Francisca

Chapter 2

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César não descansava; buscava no amor o segredo de todos quantos carinhos podia empregar sem quebra da dignidade conjugal. Fugiu a todas as distrações e consagrou-se inteiro ao serviço da conversão daquela alma. Ela era boa, terna, sincera, capaz de amar e de o fazer feliz. A nuvem negra que ensombrara o céu conjugal desaparecera, mal restavam uns restos que o vento da prosperidade atiraria para longe... Tais eram as reflexões de César, e ele concluía que, em vez de ameaçar e pungir, o melhor era dissipar e persuadir.

Dia a dia a lembrança do amor de Daniel apagava-se no espírito de Francisca. Com a paz interna renasciam as graças exteriores. Francisca tornava-se outra, e neste trabalho lento de transformação, à proporção que a última ilusão indiscreta do amor antigo deixava o coração da moça, entrava ali a primeira ilusão santa e legítima do amor conjugal.

Um dia, sem se aperceberem, César e Francisca amavam-se como dois namorados que amam pela primeira vez. César tinha vencido. O nome de Daniel foi pronunciado entre ambos, sem saudades por Francisca, sem ressentimento por César.

Mas que vitória foi esta? Quantas vezes César não se envergonhou do trabalho da conversão a que se aplicava todo! Parecia-lhe que se aviltava, conquistando palmo a palmo um coração que cuidara receber virgem das mãos do velho pai de Francisca, e entrando nossa luta em pé de igualdade com o amor de um estranho.

Desta situação delicada acusava ele principalmente o pai de sua esposa, a quem não faltou meio de tornar duas pessoas felizes, sem tornar um terceiro desgraçado.

É certo que, quando César viu-se amado por Francisca, a situação pareceu-lhe outra e ele agradeceu inteiramente o erro que antes acusava. Então possuía a ternura, o carinho, a dedicação, a afeição sincera e decidida da moça. A alma de Francisca, sequiosa de amor, encontrou por fim, no lar doméstico, o que tantas lágrimas não tinham podido obter.

Dizer que este casal viveu feliz durante o resto de sua vida, é repetir um chavão de todas as novelas, mas enfim, é dizer a verdade.

E eu acrescentarei uma prova, pela qual se verá também uma coisa difícil de acreditar.

Anos depois das ligeiras cenas que narrei, Daniel voltou ao Rio e encontrou-se de novo com César e Francisca.

Sinto não poder conservar ao jovem poeta o caráter elevado e político; mas não me posso furtar a dizer que Daniel sofrera a ação do tempo e do contato dos homens. O tempo fê-lo sair daquela esfera ideal em que o colocara o gênio da mocidade e o amor de Francisca; o contato dos homens completou a transformação; Daniel, sob a influência de outros tempos, outras circunstâncias, e outras relações, mudou de feição moral. Voltando ao lugar do idílio e da catástrofe do seu coração, trouxe dentro de si novos sentimentos. Certa vaidade, certa altivez davam-lhe outro ar, outras maneiras, outro modo de ver as coisas e tratar os homens.

Bem sei que seria melhor para o leitor que aprecia as ilusões do romance, fazer acabar o meu herói no meio de uma tempestade, lançando ao mundo a última imprecação e ao céu o último suspiro do seu gênio.

Isto seria mais bonito e seria menos verdadeiro.

Mas o que se dá com o nosso Daniel é coisa inteiramente oposta, e eu prefiro contar a verdade a lisonjear o gosto poético dos leitores.

No tempo em que Daniel voltou ao Rio, Francisca estava então no esplendor da beleza: perdera o aspecto virginal dos primeiros tempos; era agora a mulher completa, sedutora, embriagadora.

Daniel sentiu renascer-lhe o amor de outro tempo, ou antes sentiu nascer-lhe um novo amor, diverso do antigo, e não atendeu às dúvidas que um dedo de razão lhe sugeria.

A vaidade e os sentidos o perderam.

De volta de um baile, em que Daniel estivera, disse Francisca a César:

— Sabes que tenho um namorado?

— Quem é?

— Daniel.

— Ah!

— Lê este bilhete.

Francisca deu a César um bilhete. César leu-o para si. Daniel até perdera a qualidade de poeta; o estilo ressentia-se das transformações morais.

— Está engraçado, disse César. Que dizes a isto?

— Digo que é um tolo.

— Quem?

— Ele. Olha, creio que o melhor destino que podemos dar a este bilhete é reduzi-lo a pó. Não estão reduzidas a isto as minhas fantasias de donzela e os seus ressentimentos de marido?

Francisca, dizendo estas palavras, tomou o bilhete da mão de César, e aproximou-o da vela.

— Espera, disse César segurando-lhe no braço.

— O que é?

O olhar de Francisca era tão seguro, tão sincero e também tão cheio de exprobração, que César curvou a cabeça, largou o braço, sorriu e disse:

— Queima.

Francisca aproximou o bilhete da luz e só atirou-o ao chão quando a chama aproximava-se dos dedos.

Depois dirigindo-se a César, tomou-lhe as mãos e disse-lhe:

— Acreditaste acaso que não seja imenso o meu desprezo por aquele homem? Amei-o em solteira; era um poeta; agora desprezo-o, é um homem vulgar. Mas nem é já a sua vulgaridade que me dá esse desprezo: é porque te amo. Era de amor que eu precisava, puro, sincero, dedicado, completo. Que outro melhor ideal?

A resposta de César foi um beijo.

No dia seguinte, às dez horas da manhã, anunciou-se a chegada de Daniel.

César ia mandá-lo entrar; Francisca interrompeu seu marido e disse ao escravo que dissesse estar a casa vazia.

— Que fazes? disse César.

— Amo-te, respondeu Francisca.

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