Part 4
Referiu-me com terror os mezes angustiosos que passou a querer esconder o seu «peccado», como ella dizia. Eram sobresaltos continuos. Não o queria confessar a ninguem, não queria confidentes. Mesmo na quaresma fingiu-se doente e não foi á desobriga. Até do padre tinha medo, não fosse elle dizel-o ao pae. Este não via nada, absorvido sempre, ensimesmado, como quem tinha dentro de si imagens sufficientes para não recorrer ao mundo exterior. Vivia do passado, enlisado na noite vermelha em que matára os amantes que se beijavam.
Uma noite, no quarto escuro, onde não se atreveu a acender um candieiro, o filho nasceu entre estertores, ralos que Marcia mordia, para não despertar ninguem, para que ninguem suspeitasse do seu segredo. E n'essa noite, emquanto as dores do parto lhe rasgavam todas as fibras, estorciam todos os nervos e punham-lhe nos olhos a figura da morte horrivel, outras imagens se levantavam, nitidas, deante d'ella: o pae com a foice, os amantes que se abraçavam, e as cabeças decepadas a rolar no chão, com esguichos de sangue. O quarto era todo vermelho, outra vez, apezar da noite escura. E Marcia rasgava com os dentes os lençoes, mordia os travesseiros, e o linho tinha um gosto a sangue dos proprios labios, mas dos _outros_, pensava.
O filho nasceu, n'um vagido. Marcia beijou-o, para o calar. Apezar de se sentir desmaiar, pegou n'elle amorosamente e embalou-o. Mas outro gemido saiu da massa informe. Parecia-lhe que era estridente, enchia todo o quarto, acordaria, talvez, a villa, como os sinos quando tocam, anciosos, a rebate.
As suas mãos magras apertaram a garganta do pequenino ser. Nem um ai. O filho devia estar morto. Levantou-se, a cambalear. As pernas dobravam-se. Com o pequeno n'um braço, de rastos, os olhos cheios de sangue da allucinação, rojou-se pelo quarto, abriu a porta, desceu as escadas ás arrecuas, saiu á rua.
Era uma noite clara, sem lua. As estrellas formigavam no ceu. A via latea, no azul escuro e transparente, era uma poeira de mica. As arvores faziam pastas de sombra na paisagem. Uma fonte doloridamente se lamentava, n'um tanque de pedra. Lembrava-se de todos os promenores. Na abegoaria mugiu uma vacca. E o cão veiu apressado e contente lamber-lhe as mãos. Ninguem sentira. Mas Marcia pensava ouvir passadas no estalido seco das folhas murchas que caíam e na brisa pelas ramadas, o mexer de vestes de pessoas a perseguil-a.
Em cada canto mais denso de sombra, via olhos a espreital-a. E, em camisa, quiz correr, sem forças. De onde em onde, sentava-se, forçada, porque as pernas não podiam mais. Ouvia gritar a morta. E as suas unhas cravavam-se desvairadamente na garganta do innocente. Chegou ao fundo da quinta, um terreno de trigo já ceifado. Verão seco, a terra chistosa era dura.
--Foi com as minhas mãos que cavei a terra. Como era dura! Parecia que eram pedras que eu partia com as mãos. E ellas encheram-se de sangue. E eu, no meio d'aquelle trabalho feroz, ainda ouvia o innocentinho gritar. E apertava-lhe mais a garganta. E voltava a cavar, queria cavar fundo, para que não dessem com o corpinho quando lavrassem a terra para semear de novo. E não havia maneira! Não tinha força nem coragem para ir procurar uma enxada, um ferro, qualquer coisa com que podesse abrir a terra tão dura, que me fazia doer tanto as mãos. Sentia que rasgava os dedos. E tinha medo de que amanhecesse. Olhava para o Ceu, a vêr se já despontava a claridade. E parecia-me sempre vêr o ceu mais claro, ás vezes até pensava que havia sol de meio dia. E voltava a cavar, os olhos fechados, com raiva, sem saber bem o que fazia!»
Conseguiu fazer uma cova. Grande? Pequena? Não sabia dizel-o. Deitou terra por cima do cadaver ensanguentado, calcou-o com raiva, e então poude correr, por entre as arvores, a bater nos galhos e nos troncos, a rasgar a camisa e as carnes, até casa. Ia amanhecendo. Um traço alaranjado corria na nascente. Metteu-se na cama e dormiu.
Calou-se. Estendeu-se nas pedras, de borco, a olhar fixamente para o mar. Era já noite. As estrellas palpitavam no céu transparente. O mar enchera-se de sombra. Os barcos tinham recolhido já. Ouvia-se apenas o quebrar das vagas na Bocca do Inferno.
Marcia levantou-se e estendeu-me a mão, supplicante:
--Dá-me um tostão para aguardente?!
* * * * *
O CEGO
A ALBERTO D'OLIVEIRA.
O CEGO
O Pintor, que vivera intensamente na luminosa communhão das coisas bellas, no culto da Fórma e da Côr, sorvendo a Belleza religiosamente, como se aprecia um vinho velho, de repente cegára.
E no tumulo do seu atelier de que haviam fugido os modelos, errava angustiado, querendo com a mão sentir a linha das figuras que o seu divino pincel traçara, nas manhãs claras, entre tapetes que amorteciam os passos e ás vezes a queda dos corpos dos divans acolhedores.
Sentava-se no mesmo escabello veneziano, marchetado, tendo diante de si, no cavallete, uma tela. E vagarosamente ia traçando linhas, julgando ainda desenhar figuras, compôr peitos firmes, contornar curvas musicaes de quadris, illuminar olhos abertos, cheios de sonho e de volupia.
Mas o pincel empastava tintas, inexperiente na mão do grande mestre, como na d'uma creança de peito.
Depois do inutil esforço, não podendo vêr, lançava ao chão, com raiva, a tela, e punha-se a passear, cambaleante, hesitante, como um ebrio, as mãos estendidas, como se da ponta dos dedos nascessem olhos, a guial-o.
E vivia apenas com um velho servo. O _atelier_ morria ao abandono. Para quê a molleza dos tapetes persas, os brilhos dos espelhos de Veneza, os marmores das estatuas e a radiosa formosura dos seus proprios quadros divinisando a Vida? Para quê? Se tudo adormeceu sob a cinza que se acumulára nos seus olhos d'antes d'um tamanho brilho, esses olhos leaes, sem ironia, cheios d'amor por tudo o que tivesse uma particula de Belleza?
Fôra um grande pintor afamado. Retratára as mais elegantes senhoras da côrte, em vestidos sumptuosos que mostravam, n'um decóte largo, o cóllo nu, como uma enorme flôr. E nos seus quadros punha tanta voluptuosidade que a marqueza de Bouro, devota e pudica, recusára com horror o retrato; apesar do pequeno decóte, da garganta alva pareciam nascer rubras florescencias de desejos.
E nunca mais pintou retratos. Ideou quadros em que a mulher e a vida eram divinisados. Fez bacchanaes, em que as sacerdotisas nuas agitam tirsos enramados, coroadas de flôres, numa loucura divina. Compôz uma scena das vindimas em que as mulheres comem as uvas, sob as latadas viçosas, das boccas dos amantes. Fez Leda e o cysne, em que, n'um lago transparente, as virgens descuidosas se banham. Um cysne apparece, airoso, vagaroso, o macio pescoço n'uma curva larga. E ellas querem apanhal-o á porfia.
E esses quadros d'uma athmosphera tão clara, d'um ceu tão luminoso, com carnaduras frescas, admiraveis seios que exhalavam, como uma flôr de tropico, um perfume estonteante, tinham-lhe dado a riqueza e a gloria.
A multidão apontava-o, nas ruas, com reverencia. As mulheres lançavam-lhe ternamente cobiçosos olhares. E o pintor gosava a vida, sem se prender, beijando as bôccas, aspirando o aroma das cabelleiras fartas, que caiam sobre as nucas, sobre as costas, como mantos finissimos.
Até que um dia cegou. Fechou a sua casa, como se tivesse partido para uma longa viagem, não querendo deixar vêr a ninguem o espectaculo turturante da sua angustia. E continuava a querer pintar, ainda o cerebro povoado pelas risonhas imagens, concupiscentes seios, rios translucidos, gemas coruscantes, dobras sensuaes de sedas, sobre o ambar da pelle das morenas, sobre a magnolia das epidermes branquissimas.
Um dia, soube-se. Vagamente correu na cidade que o pintor magnifico cegára. A curiosidade durou tres dias. Os possuidores dos quadros viram com prazer a sua valorisação. Os collegas secretamente exultaram pelo desapparecimento do rival vencedor... E tudo caiu, tudo esqueceu.
Uma apenas se lembrou d'elle. Carinhosa, amorosa, forçou a porta teimosamente fechada. E entregou-se ao cego.
Dias passaram cruzados de angustias e de intensos prazeres. Até que um dia o pintor lhe disse:
--Eu tinha que coroar de rosas--a minha mão inutil nem para isso serve--a tua cabeça. Devia ajoelhar diante de ti e dar-te todo o meu sangue, pois que te dei já todas as minhas lagrimas. Vieste accender uma aurora no crepusculo eterno da minha cegueira. Permittiste que eu revisse a Belleza da Fórma. Com os meus dedos pude sentir como é pura a curva do teu seio, a linha das tuas espaduas e lindos os teus dedos. Trouxeste-me o aroma da carne moça, como uma brisa benefica leva a um prisioneiro o cheiro do feno. Senti outra vez a musica deliciosa das palavras de amor. E no teu corpo pequeno e flexivel, o teu rosto deve ser como o luar d'um lirio sobre a sua haste...
Calou-se. Hesitou alguns momentos. Pareceu encher-se de coragem e continuou:
--Mas não posso vêr-te! Vivo comtigo, como n'uma somnolencia--um pouco de realidade e um pouco de sonho. Pode ser que os annos tenham feito brancos os teus cabellos compridos; que alguma doença má tenha esverdeado a tua pelle macia. Nas palavras que dizes, oiço ás vezes uma promessa, outras um retraimento. Não posso vêr nos teus olhos palpitar a tua alma. É como se todos os dias me apparecesses, ás escuras, com uma mascara na cara, um dominó a velar-te o corpo. Entrevistas em jardins frondosos, ás escuras. Tudo silencio, mesmo na minha alma. Chegaria até nós, lugubremente, o adormecimento da vida. E não serias inteiramente minha, apenas uma parte de ti me pertenceria, e a outra, uma promessa vaga. «Penso que nos encontraremos, dirias... Etheromana em busca de excitantes, romantica, caçando aventuras, feia sem remedio a esconder aleijões e a querer ouvir palavras que nunca ouviu, sou mais que tudo isso, acredita, e menos que uma illusão!» Que importariam as tuas palavras? No arroubamento dos beijos sentir-se-hia o travo do prazer incompleto. E beijo-te um pouco como se beija um phantasma. Se eu te podesse vêr, dir-te-ia que arrancasses a mascara, ou que te fosses para sempre. Quereria ver-te, ou realidade inteira, deliciosa na pureza da atmosphera, ou sonho puro, como sei sonhar. Não posso com a tortura do meio mysterio que a nevoa dos meus olhos cegos cria... Podesses ser toda minha, conseguisse eu deitar abaixo a mascara, vêr-te na gloria da tua formosura, mesmo na miseria de alguma incuravel doença, fixaria na tela, com estrellas fulgentes, com sucos magicos de flôres desconhecidas, essa radiosa Belleza, ou essa deformidade, que se illuminaria, subiria aos ceus, como S. Julião quando beijou a bocca gangrenada do leproso. Apparecesses tu! Mas não. Ficas na meia luz como um phantasma!
E o cego, em passadas incertas, as mãos estendidas, saiu do atelier, onde a unica nota de vida era o soluçar da amante.
* * * * *
A GLORIA
A CARLOS MALHEIRO DIAS.
A GLORIA
Qu'est-ce que ça fait que je sois une grande artiste, si je ne suis pas heureuse?
Anatole France--_Histoire Comique_.
Gonçalo Freire, o escriptor que um romance intenso tornára celebre, estava triste e desanimado no seu gabinete de trabalho.
Os candelabros Luiz XV brilhavam nas multiplas velas brancas, faziam saltar faiscas dos cobres doirados, das faianças onde corriam idilios em jardins frondosos. O seu _studio_ era sempre luminoso, quer de manhã, com as largas janellas abertas sobre o rio, quer de noite com as resplandecencias das luzes. Dizia que assim a imagem surgia mais precisa, mais clara, mais _latina_.
Gonçalo não gostava do nevoeiro que os escriptores do Norte deixam entre os seus periodos. Amava o sol e os ceus macios, o mar incendiado, as praias do Algarve d'areia doirada, os rios transparentes, onde, á tarde sómente, boia um fumo tenue.
Esse romance, «A Face do Homem» revelava esse amor da clareza e do equilibrio. Pondo de parte os intuitos sociaes que prevertiam a literatura moderna, ligára quadros d'uma emarcessivel belleza por um enredo forte, interessante e commovido.
Pessimista á feição de Nietzche, descrevera a miseria da face humana, depois de arrancada a mascara; puzera o homem diante de si, n'um espelho, e o homem sentira-se asqueroso. Mas, crendo no culto dionisico, esperava pela Arte cobrir a fealdade da vida. E, perto do homem, a mulher, florida pelo amor, representava o Sonho, a Illusão que cobre com um veo azul, a distancia, os montes escarpados.
O publico gostára. Seis edições successivas se tinham esgotado, entre aclamações, em dois mezes. Os jornaes tinham publicado o seu retrato com artigos encomiasticos, comparando-o a Camillo, pela riqueza e propriedade do vocabulario, a Eça pela ironia, a Fialho pelo vigor do descritivo, sendo superior a todos pelo interesse e pela suprema Belleza do seu ideal de latino.
Era um d'Annunzio com mais sinthese.
Todas as revistas e jornaes sollicitavam a preciosa colaboração; o _Suisso_ chamára-lhe plagiario e idiota, apontára-lhe seis erros de concordancia, descobrira que em Coimbra roubára versos a Anthero do Quental, n'um poemeto que correra impresso, _Sunt lacrimae rerum_, em que Gonçalo Freire acreditava no Inconsciente, segundo Hartman e na Vontade, segundo Schopenhauer.
Quasi todos os dias o editor lhe mandava molhos de cartas de admiradoras, umas apenas a dizer a palavra quente da sua admiração, outras pedindo autografos e uma ou outra marcando, misteriosa, uma entrevista, n'um _coupé_, em sitio escuso.
N'essa noite, ao entrar em casa depois d'uma _bridge party_, fora sentar-se, a querer trabalhar n'uma novella, de que esboçara já o plano. O creado levou-lhe a correspondencia que Gonçalo abriu, aborrecido. Uma carta d'um editor que lhe pedia um livro para lançar a sua livraria; uma actriz nova e elegante, que lhe lembrava a vaga promessa d'uma peça, duas amorosas a pedir-lhe entrevistas e um escriptor hespanhol que solicitava auctorisação para traduzir «A Face do Homem». A lapis azul, no summario do _Mercure de France_, chamavam-lhe a attenção para um longo artigo de Philéas Lebesgue, em que o critico entoava um hymno em seu louvôr, enaltecendo a harmoniosa belleza do romance, «mais subtil, como psychologia do que Bourget, mais moderno que Jean Lorrain, e tão puro de estylo como Anatole France». Recommendava-o a Herelle, como sendo a obra d'um Annunzio mais intenso.
Era a gloria, vinda do anonymo, não a celebridade feita pelos amigos.
Moço ainda, trinta annos, rico, representante d'uma casa antiquissima com o brazão registado muito antes de D. João III, parecia um d'aquelles principes que as fadas assistem no baptismo, dando-lhes todas as venturas.
Mas, triste, Gonçalo foi á janella e rasgou cada uma d'aquellas cartas, lançando ao vento os pedaços de papel, que baixavam, pareciam hesitar e sumiam-se no escuro.
Na noite sem lua pareciam nascer no espaço as luzes dos navios, que punham na agua um reflexo de estrella. Encostado ao parapeito, Gonçalo muito tempo olhou para a escuridão que enchia o rio. Um ou outro ruido de carro chegava até elle, sem o despertar; de quando em quando na rua, ao longe, brilhava por um instante um electrico, como um meteóro.
E Gonçalo poz-se a pensar no amor que dentro de si trazia, sem esperanças, um amôr que tivera uma demorada cristalisação. Essa mulher surgia, luminosa e florida, deante d'elle, no escuro. Via o seu corpo magro e esbelto, a florescencia clara do rosto um pouco duro, o olhar indiferente. Era sempre assim. E, ensimesmando-se, a figura aparecia-lhe, como uma obsessão, para acentuar o alheiamento, atormental-o mais.
Muitas vezes, quando compunha, largava a pena, porque a mulher vinha para defronte d'elle e não havia maneira de fechar-se no seu pensamento, continuar o periodo interrompido pela visita.
E punha-se a recordar de como nascera aquelle amôr. Vira-a muitas vezes nas festas, nas ruas, nos theatros, indiferentemente. Uma mulher elegante e nada mais, feita talvez pelas costureiras que dispõem de espartilhos, de faixas que apertam os quadris, de _bouffants_ que disfarçam chatezas de peito, de tecidos leves, que dão a aparencia de ligeireza aos corpos.
Não a conhecia. Nunca fôra forçoso conhecel-a e como não o interessava, não se aproximou. Era a Maria do Amparo. Quando ella passava pelo _Turf_, alguem dizia, ou o proprio Gonçalo:
--A Ampáro vae hoje bem.
--É uma mulher interessante.
--Veste-se bem, principalmente.
E tanto tempo a vêl-a, outras o chamaram, trouxe o seu coração envolvido em outros amores risonhos, quasi sem se prender. E a Maria do Amparo continuava a aparecer em toda a parte, elegante, um pouco preciosa, viva, um sorriso na boca fina que mordia para avivar o traço roseo dos labios.
Uma noite, em S. Carlos, n'uma visita a um camarote, Gonçalo encontrou-a. Amparo falou-lhe nos artigos que Gonçalo publicara n'um jornal, chronicas vivas sobre o Culto da Belleza, a belleza na cidade, nos monumentos, nos jardins e nas praças, belleza no lar cheio de flores, com moveis elegantes e comodos, belleza na mulher, artificialmente rectificada, por maquilhagens habeis e vestidos sabiamente confeccionados por mãos peritas. Attraiu-o a conversa. Amparo tocou com intelligencia e tacto nos pontos mais originaes, mostrou comprehender e sentir a Belleza, rodeou-o de frases amaveis, em que havia, ora no sentido, ora na entoação, alguma coisa de carinhoso, poz em campo toda a seducção de mulher elegante, chamando-o a si, lançando-lhe a perturbante luz dos seus olhos claros. A conversa, apesar de curta, um entreacto e o começo d'um acto, acabara n'um _flirt_.
Gonçalo procurou vêl-a. Esperou-a attento e ancioso no Chiado, frequentou as casas onde poderia encontral-a. E as tardes de recepções, os raouts, as sauteries, e mesmo as empertigadas recepções diplomaticas, eram leves _flirtations_, que o deixavam absorto, andando pelas ruas sem attender a nada, sorrindo-se ás vezes de alguma palavra dita por ella, de um gesto mais expontaneo.
Todos os elementos de seducção foram postos em pratica por Amparo. E na alma de Gonçalo começara a cristalisação; a rede ia-o apertando, avassalava-o a mulher deliciosa, como os antigos retiarios os seus adversarios nos circos romanos.
Gonçalo já não pensava em mais nada. Logo depois do almoço, em vez de sentar-se á meza, a trabalhar, ia para a rua sem destino, com a vaga esperança de a encontrar, de a vêr na carruagem. E em todas as festas se aborrecia até chegar a Amparo. No Gremio pedia todos os jornaes, sem poder lêr nenhum, porque se alheava, recordava os momentos felizes, idealisava impossiveis sonhos, uma fuga para algum paiz onde ninguem o conhecesse, e Amparo vivesse só para elle, esquecida do hediondo marido, de todas as caricias, de toda a vida interior. Se por acaso lhe passava pela mente a ideia justa de que Amparo nunca deixaria a vida mundana, a «consideração», a «situação», logo Gonçalo a sacudia por importuna, e enlevava-se no sonho.
Era uma vida feliz, apesar do pouco que ella dava--olhares, commovidas palavras, promessas n'um futuro remoto e impreciso, e, um ou outro beijo nas mãos que tinha macias, palidas, mãos entre sensuaes e misticas da Gioconda, sem a aristocracia das mãos de Velasquez ou Van Dick, sem a luxuria que rosea os dedos das figuras do pintor de Verona.
De repente, porém, começou a esquivar-se a Amparo. Houve palavras dubias, falou de consciencia e de dever; prometeu um amor eterno, mas ideal, sem pecado, um amor que lhes cubrisse a vida com uma gaze leve, como um zaimpho. E mais e mais se foi esquivando, emquanto em Gonçalo o amôr se tornava mais forte, enchia-lhe o peito de desespero, amachucava-lhe todas as energias e dava-lhe a sensação de ter, dentro de si a alma, como o chapeu alto d'um clown.
E diante da noite, rasgando as cartas d'amor das outras e as aclamações do publico, Gonçalo, a chorar, repetia a frase da heroina da _Histoire Comique_:
--Que importa que eu seja um grande artista, se não sou feliz?
* * * * *
A FESTA DE MAIO
A M. TEIXEIRA GOMES.
A FESTA DE MAIO
--Violante! Violante! gritou o marquez para o jardim.
André, no cimo da escada, d'onde ageitava ramos no entablamento, conseguiu desenroscar-se dos molhos de madre-silvas que o coroavam, o envolviam, e voltou-se. Ao ver o pae sorriu-se.
--Admira-se?
--A estas horas, já levantado, e em casa?
André abriu na bocca pallida um sorriso exangue; mesmo assim o sorriso brilhou nos olhos negros, fez viver toda aquella adolescencia, que parecia finar-se lentamente:
--Não me deitei.
--Ouves, Violante? Não se deitou!
A marqueza apareceu á porta, n'uma blusa clara, tremente nas rendas amarelladas, ainda aberto o guarda-sol lilaz, por onde se filtrava o sol, que extranhamente lhe coloria o cabello.
--Ó André! Que tolice!
--Prometti vir ajudar-te, e mesmo que não promettesse, no dia da tua festa, eu não deixaria de vir arranjar a capella. Não está linda? Digam...
--Lindissima.
A pequena capella, em estylo da Renascença italiana, branca nos seus marmores puros, sobria d'ornatos, sorria nos festões de madre-silva, nas grinaldas de rosas, nos vasos trabalhados de que escorriam glicinias roxas, nas peanhas onde santos olhavam, suaves, os grandes lyrios abertos, em toda a florida vegetação que manchava a nitidez do marmore pallido, correndo sobre os frisos, despenhando-se pelas janellas largas, envolvendo-se ás columnas, vindo morrer no lagedo claro do chão.
Toda aquella architectura, feminina, sensual,--até na figura do Baptista o esculptor puzera um quebranto--brilhava e vivia uma vida lasciva e fina, ornatos delicados, sem exhuberancias, curvas que lembravam a doçura calida de corpos nus, no tom ambarino do marmore velho.
André desceu. A marqueza trazia nas mãos, ainda molhadas da rega, um molho de grandes orchideas d'um azul doente, listrado de esverdinhadas veias como feridas a apodrecer.
--E estas orchideas, onde as hei de pôr?
--Aqui não! Para o mez de Maria, para a festa de maio, orchideas não. Ponha-as no gabinete do papá, junto das estampas de Goya... Aqui não!
--Tens razão, annuiu o marquez. Antes tragam maias...
--Vou eu buscal-as, lembraram André e a marqueza.
--Não.
--Não. Vou eu, Violante! insistiu André.
--Vamos ambos...
--Querem que eu tambem vá? offereceu sem enthusiasmo o marquez.
--Não. Deixe-se estar; vamos nós.
Ao sahir da capella, passando os pinheiros mansos, em circulo, como a formar um adro, descia uma escada balaustrada, n'uma curva larga, ladeada de roseiras. Depois dois caminhos direitos, onde branquejavam estatuas, cantavam repuxos esguios que no alto se abriam, como lirios de cristal perpetuamente a florir e a quebrar n'um ruido claro.
--Onde ha maias? perguntou André.
--Não sabes? É alli no fim, uma grande encosta, por baixo do tanque dos tristões... Não conheces a quinta!
--Como queres que a conheça? Não venho cá nunca!
--Hei de mostrar-te a quinta, agora... Has de gostar. Vaes-lhe tomar gosto. Olha, é aqui...
No fundo verde abriam-se, sorriam, na manhã clara, como pequenas estrellas, as maias d'oiro. Desde o caminho apertado entre fitas de marmores que as roseiras invadiam, marinhando pelas estatuas dos deuses e das graças, luziam maias.
A fonte despejava, pelas buzinas brancas de tres tristões, cujas caudas se enroscavam, fitas d'agua.