Part 2
MIGUEL (_a mesma coisa_)--Pelo amor de Deus!...
(_Maria afasta-se, voltando ainda a cabeça para sorrir-lhes_).
MIGUEL (a _principio, parece hesitar, por fim decide-se_)--Afinal, o que quer de mim, ao certo?
JOANNA--Eu?
MIGUEL--Sim. O que quer de mim?
JOANNA--Não comprehendo...
MIGUEL--É bem facil!...
JOANNA--Quer chamar-me estupida? Ha de concordar que é pouco amavel!...
MIGUEL--Não desvie a conversa. Sabe que mesmo que o pensasse não lh'o diria...
JOANNA--Então pensa-o?
MIGUEL--Não o penso; sabe isso muito bem.
JOANNA--Uff! Respiro... Não poderia entrar na Academia, se fizesse tal conceito da minha intelectualidade... Não é assim que se diz, nos meios _très dernier bateau_?
MIGUEL--Oh! por mim!...
JOANNA--É o seu ambiente, o meio cosmopolita; é inseparavel dos diplomatas, delicia-se no Tyrol e em Roma...
MIGUEL--Quer outra vez mudar a conversa. Não é verdade?
JOANNA--Confesso-lhe que sim... Não percebo o que quer!...
MIGUEL--Repito-lhe: é facil. O que quer de mim?
JOANNA--Olhe: dê-me d'ali a minha sombrinha... N'este momento é a unica coisa que quero de si.
(_Miguel traz-lhe a sombrinha vermelha, que ella abre. A luz parece incendiar-lhe o chapeu branco, e toda a face branca_).
MIGUEL--Fallemos a serio, um pouco...
JOANNA--Já me viu brincar? Na minha edade!...
MIGUEL--Fishing for compliments?
JOANNA--Será, se quizer... Oiço-lh'os tão poucas vezes!
MIGUEL--Queria passar a vida, como um d'esses pagens antigos, sentado a seus pés a cantar-lhe endeixas. Mas o seu sorriso paralisa, na minha bocca, o amor que vae a sair.
JOANNA--É o que o Cerqueira chamava uma phrase tesa!
MIGUEL--Porque troça de mim? Porque faz de mim seu joguete? Eu andava feliz e livre, sem mulher alguma que me preocupasse. Nunca andei tão alegre. Vivia a minha vida, livremente. Todas as mulheres bonitas me pareciam eguaes. Joanna começou a chamar-me, a dizer-me phrases que me prendiam, que me entonteciam. Tinha olhares para mim tão cheios de promessas, que corri como um esfomeado, diante d'uma mão que se lhe estende, carregada de vitualhas. E junto de si senti-me perturbado. Foram para mim as palavras mais carinhosas, aquellas que tinham um sentido ambiguo, banal para os estranhos, para mim precioso e comovido. Parecia um flirt terno. Subitamente, tudo mudou. Parece escolher tudo o que possa desagradar para dizer-me. É o flirt agressivo, em que d'uma das partes não ha amor, ou o quer esconder. E a conversa é toda feita de botes de florete, que muitas vezes arranham e podem até matar o amor.
JOANNA--Tout passe, tout casse, tout lasse... Porque não ha de ser assim o Amôr?...
MIGUEL--Mas deixe-o acabar por si, como uma flôr n'um jardim deserto, que se desfolha aos poucos...
JOANNA--Para apodrecer?...
MIGUEL--Ó não, não apodrece. Evapora-se como uma essencia e deixa um perfume suave--uma recordação...
JOANNA--Outra phrase tesa. Está terrivel!
MIGUEL--Faça-me a justiça de pensar que não a li...
JOANNA--Não. Ouviu-a em alguma peça... Você diz-me que não lê nada...
MIGUEL--Leio o _Seculo_, todas as manhãs.
JOANNA--Não acredito...
MIGUEL--Palavra! Por causa das cotações da bolsa. Tenho uns dinheiros nos fundos russos... Mas não sobem... Ando infeliz em tudo: no jogo e nos amores.
JOANNA--Nos amores? Diz isso a mim? Você é muito ingrato, Miguel!
MIGUEL--Continua a brincar comigo!
JOANNA--Agora é occasião de eu tambem fallar a serio. E faço-lhe a mesma pergunta que me fez ha pouco:--O que quer de mim?
MIGUEL--(_não atina com a resposta_) Eu?
JOANNA--Sim. O que quer? Tem um flirt comigo... É o meu preferido...
MIGUEL--Diga antes favorito, como se tratasse d'um cavallo de corridas.
JOANNA--É o meu favorito, seja. Gosta de mim? Muito. É o que ia a dizer, com alguma rétorica. Não gosto eu de si? Não me ponho pelos cantos a fallar comsigo, a sós? Não estou aqui a apanhar sol, só por sua causa, para poder estar comsigo, em liberdade, sem ter ninguem que nos oiça? Não vou á Avenida todas as tardes para o vêr? Não olho para si sempre no theatro? Não lhe digo os dias em que vou _shopping_ pelo Chiado? Para quê? Para estarmos juntos! Então que quer? Quer casar comigo? Mas sou casada e felizmente não ha o divorcio entre nós.
MIGUEL (_tristemente_)--Felizmente?
JOANNA--Sim! Felizmente. Primeiro, é contra a religião; depois, escusa a gente de se arrepender varias vezes de ter casado. Assim arrepende-se uma só. Não pode casar commigo. Então o que quer?
(_Miguel olha-a estupefacto. Não encontra resposta. A expressão de Joanna é equivoca. Miguel não sabe se falla ingenuamente, se quer mystifical-o. Cala-se_).
JOANNA--Então bem vê que não tem razão para se queixar de mim!
MIGUEL (_Tem o ar de quem apanhou de surpresa uma grande pancada. Olha para Joanna, para si, para os outros. Pensa que o desfrutam. Acodem-lhe á boca frases energicas. Levanta-se, ageita o fraque e despede-se_).--Muito boa tarde!
* * * * *
ROMANTICO
AO CONDE DE ARNOSO
ROMANTICO
--Ajude-me a servir o chá, primo...
Levantou-se. Na quasi obscuridade da sala, que tinha uma luz violacea--coada pelos vitraes onde se curvam lirios roxos--Clara parecia nascer dos tapetes, como uma graciosa e alta flôr de espuma. «Toilette» branca e ligeira, como pennas de ave, toda em musselinas, apenas indicando a elegancia do seu corpo fino, ia morrer no tapete branco...
Ia por entre os moveis, offerecendo as chavenas onde fumegava o chá perfumado, que da China trazem lentas caravanas, por tortuosos caminhos. O seu corpo agil descrevia carinhosas curvas. O ruido das conversas continuava... Um «flirt» a um canto murmurava, como se as palavras ficassem nos labios. Paulo, de grupo em grupo, uma chavena na mão, contente por ser alguma coisa, junto d'ella, tinha na bôcca um sorriso beato.
N'aquella tarde nem conversava. Entravam e saiam as visitas, umas apressadas,--«apenas para saber de ti, Clara»--outras morosas, dando «rendez-vous» no salão elegante e discreto, onde na meia luz quasi se não conheciam as pessoas, podia-se estar sem ser visto. E Paulo, calado, n'um fauteuil a um canto, sorria para si proprio, olhando a figura indecisa de Clara, os cabellos loiros, na sala como enevoada onde apenas o fogão, por baixo do para-feu, tinha um brilho vermelho.
Lembrava-se de todo o comprido caminho percorrido desde aquella noite em Cascaes, em que o impressionara a graciosidade de Clara, o seu aspecto de flôr fresca, sempre em «toilettes» leves, abundantes em gazas, crepons tenues. Certamente que, companheiro e parente, admirára sempre a belleza da prima, mas seguira outros caminhos, nunca reparára bem para o enigma perturbante dos olhos verdes, para a elegancia moderna, feita de graça, a gentil figurinha de Boldini, princeza de cera e de seda, cujas mãos eram dignas de vêr florir entre os dedos os anneis mais preciosos que Vever e Lalique inventam, em combinações de moribundas gemas. Nunca olhára bem para ella com olhos de vêr. Habituára-se desde a puberdade a vêl-a. E seus cubiçosos olhares procuravam outras mais distantes, que julgava conhecer menos, pelo encanto do imprevisto.
Mas essa noite! Como lhe apparecia ainda, depois de tantos mezes, nitidamente, essa noite d'um ceu leitoso, com uma lua enevoada, que se espalhava sobre o mar, sem brilho. Na varanda do Casino, quasi deserta, os Auers incidiam fortemente sobre Clara. No mar, em baixo, fogachos prateados tremiam. E além, as raras luzes da Cidadella; na Esplanada os focos esverdeados tiravam da sombra manchas de palmeiras e listravam de luz a agua inquieta, gemebunda e misteriosa.
Paulo, recostado n'uma cadeira, olhava a mancha mais negra do yacht real, apagado, apezar das suas lanternas que tremeluziam no mar. O charuto caíra-lhe da boca. Foi uma frase preciosa de Clara que o acordou:
--Quem me dirá um dia a cantilena do mar? Como ella embala! Como seria bom dormir a ouvir junto de nós a suave cantilena!
Paulo olhou para ella surprehendido. Pois quê? Clara, a ultima florescencia dos _raouts_ e dos _teas_, teria phrases de heroina de Rosseti, seria leitora de Ruskin? Foi então que reparou nos olhos cheios de sonhos e de misterio, na bocca dolorosa, a vermelha e fina bocca, no seu collo de infanta apenas nubil, em toda a adolescencia que se conservava intacta no corpo precioso, como um fructo no gelo.
Começou então a seguil-a. Dura lhe foi a vida em theatros, jantares e bailes. Não faltava a uma _sauterie_, a uma _party_, que d'antes o deixavam indifferente, ficando nas interminaveis partidas de _bluff_. A dolorosa expressão que na bocca se vincára n'aquella noite do Casino desapparecera; um grande contentamento da vida parecia boiar á flor dos olhos garços e os movimentos rythmicos, que ella fazia, como se fosse ao som d'uma musica, eram livres, felizes, sem promessas.
Não voltar o abandono d'aquella noite! Paulo desejava que Clara outra vez abrisse a sua alma, para elle sentir a caricia deliciosa.
Mas a mulher amada conservava-se indifferente, risonha, um pouco _coquette_.
Para os seus madrigaes escolhidos, preparados com antecedencia, buscados em livros de auctores novos, phrases perturbantes de Lorrain, perfumados disticos de Henri de Regnier, licenciosas palavras de Lionel des Rieux, com um sabor antigo, até o proprio d'Annunzio servira para a pilhagem,--para todos esses periodos carinhosos ella tinha o mesmo riso, que abria a bocca fina, descórada, que o traço de carmim violentaria a macerada pallidez da sua face:
--Ah! Paulo! Ah! Paulo! Apaixonado por mim! Tenho-lhe conhecido tantas paixões? Só na semana passada, tres!
--Se não penso senão em si!
--Quando está commigo? Nem isso!
--Clara! Clara! Se me conhecesse bem, veria como a minha alma se fez para si um fresco bordão de assucenas...
E outro riso claro cantava na bocca exangue, a troçar da phrase pretenciosa.
Uma tarde, n'um _garden party_, emquanto no _court_ de _tennis_ as palavras inglezas crusavam-se e os jogadores corriam, a _raquette_ no ar, elles um pouco afastados, juntos a um macisso de jasmineiros que floria, cobrindo-se d'uma renda fina e branca de pequeninos jasmins, Paulo, esquecendo-se das phrases decoradas nos romances, deixou sair da bocca, livremente, toda a força e toda a anciedade do amor que parecia abrir-lhe uma chaga no peito, teve palavras em que fulgiam desejos, os olhos brilhavam, enternecidos, agarrou-lhe nas mãos, encheu de beijos as palmas roseas, puxou-a para si, e pôde dar-lhe, de surpresa, um grande beijo na bocca, soffrego, que Clara não pôde evitar.
Voltada a si do pasmo, espantada pelo insolito atrevimento que a sua ligeira _coquetterie_ não permitira, quiz zangar-se; mas voltou a rir-se, como se esse beijo, que lhe deixara na boca um calor de chama, tivesse sido apenas uma phrase, das grandes phrases de Annunzio, tão cheias de volupia que entontecem, como os largos calices das magnolias n'um pequeno jardim fechado. E sempre a sentir na bocca a impressão ardente d'esse beijo, Clara correu para o _tennis_, a querer jogar tambem para esquecer-se.
Era d'esse beijo que Paulo vivia, tomado de assalto, como n'uma pilhagem de egreja.
E, apesar de Clara continuar a ser indifferente e risonha para elle, lembrava-se da perturbação que levára á alma ligeira da preciosa bonequinha de Nuremberg; olhos abertos, continuava a sonhar que esmagava os labios exangues sobre a pressão da sua bocca ávida.
Paulo era um romantico. Paulo vivia de pouco, como as aves do ceu.
* * * * *
A BISANTINA
A LUIZ FERREIRA DE CASTRO
A Bisantina
No café, diante do _cocktail_ vulgar, eu esperava um amigo. Fôra mais cedo para a entrevista, de maneira que antes da hora lêra os jornaes, folheára as revistas, olhára para o relogio, consultára até o barometro, interessado. Iam saindo os clientes, aos poucos. Conforme se levantavam das mezas, o criado, n'um _crac_ apagava a lampada electrica. Eu ficára já, n'um canto, quasi na meia luz. No fundo da sala as lampadas faiscavam nos espelhos, telintavam os pratos, as discussões cruzavam-se.
Esperava em vão... Comecei a ceiar.
D'ahi a pouco um rapaz veiu sentar-se ao pé de mim. Conhecia-o de o vêr nos cafés nocturnos, quasi sempre em companhia de mulheres faceis, estardalhando, contando façanhas de orgias nas _vadrouilles_ de Montmartre; de quando em quando, como n'uma expansão, falava de um quadro que entrevira n'um museu, alguma luminosa festa da Renascença, um nú veneziano, ou preciosas figurinhas dos primitivos, simples e mal desenhadas, entre brocados de oiro.
Mas nunca me ligára, correndo a minha vida n'outra direcção. N'essa noite, admirei-me de elle deixar a bulhenta sociedade que _sabrait le champagne_, para se acolher ao silencio, á quasi obscuridade.
A principio bebeu a pequenos goles o Bucellas que mandou buscar. Tinha o ar de quem hesita em praticar um acto, o recolhimento subito d'um gesto esboçado, ensimesmava-se, enchia novamente o copo, lia attentamente o rotulo da garrafa.
Por fim debruçou-se para a minha meza:
--O senhor gosta de coisas exoticas, das mulheres finamente perversas, do brilho das podridões...
--Ó, não! Apenas do _faisandé_!...
--É uma questão de palavras... Tudo o que é ambiguo, perturbante, insexual, tenta-o; compraz-se no esmiuçamento das taras, é o chronista do irregular, do _à coté_. Prefere as monstruosas orchideas ás rosas, o enigma dos Vincis, á belleza forte dos Rubens. Deixa-me contar-lhe uma historia?
Por certo que a minha phisionomia traiu o receio da maçada eminente. Toda a gente imagina que a sua vida é um «motivo» interessante para um livro. E eu tenho deixado cair, como folhas secas, tantos casos que me contam, compridamente, com meandros de detalhes!
--O senhor tem o dever de me ouvir e não se arrependerá! O senhor é um psicologo...
--Não faço profissão...
--Não importa. Tem obrigação.
--N'esse caso...
Resignei-me.
O noctambulo começou a contar. Tinha a linguagem pittoresca, imageada, parecia comprazer-se com a sua phrase. Notei-lhe grande copia de estrangeirismos. Mas o caso pareceu-me interessante. Aqui o deixo registado.
--Comprehende que eu, _fetard_ cançado, que tenho visto museus entre duas ceias no Maxim ou no Carlton, que aprecio mais o _tea-room_ do Grand Hotel, de Roma, que o _Salon Carré_ do Louvre ou a sala de Velasquez, no Prado, só lhe poderei fallar da mulher ou do amor. E das mulheres que tenho conhecido, um pouco por todo o mundo, d'aquellas que teem ficado com um pouco da minha mocidade entre os dentes brancos ou os dedos esguios, só me recordo da ultima, que é a melhor e a peior, a que faz rir e soluçar, curva-nos n'uma somnolencia em que nos apparece muito mais bella do que é realmente, cingida com todas as joias com que a nossa phantasia a enfeita, mais cruel tambem, porque o amor torna mais cruciante as dores, intensifica o desespero, cria a halucinação da Magua, inventa a Chiméra da turtura, essa Chimera de afiadas garras que nos retalham... Estou muito eloquente. Faça-me signal, quando lhe parecer Cicero...
Imagine que conheci, n'uma pequena cidade italiana onde me fôra curar d'uma paixoneta recente, uma creatura singular, cujo encanto me prendeu quasi de subito. Era uma figura de bisantina, atavismo talvez, influencia das pinturas de Ravenna, onde passára a mocidade. E, artista, cultivava essa feição, arranjava penteados hieraticos, sem complicadas e rutilantes gemas, que o cofre do pae, mediscatro qualquer, não era abundante, mas com flores, essas rosas vermelhas de Pæstum, que ella propria cultivava, amorosamente, no pequeno jardim de sua casa. O que tinha de bisantina realmente, era a bocca fresca, a bocca innocente que sorria apenas, n'uma candura de primeira commungante, uma bocca que deixava em nós a impressão de que era um seraphim a sorrir. E não apetecia beijal-a: apenas quedar-se a gente deante d'ella á espera que nascesse a claridade auroral do sorriso, em que mostrava levemente o traço branco dos pequeninos dentes. Mas os olhos escuros desmentiam toda a infantilidade da bocca, o aspecto angelical do seu corpo magro d'adolescente, o collo branco e purissimo. Os olhos brilhavam como n'um assalto, a ferir, sem ternura, no fundo uma repulsão ou um escarneo...
Essa mulher tentou-me. Largos mezes fui todos os dias á sua casa onde me recebeu com palavras dulcissimas. Estendia-me a mão deliciosa para beijar, dizia-me frases que entonteciam como um vinho aspero, fazia passar por mim o perfume forte que punha nos longos cabellos, que ás vezes caíam pesadamente da cabeça, estendiam-se pelas costas, como uma rosa que se desfolha, d'uma vez, da haste. Ás vezes furtivamente, apertava-me a mão com força. E sorria-se ingenuamente a face de perola, eu via a innocencia de toda aquella figura, porque ella fechava os olhos, como se todo o seu ser adormecesse n'um espasmo.
Ao sair, tinha remorsos de não ter beijado a bocca fresquissima, de não ter, sob a pressão dos meus labios, maguado os olhos maus.
E toda a noite soluçava, enraivecido a desejal-a, até que de tarde ia visital-a, encontrava-a estendida, n'uma atitude de imperatriz, bisantina, em sedas _moirées_, toda a gama do verde e do lilaz, a garganta descoberta. E n'um gesto estudado, estendia-me a mão, que eu beijava longamente, essa mão em que as gemas não brilhavam: escuras, opacas, pedras finas, opalas, como gottas de agua d'um lago envenenado.
E a scena repetia-se. Eram perturbadores oaristos, que deixavam os nervos tensos e vibrantes. Na voz amortecida e doce, dizia as palavras magicas que accendem fogachos. E quando ella via toda a minha Alma arremessada para ella, tinha o fechar de olhos, abria o sorriso celeste, e eu fugia com medo de mim e com medo d'ella. Como? Uma creança ingenua! Era preciso fugir!
Um dia tive que partir.
Tinha, na pequena cidade, perdido largos mezes. Fui a uma ultima entrevista, chorei como uma creança ao dizer-lhe a magua immensa de a deixar. Contei-lhe toda a tortura d'aquelle tempo de infinita delicia e infinita tortura; pela primeira vez disse-lhe claramente, entre lagrimas tristes, quanto amára todo o seu ser, todo o seu corpo flexivel, todo o seu espirito cançado, mas mesmo assim brilhante. Que me dissesse uma palavra de esperança, que me deixasse levar uma harmonia divina, uma palavra de amor!
Teve uma frase, apenas, com uma expressão de immenso sentimento:
--E não trouxe um fonografo!
* * * * *
MÁ-LINGUA
A JOSÉ LEITE NOGUEIRA PINTO
MÁ-LINGUA
N'aquella mesa de _bluff_, era feroz a _debinage_... Apenas o Barros, que ganhava com uma _veine_ espantosa, sorria beatificamente, cheio de indulgencia, e para as arrojadas arremettidas dos parceiros, tinha sempre a mesma phrase:
--Mais caridade, meus senhores...
Eram sempre occasiões em que o Leite mostrava «quatro cartas» ou «street flesh.»
O baile, na sala proxima, corria animado. As valsas, o pas-de-quatre e as quadrilhas martelladas ao piano, tinham concorrencia. E uma ou outra que fugia do calôr, para as salas de jogo, era apanhada na passagem, amarfanhada, esmiuçavam-lhe a chronica, apimentada de notas ineditas, calumnias talvez.
--A Gracinda Fortes!
O conde de Marvilla teve um sobresalto. Voltou-se para trás. A Gracinda vinha com um vestido de tonkin cinzento que mostrava toda a graça fragil do seu corpo magro. O conde commentou, eriçando mais o bigode loiro, cortado á ingleza:
--Um cabide para vestidos!...
--Mais caridade!...
--Ah, já sei: tem pelo menos um flesh na mão... Passo!
Depois, olhando ainda a figura esbelta que sahia...
--Mas ella não é uma mulher--é uma boneca de Nuremberg!... Vejam o andar articulado, mechanico... Tudo aquillo se mexe por molas! E aquella cabeça d'arara a dar a dar, como se estivesse presa ás espaduas por um parafuso lasso? E depois, meus amigos, ella é toda postiça... O cabello loiro pertenceu já a tres cabeças... É uma mulher feita de collaboração por um cabelleireiro, um droguista e uma costureira. Tudo aquillo é sustentado por baleias e faixas, senão desabava, de lasso... Imaginam que o marido está arruinado por causa dos vestidos? Não: pelos cosmeticos... Á quantidade de drogas que anda por aquella pelle é inconcebivel. Já repararam em como se não decóta nunca, completamente, que o collo é sempre coberto por uma gaze ou uma renda? É que a pelle, estragada por uma pitiriasis qualquer, esfarella-se. Todas as manhãs a creada de quarto tira-lhe kilos de farellos da cama. E já não pode com o serviço de maquilhagem--tapar buracos, concertar rugas, pés-de-gallinha, disfarçar sardas e signaes de variola--manda chamar um trolha...
--Seu amante?
--Talvez... Para a rebocar. Para que ande, é preciso dar-lhe corda. Anda sempre da mesma maneira, ás continencias, cabeça para cima e para baixo, como um d'esses bonecos movidos por relojoarias. Imagina que aquillo é o andar rythmico das parisienses, esse andar leve e airoso como o d'um passaro... É parisiense, é: tambem são parisienses as macacas que nascem no _Jardin des Plantes_... Ainda por cima, velha. Não tem frescura nem mesmo nos olhos parados, conçados do espelho. A pelle despega-se da carne e na cara faz papeiras em feitio de bambinellas. E toda aquella pintura, ás chapadas, faz sombras, augmenta-lhe as papeiras...
--Tens-lhe odio!...
--Não, tenho olhos. Não é preciso mais. Por causa d'ella lá me fez você um _bluff_ sem eu dar por isso...--Conheço-a muito. Veiu da provincia e por ahi andou a mostrar ao Chiado e á Avenida as suas _toilettes_, como um manequim de loja de modas em furor de reclame. Ninguem a recebia, senão as casas em delirio de festas, onde a ida d'um conde, dos feitos ultimamente ás canastradas, enche de jubilo os amaveis donos da casa, como se diz nos jornaes. Mas a sua ambição era do podre-de-chic, e não podendo suppôr-se com sangue azul--a mercearia do pae, ainda lá está a falsificar--imaginava-se com o chá das cinco horas nas veias... Um chá requentado como o espirito d'ella, estudado em velhos almanachs.
Emquanto não entrou na sociedade, vestia-se seis vezes ao dia, e nos intervallos injuriava o idiota do marido, essa bola de cebo com suissas brancas, que, atolambado, não lhe respondia que não tinha culpa de não convidarem uma amostra de cocotte do Maxim para casas de familias honestas. E era uma vida dura, atroz, n'aquella casa, ella de mau humôr, acre, dizendo horrores na voz impertinente, sem inflexões, monocorda, e elle angustiado, sempre em calculos diabolicos para saldar as contas monstruosas que lhe mandava o Goodefroy, dos cosmeticos e _postiches_ com que se engalanava a mulher.
A vida n'aquella casa! Vocês não calculam a expressão dura, injuriosa, que se estampava n'aquella cara agora risonha, quando recolhia, á tarde, cançada de fazer a Avenida, quasi sem um chapeu a comprimental-a, sem meios para ter uma carruagem, olhando, gulosa, as pessoas chics que passavam, sorrindo ás saudações. E na mesa de jantar, silenciosa, apenas se ouvia o tilintar dos talheres e uma ou outra phrase grosseira ao Fortes, que abanava a cabeça, todo elle se agachava, no receio, talvez, d'um prato ou d'um copo arremessado na furia.
Depois das refeições, separavam-se, elle para a rua tomar ar, fugindo da perigosa visinhança, ella a arrastar-se nos quartos, a enfeitar-se de joias, punha-as todas, enchia as mãos d'anneis, rodeava a garganta magra com todos os collares, enchia os braços de pulseiras quasi até o cotovello e via-se ao espelho estudando sorrisos, gestos de comprimento para os grandes bailes a que havia de ser convidada um dia.
--Para fallar d'esse modo é preciso ter sido _éconduit_...
O conde córou, encolheu os hombros: