Flirts

Part 10

Chapter 101,248 wordsPublic domain

Davis fugia, mas forneceu-lhe a ocasião d'ella se lhe dirigir, entabolaram relações, elle mais dobrou a sua alma, melancolicamente, falara-lhe de amôres purissimos, que vicejam nas almas candidas, como desbotadas flores nas planicies geladas da Noruega.

Falou-lhe n'uma especie de amor duplo, um amôr platonico por uma, em que a alma vae em primeira cumungante, e o desejo se dirige para outra.

E, diante d'ella, passeou pelas alamedas da Villa des Fleurs com Blanche Lely, e, ostensivamente, durante alguns dias recolheu de manhã, a hora em que lady Hanswell costumava sair para o banho.

A tristeza voltou á face branca da ingleza. Durante o jantar olhava para a porta constantemente, a cada movimento do _paravent_ estremecia, lançava nos olhares para mim curiosas innterrogações que a minha face muda deixava sem resposta. Voltou a chorar depois das ducha e das massagens, como antigamente pelo defunto marido, e, de manhã, quando se encontrava com sir Arnold o seu olhar tinha caricias, parecia que lhe lambia a face linda.

Foi ella que o levou, fremente, na ancia de não perder a presa, já no carro a cerral-o entre os braços, para as Gorges du Sierroz, onde, depois do almoço, no gabinete do restaurante rustico, os beijos arderam e ella poude morder a boca em sangue de sir Arnold.

Quanto custaram á consolada viuva esses beijos?

N'esse momento, sir Arnold Davis passou, levando pelo braço a franzina Carlota Von Hameghen, que lhe encostava a cabeça ao hombro olhando para elle n'uma suplica, que o sorriso dos labios finos apoiava fortemente.

* * * * *

FUMO

A LUIZ O'NEIL.

FUMO

Para fugir da exotica humanidade que enchia as salas do Kursaal de Genebra, saimos, apezar da noite fria, para o amplo terraço sobre o Léman tranquillo.

Eu levára Roberto ali para mostrar-lhe Chiara, a dançarina italiana, que nas suas danças bisantinas me surpreendera e comovera no Alhambra de Londres.

Era a Volupia feita luz e feita dança. N'um _maillot_ de seda, parecia nua. Uma cintura de oiro, marchetada de largas pedras brilhantes segurava-lhe os seios firmes. Grossas manilhas mordiam os braços finos e os tornozellos. Um diadema apertava a massa luminosa dos seus cabellos loiros. E, na face branca, eram d'um brilho de gema os olhos azues, quasi violeta-de-Parma. A musica que a acompanhava tinha um envenenado langor. Chiara deslisava, mal pousando os pés nús sobre o tapete de Smyrna. E do brilho das joias, como da florescencia musical dos gestos, brotavam lascivias, ardiam desejos, que faziam correr fremitos por toda a sala incendiada por lampadas poderosas.

Aquella dança sabia, apenas ritmada pelas vozes das flautas e das liras que tocadoras de flauta e tocadoras de lira, vestidas á grega, no palco tocavam! Uma ou outra vez um pé nú fazia vibrar o bronze dos crotalos. Era como um grito de vitória, um beijo mordido n'uma boca sedenta. Chiara tomava então uma atitude de entrega, todo o seu corpo flexivel e delgado parecia tombar, como uma haste fragil que cede ao explendor de uma enorme rosa vermelha, e verga e sucumbe.

A grande flôr d'oiro e luz, em que as abelhas das joias picavam e pareciam morder, fixas nas lhamas dos engastes! Como a vejo ainda nitidamente, ramo d'oiro e de rosas, fazendo nascer desejos cintillantes, chuveiros d'elles, rapidos, fulgentes, descendo como estrellas d'oiro, como os bocados de astros que voam no ar escuro, nas noites quietas d'agosto!

E preso á tentação de vêr a dançarina, deixei Aix e as duchas, _Villa des Fleurs_ e o seu rebanho de cocottes e, com Roberto, á pressa envergados os smokings, fomos para o Kursaal. Mas no salão, um aviso e um certificado medico diziam a doença de Chiara. Um grande desanimo abateu-me as espaduas. Como passar uma noite na cidade alinhada e mecanica como um relogio? Em todo o Kursaal, nem um rosto interessante. Ranchos do Cook, das segundas classes, lyonezas rotundas e vermelhas, suissas frescas, que parecem esculpidas em manteiga e em cujas faces contentes os olhos são parados e azues... Caixeiros de Lyon, aproveitando comboios a preços reduzidos, apertavam-se em volta das compridas mezas dos _petits chevaux_. Dois americanos silenciosos chupavam por palhinhas os violentos cocktails.

Fugimos.

Na noite escura, o lago era azul escuro. Os focos electricos dos caes punham na agua fitas brancas, que dançavam e se quebravam contra as ondas. Pareciam pestanejar as pequenas lanternas vermelhas dos _bateaux-mouches_. Tudo parecia dormir. Uma brisa ligeira trazia até junto de nós o silencio da cidade. Apenas do Kursaal as luzes coavam-se pelas ramadas e, amortecidas, as walsas que acompanhavam mimambos e acrobatas.

Um de nós disse:

--Talvez fosse melhor não ter visto Chiara. Um com a recordação, de que viu, outro com a imaginação, teem uma imagem mais bella, por incompleta, e em parte mentirosa, da dançarina e do seu bailado. A melhor maneira de gosar é criar imagens, viver dentro de nós, alheio ao mundo. Recordando, vive-se na imprecisão, sem as arestas. Tudo mergulha num nevoeiro, que, deformando a real aparencia, nimba de misterio; desejando, ilumina-se mais. Viver deve ser recordar e desejar.

--Pode-se viver recordando e desejando apenas, no momento presente; mas para recordar é necessario ter vivido, para desejar é preciso conhecer. O desejo ilimitado põe a angustia na alma. É mister alguma coisa de definido a desejar.

--Quando chegamos á nossa edade, já vivemos tudo. Conhecemos o efemero feminino. Andámos com o coração por todos os amores, por todas as angustias. Provámos todos os _crús_, atravessámos mares, dormimos sob todos os ceus. Podemos recordar. E, como conhecemos tudo, podemos escolher e desejar.

--A vida do homem é, como a de toda a natureza, um continuo movimento, fluxo e refluxo permanentes.

--Então é preciso agir?

--É fatal.

--S. Simeão Stylita gastou anos sobre uma coluna, a orar. Vinham de desencontradas partes os crentes á espera de milagres. Esposas estereis tocavam no plinto, certas de que tempo depois amamentariam o filho desejado; os leprosos, os cegos, os atacados do «mal divino», arrastavam-se pelos desertos queimados, até á coluna onde o santo resava... E elle, indiferente, como indiferente era aos soes asperos, ás ventanias e ás chuvas, continuava a orar. Viveu dentro de si. A vida deve ser toda interior.

--A vida do espirito é toda interior, como a vida digestiva. Precisamos do mundo exterior para d'elle apreendermos as imagens e os alimentos.

--_Ter comido_, é melhor que _comer_. _Ter gosado_ é melhor que _gosar_. O momento da posse é doloroso e vão. É melhor recordar.

--Recordar implica esquecer. E quando das imagens não ficar senão uma mancha, como preencher a vida?

--Desejando.

--Mas a faculdade de desejar desapparece com os annos. O velho dos Goncourt, quando no restaurante lhe perguntam:--O que deseja? responde:--Desejava ter um desejo. Viver é agir. Colher todas flores e todos os espinhos, violar todos os cimos, mergulhar em todos os lodos, sentir intensamente, pensar todas as doutrinas, apreender do Universo tudo o que fôr possivel, ver tudo, ouvir tudo! Viver é entrar na harmonia do Mundo! É ser como o eucalipto, subir para o sol, triunfalmente, lançar ramadas por todos os lados, espalhar avidas raizes egoistas e crueis!

--Viver é recordar e desejar. A vida deve ser feita por nós, como a composição d'um quadro é arranjada por um pintor. Não devemos ser o espelho de mostrador que refléte toda a rua, mas a psiché do _boudoir_ d'uma mulher elegante que só refléte atitudes graciosas, sedas, rendas, brilhos de pedrarias...

--Viver...

Despejava-se o Kursaal. Apagaram-se as lampadas. Fomos para a estação esperar o expresso de Paris.

FIM

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