Folhas cahidas, apanhadas na lama por um antigo juiz das almas de Campanhan
Part 2
O barão de Cogumelos Junto estando á baroneza, Que se diz dos Sacatrapos, Quiz fazer-lhe uma fineza. Arrastou p'ra junto d'ella Um pirum, e a cabidela No prato lhe despejou. E lhe diz: «cá isto é nosso; Cousa que não tenha osso É p'ró estamago, e arrimou!»
Outro diz á gorda esposa, Que bem perto de si tem: «Bai-lhe bebendo po'riba, Ó mulher, come-lhe bem!» Este pede ao seu visinho: «Que lh'atice bem no binho Qu'é da belha companhia.» Diz aquelle ao seu fronteiro: «Que lhe chegue um frango inteiro E biba a sancta alegria!»
III.
As saudes já começam. É um gosto agora vêl-os. Estas caras representam Tomates de cotovêlos. E, a travez do escarlate Do legitimo tomate, Transsuda um oleo que brilha, Cada qual tem as orelhas Encarniçadas, vermelhas Como as azas d'uma bilha.
Pega no copo, e exclama O barão das Pimpinelas: «Vito serio! um home fala Sem preamblos nem aquellas! Á saude e alegria Desta bella companhia E com toda a estifação! P'ra que todos cá binhamos Estifeitos como bamos De casa do sôr barão!»
E os hurras retumbaram Pela sala do festim. Balthazar nos seus banquetes Não ouviu gritar assim! Sobre a mesa deram murros, Saudaram com grandes urros O barão dos Alcatruzes; Mas alguns com magua sua, Já cuidavam ver a lua, Não podendo vêr as luzes.
Mas, entre elles, um existe, Litterato em seu conceito. A palavra pede, e reina Um silencio de respeito. Elle diz: «Risonhas gallas Que refrangem n'estas salas Repercutem, symbolisam Acrimónias insoluveis, Nos acrósticos voluveis D'epopeas que eternisam. Pandemonios exhauriveis D'indeleveis congruencias. Requintados se escurecem Nos imporios das sciencias E liberrimos se escudam Nas façanhas que transsudam Em fantasiosas luzes. E, por tanto, a mais alludo, Quando, fervido, saudo O barão dos Alcatruzes!»
Succedeu o grito ao pasmo! Nunca se viu cousa assim! O orador foi abraçado Com furor, com frenezim! «Isto é qu'é!» dizia um, Convertido em rubro atum, Betarraba até não mais. «Viva Cissro!» outro dizia, Despejando a malvazia, Com grasnidos infernaes.
IV.
E a pandega findou. Mas alta noute, Disseram-nos fieis informaçoens; Que grande movimento ouve de tripas, E grande salto deram as torneiras Das pipas convertidas em baroens Ou antes dos baroens tornados pipas.
ELOGIO FUNEBRE
_A uma dama, prodigio de fecundidade, que dá á luz tres romances, por semana, nos jornaes do Porto._
Atafona de romances, És um carril a vapor! Romantisas quanto achas, E nos folhetins encaixas Com satanico furor.
Cornocopia da toleima! Nós fizemos-te algum mal? Tu não sabes, escriptora, Como zombam lá por fóra Das lettras de Portugal?
Não lucrara mais a patria, E lucráras tu tambem, Se fiasses n'uma roca. Com primor, a massaroca, Que desprezas, com desdem?
Não te fôra mais airoso Bispontar bem uns fundilhos Para em tempo competente Um remendo pôr decente Nas cuecas de teus filhos?
Mal tu sabes que sciencia Tem da meia o calcanhar! Talvez penses que o romance É mister de mais alcance Que nas meias pontos dar!..
Eu por mim antes quizera Nunca ter lido Camoens, Nem romances d'uma tola, Que vestir rôta a ciroula, Ou camisa sem botoens.
Accredito seja um dia A mulher emancipada; Ha-de então ser regedora, Escrivan, e contadora, Eleitora, e deputada.
Nesse tempo, se existisses, Tendo em vista essa pericia Com que ostentas teu saber, Que logar podias ter? Eras cabo de policia.
Tenho pena, quando penso Que serás formosa e meiga, E encontro os teus escriptos Nos embrulhos dos palitos Do toucinho, e da manteiga!
Faz-me dó, pois tu bem podes Bordar lenços de cambraia Com bonito _petit-point_; E, não sendo aqui ninguem, Podes, ser tudo na Maia.
EPISTOLA
AO VISCONDE DE QUEBRANTOENS.
Instrumento do ceo, desceste ao Porto, Corajoso mancebo, que desandas Nos borlistas fataes sopapo ingente!
Oppresso longo tempo, ahi gemera Nas entalas crueis d'um camarote O misero assignante! Amargo calix Em silencio tragava, ouvindo os passos Do acerbo massador, impio borlista! As notas de Rossini eram-lhe espinhos, As fusas de Bellini eram-lhe fusos Que o intimo das visceras lhe espetam! E os duetos em _fá_ do Machbet Eram-lhe cantos de raivosas górgonas!
O ferro fez-lhe vêr visoens do inferno! A propria Jeny-Lind se cantasse, Nesse palco, talvez, aos olhos d'elle Não fosse mais gentil, que a _Cholera-morbus_[3] É que a larva immortal do pesadello, A sombra do borlista ergue-se impavida, Synistra, nos umbraes do camarote!
Derreado e servil no corpo e alma, Arrasta-se o borlista em cortesias, Gagueja cumprimentos requentados, Recebe em cada noute affrontas novas, E, cynico, sorri, graceja sempre!
Mas cerram-se ao borlista os horisontes, Apenas surges tu, Pedro-Eremita, E aos povos um pregão de guerra envias! De toda a parte bellicosa ferve Raivosa indignação contra os _Bernardos_.[4] Aqui batata pôdre o povo ajunta, Além prendem-se em páos bexigas tumidas, E cebola grelada em grande escala De Freixo de Numão o Porto importa.
Se no livro fatal d'altos destinos Proscripta a extincção foi do borlista Da borla a abolição a ti se deve, De ti, visconde emana o nobre impulso!
Em nome dos sensiveis assignantes, Recebe o galardão que o Porto envia Ao caro filho seu que a patria salva Do typho mais cruel--_typho-borlista!_
[3] É uma cegonha, cousa duvidosa entre a forôa, e a giboia, que canta entre as coristas.
[4] Quem não conhece o sr. Bernardo, digno Achiles do _Barriense_?
IMPRESSOENS
D'UM PASSEIO, NO _JARDIM DE S. LAZARO_.
Que delicias não encerra Esta bem fadada terra N'um domingo, em mez d'Abril! Nem eu sei se a natureza Deu mais pompas a Veneza, Que no mar reina gentil.
Não na ha terra mais linda Nem sonhal-a eu pude ainda Nos meus sonhos da manhan. Uma só os dons lhe abate, És só tu, patria do vate, Donairosa Campanhan!
Mas, aqui, terra das auras, Espontaneas brotam Lauras Por entre sacas d'arroz. E, quaes ferteis cogomelos, Nascem Dantes de chinelos, E Petrarcas d'albornoz.
Tudo vai do ceo formoso, Que derrama ondas de goso Nestas almas d'alfinim. Ouem não viu anjos de saia, Serafins d'alva cambraia No fantastico _jardim_?
Inda, ha pouco, eu vi delicias Invejei doces caricias, Que lá vi... oxalá não! Entre tantas a mais bella, A rainha... ai! era ella... D. Eusebia d'Assumpção!
Ella sempre!.. espectro! larva Por quem fiz esta alma parva, Por quem dei cavaco até! E tão linda!.. impia cegonha, Tão folhuda!.. era uma fronha, Um travesseiro de pé!
E, tão tolo, eu quiz fallar-lhe Quiz mysterios revelar-lhe Deste amor, desta agonia; Quiz dizer-lhe em voz terrivel, Com rancor inconcebivel: «Passou bem? que bello dia!»
Não me ouviu, virou-me a cara, E eu jurei vingança avara, E a vingança... oh! eide-a ter! Não te rias, lagarticha, Eide atirar-te uma bicha, Eide vêr-te a fralda a arder.
Feito o horrivel juramento, N'aquelle acerbo momento Dona Eusebia me esqueceu!.. Procurei entre outras flores Nova fé, novos amores... Poderia achal-os eu?
Dona Eustaquia era formosa, Tinha os dentes côr de rosa, Meigos olhos de marfim; Tinha o collo verde-gaio, Lindos braços cor de paio, Lindas mãos de marroquim.
Mas Eustaquia não podia, Conceber-me esta poesia, Que me escalda o coração! Ao pé d'ella estava um grulha, Um rival, um gêta, um pulha, Um palerma, um pelitrão.
A pretexto de meiguices, Vomitorio de sandices Era o tal... que eu não direi... O que eu fiz foi pôr-me ao largo, Pois luctar é sempre amargo Contra um estupido de lei.
Outra vi; julguei-a vaga; Era Dona Saramaga, D'olhos garços de matar. De cabello em grande rôlo, Sua testa era um rebôlo, Mas rebôlo de encantar!
Esta sim: ouviu-me as fallas, Conheceu que estava em tallas Meu dorido coração. Deu me affectos desvellados, Deu-me quatro rebuçados Com sensivel emoção!
Perguntou-me se a Geordano Ficaria para o anno, Ou iria p'ra Pariz. Respondi-lhe que a cantora, Por em quanto, era senhora Da garganta e do nariz.
Dito isto (e não é pouco) Retirei-me quasi louco De paixão, que é de matar. Mas palpita-me que um dia, Consummida esta poesia, Pés de burro eide apanhar!
P. S.
O auctor desta obra é uma pessoa honesta, que reconhece Deus no ceo, e o ridiculo na terra. Não crê no representante de Deus entre os homens, por que não quer ultrajar a divindade; mas confessa que o demonio tem um representante em cada freguezia, sem attribuiçoens no codigo administractivo, mas funccionario muito superior aos regedores e juizes eleitos. O auctor accredita que o diabo não é tão feio como o pintam, e reputa-o, nas suas elevadissimas intuiçoens, como um espirito que se ri desentoadamente das muito parvas evoluçoens da humanidade. O auctor ousa declarar-se commissionado provisoriamente desse espirito do sarcasmo, e não poderá d'hora em diante irrogar injuria a quem lhe chamar «alma do diabo.» Conscio da missão que lhe é delegada, o auctor intenta uma publicação semanal, que será uma pagina que o Lucifer do seculo XX receberá da mão do Lucifer do seculo XIX. A geração, que vai levantar-se sobre os tumulos da geração que se esconde na grande valla d'uma epocha, virá estudar a nossa biographia nessa obra que o auctor intenta. Quem quizer assignar para ella fará um serviço aos seus netos.
PROSPECTO.
UM BICO DE GAZ.
JORNAL SEMANAL.
Assignatura por mez: 160 réis. O jornal é distribuido aos sabbados; e assigna-se
No Porto--em todas as lojas onde se vende este folheto; Lisboa, Coimbra, Vizeu, Lamego, Vianna, e Braga.
Admittem-se correspondencias que attinjam a missão rasgadamente civilisadora deste jornal. É preciso que a luz da intelligencia humana deixe de ser alimentada por azeite de purgueira. O espirito reclama um bico de gaz. E o auctor tem a vaidade de reputar-se o Hislop do mundo espiritual.