Flores do Campo

Chapter 3

Chapter 33,916 wordsPublic domain

Passados annos (é boa!) Foi-lhe preciso ao coveiro Abrir a cova, e achou-a Ainda de corpo inteiro, Ainda rosas na face, Ainda signaes de vida... Milagre! coisa sabida; Pois mais fresca que uma alface Ha tanto tempo enterrada, Devendo estar reduzida A pó, terra, cinza e nada...

Vem dar parte; e corre a vêl-a O povo atraz do prior; E passam logo a trazel-a Em cima do seu andor E a pol-a n'uma capella De grande veneração; (Elles ás costas com ella, E elle a cantar canto-chão;) Mas seja lá o que fôr, O que é certo e mais que certo É que santa como aquella E nem de mais devoção, Não ha por alli tão perto.

E dizem que não ha santos Como nos tempos passados! E cá opinião minha Que muitos (quantos e quantos!) Que ahi morrem desprezados, Se não são canonisados É que está cheia a _Folhinha_.

Messines.

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A UM NUNO

Provando a existencia de Deus a pobres camponezes

Ora a provar que ha Deus, Nuno! isso é teima: Pois ha alguma ovelha no rebanho Que não saiba que só a mão suprema Creava um animal d'esse tamanho!

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A ***

Pois se como sempre fomos Somos Pétalas da mesma flôr, E o que eu sinto, ou eu me illudo, Tudo Tambem sentes, gosto e dôr;

Que te arraza os olhos d'agua? Magua Em que eu não deva tocar? Oh! mas se ha quem a suavise, Dize, Vou-lhe um suspiro levar.

Não se alcança, não se avista, Dista D'aqui muito o allivio, ou não? Dos teus olhos muito; e pouco, Louco! Pouco do teu coração.

Sei o que vai em teu seio; Sei-o Porque em materia d'amor, Debalde os labios se calam! Fallam Ainda os olhos melhor!

Batalha.

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LUZ DA FÉ

Tu, sol! já não me alegras Como alegravas, não: Vós, sim, ó nuvens negras, Relampago e trovão!

Quando o trovão me aterra, Recordo-me de Deus; Abalo cá da terra E vou por esses céos:

E lá n'essas alturas, Por onde só a fé, Em regiões tão puras, Nos deixa tomar pé;

Voar, pairar nos ares Como uma aguia cá, De lá só vejo os mares, E é porque a luz lhes dá.

O mais como se apanha E empolga com a mão, Seja a maior montanha, Seja a maior nação;

O mais fica no fundo D'esse infinito mar; O mais pertence ao mundo, É escusado olhar.

Deus deixa ás creaturas Cá baixo a sua cruz, E fecha as almas puras N'um circulo de luz.

As chagas, as miserias Cá d'este lamaçal, Nas regiões ethereas, Lá não se avista tal.

É só a luz, que foge, Mais uma irmã que tem --A alma, que até hoje Não a prendeu ninguem;

São essas duas luzes (Qual d'ellas tão subtil Que ás forcas e ás cruzes Do despota mais vil,

Se escapam de tal modo Que é de o fazer raivar) Cá d'este mundo todo O que se vê brilhar!

Porque uma e outra aspira Continuamente ao céo, A alma que suspira, E a luz que Deus nos deu.

Porque uma e outra é pura, Perpetua e immortal; E a sua formosura, Não ha nenhuma igual.

Quem é, ó luz formosa, Ó minha bella irmã! Quem é que faz a rosa Abrir pela manhã?...

Eu amo-te e (as trevas Não teem esplendor!) Tu só é que me levas O tempo e o amor.

Mas eu estimo o raio E gósto do trovão, Por vêr que quando cáio É que me elevo então.

Por vêr que em tendo medo Mais se me aviva a fé; E a fé, não ha rochedo Firme como ella é.

Por cima da desgraça Ou seja do que fôr, Ella, não olha, passa De fito no Senhor!

A essa luz divina, Ó luz! é que tu és Tão pura e crystallina Como o Senhor te fez.

Por isso a noite escura, Ah! se eu a preferi Á tua luz tão pura, É por amor de ti!

Messines.

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RESPOSTA

A A. DO QUENTAL

Tal é a confiança que te inspira Estes reis, estes povos, esta gente, Que é para o céo que appella e se retira Tua alma já de triste e descontente.

Mas Deus então seria ou impotente Ou seria um Deus barbaro: mentira! Não póde suspirar eternamente Quem ha já tantos seculos suspira.

Vai ganhando terreno a luz brilhante, Luz toda liberdade e toda amor Que ha-de salvar o mundo agonisante.

A idéa, esse Verbo creador Ha-de fazer que um dia e não distante Só o nome de imperio inspire horror.

Messines.

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Meu casto lirio, Terno delirio, Gloria e martyrio Do meu amor! Amo-te como A haste o gomo, O labio o pomo E o olho a flôr.

Se ao meu ouvido Sôa um rugido Do teu vestido, Que ouço roçar; Que som me vibra Não sei que fibra Que me equilibra A mim no ar!

E que harpa santa É que me encanta E enche de tanta Consolação, Quando uma falla Terna se exhala D'onde se embala Teu coração!

Quando te vejo D'um simples beijo Córar de pejo, Mudar de côr, Que susto é esse Que me parece Te empallidece, Rosa d'amor!

Quando no leito, Teu niveo peito Sonho que estreito E aperto ao meu; Vendo tão perto O céo aberto, Porque desperto... Anjo do céo!

Não fujas, rosa! Não fujas, goza Manhã mimosa, Manhã d'amor; De folha em folha A flôr se esfolha Bem cedo, e olha Que és como a flôr!

Coimbra.

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VENTURA

O sol na marcha luminosa vôa Lançando á terra magestoso olhar; Passa cantando quem o ar povôa E a praia abraça venturoso o mar.

No bosque o vento dôce canto entôa, Ouvem-se em côro as multidões cantar; Que a um só triste o coração lhe dôa, Que eu seja o unico a soffrer, chorar...

Por ti, saudade... de quem vai tão perto E a quem dos olhos e das mãos perdi N'este tão ermo lugubre deserto!

Por ti, ventura... que uma vez senti; Por ti, que ás vezes a meu peito aperto E... o peito aperto sem te vêr a ti!

Evora.

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Arida palma Tem seu licôr, Tem como a alma Tem seu amor; Tem como a hera Tem seu abril, Tem como a fera Tem seu covil.

Tem toda a planta Que o sol queimou Lagrima santa Que a orvalhou, E o passarinho Que hontem nasceu Lá tem seu ninho Que a mãi lhe deu.

Só eu na magua Do meu penar Sou como a agua Que anda no mar, Sou como a onda Que á busca vem D'onde se esconda, E onde, não tem!

Folha revolta Que anda no chão, Lagrima solta Do coração; Corpo sem vida, Haste sem flôr, Folha cahida Do meu amor.

Coimbra.

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A UNS OLHOS AZUES

Cahe a folha da rosa pudibunda, Cahe a rosa da face virginal, Cahe das nuvens a aguia moribunda, Cahe o sol na montanha occidental.

Cahe a onda na praia, cahe do somno O poeta na luz; e cahe das mãos Dos despostas o sceptro, elles do throno, Como a seus pés cahiram seus irmãos!

Cahe dos labios o riso; cahe dos olhos A lagrima tambem, que d'alma sahe; Cahe a rocha no mar, cahe nos abrolhos A flôr de liz; de louro a folha cahe.

Cahe do céo a centelha incendiaria, A nuvem cahe se um sopro Deus lhe dá, Cahe ante o dia a noite solitaria Como o falso Dagon ante Jehovah.

Cahe tudo, flôr! cahe tudo; eu só não cáio: Mais do que um rei, que o sol, igual a Deus, Cahir, mulher! só posso á luz d'um raio Se elle cahir do céo dos olhos teus!

Luso.

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HERESTA

Que magua ou que receio Dos olhos te desata Aljofares de prata No jaspe do teu seio?

Bem intima ser deve A pena que te opprime, Flôr tenra como o vime, Flôr pura como a neve!

--Compunge-te isso, dóe-te Vêr esmaltando o calix Da erma flôr dos valles O balsamo da noite?

Se aos olhos nos affluem As lagrimas, parece Que a dôr nos adormece, E as maguas diminuem.

--Heresta! pois inclina Na minha a tua face E deixa me repasse Teu balsamo, bonina!

Abraça-me, divide Commigo esse consolo, Enlaça-te ao meu collo Como ao olmeiro a vide!

Ás vezes tambem quando Os olhos se me estendem Ás luzes, que se accendem No templo venerando;

Tão intima saudade, Tão intimo desejo, D'um mundo, que não vejo, Me inspira a immensidade...

Que o pranto se agglomera Na palpebra, onde morre; Sim, gela-se, não corre, Tal é a dôr que o gera!

--É Deus que a si te aspira, É Deus que ao céo te chama; Que em tudo amor derrama, A tudo amor inspira!

Canta-o, o justo, o santo! E a flôr que o campo adorne Thuribulo se torne Mal te ouça o dôce canto.

--Inspira-o pois, inspira, Virgem de intacto pejo! Seja um teu riso o harpejo E um teu cabello a lyra!

O sol já da montanha Te disse adeus! adeus! E a cupula dos céos Ficou pallida e estranha.

E aquella, que a bondade De Deus em si reflecte, Em quanto ao sol compete Mostrar-lhe a magestade,

Á luz extrema d'hoje Ergueu livida a face Com medo que avistasse Quem busca, e de quem foge.

Fluxo e refluxo eterno D'alma contradictoria, Que após continua gloria, Anda em continuo inferno.

Poeta! é copia tua, Supplicio igual te inquieta. Mas que alma de poeta Teu seio arqueia, oh lua?

Amor, amor como este, Visão timida e casta Em giro eterno arrasta A lampada celeste.

Como esse que a deshoras A ti te ergue a cabeça E aos ermos te arremessa Em busca do que adoras.

Mas, ah! pallido globo! É pio d'ave nocturna, Echo em alguma furna Do uivo d'algum lobo?

Ouço uma voz... escuta: É ella a voz que se ouve? Ou monge que inda louve A Deus, n'alguma gruta!

Quem lá em baixo á escarpa D'um ingreme penedo No tremulo arvoredo Entorna os ais d'uma harpa?

É ella a minha Heresta, A minha branca ermida Do ermo d'esta vida, Mais erma que a floresta?

Tu, lua, que no val D'Aialon paraste, Já viste em sua haste Suspenso lirio igual?

Não é, não é mais bella A rosa entre os abrolhos, Nem ha como os seus olhos No céo nenhuma estrella!

É á luz d'uma alvorada, Apenas desabrocha, Nos angulos da rocha Vêl-a despedaçada!

Vós, lobos! ide em bando, Trepai pelo rochedo, Uivai, mettei-lhe medo, Levai-a recuando!

Que faz quem se aproxima D'um precipicio, diz-m'o? Que buscas tu no abysmo Se o céo é lá em cima?

Não tarda muito, creio, Que acabe esta ancia nossa, E Deus unir-nos possa No seu eterno seio.

É lá que a alma falla, Lá que o amor se mede, Que em brilho o sol excede, E em gloria a Deus iguala!

Na nuvem do futuro Teus vagos olhos prega! Depois de noite negra Vem sempre um céo mais puro.

E agora, se o desejo Te satisfiz, em premio D'um canto d'alma gemeo, Um gemeo e dôce beijo!

Coimbra.

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FRAGMENTO

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Deixal-o: os olhos fecho á luz e quero... Quero-te, oh sonho, se és doirado e lindo: Mais que a teus fachos, pedagogo austero! Que me condemnas em chorando e rindo. Sempre olhos fundos, sempre esse ar severo... Razão! não te amo; mas a ti, bemvindo, Tu que os conselhos nunca, amor! lhe tomas; Dás luz á lua, dás á rosa aromas.

Oh! ha tres vistas com que as coisas vemos; Ha tres razões que as coisas determinam; Uma a dos olhos; outra a que escondemos N'isso ante que os alemos se inclinam; Outra a que dentro no coração temos, Que os limites do espaço só terminam: Coube a primeira em sorte á borboleta; A outra ao homem; a terceira ao poeta.

Mas será só poeta quem faz versos? Não é a flôr poeta que o sol canta? Não cabe aos ais tão intimos, dispersos Do cantor triste nome e gloria tanta? Esses aereos tão mimosos berços, Que, excepto o homem, o furor quebranta A quanto é fero e sanguinario, acaso Cada um d'elles não é um parnaso?

Mais poesia em pobre margarida, Que aos pés se pisa, enthesoirada vejo, Que em muita madreperola polida Que as cinzas guarda de finado harpejo. Dize-me, pomba! que no ar sustida Vens como a nuvem coroar d'um beijo Quem teus desvelos maternaes comparte: Camões excede-te em engenho e arte?

Vaidade humana! Do que é simples, claro, Fazem mysterio; dão-lhe um nome e basta: Como esse eunucho sacerdocio avaro Que da verdade as multidões afasta... Mas a verdade não é pedra d'ara Nem arca-santa que só certa casta Tem privilegio de levar ao hombro Ou vêr de perto, sem morrer d'assombro.

Padre, ministro do Crucificado É bom ferreiro afeiçoando o ferro Com que ha-de prestes ir rompendo o arado Os campos d'este secular desterro. Melhor explicam um lugar sagrado Bigorna e malho, que explica o berro De bonzo inutil; que asperos abrolhos Não viram nunca seus inchados olhos.

Apostolo é o pai que se afadiga Só para que descance o filho amado; Apostolo é a rocha em que se abriga Ave agoureira e pobre desgraçado; Apostolo é a lagrima que amiga Cahe pela face em peito amargurado; E esse monstro do céo que solitario Correu o mundo á busca do Calvario.

E assim vós outros, falsos sacerdotes! Que a mesma crença sustentar devêreis, Poetas vos chamaes se em ôcos motes Sabeis vasar combinações estereis? Monges! tendes o habito; se os dotes, Os doze dons do Espirito tivereis, Crêreis que é mais poeta o dôce favo Que a abelha fabríca em mato bravo.

Fechei a minha bocca largo espaço Para vêr e pasmar; eu não podia Tirar os olhos do tributo escaço Que paga o albergue quando acaba o dia. Pelo filhinho em maternal regaço Como ave em ninho a balançar, medía, Não essa Iliada a compasso austero, Mas a de Christo, a do celeste Homero.

Lia esse livro que anda encadernado Em pelle humana e embrulhado em pranto, Mas para bençãos, para amor dictado E quanto ha puro, quanto ha bello e santo: Livro que o impio soletrou tocado, Se o impio os olhos pôde erguer a tanto; Mas que a moirama só conserva vivo Porque não morre o immortal captivo.

Não morre: eterno como a fonte d'onde Dimana a luz, a vida, amor e tudo, Que amostra a terra, amostra o mar, e esconde O céo, o espaço, o infinito mudo... O mundo mudo! para quem? responde, Valente martyr! que o pesado escudo, Com que a verdade os olhos encobria, Morreste mas quebraste á luz do dia.

«Existe um pai commum, que a todos ama E d'elles só juiz a si reserva Punil-os de seu mal; o sol derrama Por cedro erguido e enterrada herva; Desarma o laço que a perfidia trama, Ou n'elle a prende e faz cahir; enerva Braço que se ergue contra irmão; fecunda Semente que não cahe de mão immunda.

«Diante d'elle as obras apparecem Taes como as gera o intimo do peito: Basta o amor do bem, se as mãos fallecem; Sem esse amor é nada o grande feito. Embora os homens de soltar se esquecem Quem chora escravo; porque, em seu conceito Deixe chorar quem purpuras arrasta, Cante que é livre na verdade, e basta.»

Ella o resto fará; porque a seu braço Reis não resistem, não resistem povos: Um raio a nuvem parte e deixa o espaço Coalhado d'astros que parecem novos: Põe ao sol, que o fecunde, o simples traço, Como a grande avestruz os grandes ovos; E quem depois no mundo a luz lhe apaga? Ninguem apaga a luz que o mundo alaga.

Sacerdocio embusteiro as mãos lhe prega Em tronco immovel que seus labios gele; Á justiça profana o justo entrega (Sua irmã gemea que a verdade expelle:) Já das almas senhor o rosto alegra, Já morto o canta, sepultado e elle Só o consome o incendio que já lavra De bocca em bocca, o incendio da palavra.

Nenhum de nós o viu andar prégando, Nenhum seu olhar vago lhe notámos, Nunca o vimos no ermo a Deus orando, Nunca a mão estendida lhe apertámos; E por todos seu nome vai passando, Todos, os seus preceitos, decorámos... E que vá vêr-lhe a campa ao Oriente Quem os olhos da carne tem sómente.

Que é um tumulo acaso, esse tributo Pago pela materia á vil materia? Quem vai na campa alliviar o luto Se a vista alonga á amplidão aerea? Quem a copia de Deus rebaixa a bruto, E a mais que bruto a immortal, etherea, Celeste pomba, que em seu vôo a vida Em factos deixa ás almas esculpida?

Não me embala inda Homero nos seus braços E me pinta nas mãos a natureza? Não lhe ouço eu inda a voz...como ouço a espaços A voz da grande Fama portugueza... Quando me apraz olhar para os pedaços D'este grande gigante que a fraqueza Expoz aos coices...leão moribundo... O rei antigamente d'este mundo?

Eu não sou dos que a patria sua adoram Como adora o seu deus o fiel crente. Vejo que todos n'uma patria moram E sobre todos vejo um céo sómente: Mas ame cada qual; que se outros choram Nas mãos dos tigres que só comem gente, Tambem meus olhos choram seu tormento D'onde quer que seus ais me traga o vento.

Deixai ir em seu transito divino Desde a Cruz do Calvario na Judêa, Té á ponta da espada d'aço fino Desembainhada em Italia, o tempo, a idêa. Deixai andar a vêr o peregrino Onde a ventura abunda, onde escassêa Para vos dar, no oiro (Fé e Esperança!) Rei e pastor nas conchas da balança.

Ha-de vir esse dia; e se a figueira Em abrolhando perto vem o estio, Não longe está: a cobra carniceira De mil roscas e lugubre assobio Que terra come, e come a terra inteira, Se á terra inteira se enrolar, despiu A pelle enorme com bastantes dôres Esfolada por tres imperadores...

Eu não sei qual mais chore; se essa sêde De sangue insaciavel dos tyrannos, Ou se é a escuridão vossa que eu hei-de Antes chorar, oh miseros humanos! Que solimão vos deram, loucos! vêde: Não vale a gloria que vos faz ufanos Um só pingo de sangue, um só, vertido, Um gemido de mãi, um só gemido!

É do sangue e das mães que eu fallo; e certo, Que ha na vida mais santo? O sangue é vida; E as mães fonte da vida: eu nunca esperto Esta lampada d'alma, suspendida Na abobada eterna e que tão perto Parece ter a origem............ ................senão quando Vejo essa cara imagem suspirando.

Eu amo as mães, seu nome é terno e dôce; Sim, amo as mães: nossa alma d'ellas nasce: Quem n'um collo de mãi cahiu, achou-se D'um pulo ao pé de Deus: a alma pasce Lirios celestes vendo-as; e seccou-se, ........................................ Do casto e candido a sagrada fonte, Se ella no tumulo encostou a fronte.

Essa é a virgem-mãi, voz suavissima D'esse cantico eterno--o Evangelho; A Virgem... Mãi... de Deus! virgem purissima, Cheia de graça e de justiça espelho. Oh poesia, poesia altissima Como o fecho do empyreo! eu me ajoelho E beijo a tua base, harpa celeste! O coração, a corda que nos déste.

Em que labios se bebem mais delicias, Em que face de virgem se desatam Rosas mais puras d'intimas primicias, Que nas que por dar vida a nós se matam? Sempre a bem nosso, a nosso amor propicias Na menina dos olhos nos retratam; E nunca premio vil em paga pedem De quanto, tanto d'alma, nos concedem.

Na montanha da Fé, mulher formosa Se ante mim a meus pés desenrolasse, Como o demonio, a vastidão pasmosa Que elle dava a Jesus se o adorasse; E me pedisse em premio uma só coisa --Ás mãos de minha mãi furtar a face; Eu lançava-lhe o cuspo, essa tesoira Que em mil bocados faz a vacca-loira.

Vêde-a ao berço, sofrega de vida, Que a sua é pouca para a dar ao filho; Ella em cama de espinhos, mal vestida; Elle enfaxado, em berço de tomilho; Ella em contínua, azafamada lida, Elle vendo se apanha á luz o brilho... Já descobrindo em tão tenrinha idade Que toda a sua sêde é de verdade.

E esses lobos que em duas patas andam Para ter sempre em guarda as outras duas; Que a monte sahem só, e só debandam Como os ladrões, á noite, pelas ruas; A empecer que os animos se expandam, Que a luz se espalhe, e que as imagens tuas, Bom Deus! de imagens passem: e que admira... Sem o sopro que ao barro a vida inspira!

Já se iam vendo os campos relvejando Cá da banda do sol n'este horisonte Por onde já n'um mar se andou nadando E onde apenas se encontra secca fonte; E eil-os já os hypocritas minando, Cortando ao povo hebreu na marcha a ponte Só para que o manná que o céo lhe chove No deserto dos reis jámais nem prove.

Retalhou-lhes o labio omnipotente O habito comprido, a manga larga, Olhar submisso mas lugar na frente; E nem despido o monstro a presa larga. «São sepulchros caiados, vêde, oh gente! Por dentro podridão:» em voz amarga, Em voz de grande horror, de grande abalo, Christo clamou d'aquelles de quem fallo.

«Dizimam-te o coentro e a arruda, Mas sua consciencia é generosa. Chamam-se mestres... de sciencia muda, A sciencia da cobra venenosa: Olhai, não espia a fera, espreita, estuda Toda a volta do dia, mais manhosa, Que essa raça de viboras, que espalha Veneno em todo o mundo, que coalha.»

Irmãs da Caridade! A Caridade Tem só duas irmãs--a Fé e a Esperança: Não traja as côres só d'uma irmandade, Traja as côres do Arco-da-alliança: Leva sósinha o pão da piedade, Tira da roda essa infeliz criança... Roda da vida, que anda de tal sorte Que, em se lhe dando, é já contar com a morte.

Bemdita sejas tu, victima triste De um peito amante e d'um amante ingrato! Que nunca á mesma loba lançar viste Inda mamando o cachorrinho ao mato; Bemdita sejas tu, que o que pariste, Teu fructo, imagem tua e teu retrato Conservas como espelho onde te vejas; Bemdita sejas tu, bemdita sejas.

Pára suspensa a pomba no seu vôo Ao vêr-te contemplando-o ajoelhada; E dizendo-te, a pomba: eu te abençôo Da parte do pai nosso, irmã amada! Abriste o seio ao dia e fecundou-o Aquella luz que o mundo fez de nada, E deu ao campo a flôr, á flôr semente Com que a mãi os filhinhos seus sustente.

Bemdita sejas tu. Quando se esconde Debaixo da tua aza o que criaste, Abraça e beija os anjos Deus lá onde A jarra está da flôr de que és a haste; E um dia que não tenhas pão avonde Ou do céo te não chova agua que baste, Lança-lhe á luz do dia a mão direita, Mostra-lh'o; Deus os filhos não engeita.

Pai não tinha o filhinho de Maria E ella o bercinho lhe arma de mil flôres, Deixando entrar em casa a luz do dia Que em perfume as derreta em seus amores; E inda abrindo os olhinhos mal lhe via, Já os pinceis preparam os pintores; Que o pai d'esse menino... Oh maravilha! Os que não teem pai Deus os perfilha.

Deixa passar de largo a desposada... De cujo filho o pai quem é, Deus sabe! Deixa-a roçar-te os fatos enfadada Se comtigo na praça a par não cabe: Talvez um dia a casa levantada Sobre a areia solta ao chão desabe E em ruinas se encontre este letreiro: «Não era o pai dos teus mais verdadeiro.»

Quem é que nasce aos pares como a rola, Ou como a pomba morre em viuvando, Que pela vêr sósinha em lodo atola Fresca vide que está do chão lançando? Acaso é só dourada altiva estola Que liga os corpos em as mãos ligando, Confunde os corações, e faz em summa Que a Deus se elevem duas almas n'uma?