Folhas cahidas, apanhadas na lama por um antigo juiz das almas de Campanhan

Part 1

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FOLHAS CAHIDAS,

APANHADAS NA LAMA,

POR

UM ANTIGO JUIZ DAS ALMAS DE CAMPANHAN,

E

SÓCIO ACTUAL DA ASSEMBLEA PORTUENSE,

COM EXERCICIO NO _Palheiro_.

_OBRA DE QUATRO VINTENS_,

E DE MUITA INSTRUCÇÃO,

PORTO:

TYPOGRAPHIA DE F. G. DA FONSECA,

_Rua das Hortas n.º 152 e 153._

1854.

EU.

Saibam todos quantos virem Este publico instrumento, Que surgiu mais um poeta Nos aloques do talento. Não pertenço á mocidade, Que fechou sem caridade Da velhice a pobre tumba. Não sei palavras d'estouro, Nem descanto em lyra d'ouro: Minha lyra é um zabumba.

Eu, sou eu. Juiz das Almas, Nos bons tempos, que lá vão, Conheci que tinha uma Como poucas almas são... Campanhan! terra dos saveis! Que doçuras inefaveis Tens nos teus prados amenos! Ai! Maria da Cancella!... Cada vez que fallo n'ella, Sou Petrarcha... em fralda, ao menos!

Dai logar á catarata D'uma lagrima que rola Pelas faces, como orvalho A aljofrar uma papôla, Respeitai a desynth'ria Desta enferma poesia, Que resiste á Revalenta! _Braz Tisana_, esse que diga, Em que estado anda a barriga Da Musa, nos seus outenta!

Deixai que um velho recorde Aureos sonhos infantis!.. Campanhan, mansão das fadas Onde estão tuas houris? Ledas brisas que brincaveis Entre as pestanas dos saveis, Lindos saveis de coral! Onde estaes, em que paues Murmuraes, auras tafues, Vosso hymno angelical!

Raios palidos da lua Alta noute, em ceo d'anil, Já não são os que argentavam Estes lagos de esmeril! Nem é este o pulcro savel Que me deu sorriso afavel D'entre os verdes salgueiraes! Nem aqui meu peito anceia Os carinhos da lampreia (E outras asneiras que taes).

Quando eu era o mago enlevo Das fadas de Campanhan, Apanhava a borboleta, Que doudejava louçan. E, por tardes d'almo estio, Lá nas margens do meu rio Vi delicias de encantar.... --Pyrilampos, suspirando, Qual Camoens suspira arfando Os estos do seu penar.

Ai! trovas da minha aldeia, Que saudades me doeis! Doçuras da minha vida, Quando eu cantava os reis! Viola d'Antonio Pinto, Onde estás, que inda cá sinto O gemer dos teus bordoens! Minhas chinelas côr d'ovo, E meu par de sócos novo, Tão rico d'inspiraçoens!

Lá vai tudo! E minha alma Erma, esteril, sinto aqui.... Como o lyrio enruga o calix A fronte calva pendi! Poeta da lyra amarga, Vérgo ao peso desta carga De descrença e maldição! Lacerado em meu orgulho, Quero o sangue, o serrabulho Desta infame geração!

E, depois que a minha lousa Parta d'um raio a centelha, Hão-de ouvir ranger meus ossos Como carruagem velha. E a mortalha ensanguentada Como a tunica manchada Do Cesar de Campanhan, Ha-de ser mostrada ao povo, Ha-de ouvir-se um grito novo Nas praias do Gengis-kan!

AOS BAROENS.

Amigos! sinceridade! Não sejamos todos tolos; Deixai vêr os vossos rôlos De brasoens. Ninguem disse ainda ao certo Onde vão, donde vieram Os baroens.

Dizem velhos alfarrabios Que os baroens da idade d'ouro Davam tapona de mouro, Fanfarroens! Nesse tempo eram _crusados_, Hoje fogem dos _cruseiros_, Os baroens.

Os de então na Palestina Eram rijos e potentes; Mas os d'hoje são valentes Nos certoens. Quem domina as vastas tribus Dessas plagas africanas? Os baroens.

Quem envia, mar em fora, As esquadras dos _Trajanos_, D'archejantes e ufanos Galeoens? Quem envia _Guerra_ aos barbaros, E lhe algema os pulsos livres? Os baroens.

Digam lá o que disserem Contra os _crusados_ da moda, Sois os grandes deste reino, Meus baroens!.. sabeil-a toda!

«Carne humana!! escravaria!!! Crime atroz!!!!» são palavroens. Chia a imprensa? ha-de calar-se... Sabeil-a toda, baroens!

Vossos pais quando vieram De Figueiró para aqui, Quem diria... vendo vil-os Como eu chegal-os vi!..

Era assim: via-se um mono De jaqueta de cotim, E calças de estopa grossa E pernas côr do carmim.

Trazia sócos ferrados, Em que pés!.. Deus nos accuda!.. Lenço vermelho amarrado Na cabeça ponteaguda.

Vosso avô vinha com elle, E gemia derreado Sob um saco de batatas Do patrão mimo adorado.

Vossa avó, de pé descalço, Traz canastra com toucinho, Pão de broa corpulenta, Borracha de verde vinho.

Inda hontem eu vi isto!.. E vossês sus patuscoens, Devem espantar-se comigo De serem hoje baroens!

Querem de graça um conselho? Não fallem, que faz tristeza, Vêr o raso da toleima A que desceu a nobreza!

Burros ficam sempre burros, Embora tragam selim, Cravado de diamantes E estofado de setim.

O brilhar dessas commendas Não vos muda a condição. O instincto vos arrasta Para o covado e balcão.

HYMNO

AO HECKER SALOIO.

Senhor Fontes Pereira de Mello, Que sois Pitt, e _pitada_ tambem, Já que tudo metteis n'um chinelo A cantar-vos a banza aqui vem!

Senhor Fontes! Sois de Lysia O que ninguem inda foi! Quem dissera que tão perto D'um Sangrado existe um heroi!

Longo tempo o cultor da batata, Senhor Pitt, por vós suspirou. As abob'ras meninas murcharam, E a mesquinha cebola grelou!

Mas creaste um ministerio D'agricultura, ó portento! Era um gosto vêr o grêlo Sob o imperio do Fomento!

E o repôlho, a cinôra, o coentro Espontaneos brotavam nos montes; E nas folhas da côve tronxuda Viu-se escripto: «Gloria ao Sôr Fontes!»

Senhor Fontes! vosso nome Pelas hortas se dilata! Como o Cesar é na _Fabia_, Sois salvador da batata!

Carangueijos os lusos viviam Desterrados n'um solo infeliz!.. E, comvosco, quebrar inda esperam Nos caminhos de ferro o nariz.

Senhor Fontes! este povo Vossa gloria proclama, Quando viaja enterrado Té ao pescoço na lama.

Era triste esse tempo d'outr'ora Em que um homem quebrava um quadril, Nessas quinas d'estrada de pedra Onde agora fumega um carril!

Á vista disto, Sôr Fontes, (Á parte censuras tolas) O paiz quer-vos na fronte Uma restea de cebolas.

Quando o Porto vos deu quatro patos, E de forno o arroz competente, Quiz mostrar-vos que a gloria é um sonho, Quando o ventre não anda contente.

E comestes, senhor Fontes, E fizestes muito bem; Colbert, Necker, e Pitt Comiam patos tambem.

Quem nas polkas mostrou mais donaire? Quem nas walsas mais quebra a cintura? Quem melhor joga a tibia flexivel? Quem compete comvosco em tesura?

Senhor Fontes, dous instinctos A natura em vós relata; A não serdes o Fomento, Devieis ser acrobata.

_Beatus venter qui te portavit,_ Diz a patria na sua expansão! Desde o Vistula ao Douro retumbam Algazarras de rouca ovação!

Gloria, gloria ao rasgado Fomentador immortal! Modelo dos bons bigodes, Permanente carnaval!

O DROPP.

Aranha de pau de pinho Caranguejola, que és? És o dropp; ora o dropp, É uma cousa (diz Pop) Sem ter cabeça nem pés.

Visto isso; temos dropp; Ninguem tenha á barra medo. A asneira não é tão calva; A gente sempre se salva; De que modo? isso é segredo,

Os praguentos já resmungam Contra aquelle immenso trem; Dizem que é força acabar, Não só nas furias do mar Mas nas do dropp tambem.

Este dropp é um segredo, As finanças um mysterio. Vêdes n'aquella gaiola, Uma parva cabriola, Imagem do ministerio?

Navegantes! acautelem-se! Em posição desastrada Empreguem maior cuidado Que lhe não venha ao costado Uma tremenda caibrada.

Aquelles paus são synistros Como o cavallo de Troya; Tudo aquillo é muito serio; Tem não sei que de funereo Dos carroçoens do Lagoia!

Tanta tabua consummida Nessa funeraria asneira!.. Não 'stava ahi um sujeito Com tanto dropp já feito, Manoel José d'Oliveira?

_Economia_! sarcasmo Deste ministerio-dropp, Que cravou no calcanhar A espora que faz andar As finanças a galope!

Sou de voto que se dê Ao dropp um uso real: --Seja a estufa, com recatos, P'ra guardar os cinco catos Do ministerio actual.

O SEU A SEU DONO.

A Cesar o que é de Cesar, Aos velhos o que é dos velhos! Quem da crytica se encarga, Deve andar estrada larga E não metter-se por quelhos.

Sou assim! E mais sou velho Mas a verdade é tambem, Custe embora a quem custar, A verdade hei-de-a fallar Seja em mal, ou seja em bem.

Epaminondas Tebano, A _Concordia_ e o _Nacional_, Nem a rir disseram petas: Eu tambem como as gazetas, Sou da honra o pedestal.

Não consinto que se diga, Que só lavra a corrupção Nas entranhas dos mancebos. Eu conheço muitos gebos Corruptos de profissão

Quem quizer venha ao _Palheiro_ Desta nossa Assemblea, Ha-de vêr linguas farpadas Em bocas já desdentadas Maculando a honra alheia.

Ha-de vêr velhos devassos Como em lubrica orgia, Já vergados nas cernelhas, Memorando infamias velhas Com satanica alegria.

Ha-de vêr o extincto frade, C'o a bochecha rubra e gorda, Acerando o epygramma, Nem se quer poupando a _ama_, Que lhe faz em casa a sôrda.

Ha-de vêr o millionario Brazileiro, com mil tretas, A contar, com sujas cores, As lendas dos seus amores Com as _suas_ trinta pretas.

Estes taes são os que infamam A mocidade infeliz! São estes em cuja tez O oleo da estupidez É da vergonha o verniz.

A mocidade não pode Vencêl-os, não pode, não! Dominam, são respeitados, Representam vinculados Os tempos da corrucção.

Nascidos, quando por terra Os homens lançaram Deus; Tem só fé no sensualismo, E escarnecem com cynismo, As crenças filhas dos ceus.

Gangrenado o corpo e alma, Sem saber, e sem piedade, São authomatos de barro, Que resistem ao catharro Pr'a vexar a humanidade.

Onde existe a virgem pobre, Que de maguas vive cheia, Lá vai ter uma mensagem Da senil libertinagem, Que o pudor lhe regateia.

Perguntai nesses alcouces De miseria e compaixão, Quantas victimas da fome A deshonra ahi consomme, E de quem victimas são.

Heis d'ouvir factos nojentos Destes velhos que se arrastam Sobre a lama das torpezas, Das luxurias e villezas Em que, cynicos, repastam.

Velho sou, bem alto o disse; Mas deshonro-me de ser Desta geração de velhos, Em que os moços tem espelhos Onde infamias possam ver!

Mocidade generosa! Os teus crimes, tem nobreza; Quando falla a consciencia, Nem negaes a Providencia, Nem manchaes a natureza.

Elles não; sempre atufados Em nojentos tremedaes, Crêem só no seu dinheiro, No cavaco do _palheiro_, Na barriga, e nada mais.

A Cesar o que é de Cesar, Aos velhos o que é dos velhos! Quem da crytica se encarga, Deve andar estrada larga, E não metter-se por quelhos.

CONTO MORAL.

Um _attaché_, que vivera Em Pariz uns quatro mezes, Voltando á patria mesquinha, Não roubou nem palavrinha Aos seus amigos francezes.

Quando entrou nos patrios lares, Já não era o mesmo filho; Sua mãe dobando estava, E o _attaché_ perguntava Que nome tinha o sarilho?

Desceu á loja onde estava O honrado pai ao balcão. E mal dera ainda um passo, Quando viu que estava um engaço Estendido alli no chão.

Ora, o engaço tinha uns dentes, Onde o tolo põe um pé, Quando ao pai enthusiasmado, Perguntou todo anafado: _Este engarilho que é?_

Vai o cabo levantou-se, Que assim era de suppor; Vem direito ao infeliz Quebra a ponta do nariz, Do futuro embaixador!

MORAL.

Não venham fazer-se finos Á patria os _attachés_, Quem vai tolo tolo volta, Inda que traga uma escolta De anedoctas dos _Cafés_.

EPYSTOLA

AO EXCM.^o VISCONDE DE ATHOGUIA EM DUAS VIDAS; MINISTRO DA MARINHA DOS TRES BRIGUES, E DOS NEGOCIOS ESTRANGEIROS... AO SENSO COMMUM.

Illustre paspalhão, pasmo dos orbes, Nata da estupidez, alcool dos parvos, De Campanhan o bardo te sauda!

Eu nunca fui sentar-me á tua porta, Mendigando mercês; nunca os meus cantos, Fedendo ao macassar da vil lisonja, As nedeas ventas incensar te foram! É livre a minha voz: creiam-me os povos! Nobre feudo pagar aos grandes parvos É do bardo a missão. A minha é esta.

Ha muito que eu de ti pasmado andava, Contando á minha Antonia, e aos pequenos, O nome que no peito escripto tinha. Em casa do Francisco da Thomasia Os teus discursos li, Visconde incrivel! N'aquellas chatas caras que me ouviam, Vi faiscas saltar de enthusiasmo.

Bebêmos-te á saude, a rego cheio! E, no excesso do goso, os teus amigos Não podiam lamber-se... eram uns cachos!

Tu, mais novo que o neto, ousado Gorgias, Ha pouco trituraste os cabralistas No rijo almofariz do craneo ôco. Salvaste Roma, ó ganço!.. se não grasnas Piravam-se os taes páos[1] e a Lusitania, Viuva dos seus páos, ia-se á mingua! És o Curcio das lonas, que remiste[2]

Do jogo infame da Albion perversa A patria dos Affonsos e Affonsinhos! A divida fatal, chamada externa, Saldaste-a c'o producto dessas chapas, Em que fica chapada a crassa asneira, Eterna viscondessa d'Athoguia!

Do _Conde de Thomar_ se intitulava O patacho fatal, terror dos povos! Fulminaste o patacho! A Europa accesa, Pedira-te energia audaciosa. Passaste heroica esponja sobre o nome, E fizeste callar a voz da Europa!

Ó Jervis! tu nem sabes quanto vales! Que o diga Campanhan, Valbom, S. Cosme, Onde eu pude chegar, e a minha Antonia.

A machado e eixó, de páo castanho, Um busto construí: era o teu busto. Teu nome eternisei, nome que teve Um _u_, maldito _u_, que tantas febres Na mente escandecida te abrazára!

Não sei se diga mais, palavra d'honra! Com esta não te enfado mais, visconde. Não desdenhes vaidoso a offerta humilde, Que mesquinho reptil aos pés te arrasta. Recebe dusia e meia de lampreias, Cosinhadas por mim; são de escabeche... A proposito, amigo, ha quanto tempo Conservas de escabeche a intelligencia?

[1] S. exc.^a mandou vender os páos, porque deu na melgueira d'uns empregados, que os regeneravam á surelfa, com grave detrimento da marinha portugueza.

[2] S. exc.^a vendeu umas lonas, cujo producto fez subir os fundos em Londres, e permittiu a construcção de trinta navios de guerra, com que s. exc.^a espera «sulcar as salsas ondas d'Amphitrite,» segundo a gravissima opinião do snr. J. M. Grande.

O MINISTRO E O JORNALISTA.

(_Dealogo_).

MINISTRO

Eu vim chamado ao leito desta patria Matava-a a corrupção, e eu salvei-a! Se prostrada jazia, ou talvez morta, Qual Lazaro da campa, alevantei-a!

JORNALISTA

De certo levantou Vossa Excellencia! Que brade embora a vil opposição... Esquálidos vestigios de gangrena Bem profundos deixou a corrupção.

MINISTRO

Se crê nessas doutrinas luminosas, E quer ser prestadio a Portugal, Acceite a empreza honrosa, augusta, e nobre, D'expol-as, sustental-as n'um jornal.

JORNALISTA

Empreza honrosa é; della me ufano! Irei apostolar o credo novo; Direi ás multidoens verdades francas, Será o meu jornal jornal do povo.

MINISTRO

Bem sei que da defeza é árdua a luta... Odeia-me, sem causa, esta nação... Embora! na grandeza dos serviços Compete ao defensor môr galardão.

JORNALISTA

Bem sei quantas calumnias forja a intriga... Já dellas foi manchado o grande Decio. Quizeram macular Vossa Excellencia Chamando-lhe espião, rival de _Mecio_!

MINISTRO

(_Commovido, e esfregando os olhos com cebola_).

Bemdito seja Deus! só elle sabe As nobres intençoens de tal acção! Por honra, por nobreza, e por caracter, De certo fui, meu caro, um espião!

JORNALISTA

Não é lá grande feito de virtude; Mas cumpre que eu me saiba haver na luta. Convém negar o facto, ou confirmal-o? Bem sabe que é de crêr haja disputa.

MINISTRO

(_Limpando os oculos_).

Eu lhe digo, senhor, a patria exige Medidas uteis, providencias, factos. Accusaçoens banaes, não lhes responda; A pedra é livre em mãos desses _gaiatos_.

JORNALISTA

Pois bem! sou desse voto, ei-de julgal-as; Accusaçoens banaes, pretr'idas, nullas; Mas dado o caso infausto de citarem Não sei que transacçoens com certas bullas?

MINISTRO

(_Enternecido_).

Responda-lhe que eu fui proscripto, errante... E quando ao ninho caro alfim tornei, Não só não tinha um pinto pr'a despezas, Mas nem a livraria, em casa achei.

JORNALISTA

Pois bem, triumphará Vossa Excellencia... Agora, se lhe apraz... sim... cada qual Emprega neste mundo, como pode, O seu... ou pouco ou muito cabedal...

MINISTRO

Intendo... quer dizer que não dispensa Além do beneficio, uma pensão... É justa, a quem trabalha a recompensa... Quer cincoenta mil reis? pagos, serão.

_Cinco mezes depois._

JORNALISTA

(_Escrevendo_).

Senhor ministro, eu não posso Este jornal sustentar Tenho esp'rado, em vão tres mezes, Não me acabam de pagar.

Vossa Excellencia me disse, A vinte e tres de Janeiro, Que no Governo Civil Recebesse o meu dinheiro,

Nem um chavo! e os assignantes Abandonam-me o jornal, Porque defendo um governo Vergonha de Portugal.

Se não manda, quanto antes, Senhor ministro, as mesadas, Com pesar vou abraçar-me Ás outras crenças passadas.

MINISTRO

(_Só_).

Á vista disto, não ha mais fugir-lhe... Pouco me serve... mas é pobre moço!.. Fazem-me pena quando assim os vejo... Não ha remedio senão dar-lhe um osso.

A D. EUSEBIA DA ASSUMPÇÃO,

ALMA DE VACA.

Noitebó que esvoaçaste No meu ceo d'alva illusão; E na chaminé pousaste Deste ardente coração; Que mal te fiz, pulga d'alma, Que mordes, sem compaixão?

Dona Eusebia, gança amada, Que picaste a minha flor, Tão do intimo orvalhada Pelos prantos desta dôr, Dona Eusebia não me piques Esta alcachofra d'amor!

Gata brava, não me bufes Esta luz d'aspiração; Por quem és, tu não me atufes Dona Eusebia d'Assumpção, Nos abysmos insondaveis D'assanhada ingratidão!

Tu chamaste-me pangaio, Quando eu quiz um riso teu! Fulminou-me um impio raio, Minha aspiração morreu! Ai! Natercia de chinelos, Serei eu _pangaio?_ eu!!

Tens no peito ingrata, um chato Coração de melancia. Tanto tempo fui teu gato, Gato d'amor e poesia! Dona Eusebia, alma de vaca, Morras tu de hydropesia!

AS LITTERATAS.

Paes de familia, hybridos caturras, Escrevo para vós! Se tendes filhas Com sestro massador de fazer versos, Dai-lhes p'ra baixo, como eu dou nas minhas!

Eu vejo serigaitas, mal lavadas Do almiscar infantil de seus cueiros, Fazerem relaçoens _c'os raios pallidos,_ _Da estrella matinal, do lago lympido,_ _Das auras ciciantes, e da aragem,_ E d'outras semelhantes trampolinas, Que vós não entendeis, nem eu, nem ellas.

Espevitam-se todas estas gaitas Da musa melancolica das noutes. Mal sabem onde tem a mão direita, Não viram do nariz um palmo adiante, E fallam de _paixoens intimas d'alma,_ _De crenças desbotadas, e de flores_ _Fanadas ao soprar da leda infancia._

Acaso comprehendeis, paes de familia, Da nova geração destas piegas A triste chiadeira que nos fazem? Dai-lhes p'ra baixo como eu dou nas minhas!

Não tendes uns fundilhos nas cilouras? Não tendes roto o calcanhar da piuga? Não tendes uma estriga, um fuso, e roca? Mandai-as trabalhar; dai-lhe a sciencia Precisa para o rol da roupa suja. Se lhe virdes romance, ou essas cousas Chamadas folhetins, sobre a _toilette_, (A _toilette_, meu Deus! por causa d'ellas Perverteu-se a dicção do nosso Barros!) Dai-lhes p'ra baixo como eu dou nas minhas!

Quem é o parvo que espozar-se queira Com litterata alambicada e chocha? Sentada n'um sophá, sapho saloia, Em languida postura requebrada, Se eu visse a minha Antonia! ai que panasio, Que revez de careca eu lhe pregava!

Paes de familia! não achaes bem triste Entrar um cidadão em sua casa, Cansado de lavrar o pão da vida, E vêr sua mulher repotreada Na othomana gentil, lendo romances? Pobre marido quer fallar d'uns frangos Que baratos comprou, e a litterata Pergunta-lhe se leu _Kossuth e os hungaros_! O parvo franze a testa aborrecido, Procura entre os lençoes um refrigerio; Mas, no excesso da dôr, rasga as cilouras, E no mundo não tem mulher ou anjo Que lh'as saiba coser!.. ai do mesquinho!

Onze horas já são. O bom do homem Tres vezes já pediu café com leite, Apertam-no negocios; mas em balde Pediu com desespero o tardo almoço.

A litterata esposa inda ressona, Pois vira despontar a estrella d'alva Nos rubros arreboes dos horisontes, E, inspirada, fizera quatro quadras, Ardentes de ideal romantecismo.

«Café com leite!» brada em vão tres vezes, O bode expiatorio dos romances... «Café com leite» os eccos lhe respondem, Que a Stael d'agua doce inda ressona!

Maridos imbecis! eu vos lamento! A culpa não foi vossa! Aos pais a imputo.

Madame Podestá dizem que ensina Grammatica, rethorica, hidraulica, Mecanica, gymnastica, estetica, E chymica, e botanica, e plastica, O arabe, o sanskrit, a geographia, A prosodia, a syntaxe, industria e canones, E muitas cousas mais, como th'rapeutica.

Será tudo mui bom; mas eu aposto Que o remate de tantas luzes juntas É capaz de fazer perfeitas tolas As muitas que lá vão com seu Juizo! Paes de familia! tendes filhas d'estas? Dai-lhes p'ra baixo, como eu dou nas minhas!

Um pai eu conheci, que nunca soube O seu nome escrever sem quatro asneiras, E mandou ensinar francez á filha. A filha conseguiu, passados annos, Uma cousa fallar mui duvidosa Que os francezes, talvez, diriam tartaro! Mas seria francez, o caso é este:

Um dia estava o pai, e ella, e um outro Janota almiscarado, conversando. De improviso a menina a lingua solta Em barbaros grasnidos que atarantam A cabeça do velho. O «petimetre» Responde em algarvia semelhante. O pai, no centro delles, era um parvo Gemendo sob o peso do ridiculo... Mas lá vai o peor do caso infausto! Ao dar da meia noute desse dia Cumpria-se a promessa contratada Na presença d'um pai, que bem podera Embargos de terceiro inda intentar Se fosse em portuguez organisada A injusta petição do supplicante.

Pais de familia, vossas filhas fallam Italiano, francez, gallego, ou turco? Dai-lhes p'ra baixo como eu dou nas minhas.

_UM JANTAR DE BAROENS._

INVOCAÇÃO.

Musa da sopa e do cosido, inspira-me! Pandega musa, que sorris ao vate Em môlho d'açafrão, e de tomate, Um cego adorador... achaste em mim. Transforma o estro meu em lombo assado, Da minha inspiração faz um podim.

Tu filha dos baroens, musa do unto, Nasceste na cosinha entre caçôlas; Saudaram-te no berço alhos, cebôlas, Do cominho tiveste uma ovação. Depois, trajando gallas de toucinho, Eu vi-te nas bochechas d'um barão.

Namorado de ti, fiz-te meiguices, Por de traz d'um pirum, e tu de lá Sorriste-me atravez da nedea pá De vitella gentil, rica de arroz! Ai! era!.. e nem eu sei se foi mais linda Aquella gorda pata... que te poz!

Tu fizeste de mim novo Claudio, Inspiraste-me fé no rodavalho. Traguei indigestoens, arrotos d'alho, _Bernardas_ na barriga supportei. Tomei chá de marcella... e, em premio d'isto. O teu auxilio, ó musa, não terei?!

I

Dentro e fóra illuminado O palacio d'um barão, Fulgurante representa Um enorme lampião. Jorram lympidas vidraças Sobre as populosas praças Ondas tremulas de luzes. Vai lá dentro grande goso, Nesse alcaçar radioso Do barão dos Alcatruzes.

D'Alcatruzes é chamado, Porque, sendo ainda moço, Muitos baldes d'agua fresca Dizem que tirou d'um poço. Nenhum outro mais destreza Revellou na ardua empreza. De puchar acima um balde. Um que seja tão robusto Ha-de vir mui tarde e a custo, Do concelho de Ramalde.

É barão; não vale a pena Discutir-lhe os nobres feitos. É barão dos Alcatruzes Já tem pagos os direitos. Inda é mais; pois além d'isto É commendador de Christo Com bastante indiscripção. Mal diria Christo outr'ora, Que seria posto agora No peito d'um vendilhão!

E mais elle, que os tocava Com terrivel azorrague!.. Mas os Judas vendem Christo, Ponto é haver quem pague. E o barão dos Alcatruzes Neste seculo das luzes Tambem fez de farizeu: E, tambem, se é necessario, Representa de Calvario, Onde a cruz se suspendeu.

II.

N'um salão vasto, opulento, Um banquete se vai dar; Nos christaes reflecte o ouro, A fulgir, a scintillar. Os rubis, e a côr da opala Transfiguram esta sala Em olympicas mansoens. Mas a alma cae por terra, Quando vê que alli se encerra Duzia e meia de baroens.

Da terrina a caudal sopa Em silencio é devorada. Só então fingiram d'homens, Porque não disseram nada. Mas venceu a natureza! Um barão por sobre a mesa Estendendo o prato, diz: «Ó compadre! isto é qu'é bô! Venha sopa, e acabô! Cá de mim, torno á matriz!»