Part 5
Tudo cantava, tudo era alegre, na manhã radiosa. A encosta descia, verde da relva, das arvores copadas, mosqueada pela brancura dos marmores, brilhos de flores, sobre tudo rosas-chá, enormes e delicadas, flores de cera e flores de carne, sensuaes e finas, como um beijo em que os labios mal se tocam, na pressa, mas em que as almas se confundem, n'uma vertigem. Em baixo continuava a descida rapida da colina, viam-se tectos angulosos de casas, faiscas que o sol levantava das janellas, linhas tortuosas de ruas, arvores de praças, o Rocio, como um lago de fogo a brilhar nas pedras claras, a Avenida n'uma chapada verde; vivamente um monte subia em apertadas casarias, alastrava-se por todos os lados a cidade, perdiam-se na perspectiva os telhados irregulares, até os montes violacios da Outra Banda, que se esbatiam no ceu claro, no ceu risonho e roseo da manhã de primavera. No rio embandeiravam-se navios ligeiros e airosos. Velas de faluas passavam, largas, pandas, como monstruosas gaivotas n'um vôo sereno. E do rio sahia uma grande alegria, como um fumo: fazia tremular as bandeiras, doirava mais o sol, percorria toda a cidade, extraía das ruas acordadas um ruido confuso, chiar de carros, pregões, coleras, risadas, que se misturavam, fundiam-se, e lá cima chegavam n'uma voz unica como um rumor de vaga.
--Vamos a vêr quem apanha mais! E a marqueza deixando a sombrinha, desceu por entre as maias, afagando-as com as mãos brancas.--Que lindas são! Como sorriem para mim... Tenho pena de cortal-as.
--Vê se caes... Eu dou-te o braço. E André alcançou-a.
--Não. Não. Vamos apanhal-as! Vamos a vêr quem apanha mais! Vamos a vêr!
Febrilmente, começaram a apanhal-as, a cortar grandes braçadas. Ás vezes as suas mãos encontravam-se, apertavam-as e riam-se.
--Não são maias... são os meus dedos.
E continuavam, já corados, a marqueza curvada, a cabeça d'um loiro quente quasi entre as maias.
--Estou cançada. Estou cançada!
--Que lindo quadro. Todo de flores! Espera, vou enfeitar-te. E André coroou-a de maias, toda a sua cabeça ficou florida. E a marqueza, risonha e córada, protestava a rir-se:
--Olha que me despenteias!
--Que importa? Que importa? Estás melhor assim... Agora este ramo para o peito... Mais estas... Um grande ramo... Como estás linda; oiro e lilaz! E o teu cabello é d'oiro. O papá vae ficar encantado quando te vir assim...
Subiram, ainda a rir-se. André deu-lhe o braço e foram, quasi a correr. Ao passar por um repuxo:
--Vamos molhar as flôres, ficam mais bonitas, como se tivesse acabado de cahir o rócio.
--Pois sim, pois sim.
O cristal dos repuxos altos cahiu sobre as grandes braçadas de maias.
--Vamos lá, vamos lá, que se faz tarde para o almoço!
No altar da Virgem estavam apenas largas rosas brancas, flôres d'um aroma subtil e angelico.
--Onde pôr as maias?
--No chão, junto ao altar. São as primicias da primavera oferecidas á Virgem.
--Pagão! censurou a marqueza.
--Não importa. Ficam bem. Aqui no chão, como um monte de estrellas, aos pés da Virgem:
Para que fosses mais formosa Deus deu-te a lua por chapins e as estrellas por caminho.
A sineta tocou para o almoço.
Rodearam a casa e entraram pela estufa, cheia de begonias e de cravos.
Emquanto André se vestia, o marquez perguntou se Violante se não admirava do seu procedimento.
--Ha quantos annos não fica elle em casa? Tresnoitado, entrando muitas vezes quando eu já rodo pelo jardim, escondendo-me d'elle, para fingir ignorar os desatinos, elle dormia e almoçava aqui, fóra d'horas, escondido da Felicia, que resmunga contra elle coisas terriveis, chama-lhe perdido, sustenta que está possesso...
--Uma paixoneta, que trata de curar... Disse-me tambem, que agora ia começar vida nova, talvez fosse para a Quinta dos Limoeiros, para se desaffeiçoar... Isto passa-lhe... Para a semana lá o teremos na mesma vida; theatros, actrizes, ceias...
--E se o pudesses reter em casa! Vê se o divertes... Fal-o sahir comtigo. Agora que vou a Paris podias conseguir que te acompanhasse a visitas, bailes, _soirées_... Já o quiz interessar com as estampas, mas perguntou-me se eu julgava que havia de passar os dias a vêr bonecos...
O almoço foi alegre. Violante e André fallaram no que era preciso fazer, nas passadeiras a pôr na egreja, nas cadeiras, na disposição dos bancos no adro, á sombra dos velhos pinheiros, até sob o arco dos limoeiros pôr cadeiras, que convidassem os flirts a recolherem-se na discreta arcada. André promptificou-se a tudo fazer; sahiu para o jardim, illuminado pelo sol, cantante nas aguas abundantes dos tanques e cascatas, misterioso nas sombras que o arvoredo formava, rico de côr, verdes diversos, vermelhos, azues, lilazes das flores, mosto fresco das olaias floridas; mas, sob a copa larga e tremente d'um choupo do Canadá, deitou-se e adormeceu profundamente.
O jardim antigo, desenhado por um artista italiano, não tinha as placas relvosas dos parques inglezes e o seu frio alinhamento. Cresciam por toda a parte altas e poderosas arvores, que apertavam a architectura renascença do palacio; por toda a parte cantavam em fontes, em cascatas, em repuxos, aguas claras.
Havia macissos de roseiras que cresciam livremente e se enrolavam aos marmores, aos soclos, iam florescer e perfumar nos collos brancos dos bustos, entre braços finos dos grupos mitologicos, rondas de estações, danças das Horas, cheias de movimento e de belleza. Escadas brancas de balaustradas ligavam as depressões de terreno; e por toda a parte uma grande alegria de flôres e de arvores viçosas, pinheiros, carvalhos, arbustos de folhas variados, jasmineiros trepadeiros, que sorriam, trementes, nos minusculos jasmins, entre a folhagem verde.
Por toda a parte uma exhuberancia de flores, que nasciam em canteiros, amores perfeitos de velludos quentes, pequeninos myosotis, quasi brancos no seu azul virginal; outras que subiam pelas arvores; estrelavam-se clematites, umas roxas, outras brancas, enroscavam-se aos troncos, iam florir na copa larga dos castanheiros. Em pequenas sebes de cana os craveiros inclinavam-se, cravos vermelhos d'um perfume que entontece, cravos brancos, mosqueados de violeta, cravos estranhos como nodoas nas epidermes.
Tudo sorria, tudo gritava, na confusão da manhã clara; estendia-se pelo ceu o sol, batia nos flocos de nuvens que se doiravam, extraindo de toda a terra uma alegria immensa, que subia no fumo, que cantava na viração leve arrastando-se pelas arvores altas, manifestava-se nas folhagens claras, envolvia tudo.
Em grandes placas floresciam as maias e, no inverno, violetas de Parma, d'um lilaz moribundo. Por toda a parte flores, estendendo-se pela terra, ou subindo e perfumando. E as aguas cantavam, cristallinas, corriam, iam beijar nos regos abertos folhas viridentes. Era a Quinta Alegre, o jardim magico. Nos ornatos das janellas e das portas, nos baixos relevos e nas pinturas das salas, reproduziam-se em linhas puras os motivos de volupia e de belleza. Até na capela havia uma exuberancia de vida. Viam-se figuras nuas, como nas Loggias do Vaticano. Os monstros não tinham, como nos ornamentos goticos, uma aparencia terrivel: eram elegantes, d'uma aparencia risonha e as retorcidas caudas terminavam, estilisadas, em caules de flores. A vida era triunfante nos collos sensuaes das mulheres, nos cachos de fructos, romãs abertas de que sahia um riso vermelho, laranjas doiradas, cepas que subiam espalhando-se em ramos com grossas uvas, como a de Corinto, figuras aladas, sensuaes, antes amôres contentes, do que anjos misticos e salvadores.
Havia uma volupia fina, uma delicada sensualidade cada um dos ornatos, como em cada um dos caminhos da Quinta Alegre. A mesma latada verde clara, em que se via a poeira dos cachos que cresciam, se reproduzia e multiplicava nos marmores das sallas e da capella; e os corpos alvos das ninfas, das graças, hamadriadas contentes, dos faunos lascivos levantavam-se e sorriam no marmore das estatuas.
Era alli que todo o anno viviam os marquezes de Runa, salvo um mez na Bretanha, setembro, em alguma praia tranquilla e ensolada, d'onde voltavam, apressados, logo aos primeiros frios, apenas uma pequena paragem em Paris, para as necessarias visitas da marqueza a Redfern, Paquin, e pequenas e especialissimas lojas d'outros fornecedores.
O marquez, Christiano Spinola d'Acciaioli, descendia de duas familias italianas, os marquezes Spinolas e os marquezes d'Acciaioli, que foram duques d'Athenas, de que vieram ramos para Portugal. No seculo XVII fôra um seu tio, Simão de Vasconcellos Acciaioli casar a Florença com a filha unica do marquez d'Acciaioli, para não acabar o nome. E d'ahi os dois ramos conservaram sempre relações intimas, visitas dos portuguezes e italianos, e mesmo o marquez passára parte da sua mocidade em Florença na casa senhorial de seus avós.
Novo, voltára a Portugal e amára com um tranquillo amôr sua primeira mulher D. Estevaninha Henriques, descendente do celebre conde D. Henrique Henriques.
Vira-a por uma manhã de sol a atravessar o pateo branco e calado do seu palacio de Sevilha. E a languidez do seu andar, o seu ar triste, n'aquella casa quasi morta--calado e morto é o tanque esbelto e branco e sobre os arcos apenas touristes passam, silenciosos--impressionavam. Os seus olhos habituaram-se a vêr nas praças, nas ruas ensombradas pelos toldos, a face branca, onde ardiam os grandes olhos pretos de D. Estevaninha, a risca sensual e fina dos labios vermelhos, como num traço de sangue, que a faziam mais pallida.
Conhecendo os duques de Medina, facil lhe foi ajustar o casamento.
Depois d'uma luzida boda, aberta de par em par a Puerta del Pardon da Catedral para a passagem dos convidados entre os quaes a infanta, que representava a Rainha, vieram para Lisboa esconder o seu amôr na Quinta Alegre, cheia de rumores d'aguas e de folhagens que gemiam e riam á passagem da brisa.
Mas aquella casa alegre, onde tudo era voluptuoso, d'uma volupia fina, em que todos se tinham habituado a amar a vida em todas as suas manifestações, parecera hostil ao sentimento hespanhol da doce Estevaninha, na nudez dos corpos, até no desabrochar das flores de marmore, que pareciam tentar.
Certamente, que junto de si, para a amparar e dirigir, estava sempre, rotundo e oleoso, o conego D. Benito, que com ella viera de Sevilha, e na capella risonha e branca constantemente ardiam lumes fumarentos de tochas; certamente, que as missas, as novenas, as trezenas, lausperennes--fôra difficilimo conseguir do Senhor Patriarcha um dia de lausperenne, cada mez, mas conseguira-o a protecção decidida da baronesa d'Angra--todas as festas e macerações da egreja se sucediam na capella clara; as confissões, as comunhões multiplicavam-se; um cilicio de crina fazia, ás sextas-feiras, gemer a branca noiva, mas tudo parecia falso, porque a capella tinha sempre o ar de rir e de tentar, nas volutas floridas dos seus capiteis, nas figuras nuas, que mostravam em cada ruga da pelle, em cada grão de marmore, um desejo impuro que era uma tentação e um escarneo.
E a marqueza não se sentia feliz. Preferia o seu viver austero na sua casa d'Andaluzia, entre paisagens asperas, crueza de sol pelos desolados campos onde as piteiras aguçam as pontas de suas folhas curvas, e as egrejas hespanholas, severas e sem luz; em vão lhe dizia D. Benito que um sátiro confessára Christo a S. Jeronymo, e lhe trouxera flôres para enfeitar o altar do verdadeiro Deus; debalde lhe assegurou o frade affeiçoado ás sombras quietas da quinta, aos tuneis de verdura, onde a pretexto de ler o breviario, nas tardes calmosas de verão, adormecia ecclesiasticamente, que as apparencias nada eram e que a verdade estava em Deus--D. Estevaninha redobrava de supplicios, os jejuns, as penitencias rudes que abalavam o delicado corpo magro e gracil, que palpitava na aproximação do marido, cheia d'angustioso terror e de volupia; e pouco a pouco se definhou, e pela noite fria do Natal, á hora em que na egreja, entre resplendores de cirios e uma chuva de flores, se festeja o Nascimento de Christo, morreu aos gritos, ao dar á luz André.
Para o marquez a morte de D. Estevaninha não foi um desastre dos que abrem no coração um vinco duradoiro.
Gostára d'aquella face triste e habituára-se ao ardôr receoso do corpo fino e doirado da andaluza; mas a casa fina, elegante e pagã, ia tomando aspectos sombrios. Na ante-camara, como nos corredores episcopaes, murmuravam grupos de padres. E atravessaram a Quinta fallando baixo, olhando para as areias dos caminhos, dizendo sempre palavras unctuosas, a querer vender o ceu. Monsenhores de cintas arroxeadas, bispos imponentes, a cruz d'oiro a brilhar no peito, camareiros de S. Santidade, frades que batiam as sandalias n'um ruido surdo, cruzavam-se nas escadas, junctos sahiam, sempre a mesma maneira hypocrita d'olhar as coisas, sempre os mesmos labios mentirosos e distilar frases decoradas. O marquez recolhera-se á bibliotheca onde dispunha a sua collecção de estampas, por que dia a dia se apaixonara mais. Vinham da Italia e da Allemanha e da França e da Inglaterra em rolos, em caixotes, que os agentes enviavam, ás dezenas. Reunira uma preciosa collecção de aguas-fortes de Rembrandt e as gravuras de Dürer; tinha desenhos de Vinci, de Raphael, esboços de Ticiano e de Ribera. Tudo o que fosse arte, desde o balbuciar dos primeiros «primitivos», até á exuberancia formidavel de Rubens, misterios de sombra de Rembrandt, torcionarias figuras de Ribera, suaves santas carnudas de Murillo, extranhas mascaras de angustia ou de grotesco de Goya, tudo o que fosse arte e não tivesse côr o seduzia, proves avant la lettre, exemplares rotos, em que se visse uma mancha bem posta, elle os guardava, catalogando, apenas se distrahindo em passeios pelo parque, grandes voltas, descendo até o extremo da quinta, onde repousava, vendo o multiplo esguicho que saía das duplas flautas de tres aulitridas, n'um gesto elegante de dança nas transparentes tunicas que tornavam mais attrahentes a nudez dos seus corpos.
Com a morte da marqueza, o palacio voltou a ser mais silencioso e mais claro. Parecia que na quinta as aves cantavam mais. Apenas D. Benito ficára, «por amor al niño de la señora marqueza», protestava, mas porque se afeiçoára ás sombras frescas, onde dormia.
André foi crescendo livremente entre os creados e D. Benito. Aos tres annos andava pela quinta, arrancando flôres, quebrando vasos, e interrompendo com gritarias e surpresas as prolongadas séstas do conego.
André foi crescendo livremente, em correrias doidas, traquinas e imprudentes, subindo ás arvores, despindo-se e atirando-se para as bacias de marmore, sempre perseguido pela miss loira e terna, que lhe ensinava inglez.
As feições da mãe reproduziam-se, graciosas, no filho. O pae via, com inquietação o mesmo fallar da mãe, os mesmos olhos tristes, a mesma boca fina, apenas, em André, mais exangue. Teve medo que a intellectualidade desequilibrada da devota tivesse continuado no filho a vida de pavores christãos, e ao conego e á miss recommendou que o deixassem livre, que o fizessem um animal forte e feliz, com poucas resas e pouca grammatica. Quiz que elle aprendesse a ter o Amôr da Vida, que aquelles pulmões respirassem sem medo e sem pecado as grandes rosas que desabrochavam lentamente, petala a petala nos caminhos da quinta. Que visse no canto das aguas um hymno d'alegria, no chilrear dos passaros e no balançar dos ramos uma festa da Natureza, que elle proprio tivesse a alma constantemente em festa.
Assim lhe foi ensinado o pensamento dos antigos. Disse-lhe a alegria imortal das fabulas gregas, os deuses que no vôo rapido desciam do recurvo Olympo e vinham á terra violar os corpos nubeis das filhas dos reis; a dança dos satyros e das faunezas nas clareiras das florestas quietas, as festas da lavoura, as procissões a Céres no tempo em que os trigaes amadurecem, a Dyonisos, quando os cachos são côr de rubim e de esmeralda.
Levou-o ás suas terras do Douro a vêr as vindimas, quando elle tinha sete annos. Pelos montes verdes, onde a vinha ri, rasteira, curvada ao peso dos cachos, bandos de trabalhadores curvados cortam, cantando, os cachos e levantam-se um pouco para os lançar nos cestos; de quando em quando a fileira move-se, forma-se em semi-circulo, desdobrando-se como um exercito n'um movimento largo, agrupam-se para debandar outra vez, com rythmo e graça. E as camisas brancas contrastam com os lenços vermelhos, e riem as faces trigueiras, ha uma grande alegria, cantam as boccas, e o mesmo movimento regular dos bustos que se levantam, dos braços que deitam, n'um movimento largo a uva nos balseiros escuros.
Depois das vindimas, os balseiros cheios despejam-se nas dornas, nos lagares. O vinho ferve, com um aroma forte. E os trabalhadores cantam, como no tempo da Hellada, glorificando a Terra e glorificando os Deuses.
Habituou-o a vêr coisas bellas, a reparar nas minucias das plantas, na finura dos sarmentos, na delicadeza dos coloridos das flôres, quiz que elle amasse as paisagens quietas. E com o pae, André ia contente; não lhe ensinava resas, nem o obrigava a saber lições.
O conego e a miss, por um momento accordados, esquecendo as rivalidades das Egrejas Catholica e Reformada, que os separavam e os traziam n'uma lucta constante, censuravam o marquez por aquella educação original, que seria muito bem cabida n'um gentio, mas não n'um cavalleiro portuguez. E o conego desolava-se:
--É para admirar que a alma da senhora marqueza não tenha ainda apparecido... Que se ella vivesse, isto era tamanha mortificação, que morreria de desgosto.
E miss Lucy, fazendo com a linda boca vermelha um gesto de desdem, terminava n'um tom cortante:
--Improper!
E André ia crescendo. Gostava da miss, porque era linda, tinha uns olhos verdes, côr do mar, e uma pelle fina, branca como as gardenias, e o cabello tão loiro, que André lhe perguntava se aquillo era oiro. Mas não gostava do conego, porque, em o apanhando nas correrias do costume pelo jardim, logo o prendia entre os joelhos e o fazia recitar, durante muito tempo tantos rosarios d'Avés, padrenossos, de credos, salve rainhas, actos de contricção que André chorava no fim. E D. Benito alegrava-se, dizia que era o Diabo que fugia do corpo del niño.
André não se aventurava já a puxar pela batina enodoada do conego, quando elle dormitava no jardim: limitava-se a gritar de longe, e quando D. Benito sobresaltado acordava e voltava para elle a face gorda, André corria a esconder-se no regaço virginal da miss, que se fingia severa:
--Aoh! Naughty boy! Very naughty boy. What did you do to D. Benito?
Mas ria-se das partidas d'André e beijava a face pallida, os olhos tristes.
De vez em quando apparecia a baroneza d'Angra a visitar o marquez. Mal a presentia, André ia esconder-se n'algum recanto misterioso do parque, atraz d'uma estatua, entre buxos altos. Não era que não achasse agradavel estar com a baroneza, pequenina e gentil, com uns lindos olhos frescos e em quem sentia, quando a beijava, um perfume doce; e mesmo os labios d'ella eram mais vermelhos ainda do que os da miss, que os tinha tão vermelhos e emanava d'elles tamanho ardor sensual, que a creança o sentia confusamente.
Mas, passadas as primeiras ternuras, a baroneza fazia-lhe um minucioso exame de doutrina, diante do marquez que enrugava a testa, descontente.
--Diga lá o menino os mandamentos!...
André dizia contrafeito e arrastado.
--E os artigos da fé?... E as virtudes cardeaes?... E os Novissimos do Homem?...
--Mundo... Diabo... Carne...
--Carne, não, interrompia o marquez. Osso! Não é verdade, prima?
André não comprehendia, mas gostava, porque a baroneza deixava-o logo e voltando-se para o marquez:
--O primo tem esta creança como um filho d'heretico. Já conheci um inglez, e era protestante, que ensinava o catecismo aos filhos! Mas o primo que tem papas na familia...
--Chegam para salvar o resto. Escusamos nós de pensar nisso, sorria.
--É pena ser seu filho. Tão lindo! Vê aquelles olhos tristes?...
--Gostava mais que fossem alegres!...
--Ora!... O primo não entende nada d'isto... Que lindos olhos!... Bem... Bem... Tenho de ir á novena.
Ao sair, sempre a mesma frase a proposito da escada onde figuras nuas se perseguiam, num lavor elegante e sobrio:
--O primo tem a casa cheia de indecencias! Acabo por não voltar cá!
André, porem, ia a fazer doze annos; não podia continuar entre o catecismo de D. Benito e o inglez doce da miss. O marquez mandou-o para o colégio. Mas á tarde, quando o conego o trouxe para casa, André abraçou-se ao pae a chorar e a pedir-lhe para não voltar ali.
A disciplina escolar, os olhos curiosos dos camaradas que o troçavam, o olhar duro dos mestres, o mau cheiro, a falta d'ar fizeram-lhe ter medo do colégio. E prometeu ao pae tudo, para não voltar.
--Até aprender as resas de D. Benito e as da tia Angra!
Com grande escandalo de D. Benito, o marquez anuiu.
--Escusas de aprender resas. Vou-te arranjar, quando a miss se fôr embora, uma mestra franceza e professores que virão a casa dar-te lições.
André ficou admirado. Então a miss ia-se embora? Porquê?
--Acaba o seu contracto...
André foi, a correr, perguntar á miss. Cheio d'angustia, com uma suplica na voz:
--Então vae deixar-me?
--Yes, yes, my little André... E afagou-lhe os cabelos.
André agarrou-se a miss Lucy a soluçar nervosamente. A miss acariciava-o, queria beijal-o, chorava tambem, comovida, lagrimas de prata que se prendiam nos compridos cilios d'oiro.
Fôra a miss, até então, a unica mulher de que André gostára. A ella fazia as suas confidencias, contava-lhe as proezas de brigas terriveis com os amigos, as diabruras feitas ao conego. E a miss tinha sempre um sorriso e um afago para a creança, nunca lhe ensinára orações, não o castigava por não saber a lição, falta que se repetia a miudo; apenas lhe dera uma biblia com gravuras recomendando-lhe a leitura--sem resultado.
Á noite contava-lhe lendas poeticas da Inglaterra, castelãs brancas e tristes, almas de mortos que vagueiam e a voz dorida dos pagens soluçando d'amor...
Muitas vezes, quando era mais mocinho, fôra a miss, no inverno, aconchegar-lhe a roupa no pequenino leito. Ao adormecer, a sensação branda das mãos delgadas de Lucy na sua face. E cantava como uma musica, a voz que dizia, ao fechar mansamente a porta:
--Good night, my little André.
Mas a miss partiu em lagrimas dolorosas. André foi acompanhal-a ao vapor com o velho «footman». Já ia longe o navio e ainda André acenava, os olhos molhados, o soluço a contrair a garganta; a miss tambem agitava o lenço, chorando...
Tempo depois apareceu em casa, de manhã cedo, quando André andava a regar os seus canteiros, a professora franceza que chegára de Paris. O seu andar era ligeiro e miudo como o dum passaro e evolavam-se d'ella uma gracilidade suave, desde os cabellos palidos até a curva rapida da cinta delgada. Tinha nos pequenos olhos cinzentos uma malicia e um riso. André, que se voltára, ficou boquiaberto. Certamente que a miss era linda como uma santa e doces as suas mãos e a tia Angra tinha os labios vermelhos e um perfume delicioso; mas nunca vira creatura assim airosa, alta e delgada, que balançava o seu corpo quando andava, como se fosse uma flôr, como um bloco de gracilidade a deslocar-se.
Ao saber, porém, que era a mestra franceza, não a quiz vêr mais; nem a cumprimentou. Estava persuadido de que era culpada da partida da miss e guardava-lhe no peito, antes de a conhecer, um grande rancor. Fugiu, a correr, para o fundo da quinta e ali ficou a chorar com saudades da miss.
Ao almoço André foi repreendido. Ficou calado, os olhos baixos sem explicar o procedimento. O marquez disse-lhe que ia ter outros mestres, pois não podia ficar a saber apenas o latim, as vagas e erroneas noções de coisas que lhe dera D. Benito e as poeticas baladas de miss Lucy.