Part 7
Quando o Diabo fallou do amor, do negrume da noite que se apoiara já fortemente sobre a cidade e o monte, vi passar, no seu andar musical e casto, tal uma deusa, a Bem-Amada. Foi como se uma via-lactea suave se accendesse e florissem as flôres da terra sobre as estrelas do Ceu...
--Não te dou a minha alma.
--Vão abrir-se, d'aqui a pouco, na cidade enigmatica, as portas escuras das casas de jogo. Dar-te-hei o segredo de sempre ganhar. Farei correr por ti os cubos amarelecidos dos dados. As pintas pretas far-se-hão olhos e verão onde apontas. As bolas das roletas saltarão por ti nas arestas de cobre... Conhecerás o prazer de ver amontoar na tua frente as notas e as moedas de oiro, de observar, ironico, os rostos, que a angustia encarquilha, dos jogadores que perdem. E os sobresaltos do banqueiro, imovel, mas de olhar esgazeado, far-te-hão rir...
--Que importa? Jogarei com os sorrisos que brincam nos beiços finos de Livia. Ganharei sempre porque, quer ella sorria ou não, vel-a-hei e, por vel-a, andarei contente...
--Ensinar-te-hei os segredos das cotas, dir-te-hei as confidencias que a si mesmos mal ousam segredar os financeiros internacionaes. E farás cair as grandes emprezas que vão dar ao mundo um aspéto novo. Arruinarás povos inteiros, farás baquear os tronos em que rainhas hirtas se assentam, no pavor das revoltas. Serás o ordenador magnifico dos cracks, e, de paiz em paiz, o teu nome correrá, nos fios dos telegrafos, espalhando o sobresalto e a ruina.
--Não quero. Basta que o meu nome seja pronunciado n'uma voz suave pela Bem-Amada. Dito por ella, o meu nome vae, de flôr em flôr, espalhar o perfume da sua bocca.
--Amas a mulher? Dar-te-hei as cortezãs vestidas de joias, como idolos antigos. Virão, de rojo, abraçar-te os joelhos, como escravas. E dos corpos alvos e brilhantes subirão perfumes que entontecem... Dos seus braços frescos, como as grinaldas que se entretecem com jasmins, fugirão as caricias. Terão vozes magoadas a suplicar beijos. E, mais que as suas joias, brilharão os seus grandes olhos...
--As joias são flores mortas, retalhos de astros que sucumbiram... Essas mulheres são como as joias: os beijos puzeram nos seus corações a dureza, a frieza e a geometrica forma das pedras lapidadas. Prefiro, a todas ellas, o gesto lento e curvo da Bem-Amada quando compõe o seu cabello preto.
--A mulher carinhosa e pura é como uma flôr sem perfume. É preciso que o vicio lhes ponha um estremecimento. Dar-te-hei aquellas que envenenam a sorrir, que atraiçoam entre duas caricias, a amante que vae surpreender, n'um beijo, o segredo do amante, o segredo que leva á Forca, aquellas que descobriram ineditas lascivias, corrutas e artificiaes, que eu mesmo vestirei com tecidos fantasticos, que espalham um amavío!
--Que amavío maior do que ver a Bem-Amada quando descança a face branca sobre as mãos cruzadas, n'um vagaroso gesto cheio de doçura?
--Dar-te-hei a alegria e a insaciedade, a embriaguez que exalta, o redomoinho dos desejos que estrangulam, as bocas avidas e perseguir-te com beijos e dentadas, toda a loucura incendiaria, a profanação de todos os cultos, o poder de corromper, os venenos subtis que matam lentamente e de longe, as misteriosas aguas e misteriosos pós, que fazem definhar, como flores que se fanam, as creaturas... Serás o senhor das almas e dos corpos.
--Basta-me vel-a guardar, a sorrir-se, a carta que lhe escrevo...
--Entregar-t'a-hei! Poderás tel-a entre os braços, morder a boca fina, sentir sobre o teu peito o arfar apressado do seu collo amoroso, ver os olhos cerrar-se como n'uma agonia doce... A sua figura fragil aconchegar-se-ha entre os teus braços, aquecerás a sua frieza, será tua, reconhecida, amorosa, fremente de paixão... Queres? Dá-me a tua alma!
Tive um sobresalto, como quem, passeando n'um jardim florido, pisa um sapo:
--Não. Basta-me sentir nas noites claras, quando lhe fallo á varanda, o seu olhar cair gotta a gotta sobre os meus olhos extacticos!
O creado veiu dizer-me que ia fechar-se o restaurante. A treva escorregava pelo monte. Um clarão vinha da cidade estendida a meus pés. E vago, confuso, o ruido da cidade com os seus vicios, seus tumultos, o cio que começava.
Desci. E, a acompanhar-me, senti a Bem-Amada, perto de mim, carinhosa, a olhar-me longamente com os seus largos olhos pretos.
* * * * *
A PRINCEZA PERDIDA
AO SR. JOSÉ DE SOUSA MONTEIRO.
A PRINCEZA PERDIDA
N'aquella serena tarde de primavera, a princeza descera com as pequeninas aias e a camareira-mór as escadas de marmore branco e de marmore roseo do sumptuoso palacio real.
Era n'uma côrte de complicada pragmatica. Os movimentos eram feitos consoante regras antigas; cada passo, cada mesura, cada sorriso, vinham marcadas no grosso livro que um mordomo-mór colligira, a exemplo do que fizera um imperador bysantino.
Apesar d'isso, porém, na côrte esplendida havia um pouco de mocidade. E detraz dos leques de varetas rendilhadas, os labios abriam-se em sorrisos os olhos franziam-se, quando estava distante a hirta, camareira-mór.
Os bailes tinham solemnidade como os officios divinos; mas as cores frescas das raparigas, a ligeiresa com que dançavam, a graciosidade que florescia nas suas atitudes rapidamente desmanchadas, logo substituidas, davam-lhes o ar de festas.
No grande palacio brilhante, as gentes andavam lentamente, como em procissão. No rosto do mais alegre era preciso espelhar-se, sombria, a tristeza que emagrecia a face pallida do rei. Era mister que ninguem perturbasse, com o tenir fresco d'um riso, a dôr real. Se alguma vez as donzellas deixavam passar o riso atravez das rendas finas dos seus leques, logo a camareira-mór intervinha, sevéra, a repreender. Nos tapetes morriam os sons dos passos; os grossos reposteiros abafavam o ruido das vozes. O silencio era eterno, como essa grande e aniquilladora magua que abatera a vigorosa mocidade do Rei.
Em tempo, o palacio vibrára com o clamor das festas; as musicas saltitantes riam nas amplas sallas. Os vestidos claros, em cujos decótes os peitos brancos se mostram, sublinhavam a alegria. Um bobo pequenino e monstruoso punha um chocalhar de guiso em cada frase. E junto da Rainha, loira, pallida, delgada, o Rei tambem sorria, a olhar a flôr preciosa e fragil que pelo braço levava, em movimentos musicaes, como uma ave.
Junto á sua frescura luminosa, as joias pareciam flores. E o diadema pesado, sobre os cabellos loiros, era como uma aureola maior n'essa cabeça fina.
Ella tambem sorria, olhando os olhos escuros do Rei. E pela bocca vermelha havia como um palpitar de beijos. A festa continuava. Havia no ambiente claro de tantas luzes, tantas joias, tantos olhos contentes, uma alegria maior. Vaporisavam-se os movimentos. As rendas tremiam nos vestidos das mulheres, nos gibões de seda dos gentishomens. As conversas d'amor faziam arfar os seios... O Rei e a Rainha continuavam a sorrir-se, como dois amantes rusticos, que se encontram na vinha, por um suave outomno.
Uma noite, porém, a dôr entrou n'esse palacio claro. Ligeiros, para não fazer ruido, como sombras, os cortesãos, as damas d'honor, as aias, passavam, murmurando resas, ou trocando, baixinho, as impressões. Era como um ciciar leve de brisa sobre um campo de flores. Os vultos cruzavam-se:
--Então?
--Na mesma...
--Impossivel salvar-se...
--O fisico não atina com o remedio...
Era a Rainha, que, como certos arbustos que morrem, depois de florir, finava-se ao dar á luz a pequena princeza.
A dôr tragica e calada do moço Rei! Nem uma palavra se lhe ouviu da bocca crispada. Nem um grito na luctuosa camara onde carpiam as senhoras da côrte. De joelhos junto ao leito magnifico, onde se postára depois de ter cerrado os largos olhos garços, o Rei chorava em silencio. Os frades diziam monotonamente, como um esvoaçar de insectos, as resas rituaes. Um ou outro soluço, a desolação d'um ai, cortavam a funebre quietude; mas o rei, entre as suas as mãos finas e amarellecidas da Rainha, não tinha um grito, nem uma palavra. Nos labios da morta ainda havia o sorriso, esboçado a olhar para o marido...
O Rei mandou retirar a todos do quarto. Quiz elle proprio vestir aquella que tanto amára. Beijou-lhe os olhos de palpebras azuladas, beijou os cabellos, que na imprecisa penumbra, tinham um brilho d'oiro... Outra vez caiu de joelhos.
Então as palavras de dôr, abundantes, sairam dos labios tanto tempo represos. Disse-lhe o grande amôr e a grande magua. Prometteu-lhe viuvez eterna; que a sua alma se conservaria fechada, como um relicario, a guardar a imagem quasi divina da mulher primeira amada, unica...
Longo tempo se conservou, as mãos frias da morta entre as suas, no quarto silencioso, onde apenas os seus queixumes davam uma nota de vida. No lampadario já se extinguiam as luzes, que, de quando em quando lançavam, altas, dentadas, labaredas azues e d'oiro.
A madrugada clara entrou pelas janellas, como um chilrear de passaros. A vida renascia, musical, da noite escura. No coração do Rei a dôr fizera uma sombra eterna.
Entre os brandões acesos levaram o cadaver, vestido por mãos mercenarias, que as do Rei nem tinham forças para o peso dos anneis...
Filas de bispos mitrados, graves e compungidos, seguiam o feretro atravez as ruas da cidade e por estradas risonhas, até o convento magnifico em cuja egreja jaziam todos os numerosos reis e rainhas da casa real; seguiram os fidalgos como seus escudeiros de lucto; seguiu, commovido, o povo, que pranteou a morte d'aquella que fôra linda e nas ruas sorria ás criancinhas pobres, que lhe pediam a benção...
Era uma comprida fila que se perdia nas corcôvas da estrada. As confrarias, os conventos mandaram os irmãos e os frades, com as insignias. E áquelle radioso sol d'agosto, que punha na athmosphera uma tremura, tudo resplandecia, como uma apotheose. Brilhavam as lanças, brilhavam os ouros, brilhavam os báculos e sobretudo refulgiam as insolitas pedrarias dos bispos, caminhando magestosos e tristes. E o psalmejar dos padres, ouvido ao longe, perdia a nota de lamento: era como o ultimo echo d'um canto de victoria, no dia glorioso...
No palacio quasi deserto, o Rei ficára no quarto vazio. Como arredal-o de lá? De joelhos ainda, pensava talvez ter entre as suas mãos os dedos finos da Rainha morta. De quando em quando um soluço parecia estalar a garganta. E as lagrimas desciam pela face, iam morrer na barba perfumada.
Olhava para o grande espelho, onde a Rainha costumava ageitar, á noite, os cabellos fartos. Lembrava-se de ter alli visto o gesto gracil, aquelle pó d'oiro, e o corpo que tinha a frescura e a elegancia d'uma flôr que vae a desabrochar. Porque não guardam os espelhos as imagens reflectidas? Teria alli, viva, a Rainha, na attitude de compôr as sedas das suas tranças... Mas os espelhos deixam tudo escapar. Assim os lagos não guardam, no seio ligeiro, voluvel, o vôo curvo das pombas que fogem...
E para alli se quedava, vivendo do passado, como um velho... Que importava que as guerras na fronteira distante assolassem o paiz? Que tinha que os povos gemessem, que as catastrophes aluissem as cidades fulgentes ao luar e ao sol nas suas cathedraes preciosas, que os rios, saltando os leitos, invadissem as aldeias claras? Que importava a vida se elle só vivia da morte? Mergulhassem os outros no passado os olhos cubiçosos e vivessem de tanto explendor de batalhas e de riquezas que listravam de clarões a historia do reino afortunado. Na miseria presente, que se recordassem!
A propria princeza entre as mãos das açafatas, delicada e linda, ia vivendo, nos grandes olhos verdes, uma tristeza, como quem sabia... No palacio sevéro, lugubre, sem os tinidos das alabardas e os mantos que formavam lagôas, nas alcatifas, ninguem se via. E ella, a pequena princeza, não aprendera a rir e tambem não chorava.
Uma vez ou outra, ao atravessar silencioso e só as camaras, o Rei via a princeza; machinalmente as suas mãos pallidas passavam pelos cabellos loiros da filha. E seguia, taciturno, sempre diante de si a imagem d'aquella que morrera a sorrir e o esperava na crípta silenciosa do austero templo gothico.
Ensinavam as aias á princezinha, não relatos crueis de contendas, nomes temidos dos reis seus avós, mas historias maravilhosas. Diziam-lhe que á noite, os grandes calices das magnolias abriam-se, com um ruido musical. E de dentro saiam côrtes de fadas minusculas, vestidas com mantos tecidos com raios de luas-cheias. Pelo parque andavam livremente entre as roseiras explendidas... Contavam-lhe que á meia-noite, as arvores se desprendem da terra e vão beber, como os gados, ás limpidas ribeiras. Ella sabia que entre si os animaes falavam, as andorinhas nos bicos dos telhados, os cisnes brancos nas lagôas azues, os pavões sobre as arvores, quando espalmam as enjoalhadas caudas, as pombas brancas á beira dos poços, sobre o marmore polido.
Conhecia os trabalhos ligeiros dos gnomos, que nas cavernas escuras trabalhavam o oiro e o ferro; distinguia os alfagemes, que afiam as espadas mortiferas, e os ourives, que afilagranam os metaes.
Diziam-lhe as lendas floridas dos amantes, de cujos tumulos saem sorrisos carregados de rosas, que n'um arco perfumado se abraçam a misturar os perfumes...
Mas a pobre princeza, apenas nubil, não conhecia a Vida, nem o Amor, nem o Riso.
Um dia, pois, a princeza, com as pequenas aias, desceu ao jardim do sumptuoso palacio.
Misterioso por tantas sombras, tantos caminhos que se contorciam por entre rugosos troncos, tantas aguas que cantavam nos marmores brancos, tantas flores que dentre a verdura perfumavam...
De socalco em socalco abriam-se, em leques, as escadarias; saltavam as aguas das cascatas, despenhavam-se as trepadeiras floridas, rastejavam as hervas, rosas de toucar e jasmins lançavam os ramos frageis.
Junto ao palacio o jardim era cuidado, como uma cabeça garrida. As largas flores espargiam os aromas; os repuxos finos esguichavam fios de prata, pelas ruas areiadas passavam, magestosos os pavões solemnes... Mas depois, começava a floresta. As altas arvores luctavam, estorcidas: algumas subiam, magras como pedintes, n'uma aspiração, muito direitas para o sol. Outras torciam-se, esta sem forças, esgarçava-se mirrada. E a hera crescia, vestia os troncos, até nas arvores secas vicejava, como uma mascara risonha n'uma face de morto. Alguns troncos de seculares carvalhos continham grutas escuras. E os passaros, dentre os galhos, ao ruido dos passos, levantavam vôo, alvoroçados.
Era o «Caminho das Rosas», que alli levava. Rosas de toda a côr: ensanguentadas, brancas, côr de mel e de marfim, côr de carne, rosas para florir peitos de danados e para tranças de primeiras commungantes, rosas que abrem chagas no verde das roseiras, outras que chamam beijos, como colos nus em festas illuminadas, rosas que teem toda a pureza d'uma noiva, outras toda a garridice d'uma amante, rosas para tumulos, brancas, mortas quasi, rosas cheias de vida, que pareciam querer saltar das hastes, e offerecer-se, lascivas...
Vinha do seu conjuncto um perfume entontecedor. Por tanto aroma lançarem no ar, nas noites quentes d'agosto, algumas damas da côrte caiam, em deliquio. E todas tinham medo d'aquelle portico encantado, que parecia abrir para um paraiso, mas que podia descer a algum abismo.
Foi para ali, que, correndo atraz d'uma borboleta, se dirigiu a princeza. Em vão lhe prenderam as vestes de seda os espinhos das roseiras, em vão a chamaram as pequenas aias; mesmo foi debalde que a voz secca da camareira-mór gritou por ella, entre respeitosa e auctoritaria. A princeza, a rir, córada, continuava atraz da grande borboleta, deixando tiras de seda nos galhos em flôr que, sacudidos, lançavam sobre a sua cabeça petalas finas.
Ninguem, comtudo, se atreveu a ir atraz d'ella.
Corria no palacio e na cidade uma lenda extranha sobre a floresta, que continuava o jardim, depois do perfumado «Caminho das Rosas».
Dizia-se que n'uma epoca remota, no tempo em que pela cidade luminosa e culpada ainda passavam os santos ensinando a Lei e edificando as gentes, governava o reino uma rainha pagã. No jardim murmuroso e claro havia fremitos de beijos. Nas aguas dos tanques brilhavam corpos ligeiros. Nas sallas que as tochas e os lampadarios illuminavam, mulheres quasi nuas dançavam levemente ao som de musicas alegres. E o vinho levava das taças lavradas ás boccas vermelhas a alegria e o Amôr.
Por toda a parte havia flores, havia risos, havia festas. Os cavalleiros, nas justas, paravam; morriam as scentelhas em que ardem as espadas no choque dos combates, e das boccas frescas saíam vozes a cantar a formosura das florestas, a elegancia das mulheres, a limpidez das aguas cantantes.
Um dia, um santo bispo entrou, andrajoso e cançado, a pedir pousada; a rainha, ao vel-o tão miseravel, mandou-o recolher no canil, com os creados das matilhas. Os cães, piedosamente, foram lamber os pés em sangue do santo homem.
Mas a Rainha não o quiz receber. Como de S. João Baptista, as palavras subiam para as portas, asperas e condemnatorias. Toda a noite a sua voz rude annunciava o castigo.
A Rainha, cançada de ouvir a voz rouca, mandou-o açoitar e expulsar do palacio, em que reviveu a alegria. Mas durou pouco, porque um dia uma lingua de fogo saiu da terra, e agitou-se no ar, de sangue e oiro; espavorida, toda a côrte fugiu, para não mais voltar, para a floresta misteriosa, que ninguem sabia ao certo onde acabava.
E todo o reino teve medo, como d'um inferno, d'essa floresta que começava por uma extranha floração de rosas e terminava porventura pelos eternos gelos, pelas labaredas, talvez...
Por ali seguira a princeza, a rir-se. Em vão o Medo guardou durante seculos a misteriosa entrada. Em vão as rosas se agitaram, como turibulos, para a entontecer com o perfume, e os galhos a prenderam, e os espinhos lhe rasgaram as rendas e as sedas. Foi correndo. A borboleta enorme parecia uma joia a fugir por entre as flores. A princeza era como uma ave, delgada e linda, atraz d'ella.
Subitamente a paisagem modificou-se. Do dia glorioso que estava no jardim do palacio, nasceu um crepusculo doirado, como um velho damasco amarello.
A luz parecia um convalescente a rir-se por cima das arvores, pelos tanques quietos, pelos marmores. E as folhas das arvores tremiam fazendo brilhar os filamentos d'oiro. As flores tinham todas um aroma ligeiro, como os frascos de perfumes, que durante longos annos se guardam, vasios, nos armarios fechados. Eram brancas todas as rosas e as petalas enrugadas, como pelles finas de velhas, que viveram nos claustros, entre cosmeticos.
Quando a princeza deu pela mudança da luz e da paisagem lembrou-se da lenda pavorosa que afastava as gentes da floresta e do Caminho das Rosas.
--Onde estão as linguas avidas do fogo? perguntava-se. Onde os gelos que prendem e matam? Onde os dragões?
A paisagem era toda serena e d'um riso triste. Dir-se-iam anemicas as flores palidas, as anemonas de seda velha, de cera transparente, que por toda a parte deixavam cair, de cançadas, as petalas finas. E nos caminhos a areia preta era crusada pelos veios das hervas rasteiras, coberta pelos galhos dos arbustos, aqui sacudiam-se rosas, alem os geranios frescos. Pelos troncos direitos das arvores a hera enroscava-se, a subir. Nas curvas dos tanques, dormiam os nenuphares. Nos marmores dos poços as trepadeiras cobriam os lavores. Havia um silencio leve, por onde perpassava o espirito d'um canto, como um aroma que a brisa traz de longe.
Os templos tinham as portas abertas. A princeza para elles entrou, a medo, a espreitar, afastando os loureiros e os mirtos, que quasi fechavam a entrada.
Ninguem. Apenas os deuses de marmore, calmos, esperavam as oferendas. Mas as aras dos sacrificios tinham humidade da lavagem recente. As cinzas eram quentes; no templo d'uma deusa havia grinaldas de rosas e pennas de pombas brancas soltas pelo chão.
Alguem ali vivia, pensava a princeza. Mas quem? Genio malfazejo, que a mataria, ou fada carinhosa? Seria ali que nas noites claras virião passear as côrtes sumptuosas que moram nos calices das magnolias?
Habituada ao silencio sombrio da côrte não a inquietava aquelle silencio leve. E continuava a explorar a encantada floresta, onde parecia agitar-se um simulacro de vida.
Como um coração que vive da saudade dos tempos remotos, assim ali parecia existir a repercursão d'uma vida antiga. A cada passo a princeza encontrava signaes de sandalias, flores cortadas, uma fita, indicios de vida. Mas d'onde partiam? Quem os deixava?
Viveria ali, n'aquelle paiz de luz anemica, uma côrte de feiticeiras tragicas, que esperam, para sair das cavernas, as badaladas lugubres da meia-noite? Mas não. As feiticeiras escolhem as montanhas altas e escarpadas onde chegue o canto soturno do mar revolto, sem arvores que impeçam o vôo incendiario das blasphemias e das imprecações para o ceu sem lua e sem estrellas.
Ia caminhando a princeza. Via ribeiros claros que escorregavam sobre seixos brancos; lagôas azues, fachadas de templos, quincuncios bordados por buxos altos. E as ruas seguiam entre filas d'altas arvores formando tunel, até serem cortadas por novas ruas, com arvores ou flores.
Cançou-se a pequena princeza. Um vago terror a invadiu. Quiz regressar ao palacio, mas não podia. As ruas d'arvores, os templos, os ribeiros, as estatuas, sucediam-se. Parecia-lhe estar n'um complicado labirintho. Como conseguir o magico fio?
Uma noite, que parecia artificial, espalhara-se pelo ceu e envolvia as coisas. Á tonalidade doirada, succedia uma tonalidade branca, como se tudo fosse feito de prata. A princeza sentou-se n'um banco, a chorar.
Ouviu de longe como um passar de brisa leve por harpas suspensas em arvores. Escutou. Era um canto que um côro fazia subir, ligeiro como um fumo. Mais se approximava. As vozes eram cançadas, mas limpidas. Cantavam a vida e as festas, o rir das flôres, a alegria das arvores na primavera.
Cada vez se approximavam mais. Dirigiam-se, certamente, para o sitio onde ficára a princeza, um jardim junto d'um templo de marmore verde.
Já via as canephoras, com açafates de flores, seguidas pelas escravas com tamboretes; depois a numerosa theoria de mulheres, com archotes, que, ao queimar-se, illuminavam e perfumavam. Não havia homens. Certamente que vinham para a festa atheniense das Thesmophorias.
Eram as habitantes da floresta. Caminhavam lentamente, as cunharicas fluctuantes sobre as tunicas amarellas. As hidrophoras traziam as urnas na cabeça. N'um gesto gracioso, seguravam-as com uma das mãos; os braços nus eram tão brancos como os marmores transparentes das urnas.
Quando viram a princeza, medrosa, a esconder-se entre as arvores, a procissão parou, as vozes calaram-se, a meio do canto.
Em voz baixa concertavam entre si a resolução a tomar. A princeza ouvia apenas um zumbido confuso, como os das abelhas, quando nos dias quentes se cruzam pelos jardins floridos. Colada a um tronco, palida como um ex-voto de cera, viu com pavor approximar-se d'ella uma das habitantes da floresta. Era porém, tamanha a sua beleza e a sua gracilidade, que o medo tombou do espirito da princeza. Pensava-se ver uma haste florida a andar. Vagarosa, os seus gestos curvos e lentos pareciam fazer nascer no ar quieto uma harmonia...
--Perdi-me aqui! Perdi-me aqui!
--D'onde vens?
--Do palacio. Sou a princeza. As minhas aias não se atreveram. Eu corri para apanhar uma borboleta. A borboleta fugiu. Fiquei sem saber onde estava, que caminho tomar. Isto é tão lindo! Mas faz tanto medo não se saber onde se está!
--E queres voltar? Deixaste teu pae e tua mãe...
--Minha mãe morreu. Meu pae não o vejo... quasi nunca. É um velho triste e duro, que não fala... Tenho medo da camareira-mór. E as aias estão a chorar ás escondidas d'ella como sempre... A vida é triste, triste, no palacio...
--Preferes ficar comnosco?
A boca fina pareceu sorrir-se. A princeza olhava para as mais que se tinham acercado. Eram todas lindas e moças, mas sem frescura, como as rosas que abrem pelas chuvas e ventanias.
--Se me quiserem. Se me quiserem.