Flores do Campo

Chapter 4

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Amor é a palavra, o brado eterno Solto por Deus ao vêr já feito o mundo, Que fez tremer os carceres do inferno E o sol ficou da côr d'um moribundo: A primavera, estio, outono, inverno, Terra, céo, alma pura, bicho immundo, Tudo ahi cabe á larga de tal modo Que n'essa concha Deus se fecha todo.

Amor enrola a nuvem na montanha E espalma a onda em praia que não sente, Ata ao raio de sol o fio d'aranha E humilha ao conductor o raio ardente. Quanto na rede immensa a vista apanha. Tudo que jaz e cresce e vive e sente, De Deus brotou n'um jorro de bondade E póde amar-se em espirito e verdade.

Amo á aurora a luz doirada e clara, E ao crepusculo as nuvens da tristeza, A solida montanha, a nuvem rara Por invisivel fio aos astros presa; Amo a ancia feroz, a sêde avara Com que a loba parida engole a presa, E os crystallinos ais d'ave innocente Que comprimenta o sol ingenuamente!

Amo o sopro que parte, esmaga, estala Esses corvos que aos bandos vem das ondas N'essas noites que o impio até se cala Receando, trovão! que lhe respondas... E amo o bafo subtil que a flôr embala Pedindo-te, botão, que dentro o escondas, E as primicias lhe dês que leve áquelle Que te fez a ti flôr e vento a elle.

Tu só, que horror! a ti oh não te amo! Cheiras-me a sangue tu; teus olhos baços Olham, não vêem; tu tens bocca, chamo, Não me respondes; tens como eu dois braços, E não me abraças; brado afflicto, clamo, Tens duas pernas, e não dás dois passos: Ris, mas teu riso é d'enrilhados dentes; Mettes-me medo; tu, cadaver! mentes.

Ninguem (prohibe-o Deus) o braço córte Que lhe roubou o espirito divino; Deus a Cain apaga sul e norte E condemna a viver o assassino: Mas tu, mentira! symbolo da morte... Hypocrisia! teu sorrir felino Te deixe arreganhada a bocca aberta, Gele-te a morte a mão que a minha aperta.

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Evora.

* * * * *

Se ao enlaçal-a no peito Me cahe desfeita uma flôr, Lembras-me, sonho desfeito! Sonho d'amor!

Se a borboleta do calix D'um lirio aos ares se ergueu, Lembras-me, estrella dos valles! Lirio do céo!

Se inda um affecto em mim vive Entre os que mortos possuo, Lembras-me, sonho que eu tive! Lembras-me tu!

Coimbra.

* * * * *

Nunca me ha-de esquecer (ingrata! escuta) Não tendo eu mais talvez que os meus dez annos Esses olhos crueis, esses tyrannos Commigo em porfiada aberta lucta.

Se eu fôra voraz lobo ou fera bruta D'entranhas más, instinctos deshumanos, Talvez o fructo então de teus enganos O não colhesses tu de face enxuta.

Mas eu perdôo-te o mal que me has causado; A culpa não é tua e só devia Vingar-me em quem tão bella te ha formado.

E hei-de vingar-me, crê; mas isso um dia Depois d'um beijo teu me pôr em estado De disputar a Jove a primazia.

Evora.

* * * * *

DINHEIRO

O dinheiro é tão bonito, Tão bonito, o maganão! Tem tanta graça o maldito, Tem tanto chiste o ladrão! O fallar, falla d'um modo... Todo elle, aquelle todo... E ellas acham-no tão guapo... Velhinha ou moça que veja, Por mais esquiva que seja, _Tlim!_ Papo.

E a cegueira da justiça Como elle a tira n'um ai! E sem pegar n'uma pinça; É só dizer-lhe: ahi vai... Operação melindrosa Que não é lá qualquer coisa; Catarata! tome conta: Pois não faz mais do que isto, Diz-me um juiz que o tem visto: _Tlim!_ Prompta.

N'essas especies de exames Que a gente faz em rapaz, São milagres aos enxames O que aquelle diabo faz. Sem saber nem patavina De grammatica latina, Quer-se a gente d'alli fóra? Vai elle com taes fallinhas, Taes gaifonas, taes coisinhas... _Tlim!_ Ora...

Aquella physionomia E labia que o diabo tem!

Mas n'uma secretaria Ahi é que é vêl-o bem! Quando elle, de grande gala, Entra o ministro na sala, Aproveita a occasião: Conhece este amigo antigo? --Oh meu tão antigo amigo! (_Tlim!_) Pois não!

Coimbra.

* * * * *

DUVIDA

Amas-me a mim! Perdôa; É impossivel! Não, Não ha quem se condôa Da minha solidão.

Como podia eu, triste, Ah! inspirar-te amor, Um dia que me viste, Se é que me viste... flôr!

Tu, bella, fresca e linda Como a aurora, ou mais Do que a aurora ainda, Mal ouves os meus ais!

Mal ouves porque as aves Só soltam de manhã Seus canticos suaves; E tu és sua irmã!

De noite apenas trina O triste rouxinol: Toda a mais ave inclina O collo ao pôr do sol.

Porquê? porque é ditosa! Porquê? porque é feliz! E a que sorri a rosa? Ao mesmo a que sorris!

Á luz doirada e pura Do astro creador. Á noite, não, que é escura, Causa-lhe a ella horror.

Ora uma nuvem negra, Uma pesada cruz, Uma alma que se alegra Só quando vê a luz

De que elle, o sol, inunda O mar, quando se põe! Imagem moribunda D'um coração... que foi!

Uma alma semelhante Não póde captivar Um rosto tão galante, Um tão galante olhar!

E eu vi os caracteres Que a tua mão traçou: Mas vós... ah! vós, mulheres, Quem já vos decifrou!

Mal te sustinha o pulso A delicada mão! Sentia-te convulso Bater o coração!

Via-te arfar o seio... Corar... mudar de côr... E embora, ah! não, não creio... Tu não me tens amor!

Portimão.

* * * * *

CATURRAS

Ah! compadre, a gente foge, Desabelha com calor; Aqui faz fresco na loge, É onde se está melhor; Mas que calor que fez hoje!

--Pois, olhe, assim eu me désse De inverno quando faz frio, Como agora que elle aquece. Tome dois banhos no rio, Logo vê como arrefece.

--Compadre, nunca me traga Taes coisas á collação; Lembra-me a maldita draga, Compadre do coração! Não me falle n'essa praga!

--Tenho-lhe a mesma amizade Que o meu compadre lhe tem, Ás vezes dá-me vontade Até de a tragar tambem... Digo-lhe isto com verdade.

--Ha-de isto chegar a pontos Que quem viver ha-de vêr! Já lá vão setenta contos, E a draga a apodrecer, E trabalhos nenhuns promptos.

--Setenta, diz o compadre? Dão-lhe elles esse verniz... Lá como a sua comadre... Mas eu cá o que ella diz É como o que diz o padre...

--Pois inda isso continúa? --Eu sei lá, compadre, eu sei! Ora canta, ora se amua... Eu é que já me lembrei De a pôr um dia na rua!

--Compadre, tenha miolo, Isso não se faz assim; Eu não me tenho por tolo, E ponha os olhos em mim... Sirva-lhe isso de consolo.

--Pois bem sei que é ninharia, Mas o compadre o que quer? Estimo a minha Maria, E isto de homem com mulher... Mas vamos á vacca fria:

Com que a draga...--É empregada, Coisa que nunca se viu, Sendo uma peça aceada, A tirar lama do rio! Parece isto caçoada...

--E caçoada indecente Porque outra coisa não é. Mais economicamente Quando vasasse a maré A tirava mesmo a gente.

--E depois aquillo é lodo Que nunca póde prestar. Veja aterrar o caes todo Quando não ha-de importar... É gastar dinheiro a rodo.

--Haja decima e derrama; Por causa do quê? do caes, Da draga ou como se chama, E outras coisinhas que taes Que tudo a final é lama.

Pois sendo tudo bem feito Como á antiga, vá lá! Mas olhe, o caes não tem geito; De tudo quanto alli ha, A meu gosto, o parapeito.

--Sim, senhor, obra segura, Obra como deve ser; Feio e forte; é o que dura: Foi sempre o que ouvi dizer A quem está na sepultura...

--Mas era tudo escusado; N'esta, compadre, é que estou; E isto dá-me algum cuidado, Que o que meu pai me deixou Não foi nada mal ganhado.

--Pois e, se quer que lhe conte, Já se ahi falla outra vez Em mandar fazer a ponte: Cuida esta gente talvez Que temos alguma fonte...

--E havendo então uma barca... Como a Arca de Noé! Lá porque a gente se enxarca E não póde andar a pé Quando embarca e desembarca.

--Escarranchem-se ao cachaço Dos marujos: pois então? Cá em taes obras nem passo Que pernas minhas darão; É gosto que lhes não faço.

--Nada! havemos de ir agora Vêr ambos o que lá vai; Que a nós aquillo por ora Bem sei que nos não distrahe; Mas temos pouca demora.

--Pois vamos, compadre, vamos. Sentamo-nos nos poiaes, Alli mesmo conversamos Ambos sósinhos no caes, E depois logo voltamos.

Portimão.

* * * * *

Cosi trapassa, al trapassar d'un giorno, Della vita mortale il fiore e 'l verde, Nè, perchè faccia indietro april ritorno Si rinfiora ella mai, nè si rinverde.

TASSO.

Foi-se-me pouco a pouco amortecendo A luz que n'esta vida me guiava, Olhos fitos na qual até contava Ir os degraus do tumulo descendo.

Em se ella anuveando, em a não vendo, Já se me a luz de tudo anuveava; Despontava ella apenas, despontava Logo em minha alma a luz que ia perdendo.

Alma gemea da minha, e ingenua e pura Como os anjos do céo (se o não sonharam...) Quiz mostrar-me que, o bem, bem pouco dura.

Não sei se me voou, se m'a levaram, Nem saiba eu nunca a minha desventura Contar aos que inda em vida não choraram.

Ah! quando no seu collo reclinado, --Collo mais puro e candido que arminho, Como abelha na flôr do rosmaninho Osculava seu labio perfumado;

Quando á luz dos seus olhos... (que era vêl-os, E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!) Lia na sua bocca a Biblia Santa Escripta em letra côr dos seus cabellos;

Quando a sua mãosinha pondo um dedo Em seus labios de rosa pouco aberta, Como timida pomba sempre álerta, Me impunha ora silencio ora segredo;

Quando, como a alveloa, delicada E linda como a flôr que haja mais linda Passava como o cysne, ou como, ainda Antes do sol raiar, nuvem doirada;

Quando em balsamo d'alma piedosa Ungia as mãos da supplice indigencia, Como a nuvem nas mãos da Providencia Uma lagrima estilla em flôr sequiosa;

Quando a cruz do collar do seu pescoço Estendendo-me os braços, como estende O symbolo d'amor que as almas prende, Me dizia... o que ás mais dizer não oiço;

Quando, se negra nuvem me espalhava Por sobre o coração algum desgosto, Conchegando-me ao seu candido rosto, No perfume d'um riso a dissipava;

Quando o oiro da trança aos ventos dando E a neve de seu collo e seu vestido --Pomba que do seu par se ia perdido, Já de longe lhe ouvia o peito arfando;

Tinha o céo da minha alma as sete côres, Valia-me este mundo um paraiso, Distillava-me a alma um dôce riso, Debaixo de meus pés nasciam flôres.

Deus era inda meu pai. E em quanto pude Li o seu nome em tudo quanto existe --No campo em flôr, na praia arida e triste, No céo, no mar, na terra e... na virtude!

Virtude! Que é mais que um nome Essa voz, que em ar se esvái, Se um riso que ao labio assome N'uma lagrima nos cái!

Que és, virtude, se de luto Nos vestes o coração? És a blasphemia de Bruto --Não és mais que um nome vão.

Abre a flôr á luz, que a enleva, Seu calix cheio d'amor, E o sol nasce, passa e leva Comsigo perfume e flôr!

Que é d'esses cabellos d'oiro Do mais subido quilate, D'esses labios escarlate, Meu thesoiro!

Que é d'esse halito, que ainda O coração me perfuma! Que é do teu collo de espuma, Pomba linda!

Que é d'uma flôr da grinalda Dos teus doirados cabellos, D'esses olhos, quero vêl-os, Esmeralda!

Que é d'essa alma que me déste! D'um sorriso, um só que fosse, Da tua bocca tão dôce, Flôr celeste!

Tua cabeça que é d'ella A tua cabeça d'oiro, Minha pomba! meu thesoiro! Minha estrella!

De dia a estrella d'alva empallidece; E a luz do dia eterno te ha ferido. Em teu languido olhar adormecido Nunca me um dia em vida amanhecesse.

Foste a concha da praia. A flôr parece Mais ditosa que tu. Quem te ha partido, Meu calix de crystal, onde hei bebido Os nectares do céo... se um céo houvesse!

Fonte pura das lagrimas que choro! Quem tão menina e moça desmanchado Te ha pelas nuvens os cabellos d'oiro!

Some-te, vela de baixel quebrado! Some-te, vôa, apaga-te, meteoro! É n'este mundo mais um desgraçado.

E as desgraças, podia prevel-as Quem a terra sustenta no ar, Quem sustenta no ar as estrellas, Quem levanta ás estrellas o mar.

Deus podia prevêr a desgraça, Deus podia prevêr e não quiz; E não quiz, não... se a nuvem que passa Tambem póde chamar-se infeliz!

A vida é o dia d'hoje, A vida é ai que mal sôa, A vida é sombra que foge, A vida é nuvem que vôa; A vida é sonho tão leve Que se desfaz como a neve

E como o fumo se esvái: A vida dura um momento, Mais leve que o pensamento, A vida leva-a o vento, A vida é folha que cái!

A vida é flôr na corrente, A vida é sôpro suave, A vida é estrella cadente, Vôa mais leve que a ave; Nuvem que o vento nos ares, Onda que o vento nos mares, Uma após outra lançou, A vida--penna cahida Da aza d'ave ferida-- De valle em valle impellida, A vida o vento a levou!

Como em sonhos o anjo que me afaga Leva na trança os lirios que lhe puz, E a luz quando se apaga Leva aos olhos a luz;

Como os ávidos olhos d'um amante Levam comsigo a luz d'um dôce olhar, E o vento do levante Leva a onda do mar;

Como o tenro filhinho quando expira Leva o beijo dos labios maternaes, E á alma que suspira O vento leva os ais;

Ou como leva ao collo a mãi seu filho, E as azas leva a pomba que voou, E o sol leva o seu brilho, O vento m'a levou.

E tu és piedoso, Senhor! és Deus e pai! E ao filho desditoso Não ouves um só ai! Estrellas déste aos ares, Dás perolas aos mares, Ao campo dás a flôr, Frescura dás ás fontes, O lirio dás aos montes E tiras-m'a, Senhor!

Ah! quando n'uma vista o mundo abranjo, Estendo os braços e, palpando o mundo, O céo, a terra e o mar vejo a meus pés; Buscando em vão a imagem do meu anjo, Soletro á froixa luz d'um moribundo Em tudo só--talvez...

Talvez é hoje a Biblia, o livro aberto Que eu só ponho ante mim nas rochas, quando Vou pelo mundo vêr se a posso vêr; E onde, como a palmeira do deserto, Apenas vejo aos pés, inquieta, ondeando A sombra do meu sêr.

Meu sêr, voou na aza da aguia negra Que, levando-a, só não levou comsigo D'esta alma aquelle amor! E quando a luz do sol o mundo alegra, Chrysalida nocturna, a sós commigo, Abraço a minha dôr!

Dôr inutil! Se a flôr, que ao céo envia Seus balsamos, se esfolha, e tu no espaço Achas depois seus atomos subtis; Inda has-de ouvir a voz que ouviste um dia, Como a sua Leonor inda ouve o Tasso!... Dante... a sua Beatriz!

--Nunca; responde a folha que o outono, Da haste que a sustinha a mão abrindo, Ao vento confiou: --Nunca; responde a campa onde, do somno, E quem talvez sonhava um sonho lindo, Um dia despertou.

--Nunca; responde o ai que o labio vibra; --Nunca; responde a rosa que na face Um dia emmurcheceu: E a onda, que um momento se equilibra Em quanto diz ás mais: deixai que eu passe! E passou e... morreu!

Coimbra.

* * * * *

MÃI E FILHO

Primicias do meu amor! Meu filhinho! do meu seio Tenro fructo que á luz veio Como á luz da aurora a flôr!

Na tua face, innocente, De teu pai a face beijo, E em teus olhos, filho, vejo Como Deus é providente.

Via em lamina doirada O meu rosto todo o dia E a minha alma não se havia De vêr nunca retratada?

Quando o pai me unia á face, E em seus braços me apertava, Pomba, ou anjo nos faltava Que ambos juntos abraçasse!

Felizmente, Deus que o centro Vê da terra e vê do abysmo, Que bem sabe no que eu scismo, Na minha alma um altar viu dentro:

Mas com lampada sem brilho, Sem o deus a que era feito... Bafeja-me um dia o peito, E eis feito o meu gosto, filho!

Como em lagrimas se espalma Dôr intima e se esvaece D'alma o resto quem podesse Vasar n'um beijo em tua alma!

Mas em ti minha alma habita! Mas teu riso a vida furta... Mas (que importa!) morte curta! Se um teu beijo resuscita!

Coimbra.

* * * * *

Toca a capello, vou vêl-o E vejo de toda a côr, Não doutores de capello, Mas capellos de doutor.

Coimbra.

* * * * *

Amas, pobre animal! e tens tu pena?... Sim, póde na tua alma entrar piedade? Se póde entrar, eu sei! Negar quem ha-de Amor ao tigre, coração á hyena! Tudo no mundo sente: o odio é premio Dos condemnados só, que esconde o inferno. Tudo no mundo sente: a mão do Eterno A tudo deu irmão, deu par, deu gemeo. A mim deu-me esta gata, a mim deu-me isto... Esta fera, que as unhas encolhendo Pelos hombros me trepa e vem, correndo, Beijar-me... Só não vivo! amado existo!

Evora.

* * * * *

NÃO!

Tenho-te muito amor, E amas-me muito, creio; Mas, ouve-me, receio Tornar-te desgraçada. O homem, minha amada! Não perde nada, goza; Mas a mulher é rosa... Sim, a mulher é flôr!

Ora e, a flôr, vê tu No que ella se resume... Faltando-lhe o perfume, Que é a essencia d'ella, A mais viçosa e bella Vê-a a gente e... basta. Sê sempre, sempre, casta! Terás... quanto possuo!

Terás, em quanto a mim Me alumiar teu rosto, Uma alma toda gosto, Enlevo, riso, encanto! Depois, terás meu pranto Nas praias solitarias... Ondas tumultuarias De lagrimas sem fim!

Á noite, que o pezar Me arrebatar de casa, Irei na campa rasa Que resguardar teus ossos, Ah! recordando os nossos Tão venturosos dias, Fazer-te as cinzas frias Ainda palpitar!

Mil beijos, dôce bem! Darei no pó sagrado, Em que se houver tornado Um corpo tão galante! Com pena, minha amante, De me não ter a morte Cahido a mim em sorte... Cahido a mim tambem!

Já exhalando os ais Na lugubre morada Te vejo a sombra amada Sahir da sepultura... A tua imagem pura, Fiel, mas illusoria... Gravada na memoria Em traços tão leaes!

Então, se ainda alli Teus vaporosos braços, Poderem dar abraços Como dão hoje em dia, Peço-te, sombra fria! No mais intimo d'elles Que a mim tambem me geles, E fique ao pé de ti!

Mas, ai! meu coração! Tu porque assim te affliges, E tremula diriges A vista ao céo piedoso!... O quadro é horroroso, A scena triste e feia, Basta encerrar a idéa D'uma separação...

Mas, ouve, existe Deus. Ora e, se Deus existe, Tão horroroso e triste Que pódes temer? Nada! Desfruta descançada O extasi, o enleio Em que eu já saboreio O jubilo dos céos!

Deixa-me n'esse olhar Vêr como a lua assoma... Sim, deixa no aroma, Que a tua bocca exhala, Vêr como a rosa falla Quando a aurora a inspira... Vêr como a flôr suspira Por vêr o sol raiar!

A morte para amor É exito sublime. A morte para o crime, É que é amarga e feia. A morte não receia O verdadeiro amante; Por ella a cada instante Implora elle o Senhor.

É juntos, tu verás, Que nós expiraremos! Sim, juntos, que os extremos Olhares cambiando, Iremos despegando, Do involucro terreno, O espirito sereno Como a eterna paz!

Vê, só porque suppuz Chegado esse momento, Já esse olhar mais lento... As vistas mais serenas... Bruxuleando apenas, Em languido desejo, Symphatico lampejo D'uma ineffavel luz!

Ha, n'este triste valle De lagrimas, a imagem De dois n'essa passagem Para a eternidade... A nevoa, a anciedade, O jubilo que mata, Dão uma idéa exacta Do transito fatal.

Mas essa imagem, flôr! É tão fiel, tão viva Que á sua luz activa Se cresta a flôr mimosa! E nem o homem goza: Se goza é um momento! Depois... o desalento! Depois... o desamor!

Portimão.

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NA FOLHA D'UM ROMANCE

Moldada ao bem nasci, mas debil planta Verguei de vicio ao sopro pestilente; D'entre o vicio porém minha alma ardente Castos hymnos a Deus saudosa canta.

Ah! se um mentido affecto amor levanta N'um pobre coração inexperiente, D'elles a culpa é toda! uma innocente Não consulta a razão, razões supplanta.

Cahi, verguei, Senhor! já pervertida Graças, beijos vendi, vendi belleza, Triste commercio de mulher perdida.

Oh! mas, Deus do amor! foi só fraqueza: De impias mãos me arrancai, tirai-me a vida, Alcance-me o perdão mortal tristeza!

Messines.

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Lagrima celeste, Perola do mar, O que me fizeste Para me encantar!

Ah! se tu não fosses Lagrima do céo, Lagrimas tão dôces Não chorára eu.

Se nunca te visse Bonina do val, Talvez não sentisse Nunca amor igual.

Pomba desmandada, Que é dos filhos teus, Luz da madrugada, Luz dos olhos meus!

Meu suspiro eterno, Meu eterno amor, D'um olhar mais terno Que o abrir da flôr,

Quando o nectar chora, Que se lhe introduz, Ao romper da aurora, Ao raiar da luz,

Por entre a folhagem Onde mal se vê, Como a terna imagem Da que eu adorei.

Que esta voz te enleve, Que este adeus lá sôe, Que o Senhor t'o leve, Que Deus te abençôe.

Que o Senhor te diga Se te adoro ou não, Minha dôce amiga Do meu coração!

Se de ti me esqueço, Se já me esqueci, Ou se mais lhe peço, Do que vêr-te a ti;

A ti que amo tanto Como a flôr a luz, Como a ave o canto, E o Cordeiro a cruz,

E a campa o cypreste, E a rola o seu par, Lagrima celeste! Perola do mar!

Coimbra.

* * * * *

DESCALÇA!

Quem és, que ao vêr-te o coração suspira, E em puro amor desfaz-se! Raio crepuscular do sol que nasce, De lampada que expira!

Como os teus pés são lindos! como é dôce A curva do teu peito! Oh! se o meu coração fosse o teu leito, E o teu amado eu fosse!

Que preciosas perolas descobre Teu meigo humido labio! E, virgem! como Deus foi justo e sabio Em te fazer tão pobre!

Não tens fofo velludo onde se atole Tua angelica imagem; Mas quando é bello o céo, bella a paizagem E quando é bello o sol?

Limpo de nuvens, nú, derrete a neve E a aguia até desmaia. Tu não tens mais do que uma pobre saia, E essa, curtinha e leve.

Onde o corpo te alteia, a saia avulta; Onde te abaixa, desce... És como a rosa! A rosa nasce e cresce, Não para estar occulta.

O que te falta pois? os teus desejos Quaes são? de que precisas? Ah! não ser eu o marmore que pisas... Calçava-te de beijos!

Coimbra.

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ADEUS!

Adeus tranças côr de oiro, Adeus peito côr de neve! Adeus cofre onde estar deve Escondido o meu thesoiro!

Adeus bonina, adeus lirio Do meu exilio d'abrolhos! Adeus oh luz dos meus olhos E meu tão dôce martyrio!