Flirts

Part 1

Chapter 13,623 wordsPublic domain

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*Notas de transcrição:*

O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1905.

Foi mantida a grafia usada na edição original de 1905, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a leitura do texto, e que por isso não foram assinalados.

HENRIQUE DE VASCONCELLOS

FLIRTS

(CONTOS)

LISBOA Ferreira & Oliveira, Lda.--Editores _132, Rua Aurea, 138_

1905

FLIRTS

HENRIQUE DE VASCONCELLOS

FLIRTS

LISBOA Ferreira & Oliveira, Lda.--Editores _132, Rua do Ouro, 138_

1905

DE HENRIQUE DE VASCONCELLOS

_PRIMEIRAS POESIAS, EM QUATRO VOLUMES:_

FLORES CINZENTAS (exgotado) OS ESOTERICOS (exgotado) A HARPA DE VANADIO AMÔR PERFEITO (exgotado)

_PROSA:_

A MENTIRA VITAL, um volume. CONTOS NOVOS, um volume.

L'art et la science sont independants. La morale ne doit avoir aucune prise sur eux; jamais l'artiste, avant de faire une statue, jamais le philosophe avant de faire une loi, ne doivent se demander si cette statue sera utile aux m½urs, si cette loi portera les hommes à la vertu. L'artiste n'a pour but que de produire le beau, le savant n'a pour but que de trouver le vrai. Les changer en predicateurs, c'est les detruire. Il n'y a plus de science ni art dès que l'art et la science devienent des instruments de pedagogie et de gouvernement.

H. TAINE.

* * * * *

A ESCOLA DE FLIRT

AO CONDE DE FIGUEIRÓ

A ESCOLA DE FLIRT

O PROFESSOR.--Sem edade, 25 ou 40, tudo lhe convém. Uma mocidade que envelheceu, ou mocidade que dura _quand même_, «je meurs où je m'attache». Toda a pelle do rosto é sulcada por imperceptiveis rugas finissimas; a boca tem um sorriso de cético, mas os olhos ainda brilham. Parece ter conhecido tudo ou advinhado tudo. Se se olha para a boca, sente-se que conheceu, para os olhos, pensa-se que adivinhou.

Elegante, uma ponta de preciosismo,--muito pouco!--apenas presentida na maneira como olha para as mãos deliciosamente cuidadas, como as d'uma senhora, viajou por toda a parte, indo mais ás festas mundanas do que aos museus, leu mais jornaes do que livros.

A DISCIPULA.--Uma ingenuidade, que quer conhecer tudo, ignorando tudo. Vestida um pouco _à la diable_, seria positivamente _fagotée_ sem a elegancia do corpo fino e leve e o brilho e o riso dos olhos e dos labios côr de rosa.

A discipula vae procurar o professor da Escola de Flirt, discretamente annunciada por meio de circulares em papel lilaz com dois corações em chamas estilisados à maneira moderna. É n'um minusculo jardim seculo XVIII portuguez, com um delgado repuxo a partir-se n'um pequeno tanque sem lavores e canteiros bordados por buxeiros. No centro d'um, uma anagua forma uma copa verde-clara de onde pendem as campanulas brancas que perfumam.

O PROFESSOR--É v. ex.ª que...

A DISCIPULA--Sim, senhor... Venho aqui tomar algumas lições. Fiz a minha educação no convento; não tive occasião de aprender os rendimentos do Flirt. Casei sem amor, sem noivado, sem lua de mel... Um casamento de conveniencia... para o meu tutor. Escusou de prestar contas. Vim ha pouco para Lisboa. Aqui, toda a gente flirtea um pouco. Troçam do meu acanhamento, chamam-me Pires, até Possidonia, dizem que sou «old style», do tempo da rainha Anna... Recommendaram-me esta escola. Se não ensinam aqui as cortezias, dança, diversas maneiras de trazer as _mouches_, como no tempo de Moliére, mostram-nos como se conduz um flirt com a pericia com que o Jeronymo Condeixa guiava _four-in-hands_.

O PROFESSOR--V. ex.ª é intelligente?

A DISCIPULA--(_Modestamente_)--Sou.

O PROFESSOR--Formosa, vejo que é. (_A discipula agradece_) Gosta de toilettes?

A DISCIPULA--_Fagotée_ durante a minha interminavel mocidade--vinte annos na provincia!--não possuo a complicada arte da _fanfreluche_.

O PROFESSOR--Mas tem tendencias?

A DISCIPULA--Enormes! Passo horas ao espelho a compor o meu pobre cabello, a pôr uma fita...

O PROFESSOR--Mais tout ça c'est l'affaire de la femme de chambre!

A DISCIPULA--(_Indignada_) Entregar-me a mãos mercenarias?!

O PROFESSOR--Mas minha senhora! Deve v. ex.ª fazer... permitta-me a expressão--as proprias meias? Passar as noites em compridos serões a alinhavar os corpetes com essas mãos que adivinho lindas sob a pellica da luva? (_A discipula agradece._) Com certeza que não. Bem o vejo nos seus olhos que são, deixe-me dizer-lhe, d'um brilho incomparavel. (_A discipula torna a agradecer._) Todos esses cuidados pertencem aos fornecedores. É por acaso a propria rosa que póda a roseira? Não! Ha jardineiros de mãos calosas e almas rudimentares que preparam a eclosão das orgulhosas flores que são o pasmo e o encantamento dos jardins. Ha creaturas que se dobram dias inteiros sobre sedas e rendas, pensando em cosinhadas e roes de roupa suja, e constroem fantasticas teias em que nos vamos prender, as deliciosas toilettes dos Redfern e dos Rouff... Porque se não deixa preparar por ellas? Ha cabelleireiras habeis que ageitam deliciosos penteados. Seja paciente, consinta que ellas a penteiem.

A DISCIPULA--É absolutamente preciso? Não poderei prescindir?

O PROFESSOR--Absolutamente... absolutamente... não... A formosura de v. ex.ª suppre muito... tudo... Mas é util.

A DISCIPULA--Bem... E depois?

O PROFESSOR--Sabe conversar?

A DISCIPULA--Meu Deus! No convento, no que conversavamos mais era nas Irmãs... para dizer mal d'ellas.

O PROFESSOR--Dizer mal... é bom... mas de quando em quando... Senão cae-se nas soirées do _Sporting_.--Lê?

A DISCIPULA--O _Diario Illustrado_, todas as manhãs...

O PROFESSOR--É pouco. Bourget--fala do coração. É um bom tema. Tudo o que se disser é verdadeiro e falso, de fórma que uma opinião é voltada do avesso com a maior facilidade. Falla de mulheres, _toilettes_ e almas, pezares e córtes _tailleurs_, amores e rendas de corpetes...--uma _macedoine_ que, para a conversação, tem o encanto da variedade.

A DISCIPULA--Tenho o Larousse.

O PROFESSOR--Bah! O Larousse é muito comprido. Não se pode falar em sociedade, como se não deve falar no diabo e em outras coisas do uso diario. Outro: Theuriet--é sentimental, cheio de lamurias; no campo, um chorão, n'uma sala, um piano. É optimo para as noites de luar, na praia, emquanto se faz a digestão.

A DISCIPULA--Uma pastilha de Vichy em trezentas paginas.

O PROFESSOR--Pouco mais ou menos. É um filho de Lamartine... Olhe, este é preciso cital-o... ás vezes... a troçar... Depois, todos os _vient-de-paraitre_. O _Figaro_ assignala-os. A proposito: são muitos. Leia dez paginas no começo, vinte no meio e as tres ultimas. Terá assim um verniz literario... completo.

A DISCIPULA--Tenho entendido.

O PROFESSOR--Mas isto é longo. Prefere entrar? Quer a primeira lição aqui ou na aula? Aqui?

A DISCIPULA--Sim. Acho melhor. Sob as arvores, junto ás flores, a ouvir o murmurio dolente da agua que corre.

O PROFESSOR--É poetica?

A DISCIPULA--Quasi, ás vezes.

O PROFESSOR--Não fica mal um pouco de poesia... Falar do mar e do estremecimento da lua sobre as aguas inquietas, comparar-se á agua movediça e infiel... Emfim são coisas para mais tarde. Vamos aos preliminares. Ah! Antes de mais nada: o nome de v. ex.ª?

A DISCIPULA--Carmo... Maria do Carmo. As minhas amigas chamam-me a Carminho.

O PROFESSOR--Um nome lindo...

A DISCIPULA--Não se presta a madrigaes.

O PROFESSOR--Um nome sabendo a flores silvestres...

A DISCIPULA--Pires...

O PROFESSOR--(_Vae tomando calor_)--Pelo contrario. Um nome que se desfaz na boca como um _fondant_, nome para murmurar nas horas perturbantes, nome que finalisa n'um franzir de labios, como para um beijo... Delicioso!

A DISCIPULA--Muito obrigada.

O PROFESSOR--Bem. Bem. Passemos á lição. (_Toma um falso ar amavel, faz brilhar na boca um sorriso, retorce o bigode loiro_).

A DISCIPULA--Ouvil-o-hei com toda a attenção.

O PROFESSOR--(_Agradece com um gesto largo._) _Flirt_ é uma palavra ingleza que deriva do francez. Já tem fóros de portugueza: Garrett empregou-a. É como uma batalha de flores entre duas pessoas de diferente sexo.

A DISCIPULA--Com os espinhos?

O PROFESSOR--Conforme: ha varias especies de flirt. Ha um em que as rosas são quasi todas guardadas por numerosos regimentos de espinhos: é o flirt agressivo, feito de recriminações. Ha quem lhe encontre encanto. Pff! Não lh'o aconselho. É bom para velhas de sessenta annos com os _vieux beaux_ que foram seus namoros. Ha o flirt sentimental, aquelle a quem me referi ha pouco, com _clair-de-lune_ e regatos prateados, o flirt com Theuriet e Alfred de Musset dos proverbios, um assucareiro em que caiu agua e vae entornando calda que pinga e lambusa. Horrivel! Mas tem os seus adoradores, misses _sur le retour_, tias, meninas da Baixa espremidas nos espartilhos de baleia e aço--crosta d'um peixe que a ichtyologia ignora; é muito usado lá para os lados excentricos da Estefania. Ha--tome toda a attenção, pois é o que convem ao seu genero de belleza...

A DISCIPULA--V. Ex.ª confunde-me...

O PROFESSOR--O que ha de mais sincero!... Ha um genero, o meu predilecto... (_Ageita-se no banco, torna a retorcer o bigode, olha amorosamente para as unhas rosadas_). É o flirt perfumado e finissimo, o fumo das cassoletas com perfumes leves, como se queimassem flores, petalas tremulas d'anemonas...

A DISCIPULA--Como V. Ex.ª é eloquente!

O PROFESSOR (_Baboso_)--É V. Ex.ª que me inspira!

A DISCIPULA--Os seus olhos sublinham com tal calor as frases!

O PROFESSOR--Um pouco de luz que vem dos seus!... Um reflexo do seu admiravel olhar! É por isso que falo assim. (_Approxima-se d'ella_). É o flirt em que o coração apenas perfuma... O que tem de bom uma flor? A propria materia? Não, que essa é unica, a mesma na couve lombarda e no lyrio. É o perfume e a côr. Do coração, tambem, só devemos permutar o perfume. Ora imagine: entregar um coração cheio de sangue, a palpitar como um peixe quando acaba de ser pescado!

A DISCIPULA--Até mete medo!

O PROFESSOR--Tem razão. Até mete medo. V. Ex.ª tem sempre razão.

A DISCIPULA--Muito obrigada.

O PROFESSOR--As pessoas formosas--e V. Ex.ª é divinamente formosa--teem sempre razão.

A DISCIPULA--V. Ex.ª é muito lisonjeiro.

O PROFESSOR--A lisonja é o aroma da verdade. V. Ex.ª merece tudo.

A DISCIPULA--V. Ex.ª é extraordinariamente amavel.

O PROFESSOR--Podesse eu ser amavel para que todas as senhoras bonitas me amassem!

A DISCIPULA--Todas?

O PROFESSOR--Quando digo todas... V. Ex.ª comprehende que me refiro a uma só.

A DISCIPULA--Feliz aquella...

O PROFESSOR--Acha feliz?

A DISCIPULA--Deve sentir o peito em festa...

O PROFESSOR--Oh minha senhora!

A DISCIPULA--Lembrar-me-hei de si. Nas noites infindaveis, quando me sento ao piano e os meus dedos correm sem fito sobre o teclado...

O PROFESSOR--Como nardos que andassem...

A DISCIPULA--Como póde dizer isso, se nunca as viu?

O PROFESSOR--Adivinho-as. Mas gostaria de as vêr (_Toma-lhe a mão_). Estas luvas são de Paris?

A DISCIPULA--Não senhor: são dos Gatos.

O PROFESSOR--(_Um pouco desapontado_). Não importa. As mãos são lindas. (_Vae desabotoando uma das luvas_).

A DISCIPULA--(_Consentindo_). O que faz?

O PROFESSOR--Estes botões são feios. Mas a pelle é finissima.

A DISCIPULA--A da luva?

O PROFESSOR--Não, a da mão.

A DISCIPULA--Agradecida.

O PROFESSOR--(_Curva mais a cabeça approximando-se mais, assim, da mão_).

A DISCIPULA--(_Sem a retirar_). O que faz?

O PROFESSOR--Nada, minha senhora... ia vêr melhor o grão da pelle.

A DISCIPULA--(_Ligeiramente desapontada_). Ah! julguei...

O PROFESSOR--Oh minha senhora! Pensar tal a meu respeito! Não sabe que o flirt é o amor sem desejo, a sombra do Amor? Eu não podia dar-lhe um beijo!

* * * * *

FLIRTS

A ANTONIO BANDEIRA

FLIRTS

Maria do Carmo, curvada sobre a meza, folheia os ultimos _envois_ de Paquin e Redfern. Um candieiro com um largo quebra-luz de seda e rendas lança-lhe sobre o cabello uma aureola de oiro. O corpo está mergulhado na penumbra. Na sala, os moveis tomam aspectos fantasticos. Os espelhos teem um brilho pallido. Gonçalo, ao entrar, beija a mão que Maria do Carmo lhe estende, sem levantar os olhos dos papeis.

MARIA DO CARMO--trinta annos, com dez de casamento. Sem filhos. A vida passa-se-lhe em visitas, _raouts_, recéções e bailes. Alguns livros da moda, recommendados por Marcel Ballot, no _Figaro_, e Jean Lorrain, por curiosidade. Interessante como um enigma, ás vezes perversa. Não se lhe conhece um amante, mas indicam-se muitos. Não toca piano.

GONÇALO--não tem uma branca, mas no meio da animação, ficticia, vê-se um grande cançaço de viver, como se tivesse experimentado tudo. Procura por toda a parte, como um _gourmet_, o manjar fino. Epicurista, delicadamente depravado, como um _roué_ da Restauração, ou um elegante do fim da republica romana.

--Ainda bem que veiu!... Preciso do seu bom conselho...

--Como sempre, depois de ter feito alguma tolice?...

--Impertinente!

--É sempre assim. Pede-me o conselho depois de não precisar d'elle! De resto, dá na mesma: ninguem segue conselhos.

--Não. Tenho aqui estes dois albuns. De Paquin... De Redfern... São as ultimas creações. Estou tentada a escolher quasi tudo e a não escolher nenhum... Quer acreditar que tenho dias vazios na minha vida? Dias sem vontade, d'uma grande lassidão, em que nem sequer tenho forças para fingir que sorrío!...

--Ame um pouco...

--É coisa que se encommende? Acordo um dia, com a resolução de amar. É logo. O primeiro que me apparece na Avenida, aquelle que melhor dorme em S. Carlos, o caixeiro que me vende as fitas no Martins! Vê-se bem que nunca amou!

--Não amei! Mas eu não _sou_, eu _amo_. É a minha maneira de existir. Um nasce cego; nasci amoroso...

--Calle-se! Diga lá, qual d'estes vestidos prefere?

--Sabe que é muito difficil escolher um vestido pelos desenhos feitos _d'après_ os manequins? O mesmo vestido toma aspectos differentes conforme as pessoas...

--Não faça filosofia. Olhe este de Paquin: ligeiro, todo em rendas, em coisas leves, parece feito com flôres; o Redfern é mais hieratico; mesmo nos vestidos de baile conserva a _raideur_ dos córtes _tailleur_. São vestidos para a Bouro, que parece ameaçar-nos constantemente com a sua corôa de marqueza. Este?

--Não lhe irá bem, talvez... O talhe da saia engrossa a sua figura, a que não vão bem...

--O senhor treslê... Tudo me vae bem... Deixe lá os figurinos... Não sabe nada de vestidos... É como do coração. Aconselha-me a que ame...

--E dou-lhe um bom conselho. Nem parece que sou seu amigo.

--Trouxe hoje a alma de cinico?

--Era a que tinha mais á mão. Estava ao cimo da gaveta...

--Continuo a dizer: não percebe nada dos negocios do coração...

--Não ha negocios do coração. O coração dá-se...

--Não; troca-se...

--Para quê? Não é preciso, no amor, ser-se correspondido. Basta amar. É possivel que para a felicidade seja necessaria a permuta...

--O amor é o choque...

--Muitas vezes o cheque.

--Que _jeu de mots_ tão velho! É o choque de duas almas. É preciso que girem bem, no encontro. São duas electricidades que se combinam. Conhece a theoria das duas metades da maçã?

--Conheço: é uma figura de rétorica...

--Não é. Andam duas creaturas por esse mundo, ignorando o seu futuro, achando a vida sem rasão, idiota...

--Escolhe uma mentira vital, como diz Ibsen. Conheço-lhe o _charabia_...

--Deixe-me acabar. Corre mundos, faz tolices, fecha-se dias em casa, até vae ao circo ver as focas... E nada! Um dia, sem saber como nem porquê, uns olhos encontram-se com os seus, numa multidão. Ha a faisca... Pode ser um santo ou um bandido, lindo como o Rubempré, estupido como um tenor, candidato á grilheta ou futil como um janota. Fica-se presa; somos d'elle para toda a vida, ficamos amarradas a elle, como uma sombra... É assim o Amor, é feito de imprevistos... Não tem rasão alguma de ser, mas é.

--Uma coisa fatal? Tem que ser?

--Sim.

--Permite-me que discorde?

--É teimoso.

--Sou. Já viu alguma discussão dar resultado? O amor é sempre creado por nós. Não amamos senão a pessoa que queremos amar. É, como tudo, um acto voluntario. Ha escolha. Vemos uma mulher, vinte, trinta vezes, sem nos fazer impressão alguma. Um dia ella repara em nós. Se é bonita, elegante, calça no Chapelle e veste na Lippman, pelo menos, a nossa vaidade sente-se satisfeita e começamos a descobrir-lhe encantos, a crear alguns, a afeiçoal-a ao nosso geito. Ao conversar com ella, pomos intensão nas frases ôcas que diz, vemos mysterio no seu sorriso... Estamos presos.--Um bello dia, porém, por qualquer motivo, torna-se util acabar com o pesadello da mulher que aparece em toda a parte: sae das brasas do fogão, a que nos aquecemos, da pagina que lemos, do fumo do cigarro, do papel em branco em que vamos escrever ao nosso procurador. Repara-se um pouco nella. Descobre-se o primeiro defeito. Exageramol-o para o grotesco. E da deusa perfeita tambem as flores e fica uma caração que faz rir.

--Uma theoria...

--Não é, creia. Acontece-me isso duas ou tres vezes por anno. Sabe que ando sempre com uma paixoneta... ou mais. Levo oito dias a fazel-as cair do peito.

--E vive feliz?

--Inteiramente feliz. Saber contentar-se não é a suprema sabedoria? Para que se inventou o _flirt?_

--O _flirt?_ Que horrivel coisa? É a «sombra chineza» do Amor...

--É melhor. É o perfume. Os delicados contentam-se. É preciso comer uma flor? Não, basta respirar-lhe o aroma. Ora essas conversas, meio sentimentaes, a um canto, ditas em voz baixa, sublinhadas pelos olhos que toda a alma illumina, são como o roçar de azas que fossem flores. Ha o ligeiro premir dos dedos, sob os leques, certos tremores de labios, como se os beijos n'elles esvoaçassem, uma concentração de todo o ser, que parece boiar no ether, leve... As phrases não se arrastam, n'um espasmo. Teem palpitações, lançam-se n'uma curva larga, até desapparecer em estrella. Não conhece o _flirt_. Todo o ser é livre e vae entregar-se, rendido... Cada palavra toma um sentido misterioso... Vou-lhe contar um _flirt_... Estava na Suissa.

--Internacional?

--Cosmopolita. N'um d'esses cantos, que ultimamente o Cook estraga, na Engadine. Paisagem de gelo, hotel de gente podre...

--De chic?

--De chic. Conheci uma americana, deliciosa como um fructo acre, que vivia fora da _coterie swell_. O americano vae-se tornando terrivelmente _rasta_. Trinta annos? Talvez... Mas trinta annos frescos, sem rugas, viuva depois de dois mezes de escasso matrimonio com um formidavel _brasseur d'affaires_ de New-York, cerebro em ebulição permanente que acabou n'uma neurasthenia aguda. Iamos passear sós, pelo gelo. Sentavamo-nos nos pontos de vista que o B½deker não indica, paisagens tristes de tanta brancura, sem uma mancha. Fugiamos dos _five-ó-clock_, das _parties_ bulhentas em complicada companhia. Comecei a amal-a. Tinhamos lido os mesmos livros, sobre elles fallavamos: gostavamos das mesmas musicas, d'esse Schumann cheio de côr, dolente e envenenado; preferiamos aos flamengos gordurosos e aos hespanhoes sombrios, o delicado misterio dos Vinci, a graça fina e brilhante de Raphael.

A fallar de quadros e de romances, as nossas almas tocavam-se, porque um sentido novo brilhava em cada palavra; e parecia que cada frase terminava n'um beijo. Ás vezes, levemente, as nossas mãos tocavam-se. Era rapido e delicioso. D'esse contacto ficava uma lembrança, como d'um perfume. Amor platonico? Não. Um _flirt_. Sem arroubamentos. Sempre a Alma livre, sempre o beijo a tremer na bocca, sem cair... Uma ou outra vez, comprehende, por esquecimento...

--Comprehendo. Sem malicia...

--Essa mulher tinha realisado todo o meu sonho! De resto acontece-me isto muitas vezes. O sonho varía com as mulheres que nos interessam. Mas essa parecia realisar tudo. No seu corpo ambiguo, de egipcia, parecia conservar-se, como um fructo no gelo, uma adolescencia eterna. As suas mãos finas, pesadas de tantos anneis em que Vever pozera todo o seu genio estranho, floriam gestos d'uma caricia delicada e terna. A sua alma, que parecia ter visto tudo, ainda sentia a vida com frescura. As horas que passei junto d'ella! O perfume, uma mistura sabia d'Houbigants, então _dernier bateau_, perturbava... Longe d'ella, não pensava n'outra coisa. Recordava-me dos gestos, os pequenos detalhes da _toilette_ e da conversa, um rosar de pelle sob as rendas, uma palavra, um _grain de beauté_, que tinha na nuca. Sabe como acabou? Ella propoz-me casar. Fechei-me no quarto, horrorisado. Casar, eu? Uma mulher que me julgava capaz d'isso! Era preciso abater esse amor orgulhoso, que crescia no meu peito. Que defeito tinha ella? A principio não vi nenhum... Fui procurando. Tinha, ás vezes, quando fallavamos em francez, erros de grammatica deliciosos. Comecei a achar ridiculo essa ignorancia. D'ahi passou para os vestidos, para o corpo, o peito chato, sem ancas... Tudo caiu. Essa mulher pareceu-me horrorosa... Comecei a troçar d'ella, do seu _bas-bleuismo_... Por fim ella resolveu partir. Lembro-me perfeitamente. O gerente do hotel levou-lhe um enorme ramo de _bluets_, os raros amigos tambem lhe levaram flôres. Todo o carro estava cheio de flôres. Sentou-se entre ellas, afagava-as, cortára algumas para cheirar. Chorára. Ainda me deitou um molho, que tinha beijado. O carro partiu, como se fosse um açafate. E a sua face branca era como uma flôr triste... Não tive pena. O amor já caira. A gente ou gosta ou não gosta, conforme quer.--Vamos fazer um _flirt_ para experimentar?

* * * * *

LOGICA

A ANTONIO DA COSTA CABRAL (THOMAR)

LOGICA

N'um _garden-party_. Emquanto no _tennis_ se cruzam as palavras inglezas, e no kiosque, d'onde caem chuveiros de glicinias, se discutem mãos de _bridge_, afastados, junto a um roseiral, Joanna, Maria e Miguel veem jogar.

JOANNA--Toda a face branca é illuminada por dois largos olhos negros. Casada ha dois annos com um _sportsman enragé_, que prefere o cabo de uma _raquette_, o leme d'um _outrigger_, o _guidon_ d'um automovel, á mais terna caricia da mulher. Usando e abusando do flirt, um em cada dia, ás vezes dois, tem periodos de fidelidade: quando quer torturar alguem. Provoca-o, chama-o, fal-o entontecer com promessas. Quando o vê absolutamente rendido, foge, para pensar n'outra coisa, ou em coisa alguma. Não vae ao fim de nada. Desenha, mas nunca terminou um esboço; toca piano, mas deixa sempre o trecho de musica suspenso a meio d'um compasso. Tem medo de acabar. É uma natureza hesitante.

MIGUEL--Nada intellectual. Um bom animal intelligente. Tem viajado. Mas prefere o _steeple-chase_ de Auteuil a uma _première_ no Vaudeville. Admira a força. É um leal. Dá o seu coração sem reservas. É, actualmente, o flirt fixo de Joanna.

MARIA--Vão-lhe falhando os admiradores. Os cabellos brancos não lhe ficam bem. Não sente muito a falta, nem se irrita com a felicidade alheia. Natureza simpatica, hoje rara.

MARIA--... Encontrou o Cerqueira a passear d'um lado para o outro, no terraço do Hotel, a balbuciar phrases, os olhos fechados, um livro na mão.--Que estás tu a fazer?--Tenho hoje de fazer uma declaração á Clotilde. Estou a estudar aqui no Bourget duas phrases tezas!...

(_Joanna e Miguel riem-se, mas deixam cair a conversa_).

MARIA--A Clotilde merecia-o. Quando se começaram a usar os _flous_, para que é preciso _postiches_, ella tinha escrupulos e explicava:--«Sei lá se o cabello pertenceu a alguma creatura damnada! E hei-de pôr na minha cabeça uma coisa de alguem que hoje está a arder nas profundas dos infernos!» O que acham vocês?

(_Joanna e Miguel tornam a rir-se, sem responder_).

MARIA--Já comprehendo. Vocês querem ficar sós... (_levanta-se_).

JOANNA (_sem convicção_)--Não. Deixa-te estar...