Flirts

Part 3

Chapter 33,947 wordsPublic domain

--Ás vezes não se levantava da cama em dias de chuva em que se tornava impossivel fazer a parada nas ruas, _troteuse_ á cata d'olhares: vestia uma camisa de noite de que cahiam _valenciennes_ e cobria a cabeça com pentes e travessas d'oiro com pedras finas, e as mãos floriam-se de toda a collecção d'anneis. Era oiro por toda a parte, sem fallar nos dentes em que se combinavam todos os metaes e todas as massas. Ouvi que se lhe podia dirigir o epigramma de Marcial: Não te rias porque só tens tres dentes e esses mesmos são de buxo.

--Conheces tão intimamente?

--Pela creada do quarto... Agora, saracoteia-se, esqueleto feito manequim, arrebanhando os rapasolas inexperientes para _flirts_--ó só _flirts_! não por virtude ou amor conjugal, mas porque a pitiriasis não permitte o desnudamento--_flirts_ que acabavam logo que um mais affoito fallasse em beijar a pelle perfumada.

--Schiu! Lá vem ella!

O conde olhou para a porta, por onde entrára, fina e flexivel como haste florida, a Gracinda Fortes. A bocca pequena, que o cosmetico fazia sangrar, abria-se n'um sorriso fresco, que mostrava os dentes brancos. E de todo esse corpo magro exhalava-se, como um perfume que entontece, um encanto perturbante.

E seguiu-a com os olhos, commovidamente, até que desappareceu, como um sonho...

* * * * *

A RAINHA DE SABÁ

A EUGENIO DE CASTRO

A RAINHA DE SABÁ

Balkis esperava. Entre as sumptuosidades do seu palacio de Mareb, a Rainha vivia, solitaria, escondida, só com a sua belleza.

Em vão os povos e os senhores, ouvindo fallar da immaculada formosura accorriam dos remotos reinos onde a sua lei governava, Sabá, Mareb e Yemen, e, defronte do palacio immenso e fechado, pediam para vêr a deslumbrante adolescente. Em vão os sacerdotes quizeram vêr os olhos puros. Ninguem o conseguiu.

Apenas uma velha ama a vira nua, quando menina. Era como um lirio o seu corpo.

Sete aposentos eram os da Rainha. E cada uma das sete portas uma chave d'oiro fechava. E no ultimo, a rainha vivia. Grandes espelhos de cobre mandavam-se uns aos outros, como écos, a imagem quasi divina. E Balkis, apenas vestida de joias, passava os dias na contemplação dos intactos esplendores da sua adolescencia.

Entravam pela janella que abria sobre o jardim fechado e callado, os pavões brancos e os pavões polichromos. Aquelles formavam, estendendo as caudas, pequenas luas macias; estes faziam fulgir constellações, doçuras de velludos, coruscantes gemmas. E Balkis era mais branca do que os pavões brancos, mais brilhavam as suas cinturas e manilhas pesadas do que as caudas scintillantes.

Nas noites escuras sahia ao jardim. Deixava cair entre as moitas de flôres, a cintura, as manilhas, os anneis e o diadema. Soltavam-se-lhe os cabellos d'oiro, que eram, no ar azul escuro, como um cometa pallido; e nua, como uma flôr graciosa, dirigia-se para o tanque de marmore onde adormecera a agua perfumada. Os seus pés, ao entrar no tanque, eram como um raio de lua...

Deitada no tanque, os braços abertos, as mãos á tona d'agua, como dois lótos brancos, Balkis espreitava o ceu onde se movia o doirado formigueiro d'astros. As estrellas vinham reproduzir-se na agua, como molhadas flôres d'oiro, em indecisos contornos; uma lhe brincava no seio, quasi á flôr d'agua. Era como uma joia a correr, com o movimento do corpo. Ás vezes, n'um gesto mais largo, a gemma cahia, para outra vez voltar, n'uma festa, a percorrer todo o corpo branco, que era, na agua escura, polvilhado de brilhos, como um nenuphar enorme, em que se agitassem grandes abelhas fulgentes.

Depois, quieta, ouvindo sómente, de quando em quando, o ruido ligeiro das flôres que tombavam, murchas, na areia discreta do jardim, os braços a appoiar a cabeça, como um diadema feito de duas hastes d'açucenas, a Rainha pensava.

E esperava...

Balkis esperava o noivo que havia de vir.

De todas as partes, chamados pela fama da sua belleza, dos seus thesouros ou dos seus exercitos, tinham acorrido os principes da Asia. Poetas uns, avaros outros, na maior parte guerreiros, todos vinham em cavalgadas surprehendentes, cobertos d'oiro e de joias. No seu throno altissimo d'oiro e prata, invisivel, mas a todos vendo, a Rainha ouvia as imagens aladas que fulgem e perfumam, a descripção dos poços profundos, abarrotados de barras d'oiro, de vasos de cobre, de moedas de todos os feitios, de pedrarias de todos os brilhos; diziam-lhe historias compridas de cruentas façanhas, batalhas mortiferas em que as flechas e as espadas, a bater contra os escudos, produziam chispas de incendio, contra os corpos, rios de sangue. Os guerreiros, com o desejo de augmentar os exercitos bellicosos, aprendiam uma eloquencia calorosa. Eram os que mais fallavam, regosijando-se com a recordação das chacinas. Mas a um signal da Rainha iam-se, despedidos, os poetas com as lagrimas nos olhos, as cabeças curvadas, como sobre o peso das mithras, os avaros e os guerreiros batendo com força, nos ladrilhos polichromos, as sandalias ligeiras.

E Balkis voltava para o recuado aposento do seu palacio populoso. Alli, só, admirava nos espelhos a gracilidade do seu corpo esbelto e firme. Deixava cahir sobre o corpo branco, como uma flôr inundada de sol, o cabello loiro.

Depois de admirar toda a sua belleza, Balkis dizia-se:

--Aquelle que eu amar possuir-me-ha intacta, como uma flôr que vive no meio d'uma floresta guardada pelos Medos. Ninguem lhe aspirou o perfume, ninguem viu a côr deslumbrante, ninguem a maculou. N'esta terra cheia de sol, em que as côres não brilham, ardem, e as cassoletas não perfumam, estonteiam, eu sou branca, o sol nunca me viu. Entre os muros dourados dos meus sete aposentos, a vida é quieta e facil!

Balkis esperava.

Os mezes passavam ligeiros. No jardim fechado, as rosas desabrochavam, perfumavam e morriam. Outras vinham com egual brilho e egual frescura, enormes rosas escarlates, como boccas em que os beijos deixam feridas, do desejo intenso. Balkis conservava, no seu corpo nubil, intactos, os esplendores d'uma adolescencia eterna. Untava-se com oleos, alisava com pentes d'oiro os seus cabellos d'oiro. Vestia-se apenas com joias, joia ella mesma. E nos seus olhos azues, largos e serenos, brilhava a mocidade.

Não a viam olhos humanos. Nenhum desejo maculou o seu corpo.

E quando Salomão, filho de David, que no seu palacio de Jerusalem tinha mais concubinas que de estrellas ha no ceu n'uma noite de lua, quando Salomão a veiu buscar, ella entregou-se-lhe, pura, radiosa e immaculada, como uma flôr crescida n'uma floresta insondavel, cujo perfume ninguem aspirou.

Virgens, guardae para o desconhecido Amado, o vosso corpo e a vossa alma, como, se é verdade a lenda arabe, para Salomão, filho de David, guardou Balkis, Rainha de Sabá!

* * * * *

CHIARA LILIAM

A VICENTE D'ARNOSO.

CHIARA LILIAM

Barcelona e o seu porto com incendiados espelhamentos de sol nas aguas que se agitam em pequenas ondas, aguas-fortes de mastros a distancia, toda a geometria do horizonte cinzento cortado pelos perfis dos vapores! Ha dorsos vermelhos de navios, nodoas negras das barcaças de carvão, até a florescencia d'um yacht que emerge entre a poeira negra da fumaraça, e os fardos, e as pipas, como uma delgada flôr de prata...

Para alem da cinta da docka, ao rez do mar, o ceu toma tons brancos que se esbatem e degradam na ascenção, accentuando-se na cupula um azul fino. E os vapores passam, pequeninos, carregados de vagas multidões para Barcelonete.

Para alem da formidavel estatua de Colombo, as Ramblas sacodem os ramos verdes dos platanos e o Tibidabo recorta-se, escalvado.

--É ámanhã o vapor para Mallorca, informam-me.

Volto para traz, deixando o ruido dos guindastes e das sereias, a bulha dos catraeiros e descarregadores, para entrar n'outro bulicio tão grande, o zumbido dos milhares de boccas que cruzam a Rambla, as campainhadas dos tranvias, a buzina dos automoveis, com gritos diversos, pragas, pregões, injurias guturaes dos catalães furiosos.

Sentira desejos de vêr Palma de Mallorca em que me fallára Teixeira Gomes, as suas egrejas caladas, os seus palacios antigos. Por elle sabia que a cidade conservára-se immovel, tipica, como no principio do seculo XIX. E a sua conversa luminosa e pittoresca acirrara-me o desejo de visitar uma terra que, na convulsa marcha do seculo industrial, immobilisára-se nos seus antigos sonhos de pedra.

Aborrecera-me já Barcelona, commercial, trabalhadora, respirando pelas mil boccas das suas chaminés; parecia que a alma da cidade andava triturada pelos poderosos engenhos das suas fabricas. Vira os seus theatros, os seus museus, Santa Maria de la Mar perdida entre o casario; mas em toda a parte o commercio abria ruas, estendia fazendas, crusavam-se os _camions_.

Ah! Salamanca parada e quieta, a morrer n'uma agonia d'oiro! As saudades que tive da paz das suas ruas bordadas de egrejas e de palacios, das cathedraes sumptuosas e desertas, das pequeninas parochias, onde se descobrem ainda, atravez dos vandalismos, curvas d'arcos romanicos, flores de capiteis graciosos; de Santo Esteban e o seu claustro que a hera invadiu, do balneario, antigo claustro de convento e do Monterrey maravilhoso, da Universidade quasi sem estudantes!

Aborrecia-me Barcelona, toda entre arvores, Barcelona e o soturno Monjuich com a lenda dos supplicios dos anarchistas.

Ainda um dia! Era preciso depois de jantar subir á _Gran Via_ e ir ao tumultuoso café ouvir a gritaria ensurdecedora, passear pelas Ramblas entre uma multidão compacta que espairece, vêr as caras angustiosas dos operarios, sempre na vespera d'uma revolta, e os pobres que nos perseguem pela esmola, e as raparigas sujas, enrugadas, que se offerecem, n'um chale rôto.

Ao entrar no «Paseo de la Aduana» para esperar um tranvia que me levasse ao Parque, vi passar n'uma carruagem, fresca, toda vestida de branco, como um ramo de goivos brancos, Chiara Liliam, a cantora italiana que mezes antes conhecera em Genebra, no Kursaal, e com quem passeára no Leman, pelas tardes quietas de agosto e pelas noites de luar, ouvindo-a cantar, não as operas transcendentes com que regalava os suissos e inglezes, mas ligeiras canções napolitanas, que tomavam na sua bocca uma voluptuosidade mais fina e adormeciam, envenenando-as, as nossas Almas.

Ah! Chiara Liliam! As tardes limpidas e serenas em que vimos a paisagem doce, fecunda, do cantão de Genebra, no vapor da carreira, alheiados das inglezas de Cook, de dentes monumentaes e _canotiers_ ridiculos! E as noites frias, em que deixavamos o Kursaal e os _petits chevaux_ e iamos, costeando o caes illuminado, n'um pequeno bote que o ruivo barqueiro conduzia serenamente, respirar a delicia do luar pastoso, que parecia ter em si um pouco da neve do Monte Branco!

Lord Carnehan, o seu amante, acompanhava-nos. A tristeza da sua face, de todo o seu corpo cançado! Parecia ter sentido, aquelle rapaz de trinta annos, todo o travo da vida, visto desfolhar-se, uma a uma, todas as illusões, as ambições murchar, como quem assistisse ao incendio de todos os seus haveres e dos proprios castellos no ar que a sua mente creára.

Nem alcoolico, nem etheromano, abominando a morfina e a cocaina, tomando uma leve taça de café, apenas, resignára-se na vida, «deixava-se morrer», dizia.

Andava com Chiara, porque era preciso ter uma amante, como uma _ecurie_, um palacio em Londres, um castello na Escocia e uma villa na Riviera, decorada por Burne Jones.

Chiara Liliam era a sua vontade. Ia para onde ella quizesse, para fazer alguma coisa e não ficar, no hall do Metropole Hotel, de olhos pasmados para os decotes largos das _ladies_, que liam jornaes.

Mas nenhum amor, nem mesmo sabia, talvez, se era macia a pelle da cantora. E assim viviam, ella feliz pela liberdade, risonha como um galho d'_eglantines_, elle, com uma razão de viver: acompanhar Chiara.

Chiara, que viu o meu cumprimento, mandou-me subir para o trem.

--Venha comigo ao parque... se não tem melhor...

--Ia justamente para lá aborrecer-me...

--Então venho a proposito...

Perguntei-lhe por lord Carnehan.

--Ó meu Deus! Lord Carnehan tornou-se para mim uma obsessão. Era como um vidro negro que me punham nos olhos para eu vêr a vida. Nada me parecia claro, luminoso, florido. Julgava olhar sempre para dentro d'um poço secco. Essa creatura estragou-me alguns mezes de existencia. A principio ainda eu ria, pelo movimento adquirido. Mais tarde, porém, o riso desappareceu. Sempre aquelle somnolento homem que só abria a bocca para perguntar pelas horas, como se tivesse pressa d'alguma coisa, elle que não fazia nada, ou para dizer alguma sentença, um aphorismo de Schopenhauer ou d'alguns dos fulminantes catholicos, á maneira hespanhola, sombrios, repulsivos. Comecei a olhar para o espelho, a vêr se sabia rir. Não sabia. Vinha uma careta ao contrahir a bocca; parecia-me de pedra os labios, ao querer abril-os n'um sorriso. Quiz mortifical-o, fazer com que, atraz de mim, os amorosos corressem; empreguei, ante os seus olhos pardos, o requinte do coquetismo; mostrei todo o artificio de mulher e de actriz. Nada. Sempre lord Carnehan indifferente, a cabeça sobre o peito, as mãos pendidas, a perguntar-me periodicamente:--Que horas são? De quando em quando, sem lhe dizer aonde ia, deixava-o todo o dia; ás vezes, aborrecida, nem ia á rua. Ficava no meu quarto, as lagrimas nos olhos, a vêr o movimento dos _bateaux-mouches_ a atravessar o Leman; os raros automoveis que passavam pela rua e alguns ranchos de forasteiros arregimentados pelas agencias. Arrastava-se o tempo; defronte de mim, o lago que á esquerda se curva, limpido, transparente. Na outra margem, o parque Jean Jacques, alinhado e limpo, como um desenho do concurso. E era alli, á direita, a arvore que dera sombra, na tarde criminosa, em que o anarchista matára a Imperatriz Isabel. Pensava no fim tragico que ali procurara, sob um pequeno platano viçoso, a alma aventureira e poetica, a dama de todas as viagens, que vira tantos ceus ensolados e tantos mares em procella... Quando voltava, de proposito despenteada, com muito rouge na face, a fingir córada, lord Carnehan levantava com esforço os olhos para mim e perguntava-me, na voz pausada, sem um estremecimento:

--Que horas são?

Eu era o relogio, para elle! N'essa terra fria, geometrica, regular no andamento como uma machina--a alma de Genebra é um relogio--eu não era nada mais do que um chronometro em que se tem confiança. Um dia, furiosa, comprei um relogio e offereci-lh'o. Imagina que acabou a historia? Não. Comecei a fazer-lhe scenas, a dizer-lhe improperios em calão dos bairros infimos de Londres--uma artista conhece tudo e o resto--phrases de marujo; elle ouvia, ouvia, e depois tirava o relogio da algibeira e dizia-me:

--Por força que este relogio atraza! Que horas são?

Quiz matal-o. Uma noite entrei no seu quarto. A lamparina envolvia tudo em penumbra. Até a dormir tinha o ar cançado. Levava uma mascara de cloroformio... Conhece o conto de Lorrain sobre as mascaras de Londres? foi n'elle que me inspirei... Ia para lh'a pôr na cara e acabar com elle. Tropecei n'uma cadeira. Carnehan acordou sem sobresalto. Olhou para mim:

--O quê? já manhã? Que horas são?

Não! Não era possivel! Pensei em atirar-me da janella abaixo. Não podia mais com a vida. O diabo é que estragava o penteado! Resolvi fugir. Fiz as malas, guardei joias e dinheiro, rompi a escriptura com o emprezario, perguntei por minha vez que horas eram a Carnehan--a cara que elle fez!--e metti-me n'um comboio e vim para a Hespanha, onde ha sol, ha muito sol e não quero nunca saber que horas são!»

A sua face parecia uma flôr de perola, e na bocca fortemente pintada um sorriso brilhou...

* * * * *

A MARCIA

A SILVA GRAÇA.

A MARCIA

Aquella velha encarquilhada e ignobil que encontrei na estrada de Cascaes, pelo crepusculo suave, tinha uma historia.

Estava bebeda. A bocca onde dois unicos dentes se mostravam, careados, no gargalhar, a bocca de beiços finos e roxos, sabendo a alcool e a podridão, tinha gritado dores, tinha tambem beijado.

Contou-me tudo, como n'um vomito. Caiu-lhe d'um jacto toda a sua historia e toda a sua alma; e pareceu-me que o crepusculo que fazia de perola o horizonte longiquo e trazia a calma á ligeira inquietação do Mar, se enchia de gangrenas, extravasava lodo, manchava o Ceu purissimo em que nem um farrapo de nuvem a esgarçar-se perturbava o estranho socego.

No mar azulado, pairavam, sem velas, as faluas da pesca. Ao longe esfumavam-se as montanhas que correm para o Espichel, mais acentuadas na poeira de cinza e de perola do horisonte. A baixo da estrada corre a fita d'oiro fosco do areal, que nas angras se alastra, para desapparecer nos cachopos violaceos. É toda debruada d'oiro a larga curva da Cidadella ao Hospital de Parede. As pequenas ondas, na tarde quieta, vinham franjar de renda branca a seda do areal.

Eu seguia do Estoril para Cascaes. Queria vêr ainda o mar, fixar em imagens subtis a palpitação dos ultimos brilhos solares na agua, conhecer como vivem e estremecem, sob a agua azul, as longas petalas de luz multicôr e fina em que desabrocha o poente; diluir toda a minha alma na Paz da tarde, que, por ser tamanha, dava a illusão de ser eterna. E a velha não me deixava! Ia atraz de mim a gargalhar, desfiando, por entre os labios resequidos, palavras desconexas, chamando-me a attenção.

O velho trapo! Na cabeça calva a cuia á banda era grotesca. E no movimento sacudido da embriaguez e do _delirium-tremens_, as vestes esgarçadas pareciam agitar bandeirolas, saia de farrapos, corpo de lona.

E não me deixava! Comigo cruzou a linha ferrea, parando para, as mãos abertas sobre os olhos, espreitar se vinha algum comboio.

Como sombra minha atravessou as ruellas de Cascaes, o passeio Maria Pia. Passámos a _villa_ Arnoso e a _villa_ O'Neill.

A noite caía do Ceu resignadamente. O mar escurecia.

Por certo que o ar fresco da tarde diminuira a embriaguez, porque as palavras formavam serie, embora as dissesse n'uma toada de cantilena.

Sentei-me nos rochedos da Boca do Inferno. Ouvia-se o confuso lamento do mar na cova onde se agachava uma sombra mais densa.

A velha não podia suster mais tempo a sua historia. Sentou-se ao pé de mim e contou-m'a. Ha pessoas que teem a alma pequena. As imagens intensas e poderosas não podem viver lá dentro. É preciso que as deitem para fóra. É por isso que os bebedos são em geral loquazes e indiscretos. A capacidade psychica conservando-se a mesma e engrandecendo-se as imagens pelo poder ampliatorio do vinho, elles fallam, confessam-se, vão sós pela rua a dizer os seus segredos; foi por isso que a velha me contou a historia, como a podia ter contado a um poste do telegrafo ou a um pedregulho da praia.

--Se me visse quando eu era nova! Ih! Ih! Não tinha esta cara, não, nem só estes dois dentes--e um d'elles já abala! Era bonita! Era loira. Tinha os olhos azues. Que elles agora, de chorar pelas desgraças e de chorar com o vinho, já não teem côr. Olhe para elles, não tenha medo!

Não tinham côr os olhos. Dentre as palpebras vermelhas e sem cilios eram deslavados e estupidos.

--E os meus cabellos louros e finos! Tenho só algumas mechas brancas, porque começaram a cair aos punhados d'uma doença que tive. E fiquei assim com a cabeça... E embranqueceram-se os que ficaram...

Tirou a cuia. Metia nojo essa bola em que luziam chagas. Raras mechas de cabello a enfeitavam. A velha tornou a rir-se, o mesmo ih! ih! contrafeito em que abria a bocca putrida.

--O meu corpo era lindo, delgado e forte. Os seios eram brancos e firmes. Olhe como ficaram!

Tirou, n'um sacão, da bluza encardida e rota, os seios murchos que bambolearam como dois figos a desprender-se d'um galho. E depois contou, atropellando as palavras, a querer acabar a historia, para se vêr livre d'ella, como se se esquecesse, m'a transmitisse, com o encargo da sua angustia, e podesse, sem esse pezo, caminhar mais ligeira, ferindo menos os pés descalços nas pedras das estradas e nas silvas dos atalhos.

O pae era um pequeno lavrador, que vivia feliz entre as suas vinhas e os seus milhos.

Um dia casou com a mãe, uma pobre rapariga da cidade, que cozia a dias. Louçã, fresca, de grandes olhos claros, gostava dos vestidos de seda, dos brincos d'oiro e das rendas. Depois do primeiro anno, tiveram Marcia, que poz no lar contente um ponto de luz. Em volta d'ella os carinhos adejaram. E as mãos habeis da mãe cançaram-se a arranjar-lhe touquinhas, camisinhas, pequenas coisas de linhos finos que iam á cidade comprar. Parecia uma filha de gente rica, tão garrida andava.

E linda, com o seu cabellito loiro e os olhos azues muito largos, sempre abertos como a querer aprehender toda a vida, todo o mundo.

Aos sete annos adoeceu gravemente. O medico ia duas e tres vezes a casa, cada dia. E á noite, depois de vêr a pequena, ficava ali, emquanto o pae somnoleava, a conversar com a mãe. O medico era novo, janota, tinha os bigodes pretos retorcidos e dizia versos. A mãe caiu-lhe nos braços, uma noite em que Marcia ficára livre de perigo.

--O que eu vi! Vocemecê não acredita, mas vejo ainda! É como se estivesse diante d'elles na minha caminha! Elles punham-se aos beijos e aos abraços, pensando que eu dormia. Eu não dizia nada, nem sabia o que era. O pae ficava fóra, a dormitar, na salla de meza. Uma noite elle entrou e apanhou-os abraçados. Voltou sem fazer bulha para dentro. Trouxe uma foice comsigo. E degolou-os ali, o medico primeiro, a mãesinha depois.

«Agarrou-o pelo cabello e foi como quem monda herva, só d'uma vez. E atirou para o chão a cabeça, de que escorria sangue. A mãe nem pôde gritar. Nem eu, que sentia um peso aqui, na garganta. Tambem degolou a mãe e atirou para o chão com a cabeça. A mãe custou mais. Foi aos sacões que a acabou. Depois poz as cabeças e os corpos fóra a pontapés. A pontapés! E então? Parecia doido! E o quarto parecia-me todo vermelho, e meu pae, e eu mesma sentia o sangue escorregar-me pelas mãos. E queria limpal-as e não podia. Parecia que tinha as mãos atadas e sangue na bocca! Depois, meu pae, que pensava que eu dormia, veiu lavar a casa, muito devagar, para não fazer bulha. Depois chamou os creados. Então todos choraram. Mas meu pae não chorou. Veiu para o pé de mim e passou toda a noite a vêr ao candieiro se tinha sangue nas mãos. Chegava-se muito á luz para vêr as unhas. Depois lavava as mãos e sentava-se, punha-se a olhar muito para ellas, a esfregal-as, e ia laval-as mais!

A velha calou-se por momentos. Depois proseguiu:

--É tal e qual! Vejo como se fosse vocemecê! As barbas do pae, que eram pretas, pareciam encarnadas. E tudo, tudo estava tingido de encarnado!

«O pae foi preso, mas d'ahi a mezes saiu livre.»

Olhou para mim, e com terror:

--Parece que podia matar!

«Fiquei em casa com a mulher que me servira d'ama e melhorei. Antes Deus me tivesse matado, que não tinha soffrido tanto! Lembro-me de tudo! De tudo! É por isso que bebo. Quando bebo muito, parece-me que os casos se deram com outros; parecem coisas que me contaram. E bebo muito, bebo sempre, mas nada me esquece, senão quando cáio na estrada a dormir!»

E voltou á historia dolorosa da sua vida, sempre apressada, a querer acabal-a quanto antes.

Ficára com o pae, sombrio sempre, que lhe dizia palavras severas d'uma moral cruel e sanguinaria. Foi crescendo sem alegria na casa de crime e de amor. Um dia alguem a possuiu tambem. Sentiu os beijos que são vermelhos como o sangue e como sangue embriagam, nas boccas amorosas. Sentiu os abraços que apertam como uma cadeia de flores venenosas. Não me disse o nome do amante, não me deu uma unica indicação. Tratava-o por «alguem», sem odio.

Um dia sentiu que uma vida estranha se agitava dentro d'ella; confusa e alarmada, disse-o ao amante.

--«Nunca mais appareceu. Escrevia-lhe, mas as minhas cartas ficavam sem resposta. Até que soube que «alguem» tinha abalado da terra.»