Flirts

Part 9

Chapter 93,764 wordsPublic domain

A EDUARDO VALERIO VILLAÇA.

IDILIO TRISTE

No jardim, a tarde de oiro era perfumada pelas rosas e pelos cravos. Nos canteiros, os cravos levantavam-se impertinentes, risonhos, em delgadas hastes. E, por toda a parte, entremeiando-se com os buxos, enroscando-se a uma macieira em flôr, serpenteando pelos muros, subindo pelas sebes, uma opulenta floração de rosas de toda a côr, rosas de oiro pallido, rosas roseas, rosas vermelhas a estremecer, como labios de que vão cair os beijos, rosas escuras, enormes, sensuaes e dolorosas, umas ainda em botão, misteriosas como as adolescentes, outras já totalmente abertas, sem enigma, como as amantes antigas--todas ellas misturavam o seu perfume no jardim quieto, em que as pombas arrulhavam, beijavam-se e depois partiam em vôos curvos, as azas brancas a brilhar ao sol.

Os dois amantes iam calados, elle a olhal-a intensamente, como a querer apreendel-a, como se os olhos fossem bocas e podessem beijar, braços e conseguissem abraçar--ella um pouco aborrecida, a desfazer entre os dedos longos uma orchidea azul listrada de vergões esverdinhados.

--Pensei em ti sempre, dizia elle. No Prado, diante dos tapetes de Goya, disse o teu louvor. As raparigas esbeltas, que vão á fonte, as bilhas esguias á cabeça, como as princezas de Homero, não tinham a tua elegancia... Ás infantas de Velazquez, artificiaes, cadaveres de bonecas, em que apenas os olhos attonitos teem vida, faltava a tua belleza. As santas hirtas de Memling não tinham na bôca a primavera que ruboresce os teus labios... Só na curva do braço de Danae, de Ticiano, pude ver uma attitude como tens... Por todo o museu me perseguia a tua imagem, como um canon, para avaliar as obras. As gordurosas flamengas de Rubens, as cigarreiras sensuaes e extaticas de Murillo, as energicas mulheres de salteadores em que Ribera se compraz, eram muito diferentes de ti, d'ellas fugia o meu olhar. Em Raphael havia alguma coisa da tua doçura risonha, mas demasiado passiva; em Greco, a tua distincção, mas severa; apenas Leonardo te saberia pintar, quasi irreal por seres tão bella, indecifravel, como uma esfinge sem segredos... Como uma esfinge sem segredos... Que segredos teria a suave mulher do Jocondo? Que segredos terás, alheia a tudo, passando pela vida, ligeiramente, como a agua que vae n'um ribeiro, correndo e cantando? Vi-te em toda a parte. Levei-te sempre commigo! Talvez o Moro te tivesse pintado...

--Viste bem o museu...

--Vi, porque te buscava... Um dia, ao aproximar-me da escadaria, vi fugir, n'um automovel ligeiro, uma mulher, que se parecia comtigo... Era um carro vermelho... Por toda a parte tive a _hantise_ dos automoveis vermelhos. No _Retiro_ e na _Castellana_, o meu olhar prescrutava, revolvia todos os automoveis, todas as carruagens, a ver se te encontrava. Todas as manhãs, pelo museu, andava á tua espera, embora te soubesse aqui, indiferente. Como te não encontrava, procurei vêr o teu retrato, n'algum quadro antigo. E puz, em muitos, o reflexo da tua belleza, porque n'uma atitude, n'um olhar, havia alguma coisa de ti...

--O governo hespanhol agradeceu-te a valorisação dos quadros?

--Ri-te. Ri-te de mim... A tua boca, ao abrir-se n'um riso, é uma flor de nácar e prata...--A principio, procurei-te... Depois, como a tortura fosse muita, quiz fugir da tua imagem. Fui para Sevilha onde tudo é Amor e resplandece. Deixáras de escrever-me... Só sabia que não pensavas em mim. Ali, tudo é alegre e luminoso. O sol é o sangue da cidade... Doira a planicie e as palmeiras de S. Fernando. Levanta scintillações do calado Guadalquivir azul e da cupula inflamada da Torre del Oro. Enche de vida o jardim do Alcazar, com seus repuxos com enjoalhadas lagrimas. Tudo é luminoso e perfumado. O amor, ali, não aniquilla, escalda. Entre os cravos que guarnecem as grades das janellas, as mulheres olham os seus namorados com um olhar d'assalto. Ha uma voluptuosidade suspensa no ar. Tudo vive, tudo ama, parece que tudo é feliz. Ha uma embriaguez de côr. E nas varetas dos leques saltitam os beijos que caem das bocas. A Sierpes, á noite, palpita com todo o anceio de tumultuosa cidade... Nos pateos, sob as pequenas palmeiras e musas, os flirts sussurram palavras de entontecer... Como tudo brilha! Só o meu coração se apagava e murchava com saudades... Nos banhos silenciosos de Maria Padilla, pensei no afortunado amor de favorita, nos lentos passeios pelo jardim, nas casas de fresca sombra, onde luzem os estuques policromos e os azulejos... E não deixei de sentir-te ao meu lado...

--Acredita que não foi por minha culpa...

--Fugias-me. Deixavas-me a tua imagem, para torturar-me. Mandavas-m'a, a envenenar-me de longe... A belladona é doce e envenena... Muito mel embriaga... Tão real a sentia, que, á noite, olhos fechados, queria abraçar-te, e tinha a desillusão de Pan, quando perseguiu a ninfa Seringe... Como quem corre atraz do sol e se encontra encerrado n'um bêco. Nunca mais me escreveste!

Deixaste cair o teu amor do peito, como as flores que levaste ao baile...

--Depois d'uma noite de baile, as flores já não perfumam. O amor precisa do viço. É necessario podar o coração...

--Bem sei. Não te recrimino. Lamento-me...

--Lamartiniano!... Julgava-te mais forte e mais moderno. Parecia-me que a cultura intensiva do Eu tornava impossivel um amor sem esperanças... Filosofos!...

--Amar-te, não é para mim uma função: é a propria essencia do meu ser. Julgo ás vezes que não existes, material e tangivel, que existes mais real: nasceste e vives no meu cerebro, tanto se casa a tua figura ao meu sonho de belleza. Pintor, se idealisasse uma mulher, o meu quadro pareceria o teu retrato, embora nunca te tivesse visto. Poeta, o teu misterio seduz-me, alma que se guarda, avidamente, sem que ninguem a adivinhe. Todos passam por ti, sem a possuir, como as quilhas dos navios que cortam as ondas não maculam a eterna virgindade do mar... Foi ao ver o mar, que mais pensei em ti. Pelo Mediterraneo socegado, estudei a onda, sem conseguir conhecel-a. As ondas são graciosas, as suas curvas teem ternos desenvolvimentos: dir-se-iam mulheres que brincam na relva fresca. E desfazem-se em flocos de espuma, quebram-se umas contra as outras com fragilidade de cristaes, são leves como leques, e no emtanto matam, levantam-se em vagalhões que sacodem os couraçados, despedaçam os navios. Carinhosas, riem e fogem, como tu; a onda de esmeralda que saltita, enfeitada de rendas, subitamente é uma gigantesca aza d'abutre que se curva, para apreender... É um abismo que ri... As mutações rapidas do mar fizeram-me lembrar o teu amor que desapareceu sem se saber porquê...

Nem sequer recrimino. «Não me esqueço», prometeste. E as tuas palavras que guardei, como guardaria uma estrella, ainda cantam nos meus ouvidos. E ha tanto que te esqueceste! Vivo do passado. Vive o meu coração do passado, como as velhinhas, que foram actrizes, e no asilo se lembram das aclamações quando faziam papeis de rainhas sumptuosas com luzidas cortes a seguil-as e galãs esbeltos a segredar frases d'amor...

Mas o passado esgota-se, como as cisternas, quando durante muito tempo não chove...»

Ella cortara e desfolhára as margaridas de uma moita viridente. O sol ia a morrer, n'uma catástrofe... Um rebanho de nuvens encharcava-se em sangue. N'uma fita delgada, um repuxo subia, dobrava-se e estilhaçava-se na agua do tanque.

O amante chorava...

* * * * *

PERFIL D'AVENTUREIRO

A EDUARDO DE MAYA CARDOZO.

PERFIL D'AVENTUREIRO

Desvairada, a ministra da Esclavonia perseguia sir Arnold Davis, que, de sala para sala, passava em revista as senhoras em toilettes de baile. Ia-lhe na piugada, metia-se pelos corredores, apressadamente, para crusar-se com elle, receber um olhar, fazel-o parar, prendel-o no vão d'uma janella, onde os seus olhos pareciam tomar d'assalto o rosto glabro de sir Arnold, mordia a boca fortemente carminada, como para reter os beijos, que queriam saír.

As suas mãos magras e longas, as mãos que teem as doadoras e as santas nos quadros góticos, tremiam ao apertar as de sir Arnold onde opalas desmaiavam, maléficas e misteriosas.

Carlota von Hameghen não via o baile, não se rodeava, como de costume, de politicos e diplomatas, a sondal-os, a irrital-os, _allumeuse_ internacional á cata de segredos, para vender a todas as chancelarias que pagassem, generosas e discretas.

A condessa Carlota von Hameghen, mulher do ministro de Esclavonia, era quasi fiel ao marido. Apenas grande necessidade, um aperto de dinheiro, um segredo muito importante, que só se confia nas horas de completo aniquilamento, depois dos beijos, é que a faziam esquecer o marido, ainda novo, que trepára na «Carreira» empurrado pela mulher, apesar de morphimano e um pouco imbecil. Fóra disto, esposa exemplar. Espirito d'honestidade? Não: impassibilidade; a cirurgia, com uma operação dolorosa, em Londres, tirára-lhe o vigor da sensação. Vivia para a ambição, uma vida farta, proporcionada pelos cheques de varias embaixadas e legações, menos a de Esclavonia que pagava pouco e, por complicações de finanças internas, a más horas.

Alguns diplomatas, ao facto do temperamento da condessa, estranhavam aquelle assalto insistente ao moço inglez, alheio aos segredos das chancelarias, pouco rico para a condessa, servedoiro de milhões.

O ministro da Dinamarca, ageitando, como de costume a unica farripa de cabello que lhe guarnecia o craneo rubro:

--Ha de ser uma desforra! Sir Arnold vingar-nos-ha...

--Não ha de levar a melhor...

--Aposto! Não sabem a força de sir Arnold. Conheço-o muito bem.

--A Hameghen é uma fortaleza inexpugnavel.

--Praça sitiada, praça tomada...

--Mas quem sitía é a condessa!...

--Estão enganados. Com o ar de quem se defende, sir Arnold ataca vigorosamente. Conheço-lhe a tática. É toda de sapa. Minas e conminas. O campo parece tranquilo e mil picaretes abrem galerias. É de primeira força! Praça a saque, d'aqui a duas semanas, o maximo.

--Não seja como Port-Arthur que todos os dias é tomado...

--Verão. Vae custar á condessa, coisa d'um milhão. Sir Arnold lança pesadas contribuições de guerra.

--Que paiz pagará?

--Mr. Alphonse?

--Il faut vivre. Il n'y a pas de sot metier. A Mariam Ringen...

--Aquella judia fanhosa?

--Sim. E que tinha seis dedos em cada pé... Gastou mais de dez mil libras em tres mezes.

--É ante-semita. É _bien né_, o ser-se ante-semita! O começo da liquidação... E depois, douze dedos. Parecia-lhe menos.

--Contava muito depressa... 12 de cada vez...

--Se é que contava pelos pés!

--Sir Arnold interessa-me. Tenho-o examinado, na batalha. É impassivel. Nunca procura primeiro uma mulher. Aquelle bello corpo d'Apollo adrescente fascina. Os olhos claros, misteriosos, desequilibram os nervos das nossas mulheres. E as opalas cheias de maleficios, que para elle são _porte-bonheur_, dão um quebranto magico. A terrivel fama de que tão justamente gosa e o precede como uma tenebrosa arauto faz-lhe um halo. Luz do inferno, que importa? É uma aureola. Se não tivesse motivos para ter um tal nome, caluniar-se-ia. É capaz de tudo, até d'uma boa ação... que o não prejudique. Não faz o mal por arte. Para fazer o mal por principio é necessario afirmar. Sir Arnold nada afirma nem nega. Negar é, d'alguma fórma, afirmar. E isso é um esforço que elle se não permite. Se quizesse ser diplomata, estaria hoje embaixador, membro do Tribunal da Haya, ministro dos negocios estrangeiros. Encaminharia a politica ingleza com menos soberba que Salisbury e mais firmeza que Lansdowne, sem a literatura, o romantismo de Rosebery. Nos tempos da vadiagem diplomatica, dos verdadeiros plenipotenciarios--hoje os nossos plenos poderes ficam na secretaria, que nol-os vae mandando por conta e pelo telegrafo--nesse tempo, talharia um imperio para o soberano que o empregasse. Não, para si. Sir Arnold é um egoista formidavel. Julga-se o centro do Universo. Nihil humani a me alienum puto. Nada do que pertence ao homem lhe é alheio, isto é tem direitos sobre tudo, traduz elle. Não tem outra moral.

Nietzche estabeleceu os principios que nelle eram instinto. Cuido que nunca se deu ao trabalho de ler um só volume do discipulo de Stirner...

A conversa não interessava já. O dinamarquez tinha um pouco a mania oratoria. O grupo dispersou-se, pelas salas, onde os pares deslisavam ao som d'uma valsa da moda, langorosa e morbida... Fiquei com elle. Fomo-nos dirigindo para a estufa. O ministro continuou:

--Gósto de sir Arnold... pelo lado scientifico, como filósofo. É um poderoso dissolvente. Todas as dissoluções apressam a evolução. Davis é um força social.

--Na boca d'um ministro d'um paiz monarchico, essas palavras são imprevistas, sorri-me.

--Tenho uma opinião como diplomata e outra como filósofo. Como diplomata, sou conservador, como filósofo, anarchista... mas anarchista com palacios, festas, condecorações... Quando quero pensar como diplomata, visto a farda, ponho duas gran-cruzes, uma para cada lado--tenho a Corôa da Prussia--e todas as placas. Quando me decido a pensar como filósofo, cólo umas barbas postiças, fico em _robe-de-chambre_. Defronte da minha psyché imperio, dou-me a ideia d'uma Diogenes limpo. O mais usual, porem, é não pensar... Estou dispepético: o pensamento é terrivel para nós. Isto não impede que lhe conte um episodio da vida de Davis. Simpatiso com elle, dou-me até com elle. Conheci-o em Aix-les-Bains ha seis ou sete annos. Estavamos no mesmo hotel. Os nossos aposentos eram seguidos. A sacada era a mesma. Conversavamos muito. Venha para aqui.

Fomos para um canto isolado da estufa onde agonisavam, minadas por um mal estranho, orchideas esverdeadas. Nasciam chagas nas suas petalas recurvas, torcidas, listradas de vergões, varioladas. Sentamo-nos num sofá. O ministro ofereceu-me um cigarro de Nestor Gianaclis, perfumado e adormecedor. Escutei-o.

--Como lhe disse, sir Arnold é um egoista. Quer aumentar o poder, para empregar a formula de Nietzche. Desenvolve energicamente a personalidade, segundo ou contra a moral, é-lhe indiferente, torneando os preceitos dos codigos penaes e os usos sociaes, de maneira a se lhe não fecharem os palcos onde se exibe, os salões cosmopolitas, mais faceis e, sobre tudo, mais indulgentes. Elle não diz como o poeta: «je porte fiérement la honte d'être beau»; não, para Davis não é uma vergonha, pelo contrario, trata de fazer valer, por toilettes e atitudes longamente estudadas, por meios artificiaes, a sua belleza clara, loira, a que os olhos transparentes dão um encanto misterioso, uma sedução que empolga, fascina, arrasta os pobres mulheres que desmaiam, sucumbem, diante desse Apollo adolescente e terno, cuja força se adivinha apenas nas mãos, de dedos firmes, de pelle, apesar dos cosmeticos, um pouco aspera. Viu-o bem? Reparou em como todo o seu corpo harmonioso d'atléta toma atitudes cançadas, como os seus olhos pareciam dissolver-se, ao olhar para a pequena Von Hameghen e a sua boca de labios finos e imberbes, se contraíam para o espasmo d'um beijo? Ha sete annos era o mesmo. Parece que para elle o mundo e os dias se conservam imoveis. Dir-se-hia que essa adolescencia se guarda no gelo. Que pacto teria feito este homem com o demonio?

--Talvez o mesmo que Dorian Grey...

--Bah! Dorian Grey matou Basil... Julga que será Sargent, realista, amando a força concentrada e não a belleza, quem fará o novo retrato magico! Ou Lazló?

Já não ha Basil. Talvez em Hespanha... Sorolla ou Zuloaga... Mas os hespanhoes são naturalistas e republicanos. Veja Ibañez... A «Catedral» liquida em artigo de fundo.

--E Davis? atalhei, pondo um dique á divagação abundante.

O ministro sorriu-se. Certamente que se lembrou do epigrama de Marcial.

--Ah, sim! Davis e Aix-les-Bains. Estou prolixo como o bom Tito Livio. Entro em materia.

Ali, no canto da estufa, abaixando a voz quando alguem se aproximava, para o afastar, o dinamarquez contou:

--Estava no «Splendide» lady Hanswell, que depois de tratar do reumatismo, com massagens e duchas, chorava poeticamente, pelas alturas vicejantes do Bourget, os dez annos de casamento feliz com lord Vivian Hanswell esse extraordinario homem, misto de Heroe, de Poeta e de doido, que, começando por fazer odes extranhas aos venenos, aos assassinios e ás traições, acabára em Middlefontain, voluntario da Rainha, o primeiro na escalada d'uma collina, o monoculo entalado no olho, um livro de versos na algibeira do kaki enlameado e a cartucheira já vasia, de tantos tiros dados friamente, como nas suas coutadas ferteis da Irlanda.

A viuva amára em seu marido a belleza adolescente, todo aquelle ar gracioso como o d'uma mulher, os largos olhos claros, transparentes, como gotas d'agua azul; amára o seu espirito extranho de comedor d'opio, cambiante e misterioso, deleitando-se na posse de coisas frageis, de flôres que, mal cortadas se fanam, os cristaes finos, as filigranas, as ceras, os linhos que envolvem, fumos, as mumias egipcias e quasi se pulverisam ao tocar-se-lhes, os leques de rendas; o imprevisto das suas áções sem logica, que nada faziam prever, quasi sem realidade, como essas arvores que teem um metro de raizes fóra da terra.

Lady Hanswell, já passado o segundo anno de viuvez ainda carpia nas palavras baixas em que recordava o marido, nos olhos que de tantas lagrimas regadas eram frescos como fetos nascidos á beira dos regatos, nas toilettes lilas, com que se vestia, foncées de manhã, claras á noite, nas perolas cinsentas com que se enfeitava, gargantilhas pesadas, collares multiplos, caindo sobre o collo, anneis de castães largos, que, á luz, pareciam cinzas...

Foi sobre ella que Davis se lançou, decidido, acirrado não só pelos seus dois milhões de libras, mas tambem pela pelle fina, mate, macerada em banhos prolongados de perfumes, pelos olhos em que brilhava uma volupia indecisa, a afogar-se na tristeza, como um reflexo impreciso de estrella num tanque.

--A mulher deve ser como o Champagne: _extra dry_.

Vi-o n'esse cerco, a sitiar a praça, a fazer-se valer, fugindo de lady Hanswell, de todos, indo pouco ao Grand Cercle e á Villa des Fleurs, tomando, de manhã, nos Banhos, e á meza, atitudes d'uma tristeza profunda, maniaca, que interessasse.

Só á noite, quando fumavamos o derradeiro charuto na varanda, sacudia a mascara e falava-me do desenvolvimento da personalidade, toda a theoria de Spencer e de Stirner, poetisada e dramatisada por Nietzche, nelle menos literaria, menos filosofica, mas mais sincera, floração inconsciente do seu Ego, sumula emfim da sua maneira de ser, animal forte, que sabe que a Vida existe e quer apreender sem esforço, desenvolver-se avidamente, até com detrimento dos outros.

--É necessario viver a nossa vida, disse-me.

N'essa noite, Davis, que era d'uma sobriedade exemplar, por calculo talvez, para impressionar byronicamente lady Hanswell ou por impulso atavico--gerações a alascar-se em Port-Wine pesam esmagadoramente--por qualquer motivo, Davis acompanhou todo o jantar de Cliquot. Saimos juntos, tomamos pelo _Boulevard des Côtes_, que vae contornando a montanha e mostrando-nos, em cada curva, um aspecto novo d'Aix e do campo, aqui a massa d'arvores illuminadas dos parques dos dois casinos, alem a rua de _Genéve_, apagada e quieta, mais alem as montanhas cujos perfis se recortam docemente no ceu enluarado, n'um outro cotovello o lago do Bourget, que parece, na noite clara, de mercurio incendiado. Caminhavamos apressados, subindo sempre, até á nascente d'essa agua choca que os medicos nos fazem beber de manhã, em jejum.

Sir Arnold falava com fluencia:

--Todas as creaturas devem ser, para nós, elementos de desenvolvimento do poder, utilidades. Extraido d'ellas o que nos pode servir devemos pol-as á margem. É o que o organismo faz, inconscientemente... Quem sobrecarrega com sentimentos inuteis o seu coração, apodrece, morre. Devo todo este ensinamento filosofico, não aos livros, nem ás conferencias, mas a uma pobre _caissière_, Eva Farland, d'um pequeno restaurante do Strand onde eu jantava economicamente nos dias em que não encontrava emprego para o meu mister agradavel de _pique-assietes_. Ali, por um shelling e meio tinha uma boa talhada de _mutton_ e uma caneca de cerveja, para desalterar.

Essa pobre rapariga prendeu-se nos olhos azues de Davis; prenderam-a seus braços fortes, a sua boca que ao beijar mordia. E foi para elle como uma escrava, atenta, paciente, devotada, gastando o seu ultimo penny em futilidades que Davis atirava para o lado, com desdem, dando-lhe quarto, copiando á noite escritas, para pagar a luz, a lenha, a agua, porque Davis fôra viver com ella, por economia--era um periodo de _guigne_ extraordinaria!--persuadindo-se a pobre Eva que era por amôr. Doce e abençoada mentira que a tornava feliz, dava-lhe coragem para continuar a vida dura, fornecia-lhe a energia necessaria para estar á caixa todo o longo dia, esperar, ás vezes, por elle toda a inferminavel noite, quando o jogo o segurava com a caricia aspera das suas mãos de aço; resignar-se ás longas ausencias, porque Sir Arnold, em ganhando alguns guineus, reentrava na sociedade, ia jantar ao club, frequentava os _music-halls_ nos camarotes do club, reencadernava-se, emfim, de gentleman.

Eva era o seu cão, mas cão de cego, util, chorando ás escondidas e pouco, para não afear o soberbo rosto, não avermelhar os grandes olhos sensuaes e tristes.

N'um periodo mais largo de miseria, não chegando para os dois o salario da amante, nem as copias, ella punha o chapeu, á noite, e ia pelo Picadilly, misturando-se aos soldados, a fazer-lhes concorrencia, á caça do guineu pondo em cada sorriso, um soluço.

Davis via-a sofrer, indiferente, achando rasoavel que por elle outrem penasse, continuando descuidado, até que um dia a fortuna sorriu-lhe pela boca desdentada d'uma rainha de qualquer coisa na America, porco salgado ou azeite de fóca. Nunca mais soube d'Eva, de quem nem sequer se despediu, e que, se não morreu de dor--o que é pouco provavel--teve com certeza uma lancinante crise de desespero.

Ora essa mulher, que por elle fez todos os sacrificios, incluindo o do pudor da amante, considerava-a elle o seu mestre de egoismo, pois habituára-o a pensar que o amôr pode ser um modo de vida e a belleza extranha e fascinante suprir as aptidões para a lucta pela vida.

Foi a confissão que me fez n'uma noite de vinho, em que o Cliquot d'oiro levára ao seu coração impassivel o desejo de expandir-se.

Não tornámos a falar no assunto, persuadi-me até de que elle não tinha consciencia da propria indiscrição e continuei a examinal-o no interessante combate travado com lady Hanswell.

Parece que a embriaguez produziu o seu efeito, porque lady Hanswell começou a lançar-lhe, por vezes, obliquamente, olhares em que punha alguma coisa de caloroso, as lagrimas deixaram de borbulhar-lhe nos olhos, que andavam secos do desejo que ardia dentro.

Ao começo d'ataque da ingleza, respondeu sir Arnold com um simulacro de retirada, um mergulho na sua aparente tristeza, abstinencia de comida, que o levava ás escondidas ao American Bar todas as noites, a leitura constante do resignado Shelley e do desesperado Byron, cujos livros deixava ficar sobre as mezas com marcas nos versos adequados á circunstancia pensando que lady Hanswell não deixaria de ir folhear os volumes.

Ia realmente, sofrega, já esquecida do marido, estudando toilettes, não já ruskinianas, com toda a tristeza doce das figuras dos primitivos, mas as que fizessem realçar a sua elegancia, largos decótes que mostravam a flor nevada do seu cólo opulento, fulgiam-lhe nas mãos os largos costões esverdeados de berilos que Lalique lançára n'esse anno, remoçava a sua boca escarlate uma primavera de beijos, que se ofereciam, como as laranjeiras que nos quintaes murados veem sacudir para a estrada as laranjas d'oiro.

Lady Hanswell atacava vigorosamente, num assalto de desespero, pondo na conquista de Davis toda a pertinacia da raça, toda a galantaria e vaidade do sexo.