Flores do Campo

Chapter 1

Chapter 13,788 wordsPublic domain

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Notas de Transcrição

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FLORES DO CAMPO

A propriedade d'este livro pertence, no Brazil, ao snr. Joaquim Augusto da Fonseca.

João de Deus

FLORES DO CAMPO

2.ª EDIÇÃO CORRECTA

PORTO

LIVRARIA UNIVERSAL de Magalhães & Moniz, Editores

12--Largo dos Loyos--14

1876

PORTO: 1876--TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA 62, Cancella Velha, 62

A POESIA

EMBLEMA

Camões e Byron--Scepticismo e Crença

Vem d'alto gozar, lirio! Noite estrellada e tepida; A vista ao céo intrepida Lança, penetra o Empyreo.

Dilata os seios tumidos; Larga este terreo albergue; Nas azas d'alma te ergue; Ergue os teus olhos humidos

Que vês?--Soes, de tal sorte Que os crêra tochas pallidas, Quando as guedelhas, madidas De sangue, arrasta a morte.

--Transpõe-n'os; que, elevando-te, Por cada um d'aquelles, Milhões e milhões d'elles Verás alumiando-te.

Ávante pois, acima Dos soes d'uma luz tremula; Alma dos anjos emula! Deus o teu vôo anima.

Que vês?--Um vacuo eterno. --E n'elle?--Em ermo tumulo, Em ignea letra (cumulo D'horror) _Byron_--o inferno.

--Foge.--O horror fascina-me. São reprobos que exhalam Horridos ais que abalam O inferno: oh Deus! anima-me.

--Escuta-os.--Escutemol-os. Como elles bramem, rugem, E o espaço uivando estrugem... Gelam-se os membros tremulos.

--Entra.--Não posso.--Arromba. --Prohibem-m'o.--Subleva-te. --Prohibe-o Deus.--Eleva-te. Acima, ingenua pomba!

Que vês? A luz clareia-me. Que céo, que azul ethereo! Oh extasi, oh mysterio! Sobeja a vida, anceia-me.

--Falla.--Deus! que harmonia! Aqui a alma exalta-se; A alma aqui dilata-se... _Camões!_--É a poesia.

Coimbra.

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A UMA CARTA ANONYMA

Não sabe a flôr quem manda a luz do dia, Nem quem lhe esparge o nectar que a deleita Ao vir raiando a aurora, E ella agradece as lagrimas que aceita, E ella as converte em balsamos que envia Ao mysterio, que adora.

LAMARTINE.

Coimbra.

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DUAS ROSAS

Que bonita, meu amor! Que perfeita, que formosa! A ti pozeram-te Rosa, Não te fizeram favor. A rosa, quem ha que a veja Bandeando, sem gostar? Mas por mais linda que seja A rosa, quando se embala, Não te ganha nem iguala A ti em indo a andar.

A rosa tem linda côr, Não ha flôr de côr mais linda; Mas a tua côr ainda É mais fina e é melhor. Murcha a rosa (que desgosto!) Só de lhe a gente bulir; E essas rosas do teu rosto É em alguem te tocando Que parece mesmo quando Ellas acabam de abrir.

Cheiro, o da rosa, esse não, Não é mais do meu agrado, Que o teu bafo perfumado, A tua respiração. Depois a rosa em abrindo Vai-se-lhe o cheiro tambem: A tua bocca em te rindo Só o bom cheiro que exhala... E quando fallas, a falla, Isso é que a rosa não tem.

Ella o que tem, meu amor? O cheiro, a côr e mais nada. Confessa, rosa animada! Que és outra casta de flôr. Os olhos só elles valem Duas estrellas, bem vês; Pois vozes que a tua igualem Na doçura, na pureza, Na terra, não, com certeza; Agora no céo, talvez.

Não ha assim perfeição, Não ha nada tão perfeito, Mas é um grande defeito O de não ter coração. N'isso é que te leva a palma A rosa, sendo uma flôr --Sem voz, sem vida, sem alma, Que abre logo á luz da aurora E á noite esconde-se e chora Pelo sol, o seu amor.

Ora e se a rosa, vê bem, Tem amor, não tendo vida, Será coisa permittida Tu não amares ninguem? Suppões que Deus te agradece Essa isenção, minha flôr! Deus a ninguem reconhece Por filho senão quem ama: A terra e o céo proclama Que elle é todo puro amor.

Messines.

* * * * *

A UMA MULHER

Amo-te a ti, e a Deus. Teus sonhos são riquezas Talvez e fasto. Os meus, És tu, que me desprezas.

Deixal-o. Amor acaso É racional? Não é. O fogo em que me abrazo É como a luz da fé;

Que além de cega, apaga O facho da razão. Ama-se e não se indaga Se se é amado ou não.

Amo-te. O mais ignoro. Mas os meus ternos ais E as lagrimas que chóro Podem dizer o mais.

Que chóro; se te admira. Nunca tiveste amor. Quem tem amor, suspira, E o suspirar é dôr.

Ah! quando abraço e beijo O travesseiro e, assim, Acórdo e te não vejo, Vejo-me só a mim;

Não sei, mulher! que anceio Se me traduz n'um ai! Confrange-se-me o seio, Rebenta o pranto e cái.

Então, se por encanto Fallando em ti, mas só, Todo banhado em pranto Me visses, tinhas dó.

Tinhas. A piedade É filha da mulher, Que sempre quiz metade D'uma afflicção qualquer.

Havias ao teu rosto De me apertar a mim, D'encher, fartar de gosto, Todo este abysmo; sim.

Vós desprezaes embora Culto e adoração De quem vos ama; agora As dôres, essas não.

Messines.

* * * * *

A D. CANDIDA NAZARETH

Por occasião da morte de sua irmã Rachel e, poucos dias depois, de sua mãi

Despe o luto da tua soledade E vem junto de mim, lirio esquecido Do orvalho do céo! Tens nos meus olhos pranto de piedade, E se és, mulher! irmã dos que hão soffrido, Mulher! sou irmão teu.

Consolos não te dou, que não existe Quem de lagrimas suas nunca enxuto Possa as d'outro enxugar: Não póde allivios dar quem vive triste, Mas é-me dôce a mim chorar se escuto Alguem tambem chorar.

Botão de rosa murcho á luz da aurora! Que peccado equilibra o teu martyrio Na balança de Deus? Se é como justo e bom que elle se adora Quem te ha mudado a ti, ó rosa! em lirio, E em lirio os labios teus?

Não enche elle de balsamos o calix Da flôr a mais humilde, e esses espaços Não enche elle de luz? Não veio o Filho seu, lirio dos valles! Só por amor de nós tomar nos braços Os braços d'uma cruz?

Mulher, mulher! quando eu n'um cemiterio Levanto o pó dos tumulos sósinho: Eis, digo, eis o que eu sou. Mas quando penso bem n'esse mysterio Da virtude infeliz: vai teu caminho; Dois mundos Deus creou.

Deus não dispara a setta envenenada Á pombinha que aos ares despedira Com mão traidora e vil.

Imagem sua, Deus não volve ao nada, Não aniquila a flôr que ao chão cahira Lá d'esse eterno abril.

Has-de, cysne! expirando alçar teu canto, Has-de lá quando a lua da montanha Te acene o extremo adeus, Voar, Candida! ao céo, e ebria de encanto, No oceano d'amor que as almas banha, Unir teu canto aos seus.

Seus, d'ellas, mãi e irmã, cinzas cobertas D'um só jacto de terra... oh desventura! Oh destino cruel! Vejo-as ainda ir com as mãos incertas Guiando-se uma á outra á sepultura, E a mãi: Rachel! Rachel!

Coimbra.

* * * * *

AMOR

Amo-te muito, muito. Reluz-me o paraiso N'um teu olhar fortuito, N'um teu fugaz sorriso.

Quando em silencio finges Que um beijo foi furtado E o rosto desmaiado De côr de rosa tinges;

Dir-se-ha que a rosa deve Assim ficar com pejo, Quando a furtar-lhe um beijo O zephyro se atreve;

E ás vezes que te assalta Não sei que idéa, joven! Que o rosto se te esmalta De lagrimas que chovem;

Que fogo é que em ti lavra E as forças te aniquila, Que choras, mas tranquilla, E nem uma palavra?

Oh! se essa mudez tua É como a que eu conservo, Lá quando á noite observo O que no céo fluctua;

Ou quando, á luz que adoro, Ás horas do infinito, Nas rochas de granito Os braços cruzo e chóro;

Amamo-nos... Não cabe Em nossa pobre lingua O que a alma sente, á mingua De voz, que só Deus sabe.

Coimbra.

* * * * *

A DONZELLA E O MUSGO

Um dia, não sei que eu tinha... Uma tristeza tamanha! E lembra-me ir á montanha, Que temos aqui vizinha, Onde em tempo me entretinha Horas e horas sósinha Quando ainda se não estranha Que n'uma teia de aranha Se prenda uma innocentinha, Ou atraz d'uma avesinha Se cance a vêr se a apanha.

Depois é que o mundo falla E se mette com a vida De quem ás vezes se cala Por ser mais bem procedida. Que esta gente que faz gala Em coisa, que vê, contal-a, E sendo mal permittida Inda em cima acrescental-a, Teem a lingua comprida E bem deviam cortal-a.

Vou pelo córrego acima, Subo á ponta do penedo; Que a vida só quem a estima É que da morte tem medo. A mesma tristeza anima A encarar a pé quedo A morte que se aproxima A tirar-nos do degredo, Que inda a gente se lastima De não acabar mais cedo.

E alli sósinha chorando Me lembrava, ora a ventura Da minha infancia, inda quando Levava os dias brincando; Ora a desgraça futura, Que me estava annunciando Não sei se a minha amargura, Se uma nuvem, grande e escura, Que se ia no ar formando E vinha já avançando, Como que á minha procura.

E ainda o pranto corria E o cabello me batia No rosto, que me doía, Tal era a força do vento; Já tudo tão pardacento A nevoa e chuva fazia Que eu olhava, mas dizia: É nuvem ou penedia Aquelle vulto cinzento? O mar brilhante algum dia Como prata luzidia Já ninguem o distinguia Da terra e do firmamento: Uivar só é que se ouvia, Mas uivar sem sentimento; E como em grande tormento Se desvaira a phantasia: --Fosse eu mar, disse; valia Mais ser coisa bruta e fria, Como a rocha onde me sento.

Faz um trovão no momento Que soltava esta heresia; E áquella rouca harmonia Occorre-me um pensamento, Que me dá uma pancada O coração de tal modo, Como se o rochedo todo Desandasse na chapada.

Era a voz da consciencia Que me accusava do crime De negar á Providencia A razão com que me opprime. Peço perdão, commovi-me E n'um extasi sublime Lagrimas de penitencia, Como um balsamo, uma essencia, Purificam-me e senti-me Com uma nova existencia.

Ólho; as nuvens esvaíam-se: Os roncos do mar ouviam-se, Mas já mais de espaço a espaço. O sol ainda tão baço, De luz tão pouco brilhante, Que se media a compasso Como a cara d'um gigante, Descobre-se e resplandece! Ao longe o mar apparece; E tudo, mar, terra e céos Tão formoso me parece, Como se agora tivesse Sahido das mãos de Deus!

No rochedo onde descança Meu corpo desfallecido, O verde musgo, vestido Sempre da côr da esperança, Agora reverdecido, Me ensina a ter confiança N'esse que do céo nos lança Em dia tempestuoso, Só para nosso repouso O arco da alliança.

Pobre musgo, descuidado, Sem olhos para chorar, Sem poder alliviar Com seu pranto um desgraçado, Consolar-se e consolar! Fallas mais a meu agrado Que o livro mais afamado D'esses livros, que em lugar De nos dar consolação, Nos fazem cahir no chão Um pranto mal empregado, E inda mais amargurado Nos deixam o coração.

Colhi-o, pul-o no seio, E é hoje o livro que leio.

Messines.

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ULTIMO ADEUS

Prestes, se inda na rocha de granito D'onde em tempo me vias te sentares, Não olhes para a terra ou para os mares, Olha sim para o céo, que é lá que habito.

Lá tão longe de ti, mas não do terno, Bondoso pai que os dois nos ha gerado, Só para mágoas não, que bem guardado Nos tem tambem no céo prazer eterno.

Não se é só pó no fim de tanta mágoa. Senão, diga-me alguem que allivio é este Que sinto, quando á abobada celeste Alevanto os meus olhos rasos d'agua.

Mentem os céos tambem? Os céos maldigo. Feras, tigres, tambem o céo povôam? Tambem os labios lá sorrindo côam Veneno desleal em beijo amigo?

Mas na dôr é que os astros nos sorriem, E os homens não sorriem na desdita. Astros! fio-me em vós, e Deus permitta Que os infelizes sempre em vós se fiem.

Intima voz do fundo, bem do fundo D'alma me diz (e as lagrimas me saltam): Vês os milhões de soes que o espaço esmaltam? Pisa a terra a teus pés, inda ha mais mundo.

Ha depois d'esta vida inda outra vida. Não se reduz a nada um grão d'arêa, E havia de a nossa alma, a nossa idêa Nas ruinas do pó ficar perdida?

--Isso que pensa e quer (até me admiro), Isso que a luz nos traz, que a luz nos leva, Isso que me abre o céo que ao céo me eleva N'um teu cançado olhar, n'um teu suspiro!

Onde, não sei eu bem, mas sei que existe Deus remunerador. Depois de mortos Hemos de vêr-nos, e um no outro absortos Fartar de glorias este amor tão triste.

--Tão triste, e o coração que me adivinha N'este supplicio nosso este tormento! Nunca dos labios teus minimo alento N'um só beijo bebi em vida minha!

E morro sem te vêr! Cabeça doida, Desasisado amor! Sonhar afflicto Um sonho até morrer... Não: resuscito; Morto tenho eu vivido a vida toda.

***

* * * * *

ROSAS

Trazeis-me rosas; d'onde as heis trazido, Boa velhinha e minha boa amiga? Rosas no inverno! permitti que o diga, Sois feiticeira: d'onde as heis colhido?

Na primavera de meus annos, ólho, Mas vejo abrolhos e não vejo flôres: E vós colhêl-as, como as eu não colho... Sois feiticeira--enfeitiçaes d'amores.

Enfeitiçaes que a formosura, crêde, Não vem da face avelludada e bella; A formosura vem só d'alma; é d'ella Que brota a fonte que nos mata a sêde.

Vós sois velhinha, já não tendes côres Que o rosto animem e que os olhos prendam, Mas tendes prendas que o amor accendam, Tendes ainda no inverno... flôres.

Evora.

* * * * *

ROSA E ROSAS

A Rosa trouxe-me rosas E nada mais natural, Mas eu prendas tão mimosas É que não tenho; inda mal.

Quando tinha, se me désse, Não digo mais que uma flôr, Talvez de flôres lhe enchesse Esses cofrinhos d'amor.

Aguas passadas, Rosinha! Deixal-o; veja se vê N'este chão que já foi vinha Coisa que ainda se dê.

Veja e escolha. Está na mesa O que ha em casa; é tirar --Tirar com toda a franqueza; Inda hão-de espinhos sobrar.

Mas se espinhos, mas se abrolhos Lhe não agradam, amor! Mire-se bem nos meus olhos, Que ha-de ahi vêr... uma flôr.

Evora.

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A HERMANN

Por occasião d'um beneficio a um asylo

«Conchega a mãi ao peito o filho caro; Estende a pomba as azas no seu ninho Pelos filhinhos seus. Embala o arbusto agreste; o fructo amaro. Guia a bussola o nauta em seu caminho, Como um dedo de Deus.

«Bebe a nuvem no mar, no rio a fera; Acha o tigre covil na antiga Hyrcania, Hoje em dia, Ghilã; Renasce a planta á luz da primavera, E no calix da flôr gotta espontanea Cahe á luz da manhã.

«Só eu no mundo um gosto em vão pretendo: Guebro entre os persas, entre os indios pária, Judeu entre christãos, Só eu debalde ao céo as mãos estendo, Como o naufrago á praia solitaria Debalde estende as mãos.

«Tenho no livro azul onde Elle escreve Esse nome, que nunca pronuncia Quem bem o soletrou, Mil vezes tenho lido que não deve Queixar-se mais que a flôr que vive um dia Um verme como eu sou.

«Porém, chorando, as mágoas diminuem. Custa muito soffrer sem que um gemido Ah! solte a nossa dôr. E se aos olhos as lagrimas affluem, É que este allivio nosso é permittido. O céo orvalha a flor.»

Diz isto o orphão. De alma os ais lhe sahem, Como os suspiros de harpa eolea em ermo. Ninguem no mundo o ouviu. Mas, se a teus pés as lagrimas lhe cahem, Tocou a mão de Christo a mão do enfermo; O Lazaro surgiu.

Por isso, Hermann! espantas-me. Não scismo Nos prodigios da milagrosa vara Que o Senhor Deus te deu. Teu coração, Moysés do christianismo! Tua alma é que eu admiro, e te invejára Se o que é teu... fosse teu.

Coimbra.

* * * * *

PRESENTIMENTO

Emilia! não vês a lua Como vacilla e fluctua, Ora avança, ora recúa, E não ha passar d'alli? Tu és a imagem d'ella; És tão sympathica e bella, Meiga e timida, que ao vêl-a Me lembra sempre de ti!

Tu és o botão de rosa Que abraçado á mãi formosa Só folga, só vive e goza N'aquella triste união; Treme até de ouvir a aragem Passar por entre a folhagem: Emilia! tu és a imagem Do mais timido botão.

Mas embora: o tempo gira. Um dia o botão, que aspira O ar da manhã... suspira E levanta o collo ao céo: Vê vir raiando a aurora, Abre o seio á luz que adora, Correm-lhe as lagrimas, chora... Chora o tempo que perdeu!

Porque elle, Emilia! não teme Que a luz da aurora o queime; Elle suspira, elle geme Por vêr a luz que o creou. Nem tambem a lua pára: Se algumas vezes repara N'uma nuvem menos clara, É um momento e... passou.

Não ha existencia alguma Que não tenha amor; nenhuma; Porque o amor é, em summa, Essencia de todo o sêr. Ha sempre quem nos attráia. Mil vezes que a onda cáia, Ha uma rocha, uma praia Aonde a onda vai ter.

Tu andas já presentida D'essa voz que te convida A encetar n'esta vida Ai! uma vida melhor... E em breve desenganada D'essa existencia isolada, Darás n'alma franca entrada A sentimentos de amor!

Silves.

* * * * *

MARINA

I

APPARIÇÃO

Como esse olhar é dôce! Dôce da mesma sorte Como se nunca fosse Toldado pela morte:

Como se alumiasse O sol ainda em vida As rosas d'essa face... Agora carcomida.

Colhesse-as eu mais cedo E logo que alvorece; Já não tivesse medo Que a terra m'as comesse.

Mas pura, como a neve Que ás vezes cahe na serra, É que a nossa alma deve Tambem voar da terra.

Gelasse a morte fria A mão profanadora Que te ennublasse um dia A luz que dás agora.

É n'essa côr tão linda, Rosa da madrugada! Que sinto a alma ainda Andar-me enfeitiçada.

Se um dia nos meus braços Te desbotasse as côres, Passavam os abraços... Passavam os amores!

Oh! não: mil vezes antes No céo lá onde habitas, E os rapidos instantes Que vens e me visitas

N'este degredo nosso, Que tanta gente estima, E eu, só porque não posso, Não largo e vou lá cima.

Vem tu cá baixo, abala, Deixa em podendo o collo Tão terno que te embala, E vem-me dar consolo.

Como essa imagem pura Ah! sobrevive ao nada E escapa á sepultura, Tão fresca e perfumada!

Nunca uma noite eu deixe De estar a vêr que existes, Em quanto me não feche O somno os olhos tristes.

E n'esse largo espaço Que te não vejo, espero Lhe contes o que eu passo N'este aspero desterro:

Que assim que te não veja É noite fria e escura, Noite que mette inveja Á mesma sepultura!

II

SAUDADE

Em acordando agora, O meu contentamento É vêr em cada aurora Um dia de tormento!

Podesse eu dar-te a prova Dos dias que me esperam, Lançando-me na cova Onde elles te pozeram!

Lançassem-me algum dia Ao pé, que de repente O coração te havia De ainda pular quente...

A face cobrar logo A fórma e côr perdida, E a bocca toda fogo Ah! inspirar-me a vida!

Supplíca, ó anjo! implora Ao Pai universal Que me deixe ir embora D'este horroroso val

De lagrimas amargas, E turvas de tal modo, Como umas nuvens largas Que tapam o céo todo!

III

ETERNIDADE

Inferno e céo, conforme A nossa fé, confesso Que é um mysterio enorme, É um mysterio immenso.

Mas um mysterio é tudo: Folhinha d'herva, e estrella, Não ha comprehendêl-a! É contemplal-a mudo.

E a herva, como existe, A mim quem m'o diria, Se a luz que me alumia Nem sabe em que consiste?

Mas uma coisa sabe O que a cabeça ignora --O coração... que mora Em peito onde não cabe.

Ha uma luz mais clara Que a luz do pensamento: A d'essa imagem cara... A d'este sentimento!

IV

... 21 DE SETEMBRO

Ha uma hora ou mais, Marina! que contemplo A casa de teus paes Que é para mim um templo.

Está a porta aberta, E vejo alumiada A parte descoberta Da casa da entrada.

Lá andam a passar Do quarto onde acabaste Á casa de jantar Os vultos, que deixaste.

Os vultos, que os vestidos Tão negros que pozeram, De luto, tão compridos, Não sei que ar lhes deram!

A tua bella irmã, A tua piedade, A rosa da manhã, A flôr da mocidade,

Quem lhe diria a ella, Tão cheia de alegria, Que haviamos de vêl-a Assim já hoje em dia!

É esta vida um mar, E bem se póde a gente, Marina! comparar A rapida corrente,

Que vai de lado a lado Por esses valles fóra Sem nunca lhe ser dado Ter a menor demora.

Pára, quando a engole Aquelle mar sem fundo; Nem pára; é como o sol E como todo o mundo...

Ahi não pára nada, Tudo viaja e anda, Que a ordem lhe foi dada, E dada por quem manda.

Chega a corrente lá, Engole-a logo a onda: Depois, que é d'ella já? A nuvem que responda.

Que a nuvem que nos passa Pela manhã nos ares, Era hontem a fumaça Que andava n'esses mares;

E a nevoa, que tu vês Nas ondas fluctuantes, Corria-nos aos pés Talvez um dia antes.

A agua é que no giro Em que anda eternamente Não deu nunca um suspiro Em prova de que sente.

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N'UM ALBUM

Pedindo-se ao author uma poesia

Não me admira a mim que o sol, monarcha De indisputavel throno, e throno eterno Em céo e terra e mar; Que em seu imperio o mundo inteiro abarca Abaixe á pobre flôr seu dôce e terno, Mavioso olhar.

Não me admira a mim que a crystallina, Tão pura, onda do mar, que espelha a face Do astro creador, Que essas asperas rochas cava e mina, Á praia toda languida se abrace E toda amor!

Mas sendo vós um sêr mais precioso Do que onda e sol--um anjo de poesia Inspirada e que inspira; Que ás minhas mãos, das vossas, tão mimoso, Delicado penhor descesse um dia É que me admira.

Quizera nos meus cofres de poeta Ter as riquezas todas do Oriente, E com mãos liberaes Expulsar esta duvida que inquieta Um grato coração que apenas sente E... nada mais!

De limpido diamante e fio de oiro, Quizera-vos tecer collar que á aurora Vencesse em brilho e côr; Mas o poeta, o unico thesoiro Que tem, ah! são as lagrimas que chora E o seu amor.

Eu vol-o dou. E lá do espaço immenso Se amada estrella olhar piedoso envia A quem da terra a adora; Se o sol aceita á flôr humilde incenso; Ha no amor tambem muita poesia... Minha senhora!

Evora.

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