgraçado amo, pelo Filho que criáste?

*Telmo*, _áparte_. Já não sei pedir senão pela outra. (_Alto_) E que pedisse por elle, ou por outrem, porque me não hade ouvir Deus, se lhe peço a vida de um innocente?

*Romeiro*. E quem te disse que elle o era?

*Telmo*. Ésta voz... ésta voz!--Romeiro, quem es tu?

*Romeiro*, _tirando o chapéu e alevantando o cabello dos olhos_. Ninguem, Telmo, ninguem, se nem ja tu me conheces.

*Telmo*, _deitando-se-lhe ás mãos para lh'as beijar_. Meu amo, meu senhor... sois vós?--sois, sois.--D. João de Portugal, oh, sois vós, senhor?

*Romeiro*. Teu filho ja não?

*Telmo*. Meu filho!... Oh! é o meu filho todo; a voz, o rosto... Só estas barbas, este cabello não... Mais branco ja que o meu, senhor!

*Romeiro*. São vinte annos de captiveiro e miseria, de saudades, de âncias que por aqui passaram. Para a cabeça bastou uma noite como a que veiu depois da batalha d'Alcacer; a barba, acabaram de a curar o sol da Palestina e as aguas do Jordão.

*Telmo*. Por tam longe andastes?

*Romeiro*. E por tam longe eu morrêra!--Mas não quiz Deus assim.

*Telmo*. Seja feita a sua vontade.

*Romeiro*. Pêza-te?

*Telmo*. Oh, senhor!

*Romeiro*. Pêza-te?

*Telmo*. Hade-me pezar da vossa vida? (_Á parte_) Meu Deus! Parece-me que menti...

*Romeiro*. E porque não, se ja me pêza a mim d'ella, se tanto me pêza ella a mim?--Amigo, ouve... Tu es meu amigo?

*Telmo*. Não sou?

*Romeiro*. Es: bem sei. E comtudo, vinte annos d'ausencia, e de conversação de novos amigos, fazem esquecer tanto os velhos!...--Mas tu es meu amigo. E se tu o não fôras, quem o sería?

*Telmo*. Senhor!

*Romeiro*. Eu não quiz acabar com isto, não quiz pôr em effeito a minha última resolução sem fallar comtigo, sem ouvir da tua bôcca...

*Telmo*. O que quereis que vos diga, senhor?--Eu...

*Romeiro*. Tu, bem sei que duvidaste sempre da minha morte, que não quizeste ceder a nenhuma evidência; não me admirou de ti, meu Telmo. Mas tambem não posso--Deus me ouve--não posso criminar ninguem porque o accreditásse: as provas eram de convencer todo o ânimo; so lhe podia resistir o coração. E aqui... coração que fosse meu... não havia outro.

*Telmo*. Sois injusto.

*Romeiro*. Bem sei o que queres dizer.--E é verdade isso? é verdade que por toda a parte me procuraram, que por toda a parte... ella mandou mensageiros, dinheiro?

*Telmo*. Como é certo estar Deus no ceu, como é verdade ser aquella a mais honrada e virtuosa dama que tem Portugal.

*Romeiro*. Basta: vai dizer-lhe que o peregrino era um impostor, que desappareceu, que ninguem mais houve novas d'elle; que tudo isto foi vil e grosseiro imbuste dos inimigos de... dos inimigos d'esse homem-que ella ama... E que socegue, que seja feliz.--Telmo, adeus!

*Telmo*. E eu heide mentir, senhor, eu heide renegar de vós, como ruim villão que não sou?

*Romeiro*. Hasde, porque eu te mando.

*Telmo*, _em grande anciedade_. Senhor, senhor, não tenteis a fidelidade do vosso servo. É que vós não sabeis... D. João, meu senhor, meu amo, meu filho, vós não sabeis...

*Romeiro*. O quê?

*Telmo*. Que ha aqui um anjo... uma outra filha minha, senhor, que eu também criei...

*Romeiro*. E a quem já queres mais que a mim: dize a verdade.

*Telmo*. Não m'o pergunteis.

*Romeiro*. Nem é preciso. Assim devia de ser. Tambem tu!--Tiraram-me tudo. (_Pausa_)--E teem um filho elles?...--Eu não...--E mais, imagino... Oh passaram hoje peior noite do que eu. Que lh'o leve Deus em conta e lhes perdoe como eu perdoei ja.--Telmo, vai fazer o que te mandei.

*Telmo*. Meu Deus, meu Deus! que heide eu fazer?

*Romeiro*. O que te ordena teu amo.--Telmo, dá-me um abraço. (_Abraçam-se_) Adeus, adeus até...

*Telmo*. Até quando, senhor?

*Romeiro*. Até ao dia de juizo...

*Teimo*. Pois vós?...

*Romeiro*. Eu...--Vai, saberás de mim quando for tempo. Agora é preciso remediar o mal feito. Fui imprudente, fui injusto, fui duro e cruel. E para quê?--D. João de Portugal morreu no dia em que sua mulher disse que elle morrêra. Sua mulher honrada e virtuosa, sua mulher que elle amava... oh Telmo, Telmo, com que amor a amava eu! Sua mulher que elle ja não póde amar sem deshonra e vergonha!... Na hora em que ella accreditou na minha morte, n'essa hora morri. Com a mão que deu a outro riscou-me do número dos vivos. D. João de Portugal não hade deshonrar a sua viuva. Não: vai; ditto por ti terá dobrada fôrça: dize-lhe que fallaste com o romeiro, que o examináste, que o convencêste de falso e de impostor... dize o que quizeres, mas salva-a a ella da vergonha, e ao meu nome da affronta. De mim ja não ha senão esse nome, ainda honrado; a memória d'elle que fique sem mancha.--Está em tuas mãos, Telmo, intrego-te mais que a minha vida. Queres faltar-me agora?

*Telmo*. Não, meu senhor: a resolução é nobre e digna de vós. Mas póde ella approveitar ainda?

*Romeiro*. Porque não?

*Telmo*. Eu sei!--Talvez...

SCENA VI

ROMEIRO, TELMO; _e_ MAGDALENA _de fóra á porta do fundo_.

*Magdalena*. Espôso, espôso! abri-me, por quem sois. Bem sei que aqui estaes: abri.

*Romeiro*. É ella que me chama. Sancto Deus! Magdalena que chama por mim...

*Telmo*. Por vós!

*Romeiro*. Pois por quem?... não lhe ouvis gritar:--«Espôso, espôso?»

*Magdalena*. Marido da minha alma, pelo nosso amor te peço, pelos doces nomes que me déste, pelas memórias da nossa felicidade antiga, pelas saudades de tanto amor e tanta ventura, oh! não me negues este último favor.

*Romeiro*. Que incanto, que seducção! Como lhe heide resistir!

*Magdalena*. Meu marido, meu amor, meu Manuel!

*Romeiro*. Ah!... E eu tam cego que ja tomava para mim!...--Ceu e inferno! abra-se ésta porta...(_investe para a porta com impeto; mas pára derepente_) Não: o que é ditto, é ditto. (_Vai precipitadamente á corda da sineta, toca com violencia; apparece o mesmo irmão converso, e a um signal do romeiro ambos desapparecem pela porta da esquerda_.)

SCENA VII

