Flores do Campo

Chapter 5

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Desfeito sonho doirado, Nuvem desfeita de incenso, Em quem dormindo só penso, Em quem só penso acordado!

Visão sim mas visão linda! Sonho meu desvanecido! Meu paraiso perdido Que de longe adoro ainda!

Nuvem, que ao sopro da aragem Voou nas azas de prata, Mas no lago que a retrata Deixou esculpida a imagem!

Rosa d'amor desfolhada Que n'alma deixou o aroma, Como o deixa na redoma Fina essencia evaporada!

Adeus sol que me alumia Pelas ondas do oceano D'esta vida, d'este engano, D'este sonho d'um só dia!

No mesmo arbusto onde o ninho Teceu a ave innocente Se volta a quadra inclemente Acha abrigo o passarinho:

Mas eu n'esta soledade Quando em meus sonhos te estreito, Rosto a rosto, peito a peito, Acordo e acho a saudade!

Adeus pois morte! adeus vida! Adeus infortunio e sorte! Adeus estrella do norte! Adeus bussola perdida!

Coimbra.

* * * * *

A VICTORIA COLONNA

Não sei que ha de divino, força é crêl-o N'esses teus olhos d'uma luz tão pura Que, ao vêl-os, tive logo por segura Aquella paz que é meu constante anhelo.

Filha de Deus, nossa alma aspira a vêl-o; Desprezando caduca formosura, Ella, em seu giro eterno, só procura A fórma, o typo universal do bello.

Não póde amar, não deve, uma alma casta Fugaz belleza, graça transitoria, Coisa que o tempo leva, o tempo gasta.

Nem tambem alma digna de memoria Póde amar o prazer, que o bruto arrasta, Em vez do puro amor--sombra da gloria.

MIGUEL-ANGELO.

Coimbra.

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N'UM CONVENTO

Como a agua em funda gruta Gotta a gotta filtra e cái, Sem saber quem isso escuta O que lá por dentro vai:

Como ao longe incerta e baça N'uma igreja alveja a luz, Que da lampada esvoaça E a vidraça reproduz:

Mal te vi, moira encantada! Mas á luz dos olhos teus Murcha a lampada sagrada D'um altar do nosso Deus.

Mal te ouvi, mas as suaves Melodias, que te ouvi, São mais dôces que as das aves Da aldêa onde nasci!

Quem teve, bella captiva, Coração de te deixar Aqui enterrada viva, Sem amor, sem luz, sem ar!

Era cego e surdo, juro, O miseravel algoz Que não viu olhar tão puro, Não ouviu tão pura voz!

Eu não tendo a faculdade D'arrazar esta prisão, Sacrifico a liberdade Por tão dôce escravidão!...

Coimbra.

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SONHO

Ha muitos sonhos de imaginação, De mera phantasia: Outros, que são a voz da prophecia, A voz da intuição, A voz do coração.

Pões fé em sonhos taes, Maria?... Pões? E fazes bem, que ás vezes Sonha a gente venturas e revezes, Que se tornam depois Bem certos! Ouve pois:

Sonhei que era n'um valle. Anoiteceu. Então duas estrellas. (Tão lucidas, tão limpidas, tão bellas!) Vieram lá do céo Alumiar-me. E eu...

Não sabia e pergunto: o que buscaes, Alampadas celestes! Vós, cá por este mundo... o que perdestes? Na terra não achaes Senão prantos e ais!

Respondem-me as estrellas (como a quem As tivesse captivas, Tão tremulas! as bellas fugitivas) --Buscavamos alguem Que nos quizesse bem:

É sorte nossa, é nossa condição Dar luz, ser norte e guia; Mas de mais boamente se alumia Na terra um coração Que nos tem affeição.--

--Pois e se vós do céo, lá onde até Se ignora o que são dôres, Vindes á terra procurar amores, Estrellas! se assim é, Tendes-me aqui ao pé:

Que em summa a noite da minha alma é tal Que eu pobre viajante Ando... se para traz, se para diante, N'este profundo val, Não sei nem bem mal.

Guiai-me pois, estrellas do Senhor! E a jura que vos faço É que na terra não darei um passo Senão só por amor Do vosso resplendor!--

Ellas então sorrindo-se, que eu vi, Tão meigas e suaves! Voaram como duas lindas aves; Indo poisar ahi... N'esse teu rosto... em ti!

Lisboa.

* * * * *

Á VISTA D'UM RETRATO

Amo-te, flôr! Se te amo, Deus que o sabe Que o diga a teus irmãos, que o céo povoam, E ebrios de gloria canticos entoam A quem no mar, na terra e céos não cabe.

Se te amo, flôr! que o diga o mar--que expelle Quanto é dominio, beija humilde a praia: Se mal que a lua lá das ondas sáia Nas rochas me não vê gemer com elle.

Amo-te, flôr! se te amo, o sol que o diga! Quanto lá da montanha aos céos se eleva, Se entre os vermes do pó que o vento leva, Me banha a mim tambem na luz amiga.

Se te amo, flôr? Sem ti, que noite escura, Meu céo, meu campo em flôr, meu dia e tudo! Diga-te a noite minha se te illudo, Se em vida já sem ti, sonhei ventura!

O anjo que a berço humilde e escasso Do céo me veio alumiar piedoso, E em lagrimas e riso, pranto e gozo, Desde então me acompanha passo a passo;

És tu! Amo-te e muito! O que fluctua Na fornalha que o sopro eterno accende, Não beija a mão do anjo que o suspende Com mais amor que eu beijo a sombra tua!

Coimbra.

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A LUA

Esse olhar silencioso Em que lingua se traduz? Falla-me, oh astro saudoso, Luz do céo, pallida luz! Que aereas visões me acordas, Que imagem, lua, recordas N'essa prateada côr? Que ha em ti, que a dôr mitiga, Que ha em ti, lampada amiga, De meigo e consolador?

Escuta, pallida lua, Dá-me um sorriso dos teus, Dá-me uma lagrima tua, Se és a pupilla de Deus! Vê que outros mimos não tenho, Que em tua face desenho A face do meu amor: Uma só lagrima! fria, Que ella me cáia... diria Que uma lagrima cahia Do céo ao menos na dôr!

Coimbra.

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JOVEN CAPTIVA

Respeita a foice a espiga verde ainda; Sem medo da vindima, o estio inteiro, Bebe o pampano as lagrimas da aurora: E eu verde como a espiga, tenra e linda Como o pampano, hei-de morrer? não quero: Quero, mas não por ora!

Talvez que a outrem, morte, grata fosses. Espero! Embora em lagrimas me lave, Varre-me o norte a mim a face? inclino-a. Se ha dias tristes, ai! ha-os tão dôces... Sem amargo, que mel, por mais suave Que mar, em paz continua?

Benefica illusão meu seio habita. Sepulte-me este carcere inhumano; A aza nivea da fé não se agrilhôa. Escapa ao laço da prisão maldita, Mais viva e alegre, a esse aereo oceano, A alvéloa canta e vôa.

Hei-de morrer? porque? se não diviso Em minha alma um remorso; durma ou vele, Se eu velo e durmo em paz, na paz do justo! Se em cada rosto a luz me abre um sorriso; Aqui mesmo, onde a mágoa o riso expelle; E a luz assoma a custo!

O fim do meu destino é lá tão longe! Quantos passei dos alemos que adornam Esta bella viagem? Assentada Ao banquete da vida apenas hoje, A taça ainda cheia as mãos entornam, Dos labios illibada.

Estou na primavera, oh segadores! E as mais quadras do anno havia agora De não acompanhar o sol? havia? Debruçada em meu pé, gloria das flôres, Eu não vi mais do que raiar a aurora; Quero acabar meu dia.

Espera um pouco, oh morte! nada perdes. Antes consola os que o remorso, o medo, O desalento pallido devora! Guarda-me ainda o campo grutas verdes! As musas, cantos! e o amor... Segredo! Não morro, não, por ora!

Assim, encarcerada, o rosto lindo E a vista alçando a regiões ignotas, Minha musa entoou na fé mais viva: E eu, as languidas mágoas sacudindo, Moldei em dôce verso as dôces notas D'essa joven captiva!

ANDRÉ-CHÉNIER.

Coimbra.

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Mulher! quando nos braços Te escuto uma canção, Não vês em meus abraços Profunda commoção? É que o teu canto á mente Me traz vida melhor... Ah! Cantai continuamente, Cantai, oh meu amor!

Quando sorris, assume Teu rosto uma expressão, Que o mais feroz ciume Se desvanece então. Sorriso tal desmente Um coração traidor... Ah! Sorri continuamente, Sorri, oh meu amor!

Quando tranquilla e pura, Te estou a vêr dormir, Que vozes se afigura Teu halito exprimir? Contemplo então contente Teu corpo encantador... Ah! Dormi continuamente, Dormi, oh meu amor!

_Letra de_ V. HUGO. _Musica de_ GOUNOD.

Lisboa.

* * * * *

UM BEIJO

Seria o beijo Que te pedi, Dize, a razão (Outra não vejo) Porque perdi Tanta affeição?

Fiz mal, confesso; Mas esse excesso, Se o commetti, Foi por paixão, Sim, por amor De quem?... de ti! Tu pensas, flôr, Que a mulher basta Que seja casta, Unicamente? Não basta tal. Cumpre ser boa, Ser indulgente. Fiz-te algum mal? Pois bem: perdôa!

É tão suave Ao coração Mesmo o perdão D'offensa grave! Se o alcançasse, Se o conseguisse, Quizera então Beijar-te a mão, Beijar-te a face... Beijar? que disse! (Que indiscrição...) Perdão! perdão!

Lisboa.

FRANCISCA DE RIMINI

Disse eu então: poeta, vês aquelles, Abraçados, velozes como o vento? Desejava poder fallar com elles.

--Chamando-os com enternecimento, Em cá passando mais do nosso lado, São dois amantes, lograrás o intento.

Assim que o vento os aproxima, brado: Oh almas d'uma eterna anciedade, Vinde fallar-me, se vos isso é dado.

Como um casal de pombas, com saudade Do ninho, vem no ar, d'aza espalmada, Não mais que por impulso da vontade;

Rompendo aquella aragem empéstada, Acodem lá do bando onde anda Dido Á supplica tocante e magoada.

«Ah mortal generoso e condoído, Que nos visita n'este escuro horrendo, Deixando nós de sangue o chão tingido!

«Do Senhor impetráramos podendo, Já que tens dó do nosso mal enorme, O teu descanço eterno em fallecendo.

«Queiras ouvir-nos ou fallar, conforme, É só dizer ou perguntar, mais nada; Em quanto o vento, como agora, dorme.

«A terra, onde nasci, fica assentada Na praia onde a final o Pó descança, E os que o seguem na marcha arrebatada.

«Amor, que em nenhum moço acha esquivança Prendeu este a um corpo... que roubado Foi á minha alma em barbara vingança!

«Amor, que obriga amar quem é amado, Poz-me com elle tão condescendente, Que ainda, como vês, me anda abraçado.

«Amor nos deu a morte juntamente. Quem nos matou irá para as Caínas.» Disseram elles isto fielmente.

Depois d'ouvir as victimas mofinas, Scismando cabisbaixo, em tal postura, Pergunta-me o poeta: em que imaginas?

Começo respondendo: oh desventura! Quanta esperança! quanta sympathia A ambos não cavou a sepultura!

E voltando-me a quem me referia: Olha Francisca! dó dos teus tormentos Estas lagrimas tristes desafia.

Mas na quadra dos vagos sentimentos, Conta-me: como foi que conheceste Os amorosos languidos momentos!

«O desgosto maior d'um triste é este, Fallar do tempo que passou, confesso: Que o diga o proprio guia que trouxeste

«Mas desejando tu com tanto excesso Conhecer de raiz esta amizade, Entre vozes e lagrimas começo:

«Liamos ambos, por curiosidade, Certa historia d'amores, que idearam, Nós sós, um dia, livres de maldade.

«Muita vez nossos olhos se espantaram, E descoramos, lendo a historia estranha; Mas dos lances que mais nos abalaram,

«Foi quando em summa o terno amante apanha O dôce beijo, por que andava ardendo: Este, que eternamente me acompanha,

«Beija-me a bocca a mim, todo tremendo! A culpa foi do livro que se lia! Não se continuou o dia lendo.»

Em quanto assim Francisca respondia, Chorava Paulo, a ponto, d'aterrado Me vêr nas convulsões da agonia, E cahir, como um corpo inanimado!

DANTE.

Lisboa.

* * * * *

PAIXÃO

Suppõe que d'uma praia, rocha ou monte, Com essa vista embaciada e turva Que dá aos olhos entranhavel dôr; Tinhas podido vêr transpôr a curva, Pouco a pouco, do liquido horisonte, A saudosa barca, que levasse Aquelle, a quem primeiro uniste a face E o teu primeiro amor!

Depois, que toda mágoa e saudade, Da mesma rocha ou alcantil deserto, Olhando ávidamente para o mar; Vias na solitaria immensidade, Vagas ficções d'um pensamento incerto, Surgir das ondas, desfazer-se em espuma; Não alvejando, nunca, vela alguma E, sempre, a suspirar.

Até que á luz d'uma intuição sublime D'alma arrancavas o gemido extremo De saudade, desespero e dôr!... Pois é assim que eu soffro, assim que eu gemo! Que nuvem negra o coração me opprime; Nuvem de mágoa, nuvem de ciume, Em te não vendo á hora do costume, Meu anjo e meu amor!

Lisboa.

* * * * *

ESCREVE!

Não sei o que suppôr Do teu silencio. Escreve! Quem é amado deve Ser grato ao menos, flôr! Se eu fosse tão feliz Que te fallasse um dia De viva voz, diria Mais do que a carta diz. Mas, olha, tal qual é Não rias d'esse escripto Que, pouco ou muito, é dito Tudo de boa fé. Ha n'esse teu olhar A dôce luz da lua, Mas luz que se insinua A ponto de abrazar... Pareça n'elle sim Que ha só doçura, embora: Ha fogo que devora... Que me devora a mim! Que mata, mas que dá Uma suave morte; Mata da mesma sorte Que uma arvore que ha: Que ao pé se lhe ficou Acaso alguem dormindo Adormeceu sorrindo... Porém não acordou. Esse teu seio então, Que encantadora curva! Como de o vêr se turva A vista e a razão! Como até mesmo o ar Suspende a gente logo... Pregando olhos de fogo Em tão formoso par! Oh seio encantador, Delicioso seio! Que jubilo, que enleio Libar-lhe o nectar, flôr! Eu tenho muita vez Já visto a borboleta Na casta violeta Poisar os leves pés: E n'um enlevo tal, N'uma avidez tamanha, Que a gente a não apanha Com dó de fazer mal! Pegada á flôr então No pé curvinho e molle, As azas nem as bole Toda sofreguidão! Poisou... adormeceu! Só vê, só ouve e sente O calix rescendente D'aquelle mel do céo! Pois vê com que prazer E com que ardente sêde Te havia... (que não hei-de!...) Tambem beijar, sorver! Mas eu só peço dó, Só peço piedade! Mata-me a saudade Com duas linhas só! Eu, a não ser em ti Achar allivios, onde? Escreve-me! responde Á carta que escrevi! Cançado de esperar Ás vezes quando sáio, Pensas que me distraio? Pois volto com pezar! Concentra-se-me em ti A alma de tal modo Que esse bulicio todo Nem o ouvi, nem vi! Ninguem te substitue, Porque só tu és bella! Que estrella a minha estrella, E que infeliz que eu fui! Mas devo-te suppôr Sempre indulgente e boa, Escreve-me e perdôa Meu violento amor! Respeita uma affeição Inutil mas sincera. Tu és mulher, pondera O que é uma paixão. Com sangue era eu capaz De te escrever; portanto, Tinta não custa tanto! E não me escreverás? Uma palavra, sim, Que me não amas... Queres? Em quanto me escreveres, Tu pensarás em mim! Só essa idéa, crê, Encerra mais doçura Que as provas de ternura Que outra qualquer me dê!

Lisboa.

* * * * *

MALMEQUER

Talvez em eu morrendo a teus ouvidos Chegue a noticia, que hoje os factos vôam, E oiças então os intimos gemidos Que exhalo e te não sôam.

Talvez então, embora me não ames, Com esses olhos humidos de fito Na minha sombra: «Desgraçado! exclames; Amava-me, acredito.

«Levou a vida amando-me: que prova Me podia alguem dar de mais ternura, Ingrata como eu era! Abri-lhe a cova, Cavei-lhe a sepultura!

«Hei-de regal-a de meu pranto. Julgo Do meu dever... agradecer-lhe agora! Purificar-me em lagrimas! O vulgo Que me censure embora.

«Hei-de ir dispôr um pé de saudade Na terra onde elle descançou da lida; Mostrar-lhe amor, mostrar-lhe piedade, Que não mostrei em vida!»

Se fôres, meu amor! uma perpetua, E uma saudade ser-me-hia dôce! Mas só perpetua ou saudade, aceito-a, E um malmequer que fosse.

Lisboa.

* * * * *

VIRGINIA

Para se recitar no theatro do Príncipe-Real

Senhores! vêde o sol; diariamente Nasce, cruza esse espaço e, no poente, Acaba de brilhar. É util, é preciso, é necessario, Não é pois inconstante, não é vario; É certo, é regular!

Hervas que nutrem, animaes que comem, E a imagem de Deus--que falla--o homem, Sem essa luz, dizei: Vegetavam acaso, existiriam? Os echos d'esses valles repetiam Alguma voz? O que!...

Seria tudo um ermo escuro e mudo; Tudo insensivel, solitario tudo! Mas Deus cria essa luz; E um mar sem praias de silencio e morte, Sêres de toda a casta--toda a sorte, Produz e reproduz!

Sim, essa luz benefica converte, Por mysteriosa alchimia, frio, inerte, Imperceptivel grão Em tenras hastes, em botões mimosos, Folhas, flôres e fructos saborosos Que recamam o chão!

Mas julgaes vós agricola sómente A mão do creador omnisciente? Pergunta singular! Basta só vêr a ondeada trança Com que elle adorna a virgem que vos lança O seu primeiro olhar!

A terra é de côr varia, a planta, verde: Porque e para que? O que se perde Em ter tudo uma côr? O que se ganha em ser tão bem pintada, Symetrica, mimosa, perfumada Uma ephemera flôr?

É que Deus é artista! e noite e dia E céo e terra e mar o denuncia... Vêde nascer o sol! Pôr-se alta noite a lua encantadora... Em quanto ao mesmo tempo canta e chora Ao longe o rouxinol!

Deus é artista, sim; Deus ama o bello, Mais talvez do que o util. O desvelo Com que elle trata a flôr! Antes de abrir... que mãi tão carinhosa Resguarda, mais solicita que a rosa, Um seu botão d'amor!

Nem podia sahir obra incompleta Das mãos de Deus: geometra e poeta Em summo grau, traçou A compasso a abobada celeste; Mas de que lindas nuvens a reveste Que ao vento tomam vôo!

Creou, de fogo, o sol--o grande astro! E creou, não de fogo, d'alabastro A sua bella irmã --Sombra apenas do sol, desnecessaria, Luz phantastica, vaga, solitaria, Inutil, fátua, vã...

Mas luz intima! luz do sentimento! Luz d'amor e de fé! que inspira alento A nossos corações! Unica luz, á qual se mede o fundo D'esse concavo mar... d'esse outro mundo... D'esse mundo de soes!

Porque se ao sol deveis fructos e flôres, Á lua deveis mais, deveis amores... Deveis... como direi? Esta entranhavel, vaga saudade De não sei que melhor realidade, Que o mundo que se vê...

Quantas vezes, depois da lida insana D'um dia, n'este mar da vida humana, Vendo surgir no céo Essa luz melancolica e suave, Eu acho então, e com que allivio, a chave D'este mysterio meu!...

D'este amor por phantasticos amores... Comtudo mais leaes e duradores Que os d'esse mundo são! D'este mundo de sombras... até prestes, Sombra tambem, á sombra dos cyprestes Achar satisfação!

E eu digo, digo á lua scismadora Com os olhos risonhos de quem chora Pranto consolador: Se pois Deus te creou porque eras bella... O que vale o sol mais do que uma estrella? Um rei do que um pintor?

Ao vêr-te, dôce lampada, suspensa De vaporosa nuvem, n'essa immensa Abodada dos céos, Pareces-me o thuribulo sagrado Com os rolos de incenso evaporado Em tua honra, oh Deus!

E a minha vista sofrega acompanha Esse clarão phantastico á montanha Ou da terra ou do mar, Onde, acabada a obra do seu dia, Astro d'amor e de melancolia, Se deita a descançar.

E eu descanço tambem; filha da arte... Cumpre-me a mim, oh lua, contemplar-te! E pergunte-me alguem: --Tu que fazes no mundo, mulher futil? --O que Deus faz... na flôr, na lua inutil... Sou artista tambem.

Lisboa.

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PRIMEIRO PSALMO DE DAVID

Bemdito o que não cahe em se guiar Por conselhos de gente depravada; E em vendo que vai mal, muda de estrada, E nunca se demora em mau lugar;

Que o seu empenho é só unicamente A lei de Deus, que estuda noite e dia. Como a arvore ao pé d'agua corrente, Dá a seu tempo o fructo que devia.

Nunca lhe cahe a folha; empresa sua Sahe por força conforme o seu intento; Em quanto o impio, o mau trabalha e sua, E é sempre como o pó, que espalha o vento!

No tribunal, onde ha-de ser ouvido, Não conte com sentença a seu favor; Que não entra no numero escolhido Dos justos, dos amigos do Senhor.

O justo, Deus bem sabe o seu caminho, E guia-o, não o deixa andar sósinho: E o caminho do mau, pelo contrario, É beco sem sahida e solitario.

Messines.

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SEGUNDO PSALMO DE DAVID

Porque anda o mundo todo enfurecido, Se esforços contra Deus são todos vãos? Os grandes, mais os reis, deram as mãos Contra o Senhor, contra o seu Ungido,

--Estas correntes, é despedaçal-as, Este jugo atirar com elle fóra! E lá cima no céo, o que lá mora Não faz mais que sorrir-se de taes fallas.

Mas em lhe dando a ira, aonde então Se hão-de metter, com medo, os desgraçados! Coroou-me rei no alto de Sião, Cumpre-me publicar os seus mandados.

«Tu és meu filho; disse-me o Senhor: Gerei-te hoje; pedir com confiança! Verás o mundo todo ao teu dispôr, Terras e povos, como propria herança.

«Vara de ferro para os ir guiando, E fazel-os guardar-te obediencia; E elles de barro mal cozido e brando Que os partas em te oppondo resistencia.»

Agora pois vós outros, reis, juizes, Reparai no que eu digo, e vêde lá; Servi a Deus, e dai-vos por felizes Cumprindo á risca as ordens que elle dá.

Tomai os meus conselhos; ou, senão, Tende já como certa a perdição. Que em se elle irando, é como um raio; aquelle Que o despreza e não crê, infeliz d'elle!

Messines.

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CANTICO DOS CANTICOS DE SALOMÃO

Para os corações puros tudo é puro.

S. Paulo a Tito.

I

CHEGADA

A SULAMENSE

--Tomára já ter o gosto De o sentir beijar-me o rosto!

CORO DE VIRGENS

--E onde ha mulher que te exceda? Só esse collo embebeda. O aroma que elle exhala, Nenhum balsamo o iguala.

2.º CORO

--O teu nome, fallar n'elle, Só fallar n'elle é tão dôce Como se um oleo nos fosse Escorrendo pela pelle.

SALOMÃO

--Olha como todas ellas Te estimam tanto, as donzellas.

A SULAMENSE

--Sou tua, leva-me, vamos.

CORO

--E nós, que te não largamos, Te iremos correndo atraz Pelo rasto de perfume, Que deixas por onde vás, Das pomadas com que dás No corpo, como é costume.

A SULAMENSE

--Já el-rei me manda entrar Para a sala do jantar.

CORO

--Para saltar de alegria E festejar este dia, A nós basta-nos lembrar Que esse teu seio embebeda; Nem ha mulher que te exceda.

2.º CORO

--Quem te vê seja quem fôr Fica bebado d'amor.