Chapter 2
Beijo na face Pede-se e dá-se: Dá? Que custa um beijo? Não tenha pejo: Vá!
Um beijo é culpa Que se desculpa: Dá? A borboleta Beija a violeta: Vá!
Um beijo é graça Que a mais não passa: Dá? Teme que a tente? É innocente... Vá!
Guardo segredo, Não tenha medo... Vê? Dê-me um beijinho, Dê de mansinho, Dê!
Como elle é dôce! Como elle trouxe, Flôr! Paz a meu seio; Saciar-me veio, Amor!
Saciar-me? louco... Um é tão pouco, Flôr! Deixa, concede Que eu mate a sêde, Amor!
Talvez te leve O vento em breve, Flôr! A vida foge. A vida é hoje, Amor!
Guardo segredo; Não tenhas medo Pois! Um mais na face E a mais não passe! Dois...
Oh! dois? piedade! Coisas tão boas... Vês? Quantas pessoas Tem a Trindade? Tres!
Tres é a conta Certinha e justa... Vês? E o que te custa? Não sejas tonta! Tres!
Tres, sim. Não cuides Que te desgraças: Vês? Tres são as Graças, Tres as Virtudes, Tres.
As folhas santas Que o lirio fecham, Vês? E que o não deixam Manchar, são... quantas? Tres!...
* * * * *
Thuribulo suspenso inda fluctuo, Em quanto a alma em incenso restituo; Mas, quando como fumo que se esvai, Minha alma! vás teu rumo... sobe e vai. Vai d'estas densas trevas, d'esta cruz, Levar-lhe... quanto levas, pobre luz! Amor, que em mim não cabe, vai depôr Em Deus, e Deus bem sabe se era amor; Se d'outra flôr o calix mais libei Por esses quantos valles divaguei; Se um nome em igneo traço li no céo, Nas ondas e no espaço, mais que o seu... Deus sabe se eu dos montes vi tambem Nos vastos horisontes mais alguem; Nos tristes e risonhos dias meus, Se alguem vi mais em sonhos, que ella e Deus. Porém quem é que apanha o aereo véo Da nuvem da montanha, se é do céo? Se á terra a nuvem desce, quando vai Tocar-se-lhe, desfez-se como um ai.
Coimbra.
* * * * *
Luz d'intima influencia, Oh fugitiva luz! Luz cuja eterna ausencia É minha eterna cruz.
Podessem-te, ainda antes Do meu extremo adeus, Meus olhos fluctuantes Vêr lampejar nos céos.
Se ainda n'esse espaço, Tão longe onde tu vás, Visse um reflexo baço Da pura luz que dás;
Tornaram-se-me estrellas As lagrimas de dôr; E lagrimas são ellas... Sim, lagrimas d'amor!
Vê n'esse espaço immenso Os astros como estão Bem como eu estou, suspenso Por intima attracção.
Porque ha quem os attráia; É essa eterna paz Que a mim de praia em praia A suspirar me traz.
Converte-me este inferno Em azulado céo, Ou quebra o laço eterno Que a tua luz me deu;
Ou antes muda em espuma De nunca estavel mar Esta alma que alma alguma Póde exceder em amar.
Em cinza, em terra, em nada, Meu sêr converte, ó luz, Mas sempre, sempre amada, Deliciosa cruz!
Portimão.
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RESPOSTA
A A. DO QUENTAL
Em fumo se vai tudo, amigo! Olhando Para as nuvens do céo, nuvens d'aquellas, E parece-me ainda que mais bellas, Anda a gente fazendo e desmanchando.
Dá-me uma saudade em me lembrando O bello tempo que passei com ellas, Por essa immensa abobada de estrellas, Por esse mar de fogo viajando...
Andasse ainda eu lá, que não me havia De vêr por estes charcos atolado, Onde nem sol nem lua me alumia.
Andasse ainda eu lá, desenganado Mesmo já como estou de achar um dia A patria d'aonde ando desterrado.
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Pois se o homem, se anjo e nume, Planta e flôr, Dá seu canto, luz, perfume, Crença e amor;
Pois se tudo sobre a terra Que ame alguem, Rosa ou espinho, quanto encerra Dá, se o tem;
Se os carvalhos, nus, medonhos, Veste abril; Se inda a noite presta aos sonhos Graças mil;
Se onde ha ramo, voz uma ave Desprendeu; Se onde ha folha, gotta suave Cahe do céo;
Se na praia, quando a onda Vem de lá, Beijos, antes que se esconda, Mil lhe dá;
Tambem, anjo meu saudoso! Te hei de emfim Ah! dar quanto de precioso Sinto em mim!
Dou-te o nectar, que me acalma; Toma-o tu! Sim, meu pranto; mais uma alma Que eu possuo!
Dou-te os sonhos meus ardentes, Mas leaes; Dou-te as notas mais cadentes Dos meus ais!
Do que ha lindo, tudo quanto Me seduz; D'esta vida, riso e pranto, Noite e luz!
Dou-te o genio meu, que á sorte Vês fluctuar Sem mais véla, sem mais norte Que esse olhar!
Dou-te a lyra, que me inspiras, Sonho meu! Que suspira, se suspira, Flôr do céo!
Dou-te; aceita: tudo é santo, Tudo, flôr! Dou-te uma alma toda encanto, Toda amor!
V. HUGO.
Coimbra.
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FLÔR E BORBOLETA
Tu vôas, borboleta! e que eu não possa Voar, amor! Diversa como é n'isto sorte nossa! Dizia a flôr.
No valle, ambas irmãs, nascidas fomos; És como eu sou; E amamo-nos, e flôres ambas somos, Mas eu não vôo.
A ti leva-te o ar; prende-me a terra A mim; e eu Como hei-de perfumar-te em valle e serra, E lá no céo!...
Mais longe inda tu vás, por outras flôres... Girar, talvez, Em quanto a minha sombra, meus amores! Gira a meus pés!
E vens-me vêr depois, mas vaes-te embora, Sabendo, assim, Que em lagrimas me encontra sempre a aurora! Pobre de mim!
Acabem-se estas mágoas, meu thesoiro E meu amor! Cria raiz ou dá-me as azas de oiro, Celeste flôr!
V. HUGO.
Coimbra.
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REMOINHO
Olha como embrulhado Que está ainda o céo E o chão, como ensopado Da agua que choveu...
Foi um diluvio d'agua; E o furacão, que fez, Emilia! até dá mágoa Tantos estragos: vês?
Esta infeliz víuva, Foi-lhe o telhado ao ar; Depois, já nem da chuva Tinha onde se abrigar.
De mais a mais sósinha, Sem ter nenhum dos seus Aqui ao pé; ceguinha... Bemdito seja Deus!
Além n'aquelle serro Parece que raspou Com uma pá de ferro A terra que encontrou.
Nem um só pé de trigo És lá capaz de vêr. Já eu disse commigo: Como póde isto ser?
As arvores arranca O vento muito bem; Serve-lhe de alavanca A rama que ellas tem.
Vem de lá elle e, topa N'uma arvore, o que faz? Enrola-se na copa E, tronco e tudo, zás!
Que as folhas não são nada, Uma por uma, não; Mas já uma pernada... Tão poucas ellas são?
Vê lá se o teu cabello É para comparar; Mas, possa alguem sustel-o, Levanta-te no ar.
Aqui um loureirinho, Que era o que havia só, Encontra-o no caminho, Ia-o fazendo em pó.
D'aqui passa, á maneira Assim d'um caracol, Áquella farrobeira Põe-lhe a raiz ao sol.
Aquelle enorme tronco Quiz resistir, depois, Ouviu-se um grande ronco, Quando o eu vejo em dois.
Andava a rama toda, Emilia! assim, vês tu? Á roda, á roda, á roda, Eis senão quando, rhuh!
Foi quando veio o outro Urrando como um boi, Oh que horroroso encontro! Então é que ella foi.
Vês uma cobra enorme Á calma, quando está Grande calor, conforme As tenho visto já?
Que não tem ar avonde, Falta-lhe já o ar, Quer sangue ou agua onde Se possa refrescar;
Anceia-se, sacode O corpo todo a vêr Se vôa, mas não póde; Voar não póde ser;
E como não supporta Já o calor do chão, Ao vêr-se quasi morta De raiva e afflicção,
Apenas finca a ponta Do rabo em terra, e sái; E faça-se de conta Que é a voar que vai
N'aquellas roscas todas Que, olhando-se-lhes bem, São outras tantas rodas Em cima d'onde vem;
N'aquelle parafuso --Aquelle rodopio, Á roda como um fuso Suspenso pelo fio;
Com a cabeça chata, Aquelle olhar feroz, Aquelle olhar que mata Sempre de fito em nós?
Assim d'essa maneira É que elle vinha, o tal; Salta-lhe á dianteira Este de força igual;
E assim que se avistaram, Não sei o que lhes dá; Ficam suspensos, param, Como com medo já;
Aquelles sorvedouros, Em vez de remoinhar, Parecem-se dois touros Jogando a terra ao ar;
Ouvia-se a oliveira Zunir no ar, então, D'um para o outro inteira, Nem bala de canhão;
E assim se vão chegando Cada vez mais, até Que eu ólho, eis senão quando Vejo... mas vejo o que?
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Messines.
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AMORES, AMORES...
Não sou eu tão tola Que cáia em casar; Mulher não é rola, Que tenha um só par: Eu tenho um moreno, Tenho um de outra côr, Tenho um mais pequeno, Tenho outro maior.
Que mal faz um beijo, Se apenas o dou Desfaz-se-me o pejo, E o gosto ficou?
Um d'elles por graça Deu-me um, e depois, Gostei da chalaça, Paguei-lhe com dois.
Abraços, abraços Que mal nos farão? Se Deus me deu braços, Foi essa a razão. Um dia que o alto Me vinha abraçar, Fiquei-lhe d'um salto Suspensa no ar.
Amores, amores. Deixál-os dizer; Se Deus me deu flôres, Foi para as colher. Eu tenho um moreno, Tenho um de outra côr, Tenho um mais pequeno, Tenho outro maior.
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FABULA
Um dia os deuses, cada qual uma arvore, Á sua guarda consagraram: Jupiter Esse o carvalho, a murta Venus, Hercules Lá esse o alemo, e o loureiro Apollo. Vendo-as Minerva todas infructiferas: Que é isto? exclama. Jupiter acode-lhe: Senão, diriam, filha! que as guardavamos Só pelo fructo.--Que me importa digam-no; É pelo fructo que a oliveira escolho.
Minerva! brada o pai d'homens e deuses, És quem, de todos, sabes mais sem duvida; No que não luza... mal fundada gloria.
_Honra sem proveito Faz mal ao peito._
PHEDRO.
Coimbra.
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BOAS NOITES
Estava uma lavadeira A lavar n'uma ribeira, Quando chega um caçador.
--Boas tardes, lavadeira!
--Boas tardes, caçador!
--Sumiu-se-me a perdigueira Alli n'aquella ladeira, Não me fazeis o favor De me dizer se a bréjeira Passou aqui a ribeira?
--Olhai que d'essa maneira Até um dia, senhor, Perdereis a caçadeira, Que ainda é perda maior.
--Que me importa, lavadeira! Aqui na minha algibeira Trago dobrado valor. Assim eu fôra senhor De levar a vida inteira Só a vêr o meu amor Lavar roupa na ribeira...
--Talvez que fosse melhor, Vêr... coser a costureira! Vir, de ladeira em ladeira, Apanhar esta canceira E tudo só por amor De vêr uma lavadeira Lavar roupa na ribeira... É escusado, senhor!
--Boas noites... lavadeira!
--Boas noites, caçador!..
Messines.
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GASPAR
Ora se não sei eu quem foi teu pai! Fidalgo: sei perfeitamente bem. O que eu não sei, Gaspar! é o que vem N'esta vida fazer quem já lá vai.
Já se vê que é aos paes que a gente sái. Tal pai, tal filho; sim, duvída alguem Que um pai se é como o teu, homem de bem, Tu és homem de bem como teu pai?
D'isto não ha quem possa duvidar. Mas queres um conselho que eu te dou? Não mexas n'isso... cala-te, Gaspar!
Que eu, cá por mim, bem sabes como eu sou, Mas é que outro talvez mande tirar Certidão de baptismo a teu avô.
Coimbra.
* * * * *
Deixa que ao romper d'alva o cravo abrindo, Á rosa envie o aroma; E lá quando alta noite a lua assoma, O rouxinol carpindo!
Que pela face a lagrima resvale De quem no exilio geme; E quando a propria sombra o homem teme, Que a mãi seu filho embale.
Deixa que ao espaço immenso os olhos lance O sol antes que expire; Que pelo norte a bussola suspire E nelle só descance.
Amam leões e tigres. Não ha nada, Anjo! que a amor se esconda. Beija a pomba o seu par; e abraça a onda A rocha inanimada.
Deixa que a nuvem negra tolde a lua Se a leva a tempestade; Deixa que eu te ame a ti, cara metade, D'esta alma toda tua!
Coimbra.
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CARTA
Maria! vêr-te á porta a fazer meia, Olhando para mim de vez em quando, É o que n'esta vida me recreia.
Acordo até de noite suspirando Por que rompa a manhã e tenha o gosto De te vêr já tão cedo trabalhando.
Desde pela manhã até sol-posto Que não tens de descanço um só momento; Por isso tens tão bella côr de rosto.
E eu pallido, Maria! O pensamento Não é trabalho que nos dê saude, Esta imaginação é um tormento.
Que bello tempo aquelle em quanto pude Levar, como tu levas, todo o dia N'essa vida chamada ingrata e rude!
Nunca soube o que foi melancolia, Nunca provei as lagrimas salgadas Com que a nossa alma as penas allivia;
Andava sim por essas cumiadas Ao sol, á chuva, muita vez, sósinho, Vendo os valles, das rochas escarpadas;
Descendo pelo córrego estreitinho, De pontal em pontal, cortando o matto, Pelas chapadas, fóra de caminho;
Mas não era que já o teu retrato Me andasse a mim no coração impresso, Onde hoje o trago no maior recato,
E um desengano teu que não mereço Me tivesse tirado a fé tão dôce D'alcançar algum dia o que appeteço.
Não foi, não, a paixão que assim me trouxe Tão erradio a mim, digo a verdade E nem eu te negava se assim fosse.
É que a gente na sua mocidade Não cabe em si, não pára de contente, E assim fui eu na flôr da minha idade.
Tu eras n'esse tempo simplesmente A flôr que vai nascendo e mais valia Seres tão tenra ainda e innocente.
Já esse lindo pé que tens, Maria! Esse quadril tão largo, e cinta estreita, Me não vinha á idéa noite e dia;
Esses encontros de mulher perfeita, Esse peito redondo e arqueado Como o de pomba farta e satisfeita.
Talvez vivesse então mais socegado, Ou já que minha sorte é sempre triste Ao menos não andasse enfeitiçado.
Esse bello pescoço, não existe Outro assim torneado: o rosto é lindo E a tão meiga expressão ninguem resiste.
A bocca é tão vermelha que, em te rindo, Lembra-me uma romã aberta ao meio Quando já de madura está cahindo.
Esses olhos azues... que olhar! Receio E desejo estar sempre a contemplal-o; Não ha mais dôce e mais custoso enleio:
Eu não oiço fallar então, nem fallo De enlevado que estou e, juntamente, Gemendo e abafando os ais que exhalo.
Oh nuvem da manhã resplandecente, Manto real de sêda delicada, Cada fio um grilhão que prende a gente.
Bem podias, Maria! andar tapada Só com o teu cabello, á semelhança Do sol em nuvem de manhã doirada.
É tudo encantador. A gente cança, Cança de estar olhando e sempre vendo Um novo encanto a cada olhar que lança.
E se essa linda voz nos sái dizendo As mimosas palavras que costuma, Sente-se a gente logo derretendo;
Que além d'um rosto tão perfeito, em summa Coube-te em sorte um coração perfeito E em ti não ha, Maria! falta alguma.
Oh que ditoso, alegre e satisfeito Não viverá o homem que algum dia Sentir pular-te o coração no peito,
E que em deliciosissima agonia, Vendo-te já os olhos desmaiando Como desmaia o céo á luz do dia,
Nas azas da ventura atravessando Os espaços d'um extasi ineffavel Abraçado comtigo fôr voando Lá para onde tudo é bello e estavel!
Messines.
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--Dá-me esse jasmim de cera, Minha flôr? --Mas e depois se lh'o dera, Meu senhor?
--Depois? era uma lembrança. --Mas de quê? --D'uma tão linda criança, Já se vê.
--Oh tão linda! Mas, parece, Sendo assim, Que inda quando lhe não désse Tal jasmim...
--Não me esquecia, de certo. --Nunca já? --Nunca.--Nunca, é muito incerto, Mas... vá lá.
--E a rosa, que bem lhe fica, Dá-m'a, flôr? --Oh a rosa, a rosa pica, Meu senhor!
Messines.
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MARGARIDA
Oh que formosos dias, Margarida! Esses da tua vida; E que nublados Meus dias desgraçados!
Nasci tambem assim risonho e meigo, Mas hoje apenas chego O calix da ventura Á bocca ancioso, Torna-se a agua impura E o liquido que bebo Venenoso, Sim, venenoso o liquido que bebo.
Nem eu concebo Como Deus me creasse Para tormento eterno; Elle que tão affavel, meigo e terno Te beija a ti a face E te embala no collo, Margarida! A mim dar-me esta vida...
Mas vejo á sombra d'altos edificios Miudissimas flôres De tão subtís e delicadas côres Que se o sol lhes chegasse Talvez que nem resquicios Lhes ficasse. Com uma d'essas azas, estendida, Me tapavas tu todo, E d'esse modo, Com esse escudo, Eu ria-me de tudo E levava esta vida alegremente. Tenho essa fé.
Vejo tambem a flôr que nasce ao pé D'agua corrente, Ir tão suavemente Levada pela agua! Talvez até sem magua De deixar sua mãi. D'esse modo tambem, Amparando-me tu a mim nos braços, Eu seguia-te os passos, Fosse por onde fosse; E d'essa sorte Até a morte Me seria dôce.
Messines.
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NO LEITO NUPCIAL
Dorme, estatua de neve, Vergontea de marfim! Tocar que impio se atreve No que é sagrado assim?
Dois são: o mais, mysterio Vedado á terra. Deus Talvez do solio ethereo Nem baixe os olhos seus.
Respeita-os, tapa-os, como Japhet e Sem, o pai... Pende, sagrado pomo! A vista ergue-se e cai.
Ergue-se e cai, conforme A lei, que o manda assim. Ergue-se e... Dorme, dorme, Vergontea de marfim!
Mas dize: o espelho a imagem Te estampa mal te vê; Beija-te o seio a aragem, Doira-te o sol; porquê?
Não segue acaso a sombra Teu corpo sempre, flôr! E pois, porque te assombra Meu insensato amor?
Ás vezes passas tremula Como sagrada luz; E os olhos dizem: vemol-a Como no alto a cruz.
Perdoa se isto exprime Maldade aos olhos teus; Perdoa-me se é crime... Amo tambem a Deus.
E á tarde quando o albergue, No solitario val, Incenso queima e se ergue D'Abel o fumo igual;
Da pomba solta o vôo, Baixa-me um olhar teu E dize-me: perdôo; Sim, tudo aspira ao céo!
Coimbra.
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A MINHA MÃI
Patria! berço d'amor, que a alma embala Em quanto a luz vital nos illumina, E onde só descançado se reclina Quem, longe d'ella, dôr contínua rala...
Se n'essa essencia, mãi! que a flôr exhala Na essencia d'uma flôr d'essa collina, Vês lagrimas d'amor que dentro a mina, Com saudades de quem do céo lhe falla:
Se quando, o céo buscando, o fumo ondeia, Quando esse valle o sol deixa indeciso, Vês como fumo e flôr aspira, anceia
Um pai, um Deus, um céo, um paraiso, Ah! tendo eu tudo, tudo, em minha aldeia, Vê tu se labio meu desfolha um riso!
Coimbra.
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BEATRIZ
Tu és o cheiro que exhala Ao ir-se abrindo uma flôr, Tu és o collo que embala Suas primicias d'amor.
Tu és um beijo materno, Tu és um riso infantil; Sol entre as nuvens do inverno, Rosa entre as flôres d'abril.
Tu és a rosa de maio, Tu és a flammula azul, Que atam á flecha do raio As nuvens negras do sul.
Tu és a nuvem d'agosto, Meu alvo vello de lã! Tu és a luz do sol-posto, Tu és a luz da manhã.
Tu és a timida corça Que mal se deixa avistar; Tu és a trança que a força Do vento leva no ar.
És a perola que salta Do niveo calix da flôr; És o aljofar que esmalta Virgineas rosas d'amor.
És a roseira que a custo Levanta os cachos do chão, És a vergontea do arbusto, Anjo do meu coração!
Tu és a agua das fontes, Tu és a espuma do mar, Tu és o lirio dos montes, Tu és a hostia do altar.
És o pimpolho, és o gommo, És um renovo d'amor; Tu és o vedado pomo... Tu és a minha Leonor...
Tu és a Laura que eu amo, E a minha Taboa da Lei, E a pomba que trouxe o ramo, E a margarida que achei.
És o lirio, és a bonina Dos valles do meu paiz; És a minha Catharina... És a minha Beatriz!
Coimbra.
* * * * *
INNOCENCIA
Encolhe as azas, que te abrazas, louca! O fogo mata a quem o gera, attende; Foge e, se a vida te aborrece, estende Um braço aos anjos, que a distancia é pouca.
Porque uma nuvem, onda transitoria Do mar immenso, vem pousar na serra, Não fica a nuvem pertencendo á terra: Tu és o anjo que desceu da gloria.
Estranhas forças para ti me attrahem; E ás vezes cedo, tua cinta enleio; Teus olhos beijo; mas, contemplo o seio, Tua alma dorme, e os meus braços cahem...
Desfallecidos, flôr celestial! Como ante um berço cahe a foice erguida, Se ha n'elle mais do que uma simples vida, Se ha innocencia que mil vidas val.
Oh! não: teus labios o meu fel não provem: Outros os lirios d'essa face esmaguem; D'outros mãos impias teu sorriso apaguem, Em quanto os labios tuas graças louvem.
Já no meu berço d'innocencia pude Pesar as joias, que hoje em vão te invejo: Provei os favos de illibado pejo, Sei o que perde quem o vicio illude.
Alcantil ingreme, onde o raio é certo, Contém mais seiva, que inda o musgo cria: Quanto de fertil em nossa alma havia Só deixa o ermo da saudade aberto.
Cahir no abysmo de intimos pezares D'essas alturas onde mal te vejo, O ponto estava derreter n'um beijo O fio de oiro que te manda aos ares.
N'esses dois cofres, n'esse collo aonde Tantas riquezas enterrei ciumento (E que alta noite vela o pensamento Pelo crystal que o coração te esconde)
Em oiro em barra, fina prata e quanto Coalha o vasto e opulento Oriente, Fôra em ruinas encontrar sómente Carvão, se um dia te quebrasse o encanto.
Casta innocencia, de Deus filha e bella Entre as mais bellas! virginal aroma! Rosa ineffavel, que, se á luz assoma, Haste e raiz apodreceu com ella!
Sol, que uma vez em nossa vida passas! Flôr, que uma e neutra, como Deus, não gera; Que se abre morre, mas sem prole, inteira Com todo o côro das virgineas graças:
Ao vêr-te, embora meu olhar te envia O impio incenso de Nadab, ajoelho... Rosa da face e, não só rosa, espelho Da face occulta de quem espalha o dia!
Se por teus membros orvalhadas flôres Prodigas mãos da formosura entornam, Flôres mais bellas o teu seio adornam... Vós, lirios d'alma, virginaes amores!
O céo me encanta, como encanta o inferno. Mysterio... espaço... mente exploradora! Morre nas mãos o que a nossa alma adora --Vago, impalpavel, infinito, eterno!
Evora.
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A Escriptura Sagrada Lá diz que uma mulher má Não ha fera, não ha nada Peor no mundo: e não ha.
Uma lá da minha aldeia, Que era muito impertinente, Muito má (e muito feia) Morre um dia de repente. Morreu; desgraçadamente Mais tarde do que devia; Mas em summa toda a gente Teve a maior alegria.