# Frei Luiz de Sousa

## Part 3

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*Maria*, _com enthusiasmo_. Está no ceu.--Que o ceu fez-se para os bons e para os infelizes, para os que ja ca da terra o adivinharam!--Este lia nos mysterios de Deus; as suas palavras são de propheta. Não te lembras o que lá diz do nosso rei D. Sebastião?... como havia de elle então morrer? Não morreu. (_Mudando de tom_) Mas o outro, o outro... quem é est'outro, Telmo? Aquelle aspecto tam triste, aquella expressão de melancholia tam profunda... aquellas barbas tam negras e cerradas... e aquella mão que descança na espada como quem não tem outro arrimo, nem outro amor n'esta vida...

*Telmo*, _deixando-se surprehender_. Pois tinha, oh se tinha...

(Maria olha para Telmo, como quem comprehendeu, depois torna a fixar a vista no retratto; e ambos ficam deante d'elle como fascinados. No entretanto e ás últimas palavras de Maria, um homem imbuçado com o chapeu sôbre os olhos levanta o reposteiro da direita e vem, pé ante pé, approximando-se dos dois que o não sentem.)

SCENA II

MARIA, TELMO e MANUEL DE SOUSA

*Manuel*. Aquelle era D. João de Portugal, um honrado fidalgo, e um valente cavalleiro.

*Maria*, _respondendo sem observar quem lhe falla_. Bem m'o dizia o coração!

*Manuel*, _desimbuçando-se e tirando o chapeu com muito affecto_. Que te dizia o coração, minha filha?

*Maria*, _reconhecendo-o_. Oh meu pae, meu querido pae! ja me não diz mais nada o coração senão isto. (_Lânça-se-lhe nos braços e beija-o na face muitas vezes_.)--Ainda bem que viestes.--Mas de dia!... não tendes receio, não ha perigo ja?

*Manuel*. Perigo, pouco. Hontem á noite não pude vir; e hoje não tive paciencia para aguardar todo o dia: vim bem coberto com ésta capa...

*Telmo*. Não ha perigo nenhum, meu senhor; podeis estar á vontade e sem receio. Ésta madrugada muito cedo estive no convento, e sei pelo senhor Frei Jorge que está, se póde dizer, tudo concluido.

*Manuel*. Pois ainda bem, Maria. E tua mãe, tua mãe, filha?

*Maria*. Desde hontem está outra...

*Manuel*, _em acção de partir_. Vamos a vê-la.

*Maria*, _retendo-o_. Não, que dorme ainda.

*Manuel*. Dorme? Oh, então melhor.--Sentêmo'-nos aqui filha, e conversêmos. (_Toma-lhe as mãos; sentam-se_) Tens as mãos tam quentes! (_Beija-a na testa_) E ésta testa, ésta testa!... escalda.--Se isto está sempre a ferver! Valha-te Deus, Maria! Eu não quero que tu penses.

*Maria*. Então que heide eu fazer?

*Manuel*. Folgar, rir, brincar, tanger na harpa, correr nos campos, apanhar as flores...--E Telmo que te não conte mais histórias, que te não insine mais trovas e soláos. Poetas e trovadores padecem todos da cabeça... e é um mal que se péga.

*Maria*. Então para que fazeis vós como elles?... eu bem sei que fazeis.

*Manuel*, _surrindo_. Se tu sabes tudo! Maria, minha Maria. (_Amimando-a_) Mas não sabías ainda agora de quem era aquelle retratto...

*Maria*. Sabía.

*Manuel*. Ah! você sabía e estava fingindo?

*Maria*, _gravemente_. Fingir não, meu pae. A verdade... é que eu sabía de um saber ca de dentro; ninguem m'o tinha ditto; e eu queria ficar certa.

*Manuel*. Então adivinhas, feiticeira. (_Beija-a na testa_)--Telmo, ide ver se chamaes meu irmão: dizei-lhe que estou aqui.

SCENA III

MANUEL DE SOUSA e MARIA

*Manuel*. Ora ouve ca, filha. Tu tens uma grande propensão para achar maravilhas e mysterios nas coisas mais naturaes e singellas. E Deus intregou tudo á nossa razão, menos os segredos de sua natureza ineffavel, os de seu amor, e de sua justiça e misericordia para comnosco. Esses são os pontos sublimes e incomprehensiveis da nossa fe! Esses creem-se: tudo o mais examína-se.--Mas vamos: (_surrindo_) não dirão que sou da Ordem dos Prégadores? Hade ser d'estas paredes, é uncção da casa: que isto é quasi um convento aqui, Maria... Para frades de San'Domingos não nos falta senão o hábito...

*Maria*. Que não faz o monge...

*Manuel*. Assim é, querida filha! Sem hábito, sem escapulario nem corrêa, por baixo do setim e do velludo, o cilicio póde andar tam appertado sôbre as carnes, o coração tam contricto no peito... a morte--e a vida que vem depois d'ella--tam deante dos olhos sempre, como na cella mais estreita e com o burel mais grosseiro cingido. Mas emfim, chega-te aos bons... sempre é meio caminho andado. Eu estou contentissimo de virmos para ésta casa--quasi que nem ja me pêza da outra. Tenho aqui meu irmão Jorge e todos estes bons padres de San'Domingos como de portas a dentro.--Ainda não viste d'aqui a egreja? (_Levanta o reposteiro do fundo, e chegam ambos á tribuna_) É uma devota capella ésta. E todo o templo tam grave! dá consolação vê-lo. Deus nos deixe gosar em paz de tam boa visinhança. (_Tornam para o meio da casa_.)

*Maria*, _que parou deante do retratto de D. João de Portugal, vólta-se derepente para o pae_. Meu pae, este retratto é parecido?

*Manuel*. Muito; é raro ver tam perfeita similhança: o ar, os ademanes, tudo. O pintor copiou fielmente quanto viu. Mas não podia ver, nem lhe cabiam na télla, as nobres qualidades d'alma, a grandeza e valentia de coração,--e a fortaleza d'aquella vontade serena mais indomavel, que nunca foi vista mudar. Tua mãe ainda hoje estremece so de o ouvir nomear; era um respeito... era quasi um temor sancto que lhe tinha.

*Maria*. E lá ficou n'aquella fatal batalha!...

*Manuel*. Ficou.--Tens muita pena, Maria?

*Maria*. Tenho.

*Manuel*. Mas se elle vivêsse... não existias tu agora, não te tinha eu aqui nos meus braços.

*Maria*, _escondendo a cabeça no seio de seu pae_. Ai meu pae!

SCENA IV

MARIA, MANUEL DE SOUSA, JORGE

*Jorge*. Ora alviçaras, minha dona sobrinha! venha-me ja abraçar, senhora D. Maria. (_Maria beija-lhe o escapulario; e depois abraçam-se_) Inda bem que vieste, meu irmão! Está tudo feito: os governadores deixam cahir o caso em esquecimento; Miguel de Moura ja cedeu.--O arcebispo foi hontem a Lisboa e volta ésta tarde. Vamos eu e mais quatro religiosos nossos buscá-lo para o acompanhar, e tu hasde vir comnosco para lhe agradecer; que não teve parte no aggravo que te fizeram, e foi quem acabou com os outros que se não resentissem da offensa ou do que lhes prouve tomar como tal... deixêmos isso. Volta para o convento e quasi que vem ser teu hóspede: é preciso fazer-lhe cumprimento, que no-lo merece.

*Manuel*. Se elle vem so, sem os outros...

*Jorge*. So, so: os outros estão por essas quintas d'áquem do Tejo. E nós não chegâmos aqui senão lá por noite.

*Manuel*. Se intendes que posso ir...

*Jorge*. Pódes e deves.

*Manuel*. Vou decerto.--E até eu preciso de ir a Lisboa: tenho negócio de importancia no Sacramento, no vosso convento novo de freiras abaixo de San'Vicente; necessito fallar com a abbadessa.

*Maria*. Oh meu pae, meu querido pae, levae-me, por quem sois, comvosco. Eu queria ver a tia Joanna de Castro; é o maior gôsto que posso ter n'esta vida. Quero ver aquelle rosto... De mim não se hade tapar...

*Manuel*. E tua mãe?

*Maria*. Minha mãe dá licença, dá. Ella ja está boa... oh, e em vos vendo fica boa de todo, e eu vou.

*Manuel*. E os ares maus de Lisboa?

*Jorge*. Isso ja acabou de todo: nem signal de peste.--Mas emfim a prudencia...

*Maria*. A mim não se me péga nada.--Meu querido pae, vamos, vamos.

*Manuel*. Veremos o que diz tua mãe, e como ella está.

SCENA V

MARIA, MANUEL DE SOUSA, JORGE; MAGDALENA _entrando_

*Magdalena*, _correndo a abraçar Manuel de Sousa_. Estou boa ja, não tenho nada, espôso da minha alma, todo o meu mal era susto; era terror de te perder.

*Manuel*. Querida Magdalena!

*Magdalena*. Agora estou boa: Telmo ja me disse tudo, e curou-me com a boa nova.--Maria, Deus lembrou-se de nós: ouviu as tuas orações, filha, que as minhas... (_Vai a recahir na sua tristeza_.)

*Jorge*. Ora pois, mana, ora pois!... Louvado seja Elle por tudo. E haja alegria! Que era sermos desagradecidos para com o Senhor, que nos valeu, mostrar-se hoje alguem triste n'esta casa.

*Magdalena*, _fazendo por se alegrar_. Triste porquê? As tristezas acabaram. (_Para Manuel de Sousa_) Tu ficas aqui ja de vez. Não me deixas mais, não sais d'aopé de mim?--Agora, olha, estes primeiros dias ao menos, hasde-me aturar, hasde-me fazer companhia. Preciso muito, querido.

*Manuel*. Pois sim, Magdalena, sim; farei quanto quizeres.

*Magdalena*. É que eu estou boa... boa de todo; mas tenho uma...

*Manuel*. Uma imaginação que te atormenta. Havemos de castigá-la, ainda que não seja senão para dar exemplo a certa donzella que nos está ouvindo e que precisa... precisa muito.--Pois olha: hoje é sexta-feira...

*Magdalena*. Sexta-feira! (_aterrada_) ai que é sexta-feira!

*Manuel*. Para mim tem sido sempre o dia mais bem estreado de toda a semana.

*Magdalena*. Sim!

*Manuel*. É o dia da paixão de Christo, Magdalena.

*Magdalena*, _cahindo em si_. Tens razão.

*Manuel*. É hoje sexta-feira: e d'aqui a oito... vamos--d'aqui a quinze dias bem contados, não saio de casa. Estás contente?

*Magdalena*. Meu espôso, meu marido, meu querido Manuel!

*Manuel*. E tu, Maria?

*Maria*, _amuada_. Eu não.

*Manuel*, _para Magdalena_. Queres tu saber por que é aquelle amúo? É que eu precisava de ir hoje a Lisboa...

*Magdalena*. A Lisboa... hoje!

*Manuel*. Sim: e não posso deixar de ir. Sabes que por fins d'esta minha pendencia com os governadores, eu fiquei em dívida--quem sabe se da vida? Miguel de Moura e esses meus degenerados parentes eram capazes de tudo!--Mas o certo é que fiquei em muita dívida ao arcebispo. Elle volta hoje aqui para o convento; e meu irmão, que vai com outros religiosos para o acompanharem, intende que eu tambem devo ir. Bem ves que não ha remedio.

*Magdalena*. Logo hoje!... Este dia de hoje é o peior... se fosse ámanhan, se fosse passado hoje!... E quando estarás de volta?

*Jorge*. Estamos aqui sem falta á bôcca da noite.

*Magdalena*, _fazendo por se resignar_. Paciencia: ao menos valha-nos isso. Não me deixam aqui so outra noite... ésta noite, particularmente, não fico so...

*Manuel*. Não, socega, não; estou aqui ao anoitecer. E nunca mais saio d'aopé de ti. E não serão quinze dias; vinte, os que tu quizeres.

*Maria*. Então vou, meu pae, vou?--Minha mãe dá licença, dá?

*Magdalena*. Vais aonde, filha? que dizes tu?

*Maria*. Com meu pae que tem de ir ao Sacramento, de caminho.--E bem sabeis, querida mãe, o que eu ando ha tanto tempo para ir áquelle convento para conhecer a tia D. Joanna...

*Jorge*. Soror Joanna: assim é que se chama agora.

*Maria*. É verdade. E andam-me a prometter, ha um anno, que me hãode levar lá... D'esta vez hãode-m'o cumprir... não é assim, minha mãe? (_acarinhando-a_) minha querida mãesinha!--Sim, sim, dizei ja que sim.

*Magdalena*, _abraçada com a filha_. Oh Maria, Maria... tambem tu me queres deixar!--tambem tu me desamparas... e hoje!

*Maria*. Venho logo, minha mãe, venho logo.--Olhae: e não tenhaes cuidado commigo: vai meu pae, vai o tio Jorge,--levo a minha aia, a Dorothea... E, é verdade, o meu fiel escudeiro hade ir tambem, o meu Telmo.

*Magdalena*. E tua mãe, filha, deixa-la aqui so, a morrer de tristeza? (_áparte_) e de medo!

*Manuel*. Tua mãe tem razão: não hade ser assim, hoje não póde ser. (_Maria fica triste e desconsolada_.)

*Jorge*.--Ora pois; eu ja disse que não queria ver hoje ninguem triste n'esta casa.--Venha ca a minha donzella dolorida, (_pegando-lhe pela mão_) e faça aqui muitas festas ao tio frade, que eu fico a fazer companhia a sua mãe. E vá, vá satisfazer essa louvavel curiosidade que tem de ir ver aquella sancta freirinha que tanto deixou para deixar o mundo e se ir interrar n'um claustro. Vá, e venha... melhor de coração, não póde ser--que tu es boa como as que são boas, minha Maria--Mas quero-te mais fria de cabeça: ouves?

*Maria*, _áparte_. Fria!... quando ella estiver ôca!--_(Alto)_ Vou-me apromptar, minha mãe?

*Magdalena*, _sem vontade_. Se teu pae quer...

*Manuel*. Dou licença: vai. (_Maria sái a correr_.)

SCENA VI

MANUEL DE SOUSA, MAGDALENA, JORGE

*Manuel*. É preciso deixá-la espairecer, mudar de logar, distrahir-se: aquelle sangue está em chammas, arde sôbre si e consomme-se, a não o deixarem correr á vontade.--Hade vir melhor: verás.

*Magdalena*. Deus o queira!--Telmo que vá com ella; não o quero ca.

*Manuel*. Porquê?

*Magdalena*. Porque... Maria... Maria não está bem sem elle--e elle tambem... em estando sem Maria--que é a sua segunda vida, diz o pobre do velho,--sabes? Ja treslê muito... já está muito... e entra-me com scismas que...

*Manuel*. Está, está muito velho, coitado! Pois que vá: melhor é.

SCENA VII

MANUEL DE SOUSA, MAGDALENA, JORGE; MARIA _entrando com_ TELMO e DOROTHEA

*Maria*. Então vamos, meu pae.

*Manuel*. Pois vamos.

*Jorge*. E são horas; vão. Á Ribeira é um pedaço de rio; e até ás sette, o mais, tu precisas de estar de volta á porta da Oira, que é onde irão ter os nossos padres á espera do arcebispo.--Eu ca me desculparei com o prior. Vão.

_Maria_. Minha mãe! (_abraçando-a_) Então, se choraes assim, não vou.

*Manuel*. Nem eu, Magdalena. Ora pois! Eu nunca te vi assim.

*Magdalena*. Porque nunca assim estive...--Vão, vão... adeus!--Adeus, espôso do meu coração!--Maria, minha filha, toma sentido no ar, não te resfries. E o sol... não sáias debaixo do tôldo no bergantim. Telmo, não te tires d'aopé d'ella.--Dá-me outro abraço, filha.--Dorothea, levaes tudo? (_Examina uma bolsa grande de damasco que Dorothea leva no braço_) Póde haver qualquer coisa, molhar-se, ter frio para a tarde... (_tendo examinado a bolsa_) Vai tudo: bem!--(_Baixo a Dorothea_) Não me apartes os olhos d'ella, Dorothea. Ouve. (_Falla baixo a Dorothea, que lhe responde baixo tambem; depois diz alto_) Está bom.

*Manuel*. Não tenhas cuidado; vamos todos com ella. (_Abraçam-se outra vez; Maria sái appressadamente, e para a mãe não ver que vai suffocada com chôro_.)

SCENA VIII

MANUEL DE SOUSA, MAGDALENA, JORGE

*Magdalena*, _seguindo com os olhos a filha e respondendo a Manuel de Sousa_. Cuidados!... eu não tenho ja cuidados. Tenho este medo, este horror de ficar so... de vir a achar-me so no mundo...

*Manuel*. Magdalena!

*Magdalena*. Que queres? não está na minha mão.--Mas tu tens razão de te infadar com as minhas impertinencias. Não fallêmos mais n'isso. Vai. Adeus!--Outro abraço. Adeus!

*Manuel*. Oh querida mulher minha, parece que vou eu agora imbarcar n'um galeão para a India... Ora vamos: ao anoitecer, antes da noite, aqui estou.--E Jesus!... Olha a condessa de Vimioso, ésta Joanna de Castro que a nossa Maria tanto deseja conhecer... olha se ella faria esses prantos quando disse o último adeus ao marido...

*Magdalena*. Bemditta ella seja! Deu-lhe Deus muita fôrça, muita virtude. Mas não lh'a invejo, não sou capaz de chegar a essas perfeições.

*Jorge*. É perfeição verdadeira; é a do Evangelho: Deixa tudo e segue-me.

*Magdalena*. Vivos ambos... sem offensa um do outro, querendo-se, estimando-se... e separar-se cada um para sua cova! Verem-se com a mortalha ja vestida--e... vivos, sãos... depois de tantos annos de amor... e convivencia... condemnarem-se a morrer longe um do outro--sos, sos!--E quem sabe se n'essa tremenda hora... arrependidos!

*Jorge*. Não o permittirá Deus assim... oh, não. Que horrivel coisa seria!

*Manuel*. Não permitte, não.--Mas não pensêmos mais n'elles: estão intregues a Deus... (_pausa_) E que temos nós com isso? A nossa situação é tam differente... (_pausa_) Em todas nos póde Elle abençoar.--Adeus, Magdalena, adeus! até logo. Maria ja lá vai no caes a ésta hora... adeus! Jorge, não a deixes. (_Abraçam-se; Magdalena vai até fóra da porta com elle_.)

SCENA IX

JORGE _so_

Eu faço por estar alegre, e queria vê-los contentes a elles... mas não sei ja que diga do estado em que vejo minha cunhada, a filha... até meu irmão o desconheço! A todos parece que o coração lhes adivinha desgraça... E eu quasi que tambem ja se me péga o mal. Deus seja comnosco!

SCENA X

JORGE, MAGDALENA

*Magdalena*, _fallando ao bastidor_. Vai, ouves, Miranda? Vai e deixa-te lá estar até veres chegar o bergantim; e quando desimbarcarem, vem-me dizer para eu ficar descançada. (_Vem para a scena_) Não ha vento, e o dia está lindo. Ao menos não tenho sustos com a viagem. Mas a volta... quem sabe? o tempo muda tam depressa...

*Jorge*. Não, hoje não tem perigo.

*Magdalena*. Hoje... hoje! Pois hoje é o dia da minha vida que mais tenho receado... que ainda temo que não acabe sem muito grande desgraça... É um dia fatal para mim: faz hoje annos que... que casei a primeira vez--faz annos que se perdeu elrei D. Sebastião--e faz annos tambem que... vi pela primeira vez a Manuel de Sousa.

*Jorge*. Pois contaes essa entre as infelicidades da vossa vida?

*Magdalena*. Conto. Este amor--que hoje está sanctificado e bemditto no ceu, porque Manuel de Sousa é meu marido--começou com um crime, porque eu amei-o assim que o vi... e quando o vi--hoje, hoje... foi em tal dia como hoje!--D. João de Portugal ainda era vivo. O peccado estava-me no coração; a bôcca não o disse... os olhos não sei o que fizeram: mas dentro d'alma eu ja não tinha outra imagem senão a do amante... ja não guardava a meu marido, a meu bom... a meu generoso marido... senão a grosseira fidelidade que uma mulher bem nascida quasi que mais deve a si do que ao espôso. Permittiu Deus... quem sabe se para me tentar?... que n'aquella funesta batalha de Alcacer, entre tantos, ficásse tambem D. João...

SCENA XI

MAGDALENA, JORGE, MIRANDA

*Miranda*, _appressado_. Senhora... minha senhora!

*Magdalena*, _sobresaltada_. Quem vos chamou, que quereis?--Ah! es tu, Miranda. Como assim! ja chegaram?... Não póde ser.

*Miranda*. Não, minha senhora: ainda agora irão passando o pontal. Mas não é isso...

*Magdalena*. Então que é? Não vos disse eu que não viesseis d'alli antes de os ver chegar?

*Miranda*. Para lá torno já, minha senhora: ha tempo de sobejo.--Mas venho trazer-vos recado... um estranho recado, por minha fe.

*Magdalena*. Dizei ja, que me estaes a assustar.

*Miranda*. Para tanto não é; nem coisa séria, antes quasi para rir. É um pobre velho peregrino, um d'estes romeiros que aqui estão sempre a passar, que veem das bandas d'Hespanha...

*Magdalena*. Um captivo... um remido?

*Miranda*. Não, senhora, não trás a cruz, nem é: é um romeiro--algum d'estes que vão a Sant'Iago: mas diz elle que vem de Roma e dos Sanctos-Logares.

*Magdalena*. Pois, coitado! virá. Agasalhae-o; e deem-lhe o que precisar.

*Miranda*. É que elle diz que vem da Terra-Sancta, e...

*Magdalena*. E porque não virá?--Ide, ide, e fazei-o accommodar ja.--É velho?

*Miranda*. Muito velho e com umas barbas!... Nunca vi tam formosas barbas de velho, e tam alvas.--Mas, senhora, diz elle que vem da Palestina e que vos trás recado...

*Magdalena*. A mim!

*Miranda*. A vós; e que por fôrça vos hade ver e fallar.

*Magdalena*. Ide vê-lo, Frei Jorge. Ingano hade ser: mas ide ver o pobre do velho.

*Miranda*. É escusado, minha senhora: o recado que trás, diz que a outrem o não dará senão a vós, e que muito vos importa sabê-lo.

*Jorge*. Eu sei o que é: alguma reliquia dos Sanctos-Logares--se elle comeffeito de lá vem!--que o bom do velho vos quer dar... como taes coisas se dão a pessoas da vossa qualidade... a trôco de uma esmolla avultada. É o que elle hade querer; é o costume.

*Magdalena*. Pois venha embora o romeiro! E trazei-m'o aqui, trazei.

SCENA XII

MAGDALENA, JORGE

*Jorge*. Que é precisa muita cautella com estes peregrinos! A vieira no chapeu e o bordão na mão, ás vezes não são mais que negaças para armar á charidade dos fieis. E n'estes tempos revoltos...

SCENA XIII

MAGDALENA, JORGE e MIRANDA _que volta com o_ ROMEIRO

*Miranda*, _da porta_. Aqui está o romeiro.

*Magdalena*. Que entre. E vós, Miranda, tornae para onde vos mandei; ide ja, e fazei como vos disse.

*Jorge*, _chegando á porta da direita_. Entrae, irmão, entrae. (_O romeiro entra de vagar_.) Ésta é a senhora D. Magdalena de Vilhena.--E' ésta a fidalga a quem desejaes fallar?

*Romeiro*. A mesma.

(A um signal de Frei Jorge, Miranda retíra-se.)

SCENA XIV

MAGDALENA, JORGE, ROMEIRO

*Jorge*. Sois portuguez?

*Romeiro*. Como os melhores, espero em Deus.

*Jorge*. E vindes?...

*Romeiro*. Do Sancto-Sepulchro de Jesus Christo.

*Jorge*. E visitastes todos os Sanctos-Logares?

*Romeiro*. Não os visitei; morei lá vinte annos cumpridos.

*Magdalena*. Sancta vida levastes, bom romeiro.

*Romeiro*. Oxalá!--Padeci muita fome, e não soffri com paciencia: deram-me muitos trattos, e nem sempre os levei com os olhos n'Aquelle que alli tinha padecido tanto por mim... Queria rezar, e meditar os mysterios da Sagrada Paixão que alli se obrou... e as paixões mundanas, e as lembranças dos que se chamavam meus segundo a carne, travavam-me do coração e do espirito, que os não deixava estar com Deus, nem n'aquella terra que é toda sua.--Oh! eu não merecia estar onde estive: bem vêdes que não soube morrer lá.

*Jorge*. Pois bem: Deus quiz trazer-vos á terra de vossos paes; e quando for sua vontade, ireis morrer socegado nos braços de vossos filhos.

*Romeiro*. Eu não tenho filhos, padre.

*Jorge*. No seio da vossa familia...

*Romeiro*. A minha familia... Já não tenho familia.

*Magdalena*. Sempre ha parentes, amigos...

*Romeiro*. Parentes!... Os mais chegados, os que eu me importava achar... contaram com a minha morte, fizeram a sua felicidade com ella; hão de jurar que me não conhecem.

*Magdalena*. Haverá tam má gente... e tam vil que tal faça?

*Romeiro*. Necessidade póde muito.--Deus lh'o perdoará se podér!

*Magdalena*. Não façaes juizos temerarios, bom romeiro.

*Romeiro*. Não faço.--De parentes, ja sei mais do que queria: amigos, tenho um; com esse, conto.

*Jorge*. Ja não sois tam infeliz.

*Magdalena*. E o que eu podér fazer-vos, todo o amparo e gasalhado que podér dar-vos, contae commigo, bom velho, e com meu marido, que hade folgar de vos proteger...

*Romeiro*. Eu ja vos pedi alguma coisa, senhora?

*Magdalena*. Pois perdoae, se vos offendi, amigo.

*Romeiro*. Não ha offensa verdadeira senão as que se fazem a Deus.--Pedi-lhe vós perdão a Elle, que vos não faltará de quê.

*Magdalena*. Não, irmão, não decerto. E Elle terá compaixão de mim.

*Romeiro*. Terá...

*Jorge*, _cortando a conversação_. Bom velho, dissestes trazer um recado a ésta dama: dae-lh'o ja, que havereis mister de ir descançar...

*Romeiro*, _surrindo amargamente_. Quereis lembrar-me que estou abusando da paciencia com que me teem ouvido? Fizestes bem, padre: eu ia-me esquecendo... talvez me esquecesse de todo da mensagem a que vim... estou tam velho e mudado do que fui!

*Magdalena*. Deixae, deixae, não importa; eu folgo de vos ouvir: dir-me-heis vosso recado quando quizerdes... logo, ámanhan...

*Romeiro*. Hoje hade ser. Ha tres dias que não durmo nem descanço, nem pousei ésta cabeça, nem pararam estes pés dia nem noite, para chegar aqui hoje, para vos dar meu recado... e morrer depois... ainda que morrêsse depois; porque jurei... faz hoje um anno... quando me libertaram, dei juramento sôbre a pedra sancta do Sepulchro de Christo...

*Magdalena*. Pois ereis captivo em Jerusalem?

*Romeiro*. Era: não vos disse que vivi lá vinte annos?

*Magdalena*. Sim, mas...

*Romeiro*. Mas o juramento que dei foi que, antes de um anno cumprido, estaria deante de vós e vos diria da parte de quem me mandou...

*Magdalena*, _aterrada_. E quem vos mandou, homem?

*Romeiro*. Um homem foi,--e um honrado homem... a quem unicamente devi a liberdade... a _ninguem_ mais. Jurei fazer-lhe a vontade, e vim.

*Magdalena*. Como se chama?

*Romeiro*. O seu nome nem o da sua gente nunca o disse a ninguem no captiveiro.

*Magdalena*. Mas emfim, dizei vós...

*Romeiro*. As suas palavras, trago-as escriptas no coração com as lagrymas de sangue que lhe vi chorar, que muitas vezes me cahiram n'estas mãos, que me correram por éstas faces. Ninguem o consolava senão eu... e Deus! Vêde se me esqueceriam as suas palavras.

*Jorge*. Homem, acabae.

