Flirts

Part 8

Chapter 83,812 wordsPublic domain

--Pois ficarás! Ficarás! Vem comnosco!

Poz-se em marcha o cortejo, novamente. Entraram no templo com a princeza.

E a princeza ali ficou, porque nos rostos se conservava a mocidade e não havia a dôr, nem o constrangimento. Tudo era claro e sereno. E não voltou mais ao palacio, onde as aias choravam e a camareira-mór, seca e hirta, tinha uma voz esganiçada e autoritaria.

* * * * *

NOITE DE FESTA

A ARMANDO NAVARRO.

NOITE DE FESTA

Era o jantar de despedida de Dowanov, que partia para o Mexico, promovido a ministro. Jantar de secretarios de legação, que formam uma confraria, para, na critica dos chefes, tirar uma consolação do exilio, correra um pouco triste.

A minha intimidade com o novo plenipotenciario, que viera da communidade de vistas sobre a numismatica bisantina, abrira em meu favor uma excepção.

No pequeno gabinete do Avenida Palace, a conversa versára sobre diplomatas e postos. Dowanov, como todo o bom russo, suspirava por Paris, onde estivera adido. Contava as suas tribulações junto do embaixador solemne e desdenhoso, que, sabendo-o apaixonado por corridas, nos dias de steeples e handicaps sensacionaes, sob pretexto de serviço o mandava chamar com urgencia, mas realmente para o impedir de divertir-se em Auteil e Longchamps. Apesar de tudo, porem, sorriam-se-lhe os olhos ao lembrar-se das pequenas colhidas _un peu partout_.

A minha presença não permitia as confidencias sobre a monotonia da pequena cidade da provincia que é Lisboa. Havia um constrangimento. Por isso falaram de companheiros, indicaram silhuetas vistas um momento, logo esquecidas.

--O que será feito d'esse roliço Kordst, que estava, no meu tempo, encarregado de negocios em Bucharest? Nunca mais soube d'elle? Devia ter morrido da falta d'um bilhete. Lembro-me que ia provocando uma questão internacional, porque o ministro d'Austria, ao apresentar-lhe o adido russo, disse primeiro o nome de Kordst. Moravamos no mesmo hotel. Foi procurar-me apoplético:

--O que terá contra mim o ministro d'Austria? Não lhe fiz coisa alguma!... Não me lembro. Ainda hontem, na recepção, lhe dei o meu logar no sofá!...

--Kordst? Com o amor que tinha aos bilhetes de visita, fez-se litografo, provavelmente... Sabem de Camusot, o adido militar francez, que tinha uma mulher que andava aos saltos, como uma pêga? Não conheceram? Você, Poliano? Não me disse que tinha estado com elle em Vienna?...

--Não. Encontrei-o em Roma. A mulher realisava o typo perfeito da _gaffeuse_... Em que liquidou?

--_Croupier_ de batota, em Spa... Tinha ar... Um dia, no Jockey, perceberam que corrigia a sorte, no baccará.

--E Blumen, o chanceller da embaixada allemã, que conheci, de relance, em Madrid?

--Em missão junto de Menelick. Emborracha-se com o Negus, formidavelmente, com cerveja de Munich. Tem a simpatia dos ras; ouvi que iam crear em sua honra a ordem do Bock, na Abyssinia...

--Era o intimo do conde de Strifforth... Que é feito de Strifforth? Herdou já o _peerage_? Diziam-o muito considerado no Foreign Office. Pensou-se n'elle para sub-secretario de Estado...

--Nunca lhes contei a morte de Strifforth?

--Morreu?

--Vi-o suicidar-se. Acompanhei-o nos ultimos dias. Foi em Sevilha. Tinha-o conhecido em Londres, no seu ultimo _congé_; quando fui promovido para Madrid démo-nos muito ali. Morreu d'uma maneira singular, n'uma festa da marqueza de Carrillos, na sua quinta de Eritaña... A melhor festa de Hespanha... A mais elegante e romanesca; dava a sensação da embriaguez d'uma boneca de Saxe, n'um Walpurgis. Havia feiticeiras novas, ou melhor, ninfas. A quinta é deliciosa, um pouco acima de Sevilha; o rio corta-a e para passar d'um lado a outro ha pequenas gondolas com camaras para duas pessoas sómente. A Carrillos, um pouco artista, um quasi nada doida, levou uma ranchada de gente para o seu palacio, do tempo de Pedro, o Cru, para uma festa de mascaras pela Piñata. Era tudo gente nova, salvo uma ou outra mãe que ia fazer a decencia. Mas achavam-se deslocadas no meio da nossa alegria e, intelligentemente, retiravam-se para sensacionaes partidas de bridge. Só nos viamos ás refeições. Uma _party_ deliciosa, que acabou n'uma tragedia, um pouco de _guignol dernier bateau_, entre musicas leves... É melhor contar tudo, ab ovo...

--Sim... Desde o congresso de Vienna. O pae foi secretario d'um dos plenipotenciarios inglezes...

--Ainda de peito?

--Não. Strifforth era filho de velho... Isso explica muito o seu temperamento.

--Vá, psicologo!

--Este Mumm não me diz nada! Traga Montebello! É um pouco da Carreira.

--Por afinidade?

--Então o antigo embaixador?

--_En disgrace?_

--Sim. Ao quarto filho da czarina elle criticou:--«Ce n'est pas une femme--c'est une pondeuse!»

--Conta a historia tragica!

--A marqueza de Carrillos levára a sua filha, aquella inquieta Mathilde, noiva por sport, tecendo e desarranjando os casamentos, como Penelope a famosa teia. Para ella não havia flirts: tudo noivados. É possivel que, de a experimentar tanto, a grinalda nupcial estivesse já enxovalhada. Conheceu a Carrillos? Você? Você? Ninguem? Fina como uma _flûte_ de cristal cheia de champagne _mousseux_, ondulosa, sempre pronta para o ataque e para a resposta, fazia a chuva e o bom tempo na sociedade, e tinha um dom especial para pôr alcunhas que logo faziam o giro de Madrid e crismavam as creaturas. N'um dos seus numerosos noivados a mãe, oppondo-se, disse-lhe:--«Que sogra vaes ter!» A Mathilde, sem pestanejar:--«E elle, mamã? E elle?» A marqueza ria-se perdidamente com os ditos da filha, regosijando-se:--És digna de mim!

--E Strifforth?

--Lá vae. Ora fez-se a festa. O costume Luiz XV era de rigor. Por uma noite estrellada, espalhámo-nos pelo jardim. Pelas janellas do palacio corriam grinaldas de fogo das _bandes souples_ que as ligavam. Eram tulipas de todos os córtes que d'entre a folhagem se uniam, pondo um traço florido entre o incendio que vinha das multiplas janellas abertas sobre o parque e sobre o caes. Pelos troncos das arvores envolviam-se em espiras as serpentes luminosas, marchetadas, e abriam-se em mil luzes nas copas, davam, ao longe, o aspecto de uma joalheria que ardesse na noite quieta e calada, essas noites amorosas da Andaluzia em que tudo parece estacar n'um beijo supremo... Pela margem do rio a mesma florescencia, mergulhando na agua, dando ao rio a aparencia fantastica de um ceu que se afundasse.

De repente musicas invisiveis tocaram as melodias leves, _gavottes_ suspiradas, em que ha um pouco de amor, um pouco de dança, como num flirt. E do escuro d'uma angra moveram-se gondolas ligeiras, em que ardiam e estremeciam largos balões venezianos.

Os remadores, ensaiados, iam quasi ao compasso ligeiro das _gavottes_. Tinhamos a impressão d'uma dança de gondolas, um sonho estranho de veneziano, pelas horas misteriosas em que as coisas inanimadas tomam vida. Do levantar dos remos das aguas, saltavam cintillações de pedrarias. E a linha tortuosa de balões augmentava o incendio, na vibração de tantas reluzentes joias a agitarem-se na agua do rio... Fomo-nos metendo nas gondolas. Os _novios_ acolheram-se prestes ás gondolas mais pequenas. Uma maior levou muitos de nós, descazalados, a Mathilde Carrillos, Strifforth, a condessa de Valdelar...

--Conheci-a em Roma...

--O marido foi gentil-homem do Papa. Preciso falar d'ella. Foi a principal figura d'este drama. Typo de hespanhola? Não. Mais italiana do que hespanhola, com uns largos olhos pretos, cheios de doçura. O seu gesto era harmonioso e curvo, sem uma aresta, sem um angulo, uns nascendo dos outros sem solução, como as frases d'uma melodia. Tinha-se, ao vêl-a, a sensação de que se ouvia uma musica dolente, vagarosa. E os proprios olhos moviam-se lentamente, como pesados de tanta luz e tanta belleza...

Enigmatica, guardando n'um jardim encantado a sua alma, ninguem prudente ousára definil-a... Poetica talvez, ou simplesmente aborrecida, fugia em S. Sebastian do Casino e do Hotel du Palais e ia, á tarde, só, vêr as crispações do poente nas vagas que eriçam de espuma o mar azul.

Sentava-se n'um dos rochedos, ás vezes desenhando, outras a cabeça a descançar na mão, e ali se quedava a tarde inteira, alma talvez de sereia a chorar pelo mar, a querer aprehender no perfume da brisa, alguma palpitação do oceano.

Nenhum de nós se atreveu nunca a interrompel-a, apezar da attracção que todos sentiamos pela sua figura gracil como uma amphora, da sua _toilette_, de toda a elegancia pessoal e do misterio da alma ávidamente guardada... Strifforth apaixonou-se por ella. E, solitario, deixando as excursões amiudadas que fazia ao Casino de Biarritz, andava de barco para vêr, isolada no rochedo, sem uma tristesa na face, a condessa de Valdelar, certamente a mais formosa, a mais perturbante das senhoras de Madrid.

O conde de Valdelar ficava no hotel, gottoso, na leitura de livros licenciosos, que salpicava de casquinadas nervosas, irritantes, indifferente á belleza e á alma da mulher. Strifforth conhecia-a e procurava todos os raros momentos em que ella apparecia, de manhã na praia, á tarde no boulevard e, uma ou outra vez, pelas grandes festas, no Casino, que atravessava n'um andar leve, dando-nos a sensação que tinha azas que a sustentavam. Nada lhe permitira ainda uma declaração. A condessa fallava-lhe, como a todos nós, em coisas indifferentes, em festas, touradas, partidas de tennis, impressões rapidas de viagem e deixava-o sem pressa, mas sem pezar, absoluctamente correcta. Elle fallava-lhe do mar, mas a condessa tinha uma phrase banal, mudava d'assunto, como se tivesse pudor d'esse sentimento, que parecia absorver toda a sua vida. Foi n'esse tempo que Strifforth começou a picar-se com morphina difficilmente adquirida, a beber perfumes, com horror aos cognacs, e a arrastar uma vida d'automato, sempre com esperança de a vêr, de lhe fallar. E, em a encontrando, pousava sobre ella os olhos tristes, largas horas, inconvenientemente.

Em Madrid, todo o inverno foi assim, com menos occasiões de a vêr, porque a condessa frequentava pouco o Retiro e a Castellana e raramente aparecia na sociedade, demorando-se o bastante para não parecer aborrecida, mas saindo logo, com um tacto perfeito. Á vida escondida da condessa correspondia uma outra vida secreta de Strifforth, ebrio, em desesperos que o alcool longe de adormecer intensificava, fugindo a tudo o que fôra d'antes o seu enlevo, até do Museu do Prado, onde ia todas as manhãs--á minha missa, dizia elle--para vêr os Velasquez e os Grecos... Mas, quando tinha que ir a alguma parte com esperança de encontrar a condessa, o meu amigo não bebia para poder gozar inteiramente a presença e a voz d'aquella que amava. Depois a embriaguez exagerava a impressão, dava-lhe, quasi real, a presença da Valdelar. Meteu-se no ether, alem da morphina e dos frascos de perfume--Parece que como flores, explicou-me--arruinando por completo a saude, tornando mais agudas as crises de desesperos, mais asperas, pelo enigma que para todos nós era essa mulher esplendidamente artificial, que trazia uma mascara na sua face calada. Coquette? Decerto, mas egualmente para todos, porque os seus movimentos eram regrados por uma musica ineffavel. Mas talvez coquette só para si, porque nem um só olhar ou palavra auctorisou ninguem a dizer-lhe um galanteio atrevido.

Fallou-se na festa da Carrillos, organisou-se a lista, e Strifforth, que não tinha relações com a marqueza, logo que soube que a Valdeler era da partida, solicitou, pondo de parte sem hesitação o seu orgulho exagerado, uma apresentação e um convite, logo alcançados, não só por ser muito _choyé_, mas tambem porque transpirára a paixão e todos se interessavam pelo pobre rapaz, havendo até censuras á Valdelar, que de nada era culpada.

Fomos n'um expresso vagaroso, atravessando desoladas paisagens, até Sevilha. Não conhecem Sevilha? É a cidade mais feminina e voluptuosa que conheço.

Á tarde, vista da Giralda, ella se nos oferece, nua, ondulosa, apenas com a cinta azul do seu rio e as joias das cupulas e das janellas que scintillam ao poente. Parece que estaca o movimento, e que, na alcova enorme que é a planicie, Sevilha se estende, com flôres no cabello e uma volupia extrema em todo o seu ser. Anda no ar um amavio. Tudo nos falla d'amor sensual e quente, até os olhos largos das sevilhanas, que parecem recortados n'esses enormes amôres perfeitos de velludo.

Foi ali que tivemos a festa de que lhes fallei. Imaginem que na margem esquerda, a dois kilometros da quinta da Carrillos, ha uma _venta_, cuja varanda se debruça entre trepadeiras, sobre o rio. A marqueza tomára-a sem custo por sua conta e alli varias musicas nos tocaram, não _gavottes_ leves, mas doridas malagueñas em que se arrasta um langor, como um beijo em que toda a alma succumbe. Um jacto de luz inundou a gondola. A condessa levava as mãos dentro de agua, curvada ella propria para o rio. Strifforth ia sentado sobre a borda. Deixou-se escoar vagarosamente.

--Caiu um!

--Strifforth!

Logo os braços se estenderam, um dos gondoleiros deitou-se á agua e poude tirar Strifforth, todo ensopado no seu fato de seda.--Borracho! Borracho! _Mais vous êtez ivre! Dites_!--Strifforth, não bebera uma gotta. Eu ficára proximo d'elle. Os musicos não tinham dado por nada. A musica continuava dolorosa e amorosa. A gondola seguiu, deixando o traço de luz que brilhava e se quebrava d'encontro ás leves vagas. Houve risos. Rodearam-o com grinaldas. A Valdelar teve, como os outros um riso.--Escorreguei!... explicou apenas o conde. Mais adiante, porem, já a musica se ouvia em surdina, Strifforth deixou-se cair outra vez.--É demais! Está bebedo! gritaram. As cabeças empoadas inclinaram-se novamente para a agua. A Valdelar, que tornára a mergulhar no rio os braços nus em que escorriam as rendas molhadas, ao sentir a queda, agarrou-o por um braço, indiferente. Strifforth, porem, deu um vigoroso impulso e desprendeu-se d'ella...

Houve um panico. Foram buscar archotes. Não calculam o macabro das nossas figuras de _petits-abbés_ e gentishomens procurando, nos barcos, que de tanta luz pareciam incendiados, um homem que se queria suicidar. Os gritos cruzavam. Das pequenas gondolas surgiam vultos negros iluminados á maneira d'um Rembrandt que tivesse adivinhado Turner e Whistler, em chapadas de luz multicôr. Na nossa gondola um borborinho correra. Alguem desmaiára, até. As cabeças empoadas agitavam-se. Ao longe, as malagueñas continuavam num suspiro lascivo e preguiçoso. A Valdelar voltára á sua primitiva posição: brincava com a agua, que lhe passava entre os dedos abertos, pondo-lhe aneis que fugiam, logo substituidos. Não tornamos a saber de Strifforth. O cadaver nunca apareceu.

* * * * *

CLARA

A JULIO DE SOUSA.

CLARA

Friorenta, encolhida no fundo do coupé, tudo era indeciso na figurinha que passou rapidamente, na tarde a escurecer.

Nascia da penumbra, sem presisão nos contornos, como certos retratos de Columbano e de Henner. E entre o chapeu preto e a face branca, o cabello loiro punha uma esmaecida aureola como uma tenue poeira d'ambar. A boa, de _renard bleu_, ainda aumentava o indeciso, o fluctuante d'essa mulher; os olhos claros não brilhavam; o vermelho da bocca desmaiava... Figurinha de cera e de seda, que passava, olhando para a rua sem attentar talvez em ninguem, levando o nosso desejo de decifrar enigmas, indefferente, graciosa, impressionou-me... Ao amigo que me acompanhava recorri para saber d'ella. Quando me voltei para perguntar, vi que Roberto se pusera pallido; parecia que á bocca se lhe afivelára uma boqueira de pedra, mascara trágica a emudecer.

Seguiu com os olhos a carruagem que trotava pela Avenida até se perder entre as arvores em Valle de Pereiro.

--Quem é? gaguejou. Alguma aventureira cosmopolita que veiu _faire le Portugal_. Um pastel de Antonio de la Gandara, maquilhada como uma infanta de Velasquez, mais artificial que uma boneca de Nuremberg, sem vicio, talvez, amante enternecida d'algum _croupier_ de _Cercle_ ordinario... Sei lá!... encolheu, impaciente, os hombros, a concluir.

Houve um silencio. Raras carruagens passavam. Estava triste a Avenida. Descemos. Abriam, simultaneamente, as grandes flôres geladas e luminosas das lampadas electricas. Rapidos, fulgiam os americanos. Outra vez a mulher passou, mais indeciso o vulto, apenas destincto o palôr da face branca no _coupé_ escuro.

--Porque teria vindo cá, essa mulher? perguntou Roberto, colerico.

--Conhecel-a?

--Se a conheço?! Tenho querido arrancal-a de mim, como se arranca d'um boi uma farpa--violentamente. Tenho querido fugir de mim, para a esquecer! E quando estou quasi a conseguil-o, quando a tortura da sua lembrança é em mim apenas uma cicatriz, eil-a que apparece a reavivar a chaga antiga, a tornal-a mais dolorosa! Clara veiu aqui só por minha causa, ouves? Para fazer-me soffrer!

Agarrava-se-me ao braço, a apertal-o violentamente. Na bocca accentuava-se-lhe, aspero, o vinco da amargura.

--Foi esta mulher que me fez fugir de tudo, perder o amor a tudo, desterrar-me para esta passividade, eu que amava a vida dolorosamente, gosando com tudo, intensamente!

«Conhecia-a em Hespanha! N'um inverno humido deixei Lisboa e acolhi-me a Sevilha. Os dias gloriosos de sol que lá gosei pelas margens do Guadalquivir azul! Andava ebrio de tanta luz que enchia d'oiro e de triumpho a cidade alegre. Saia para os campos, logo de manhã, a rir-me com os trigaes e com as flôres. Ia ao parque vêr o sol fulgir nas caudas abertas dos pavões orgulhosos; descia ao caes para vêr brilhar na agua incendiada os cobres polidos dos navios; enchiam-me de prazer a barulheira dos carregadores, o chiar aspero dos guindastes, o estridulo das sereias, nos vapores que partiam... Tudo era alegria na cidade maravilhosa mesmo á noite, as lampadas incendiavam a _Sierpee_ brilhante, onde se apertava uma multidão palradora. Das janellas dos casinos, das portas dos cafés, dos mostradores das lojas, vinham chapadas de luz. Misturava-me a toda aquella vida insolente, ria com todos os risos, todos os labios frescos me chamavam, rodeavam-me todas as cabelleiras fartas, cheias de flôres. O donaire das andaluzas d'olhar de volupia fazia-me achar mais bella a Vida. Era como um poema a enaltecer a obra de Deus. Por todos amar, não amava nenhuma.

Comprei o sineiro da Cathedral. Do alto da Giralda, uma noite, possui a cidade, senti que todo o tumulto confuso que até mim chegava, era o seu sangue que pulsava por mim nas suas arterias; aquella resplandecencia, brilho de joias com que cobria a nudez. Os tranvias iluminados, cortando em mil direcções a cidade, eram pedrarias, aqui se apagando uma, para alem se accender outra, conforme as ia eu tocando com os meus olhos amorosos. Ella, em baixo, abria os seus braços, entregava todo o seu corpo, a morena Sevilha, offegante e lasciva!

«Era feliz, poderosamente feliz. Sentia, em cada palpitação cardiaca, o sangue remoçado que se espraiava pelo corpo. Foi então que conheci Clara. Ella passava pela _Sierpes_, junto ao _Credit_, enygmatica, como a viste. A elegancia do seu porte, ultima florescencia da moda franceza, quasi immaterial, contrastava com a forte humanidade das sevilhanas cheias de vida, de sangue e de desejos. Todos se voltaram para ella e lhe abriram caminho, como se passasse um andor. Fui logo preso pelo encanto decadente e artificial, esqueci a Vida e a gloria de viver ao sol nos campos fecundos. Regressei á hyper-civilisação; segui-a e alegre entrei, atraz d'ella, para o seu e meu hotel.

«Vergonhosamente a segui como um cão fiel. Vergonhosamente mendiguei um olhar dos seus olhos parados; e contente fiquei ao vel-a um dia no salão da leitura, por que pude dirigir-lhe a palavra e pedir-lhe licença para fumar. Apesar da resposta secca, insisti e entabolámos conhecimento.

«Doces foram para mim os dias, em que visitámos Sevilha. A casa de Pilatos e as suas penumbras em que esmaecem estuques e o patio claro de marmores harmoniosos ouviram as palavras aladas que lhe disse; diante das Assumpções do Murillo e dos frades de Zurbaran, no museu deserto, contei-lhe o poema do meu desejo; na _Caridad_, a mostrar-lhe a estatua de Herrera, ouviu a perfumada e embaladora cantilena. Na Giralda, a vêr Sevilha doirada, deitada na planicie que ondulava, até perder-se no horisonte circular, offereci-lhe toda a minha alma e toda a minha vida. Houve momentos em que seus braços foram a levantar-se para apertar o meu pescoço; julguei sentir o seu peito leve arfar de commoção: muitas vezes a boca se apertou para a florescencia dos beijos e seus olhos verdes se encheram de luz; mas rapido, tudo se desmanchava, e um sorriso tremia na boca desmaiada, a mostrar a linha branca dos dentes.

O flirt desabrochava. Uma tarde, nos jardins do Alcaçar, á porta dos banhos de Maria Padilla, passou por mim o corpo delgado, agil, pela cara roçou o cabello que tinha um perfume penetrante; fallou-me do seu corpo e, sentados no salão dos Embaixadores, estendia a perna, para mostrar o tornosello fino e a meia _ajourée_, que deixou vêr a pele branquissima. Todas as noites eu pensava, que no dia seguinte beijaria a boca perfumada. E todas as manhãs via cair a minha esperança, como as folhas murchas que o vento sacode dos ramos seccos.

«Certamente que as minhas palavras deviam ser perturbantes, porque sahiam d'um coração perturbado. E, pesadas de tanto amor, cahiam da boca vagarosamente. Ás vezes os cilios de oiro abatiam-se sobre os olhos, como n'um espasmo. Mas logo o sorriso abria-lhe a pequenina boca!

«Longos dias, longas semanas, durou o encantado oaristo. Já não cuidava da gloria da natureza; das apoteóses do sol sobre as aguas azues do rio. Só pensava n'ella, só vivia d'ella.

«Um dia, porem, eu soube! Alguem, com palavras que julgou caridosas, veiu pôr no meu coração as sete espadas! A creaturinha delicada e deliciosa, princeza de balada d'hoje, urna de perfume, a quem me entregava como um collegial, era uma aventureira das que frequentam a _Riviera_ no inverno, Aix no verão, Paris na primavera, e que a Sevilha viera atraz d'um clown, que no circo fazia rebentar estrépitos de gargalhadas... Ao seu morbido encanto me prendera, e atraz d'ella me fui a soluçar, flor de lameiro em que puz todo o perfume suave... Fôra nas mãos d'ella um saxe fragil como que se brinca!

«Ah, meu amigo! O desespero e a raiva puzeram mãos assassinas a estrangular-me! N'um impeto, como uma aura que se nos levanta do peito e nos atira para o ataque epileptico, decidi-me. Levei-a n'um trem para o campo, para alem da Cartuja, com um cocheiro de confiança. E alli, desapiedadamente, bati-lhe, arranquei-lhe as sedas e as rendas--parecia, nua entre os trigaes verdes, uma magnolia enorme!--e o seu corpo cobriu-se todo de sangue. Clara gemeu, implorando; as lagrimas empastavam a maquilhagem; via-a sordida, enrolando-se para escapar ás chicotadas, e fugi, ebrio, doido, a correr, diante do cocheiro espantado que me metteu no trem e me levou a Sevilha.

--Senorito, la navaja era mejor, aconselhou-me.

«Parti. Nunca mais soube d'ella. Trouxe-a dentro de mim como um espinho. A dôr que lhe causei augmentou a minha pena. De ter visto o corpo magro e branco, ficou-me a ancia de o beijar. Andei de noite, pelas ruas, a correr sem forças para fugir de mim e d'ella, porque a figura surgia deante dos meus olhos, bella de toda a perversidade e de toda a lascivia, como uma invencivel tentação, a que o maior santo succumbe.

«Ás vezes conseguia distrahir-me; de repente ella surgia, sentava-se na minha frente, mostrava os vergões das chicotadas, todo o corpo impudico perfumava e brilhava, e a boca sorria a escarnecer de mim!

«Foi algum philtro que me deu.

«Ia a esquecel-a e eil-a que novamente me apparece, a prender-me, a levar-me, outra vez para a allucinação, a atiçar o incendio que me queimava!

«Talvez queira vingar-se!

Não. Não queria vingar-se. Clara veiu a Lisbôa, soube-o mais tarde, atraz d'um comprimario de S. Carlos, seu _amant de coeur_.

* * * * *

IDILIO TRISTE