Flirts

Part 6

Chapter 63,845 wordsPublic domain

A principio a vida foi dura para André entre os professores indifferentes que tomavam as lições sonoleando, e mademoiselle Renée, hostil, que, pensava elle, tinha causado a partida da miss, linda como uma dessas santas serenas e indulgentes, que teem sempre, nos dedos em fuso, o gesto da benção.

André olhava para Renée, disfarçadamente; admirava a graça do seu corpo de que saia um perfume tenue, as mãos brancas, as unhas cuidadosamente tratadas, e, quando ella se abaixava, o palido reflexo da sua nuca doirada. O perfume era subtil e perturbante. Respondia com maneiras bruscas ás perguntas feitas numa voz macia e quente, falava-lhe muitas vezes inglez, fingindo ignorar os termos franceses, para lhe ser desagradavel. Mas Renée Viardot tudo suportava com paciencia, lançava-lhe olhares enternecidos, queria afagal-o até, beijal-o num impeto em que brilhavam os seus olhos claros; mas André fugia logo, apesar dos quatorze annos, como uma creança indocil.

No verão davam as lições na quinta, em baixo, junto aos tritões, numa rotunda assombreada. Numa tarde quieta e quente, como estivessem juntos e Renée tivesse ao cólo um livro que interessava André e de que lhe explicava uma passagem, elle inclinou-se mais sobre o seu braço, quasi a tocar-lhe na musselina transparente da blusa, poude sentir o perfume brando e sensual e, interrompendo mademoiselle, perguntou-lhe bruscamente:

--Que perfume usa?

Nos seus olhos negros havia um quebranto e na face palida duas rosas vivas despertaram.

Renée agarrou-lhe na cabeça e mergulhando-lh'a na musselina da blusa:

--Est-ce que tu aimes mon parfum? Dis!

A impressão foi demasiadamente violenta. André fugiu, a tremer; foi sentar-se sobre o arco verde e doirado dos limoeiros, a tremer, os olhos parados, pensando na sensação deliciosa e rude que tivera.

O aroma das rosas que lentamente se desfolhavam, o perfume dos lilazes brancos e dos lilazes roxos que punham nos lilazeiros uma espuma branca e uma espuma roxa, mesmo o cheiro acre dos limões maduros não conseguiram vencer o aroma subtil e sensual do peito farto de mademoiselle.

Dias seguidos, André pretextou enxaquecas, fugiu de Renée, espreitando-a de longe com receio e com desejo de se approximar d'ella, outra vez mergulhar a cara na frescura da musselina e muito tempo sorver o inibriante aroma. Um dia, na estufa aberta, examinava langorosamente os cravos que iam já a murchar. Havia-os de toda a côr. Todos os vermelhos, desde a purpura sombria, até ás descolorações das rosas anemicas; gritavam alguns côr de vinho, surgiam roseos e triumphantes, até que desmaiavam rosados puros de geraneos, como bocas novas que querem beijar.

E aos vermelhos, quer heroicos, quer tenues, uniam-se outras côres, outras n'elles se fundiam ou se embutiam, perpassavam em alguns laivos fortes de violetas, n'outros espraiava-se um branco que hesitava em ser rosa; aqui um, desesperado, as petalas revoltas, como em arrepelos, era d'um violeta ardido, além outro era todo branco, d'uma quasi irreal alvura, como se anjos os houvessem beijado nas horas suaves em que do ceu cae o rócio... Outro, tambem branco, beijos de abelhas o tinham mordido, n'elle gotejava um sangue avermelhado; mas os vermelhos combatiam, aqui vinho, além quasi roxo, havia como uma lucta de que resaltavam gotejos, que pareciam cristalisar em coraes; em certos, o vermelho do fundo degradava-se, triunfava fortalecido, até que nas pontas recurvas se franjava de roxo. Havia retalhos de tunica do Senhor dos Passos, carnes a apodrecer, pedaços de pelles virginaes, estriados, franzidos, sempre frizados, raiados de côres diversas: aquelles eram «modern style» em côres estranhas que se reuniam, certos cremes onde se dilue o vermelho, tons sem brilho, onde a luz morre, côres de tijollo, esverdeados longiquos que pareciam dormir sob os roseos.

Mas todos tinham frescura, todos viviam uma vida impertinente que se affirmava no odor sensual, perturbante e voluptuoso, todos eram d'uma ardente mocidade, quer saissem dos tubos, entre folhas de musgo, quer baloiçassem em hastes longas de craveiros, como que ejaculados, tal a sua soberba. E mesmo os que eram enormes e faziam vergar a haste, como um corpo cançado, na seda fina das petalas tinham sempre sorrisos, um sorriso que excitava.

Eram todos sensuaes. Faziam lembrar _croupes_ fortes de espanholas d'olhos languidos e cabeleiras negras mordidas por pentes d'oiro.

O langor das flôres, junto á puberdade que nascia e se afirmava e entontecia, como as grandes olaias de marfineo calice, pelos jardins calados nas noites d'agosto, perturbavam, embriagavam André, tal um copo de capitoso vinho que se bebe d'um trago n'uma convalescença.

Pé ante pé, Renée entrou e, curvando o corpo n'uma atitude provocante, agarrou-lhe na mão e segredou-lhe:

--Quer saber o meu perfume?

A bocca vermelha e seca ria-se, contrafeita.

--Ha dias, não tive tempo para lhe dizer...

Aproximou-se d'André, apertou-lhe as mãos, deitava-lhe, ao falar, um halito perfumado e quente.

--Quer saber?--insistiu.

André córou e quiz fugir; mas mademoiselle agarrou-o mais, tomou-lhe a outra mão e apertando-lh'as, n'uma caricia sabia, palma com palma:

--Não faço segredo: é uma mistura de resedá e jasmim do cabo. Quer vêr?

Sem que lhe désse tempo para responder, poz-se nos bicos dos pés, mãos nas mãos, olhos nos olhos, e approximou-lhe da face o cólo tremente. Largando-lhe as mãos deitou para trás a cabeça palida de adolescente e reavivou com um longo beijo a flôr exangue dos seus labios virgens.

André beijou-a tambem, os olhos fechados, os corpos unidos, arcobotados um contra o outro.

Quando terminou o demorado abraço, André olhou para ella a medo. E por sua vez agarrou na cabecita linda e beijou-lhe a boca longamente, sofregamente...

A noite, para André, foi toda de revoltas no leito, olhos abertos, labios em febre, franzidos, a procurar outros labios que não vinham, a desejar beijos, como se elles adejassem esparsos pelo ar e podessem pousar na sua boca. Comparava os beijos suaves da miss com os beijos de fogo que lhe dera Renée. E como era doce dormir depois de sentir as mãos alvas de Lucy a afagar-lhe os cabellos n'um somno tranquillo e doce! e como lhe era difficil adormecer, a revirar-se na cama, apagava e acendia a luz, sempre a lembrar-se da caricia extranha e inedita, do perfume estonteante, do calor dos labios secos, da macieza do cabello loiro, como se fosse de seda, de todo o corpo fino e flexivel que se colára ao seu, e n'elle deixára como cauterisadas placas de feridas, era bom e era terrivel. E toda a noite passou assim, até que de madrugada adormeceu murmurando em segredo o nome de Renée.

Era a puberdade que aparecia subitamente, irrompendo d'um jacto, como um poço artesiano de repente aberto.

Longo tempo durou esse noivado vermelho.

Certa tarde, D. Benito que ainda se arrastava pelo palacio, achacoso e velho, fazendo do dia uma comprida sésta, surprehendeu-os a beijarem-se.

Clamando contra as iniquidades da terra, foi-se encontrar com o marquez, que á sombra d'uma tilia meditava Marco Aurelio, e contou-lhe, vermelho, esquecido do reumatismo que lhe tolhia as pernas, entremelando a lingua numa algaravia inconcebivel, a abominação das abominações.

O marquez, que pousára sobre o banco de marmore o livro antigo, mostrou-lhe uma haste toda coberta de goivos brancos:

--Vê esta planta, D. Benito? É algum peccado que na época propria se cubra de flôres? Repare para ellas. Com que voluptuosidade mergulham-se na atmosfera! Riem n'uma alegria clara e vívida por terem nascido. Da raiz sobe, triunfante, a seiva para as alimentar. Perfumam hoje, morrerão ámanhã, sem pecado, felizes por terem integralmente vivido. O seu polen voará para fecundar outras flores, D. Benito. Deixe que a vida se manifeste, deixe que todos sejam felizes!

O conego arriscou uma apoplexia ao ouvir a blasfemia do fidalgo. Teve forças para ir para casa embrulhar as escassas roupas e na mesma noite partiu para Sevilha--queria morrer entre gente cristã, dizia. Não se despediu d'André, nem de mademoiselle, apenas um comprimento seco ao marquez.

Fingiu este ignorar o que entre o filho e a mestra se passava. Continuavam no seu idilio. Mas os annos passavam, André fez os seus estudos e o marquez mandou-o para Florença.

Renée regressou a França. Partiram juntos, por mar, para Barcelona.

Foi entre beijos, que sulcaram o Mediterraneo calmo e transparente, aqui azul-ferrete, além verde-claro, logo ensolado e doirado, sempre transparente. E de noite iam vêr, sós, as mãos nas cintas, muitas vezes os braços se uniam--a fosforescencia que se levantava na prôa, brilhante, n'uma espuma fina, como uma poeira de mica.

Como dois amorosos que acabam de dar o primeiro beijo, e logo, na ancia, querem contar mais de mil, mal viram Cadiz branca e pequena, a luzir no recurvo golfo azul; em Malaga não repararam no ar dolente das flamencas, que cantam cheias de volupia, e mesmo no _Paseo_ sacodem as ancas, como n'um convite para uma volupia triste, e os seus vinhedos claros; apenas na cathedral feia e banal, se extasiaram diante d'um quadro, imagem de uma santa. Qual? Não o souberam e chamaram-lhe Nossa Senhora do Desejo insatisfeito. N'uma pequena tela um busto de mulher trigueira, andaluza, forte, pelle doirada, olha para o ceu. Os olhos teem a expressão dolorosa de quem muito deseja. E o vermelho dos labios carnudos, as narinas dilatadas, dizem o que ha de sensual n'aquella expressão ardente. O collo é aberto. E as mãos, ao tapal-o com um lenço vermelho, ainda mais aquecem o tom quente do collo doirado.

Indifferentes, viram Valencia entre vergeis, clara e voluptuosa na planicie fertil e o Grao rumoroso, onde moirejam descarregadores nas docas e operarios nas fabricas. E Barcelona que se alastra em renques de arvores nas ruas largas, com seus palacios, suas avenidas, as Ramblas onde se apertam catalães silenciosos, os mercados de flôres cheios de gardenias, de jasmins e rosas, pareceu-lhes triste, porque alli se deviam separar.

Em vão subiram ao Tibidabo; donde se vê toda a Barcelona estendida, como um tapete, cortada de ruas; correm, ora direitas, ora em sinuosidades, linhas claras de platanos. Estendem-se as casas até junto ao mar azul, de onde em onde raras torres se levantam e entre ellas sobresahe o vulto gothico e afilado de Santa Maria de la Mar.

A ligeira neblina que se levanta do porto e envolve a estatua de Colombo, negra sobre a pedra branca da doca, parecia que envolvia tudo, que dava ás coisas a tristeza que estava n'elles. E Renée chorava, abraçava-se muito a André, obrigava-o a prometer-lhe longas e amiudadas cartas e uma viagem a Paris, quando voltasse, no anno seguinte, de Florença.

E assim, por uma tarde triste, conseguiu André leval-a, pelo passeio da Aduana fóra, entre as palmeiras, á estação.

E os beijos cantaram, demorados e angustiosos, nas bocas dos amantes, até que uma voz rouca gritou:--Viajeros, al tren!--e o comboio silvou e partiu. André ficou a vêr o lenço de Renée e o comboio que se perdeu n'uma curva, fumegando.

Dolorosa foi, para André, essa noite.

Pareceu-lhe vasia e silenciosa a pequena alcova onde durante uma semana tinham dormido. Perseguia-o a lembrança do perfume, a macieza e a côr do cabello d'um loiro palido como um sol convalescente, a frescura da pelle fina, todo o encanto e todo o Amôr da deliciosa Renée que o iniciára e que o amára e de quem sentia ainda as lagrimas amargas que se misturavam aos beijos tristes que ella lhe dera nos curtos dias da despedida. E André chorou.

Na manhã seguinte partiu para Genova n'um _liner_ da Liguria. Com elle regressavam á Italia cantoras do Liceu. Notou uma comprimaria delgada de cabellos e olhos pretos, que trazia do mercado da Rambla um grande mólho de flôres. Olhou para ella com desejo e n'esse desejo se surpreendeu, quasi esquecido de Renée. Facilmente feito o conhecimento, os dois dias de viagem foram rapidos em inconsequentes flirts, alegrias de dança na tolda e leves concertos no salão. Em Genova se separaram e André partiu para Florença ligeiro e esquecido, com um certo prazer de se ter separado de Renée, que, agora o sentia, começava a pesar-lhe.

Em Italia a vida foi-lhe facil entre monumentos e mulheres, em cujos olhos boia uma grande alegria de viver.

Teve paixões e conquistas; quiz realisar quadros dos mestres florentinos que diariamente via no Pitti e nos Uffizi; procurou por toda a parte os typos ambiguos, perturbantes no seu enigma, entre efebos e mulheres, adolescentes sempre, ovaes perfeitos de rostos brancos, bocas sensuaes e vermelhas.

Nos _corsos_ da Italia passeou em cavallos inglezes; em Veneza poetisou, no Grande Canal, pelas noites claras, sentindo humidade e paixão, até que aos dezoito annos voltou a Lisboa sempre a mesma palôr na face, os mesmos olhos tristes e boca exangue.

O marquez aprestava o seu casamento com Violante Cerquedo, filha dos condes de Cerquedo.

Só no palacio, sem os risos do filho, procurou distrações na vida mundana. Novo ainda, puzera-se a amar Violante, graciosa e intelligente, cujos vinte annos cantavam triunfantes, como uma primavera florida. Seduziu Violante a intelligencia do marquez, a sua figura aristocratica e a maneira amorosa como a olhava, como se fosse uma obra d'arte.

Pouco tempo depois do regresso de André, por um inverno chuvoso e frio, a capella do palacio encheu-se de lumes e casaram.

André não deixou os costumes que trouxera de Italia. Paixonetas diversas amorteciam-lhe o coração, até que um dia, perseguindo Martha, uma actriz loura e chique, que lhe fugia um pouco, a tornar-se difficil e desejada, julgou ter «a verdadeira paixão da sua vida», como confessára, depois d'uma ceia fausta e turbulenta, a Jacintho Roquette, seu irmão em letras e seu confidente.

André lançára-se, á volta de Italia, doidamente na literatura. Frequentava redações e jornaes, theatros e cafés onde se reuniam jovens escriptores cheios de esperanças e de imprecações, revolvendo as ideias e os livros sem cerimonia, com o ar de quem, do alto d'uma montanha inaccessivel á plebe, residencia olimpica de escolhidos, considerou já os homens e as coisas.

Instintivamente fugira d'elles, da sua imperturbavel confiança, do azedume que d'elles suava quando se lembravam d'um exito. Ligou-se ainda mais com Jacintho Roquette, caustico e risonho, com um real talento que desperdiçava em cavaqueiras de café e em artigos feitos a trouxe-mouxe para jornaes e revistas, sempre a luzirem, atravez da luneta, os olhos azues, que dir-se-hiam infantis, no fundo uma grande bondade e um caracter firme.

As primeiras impressões d'André tinham tido um certo exito pelo seu paganismo, uma maneira leve de escrever, lembrando a finura que teem os mestres florentinos nas suas medalhas nitidas.

Dissera recantos de paisagens, brilhos de mares azues, figurinhas que tinham passado, subtis, pela sua vista, desaparecendo logo, na rapidez das viagens, no imprevisto das caminhadas pelos campos serenos da Toscana.

Ser delicado e cético, saboreou a ironia viva e o céticismo escarnica de Jacintho Roquette e juntos andavam pelos theatros, vendo retalhos de peças e demorando-se pelos camarins em flirts com actrizes, ceias pacatas, que as companheiras não supportavam, by their own respectability, orgias triunfaes, até que se apaixonou por Martha, essa actriz magrisella, que guerreava a velhice com pastas de cosmeticos e massagens, a unica mesmo que conhecia e usava os processos parisienses para a guerra da galanteria.

Martha tinha uma vida irregular, tecida em mentiras, misterios, certos hiatos de treva, na sua vida, até para os mais intimos.

Nunca um só amante, nunca num trimestre inteiro o seu leito conheceu o mesmo corpo, antes variavam, mudavam, com sinceros _beguins_, ás vezes o seu coração e o seu corpo pareciam uma estalagem de entroncamento, como um vertiginoso vae-vem de passageiros.

André, n'uma noite feliz, em que uma joia brilhou ante os olhos de Martha, teve a ventura de a acompanhar a casa n'um trem que se desarticulava, guiado por um batedor experimentado.

E de manhã, ao almoço, satisfez, contente uma pequena conta de chapeus.

Reconhecida a uma generosidade tal, Martha, durante tres dias, foi fiel a André. Mas ao quarto dia, pretextando enxaqueca, recusou-lhe o leito de pau santo e os braços brancos, ferteis em caricias.

As enxaquecas repetiram-se e André entrou a desconfiar, a carpir-se tristemente da infidelidade de Martha, a Jacintho Roquette que chasqueava:

--Ella recebe-os ambos ao mesmo tempo? Não. Que te importa então? Os beijos que ella te dá teem o mesmo sabôr? Teem. Que te importa o resto? Encontras um perfume estranho no seu corpo? Mas é uma _coquetterie_ o querer variar de perfume. Então?

As rasões aduzidas não convenciam André e, lentamente, o que fôra talvez um capricho, o desejo infantil de possuir a mulher da moda que era chic possuir, foi-se transformando em obsessão, em ideia fixa, tinha a necessidade de estar com ella constantemente, rondar-lhe o camarim, espreitava-a entre os bastidores á espera da _deixa_, ia ao meio dia esperal-a á porta do theatro, quando entrava para o ensaio, e, nas noites de enxaqueca, desolado, nervoso, ia com o Roquette dizer mal d'ella, pôr-lhe a nu todos os defeitos, inventando alguns, mas tendo sempre um secreto desejo de a possuir, mesmo nas passagens mais verrinosas surgia a imagem de Martha, nua, a bocca pequena espremida n'um beijo, a offerecer-se-lhe.

E André redobrava de violencia, dizia a vida postiça e infame da amante, a teia de mentiras que urdia, as suas baixezas, com um prazer cruel enumerava o rol comprido dos amantes, e terminava quasi a soluçar:

--C'est une catin; il faut la tuer; «morte la catin, mort le chagrin.»

--Mais uma filipica! concluiu, rindo-se, o Roquette. Vou-te apresentar hoje uma das minhas amigas, a Princeza das Botas Cambadas. Curar-te-hei pela hom½pathia: dentada de cabra, com pello de cabra se cura.

Mas Miguel sentia-se frio e aborrecido, e triste, diante das princesas do Roquette, até que um dia, sem dizer nada, decidiu-se a recolher-se á Quinta Alegre, onde havia cinco annos não se demorava, pois depois da sua viagem, tivera uma vida de estroina, que o fazia fugir de casa após o almoço tardio, para só recolher a altas horas ou noite, até madrugada clara.

Fizera de Violante sua confidente, e a ella contou, polidas as asperezas, o mal d'amor de que soffria, e o desejo de o curar.

--Vou ser teu medico. Deste-te mal com as mulheres... Experimenta as flôres. São mais lindas e fazem sofrer menos. Dirigirás o jardim. Manda fazer as obras que quizeres. Precisamente tens aqui no «Studio» um artigo sobre a architectura dos jardins. Faze modificações á tua vontade. O teu pae concorda; eu ajudo-te, travamos relações, porque, para dizer a verdade, mal nos conhecemos. Desde que foste para Florença que não fallo comtigo, senão á pressa, quando te preparas para sahir. Ainda te vejo menos do que quando eu era uma menina grave e te batia em casa da tia Talleiros, pelas tuas partidas. Olha, ámanhã começa o mez de Maria... Enfeita a capella. Tens ás tuas ordens o jardineiro e o jardim todo. Tens invenção e gosto... olha que eu exijo genio!...

--Oh! Genio... sabes?...

--Bom; contento-me com talento.

--Vá lá, prometto...

Apanhando um grande ramo de lilazes brancos, poz-lh'o na cabeça, como um diadema:

--Está enfeitada a Santa!

* * * * *

TIBIDABO

AO SR. BARÃO DE S. PEDRO.

TIBIDABO

Na tarde de agosto quente, fugira de Barcelona para a escalvada montanha que a fanfarronada hespanhola bátisou de Tibidabo, o sitio da Judeia onde Satan prometeu a Christo as grandezas do Mundo e os fulgores do Peccado.

O monte levanta-se, precipitadamente, do fundo da planicie em que Barcelona ondeia. E querem dizer talvez na sua os catalães, que Satanaz ergue as creaturas que quer tentar e, firmando-as nos cimos d'este monte, oferece-lhes a cidade, imagem brilhante dos esplendores mundanos.

Sob o toldo do restaurante deserto me acolhi, a sentir a brisa preguiçosa. Espalmava-se em baixo a cidade. Corriam as suas avenidas arborisadas, as «Ramblas» que se seguem como uma bicha, e a «Gran-Via», a infindavel «Cortes», que corta Barcelona em diagonal. Quedava-se o Parque enorme e, ao fundo, n'um vago de nevoeiro, o mar azul, riscado pela linha cinzenta da doca, onde os navios acolhidos eram imoveis.

Vinha caindo a tarde sobre as raras torres das egrejas. Brilhavam um a um os bicos de gaz e as janellas em que o poente puzera uma luz de oiro.

Longo tempo ali estive. Sonhei? Foi real? Não sei.

Um mancebo pallido e triste abeirou-se de mim:

--Vês a noite a cair? D'aqui a pouco as ruas vão brilhar do fremito luminoso dos desejos das multidões. A cubiça e a luxuria porão brazas nas almas que incendiarão os olhos. As mulheres mostrarão nos bailes e nos theatros o maculado esplendor dos seios perfumados. Nos mostradores das lojas, á luz das lampadas electricas, as joias farão percorrer nas mãos desejos de roubo. A Besta ergue-se--olha como se ilumina a cidade! Vês um clarão que nasce, sobe e se perde no Ceu? Julgas que é dos candieiros? Não, é das almas! é toda debruada de vermelho como as chamas dos incendios. Como é bella a cidade quando é culpada!

Voltei-me para o mancebo, tranquilamente. Vi que era o Diabo. Não que tivesse chifres ou cheirasse a enxofre, mas pela belleza triste, de quem conhece tudo. Não lhe tive horror. O Diabo é o gnomo subtil que trabalha na sombra as filagranas das tentações. É o Diabo que amontôa as cidades, inspira os artistas, empurra o homem para as civilisações que apodrecem e brilham.

Não lhe respondi... N'um fogacho violaceo, o sol apagára-se no mar. Era tudo cinzento. Pelos canaes das ruas, por entre as arvores, n'uma sombra mais densa, cintillavam os bicos e os mostradores das lojas.

O Diabo continuou:

--Quero a tua alma...

Olhei-o atonito. Para quê a minha Alma? O grande colecionador tinha um museu estranho em que brilhavam todas as taras possiveis. Assassinos vulgares, ladrões de taberna, mães que vendem as filhas, incestuosos, ganindo de luxuria, velhos abades macerados e corroidos pelas disciplinas, que as ilusões vãs de Satanaz venceram, bispos, cardeaes simoniacos, todos os pecados que se engastam como gemas e possuem um fulgor lugubre, como se as pedras dos diademas ardessem nas cabeças, as gargantilhas nos pescoços, as manilhas e pulseiras nos braços, os compridos cintos nas cinturas! Satan tudo possuia, tragicos homicidas, capitães que entregam os seus soldados, reis que mancham os altares, velhas dementes que ululam nas monstruosas orgias, rojando pelo chão os cabellos pintados, crispando as boccas maquilhadas nos espasmos lancinantes, poetas que arrastam a lira pelos lameiros, virgens que se vendem sem amor e sem vicio, toda a constelação dos sete pecados, como sete soes nocturnos, envenenados pela treva, corroidos pela lepra, um museu formidavel, sombrio, apesar de todos os brilhos, frio e angustiante, como um corredor que leva a presentida cilada--era tudo de Satan e queria-me!

O pasmo pintou-se na minha cara.

--Quero a tua alma! Falta-me na coléção. É por isso que hoje abandonei as ruas das cidades e seus encobertos vicios para subir a esta montanha, que tem o nome de outra, onde prometi tudo e tudo me recusaram. É o nome da derrota. Não sou supersticioso. Tens uma alma de amoroso. Amas pelo Amor. Idealista e sensual, a Fórma bella comove-te como um poema e mais nada. Não tens as crispações dos lascivos. Amas uma mulher e uma estatua da mesma maneira profunda, serena e harmoniosa. O amor não rebenta em beijos violentos, como as folhas das arvores pelas primaveras risonhas--floresce em imagens. Eu, que não posso amar, que soluço angustiosamente pela minha impotencia, quero a tua alma!