Fialho d'Almeida

Part 3

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É que talvez já ao tempo elle bem claramente visse que aquelle que tão violentamente responsabilizara como primeiro culpado do desastre a que a nacionalidade havia chegado, era afinal um rei que consumira um reinado a procurar Alguem, no fundo, bem da alma, elle proprio, com a Rua, que era, de facto, quem mandava, sem que, ao menos, governasse, como ao presente, e que ora o applaudia, mais á rainha, ora o insultava, até que se decretou a montaria com que, por fim, deu fecho á Realeza.

Mas, deixemos o rumo de taes considerações que, indevidamente, é de uso considerar politicas, e que, ao acaso, nos occorreram, a proposito dalgumas paginas do _Saibam quantos..._ ultimo passo na vida de Fialho, e ainda á conta da sua velha lida de pamphletario.

Finalmente, pois que, por esta obra, chegamos ao termo da sua jornada de agitador, resta-nos, ao presente, e logicamente, insistir no mais da sua melhor canseira--isto a proposito, não só dalguns trechos já marcados, como ainda doutros, onde mais intencionalmente se deu a urdir obra de Arte pela Arte.

Assim visto, este será, em nosso entender, o Fialho definitivo, cujo elogio desde já promettemos levar a cabo quasi sem rasuras criticas, ou seja sem restricções, no capitulo a seguir...

IV

O ARTISTA

FIGURAS NOTAVEIS DA SUA GALERIA. INTUITOS E SUPERIORES FATALIDADES DO SEU TEMPERAMENTO. UMA GRANDE E ADMIRAVEL REVOLUÇÃO ESTHETICA. A SUA OBRA.

[IMAGEM: Fotografia de Fialho d'Almeida.]

Nenhum outro documento mais interessante, se bem que mais difficil de ler, do que o primeiro livro dum Artista.

Toda a obra de Arte tem a sua infancia que importa ver na prova-estreia do auctor, atravez dos seus defeitos, como das suas virtudes.

Ora essa difficuldade eu senti ao ler os _Contos_ de Fialho, quer pela exuberancia de vida episodica de que esta obra se enreda, quer pelo tumulto dos recursos que já ali o auctor revela.

Exemplificando.

Abre elle este seu primeiro livro por uma historia, em parte de sua observação, e em parte de phantasia,--_A Ruiva._

Pela intriga deste seu trabalho, vê-se que elle não chegou a realizar uma novella, no rigor geralmente attribuido ás composições deste nome. Bem pelo contrario, o que conseguiu foi uma serie de biographias, ou, mais propriamente, de exquisitas telas.

Fialho, muito do Sul, é, como já vimos, um pintor; ou melhor, um painelista, no geito dos pintores da Hespanha meridional, logrando, pela penna, conforme o seu poder de descriptivo, dar a côr, tonalidades e almas tão distantes e irreaes e, no entretanto, tão signaladamente intimas e perfeitas, como só as encontramos nas prodigiosas collecções dalguns auctores da Andaluzia,--isto a averiguar da impressão das suas manchas, como das suas madonas e dos seus aleijados, ou seja de quasi toda a sua galeria de excelsas e de sinistros!

Assim, a _Ruiva_, principal figura do conto em analyse, é uma especie de hyena de amor, transportando-se, quando os guardas do cemiterio saem, á casa do deposito, onde entra para escolher cadaveres!

É pela calma mysteriosa e calada que elle descreve a necrophila Carolina, misto de miseravel e viciosa, tacteando os mortos adolescentes, quasi possuindo-os.

Exquisita figura de virgem, a suave e brutal filha do coveiro, que Fialho trata com enthusiasmo, quasi carinhosamente, ainda na sua faina de amante de formas mortas!

A Marcellina é o typo vulgar da harpia, velha e sabia, que tendo aprendido da miseria tudo o que de mau ella ensina, volvera a sua experiencia num capital que lhe ia servindo para viver...

Para o caso, ella é a alcoveta que vende a _Ruiva_ a um rapazola, o João, um precoce torpe, typo de bambino operario, official de marceneiro e fadista, que um momento a possue e quasi logo a abandona.

É filho dum bebado e duma desgraçada que elle, ainda creança, vae encontrar, pela ultima vez, na _morgue_, depois que a acabaram os maus tratos do marido.

E, tambem, dahi a sua historia, que em si resume a vida natural de todos os tresnoitados pelos portaes e escadas.

Por fim, fecha o conto o relato da faina livre de Carolina (a _Ruiva_), primeiro assalariada numa fabrica, depois pelos quartos andares, vendendo-se a todos os vicios, até que, roida da tuberculose, chega ao hospital, donde sáe aos pedaços, como um gesso em cacos!

O seu enterro descreve-o o Artista no primeiro capitulo, como para impôr, logo de começo, o conto, de tal arte iniciado, á maneira romantica, pelo seu episodio mais pio e sinistro.

É ahi que apparece a figura do coveiro, pae da Ruiva, uma especie de Antonio Pedro no _Hamlet_, acaso transportado á taberna do _Pescada_, onde o Contista o apresenta, bebado, a commentar a morte da filha!

Eis a noticia-summario do que temos pela estreia de Arte de Fialho, em 1878, ou tenha sido do tempo de quando elle, intencionalmente realista, com suas tintas de Hoffmann, se deu a iniciar a sua obra por uma figura, aliaz nada casual--a _Ruiva_, cuja caveira nos aponta, ao fim do livro, sobre a sua banca de contista-medico, não se sabe bem, se como um despojo de estudioso, se como um cofre de osso de que antes, por capricho, se dera a extrahir uma novella...

Como quer que seja, esta realiza menos o que pretende ser--a biographia da filha do coveiro--do que a primeira galeria de figuras da sua maneira extranha de pintar, e onde a _Ruiva_ acaso surge como que sombreada daquella maceração e tinta de luar que Zurbaran parece ter composto já da eternidade para espectrar as figuras tão suavemente doentes dos seus monges!

E, entretanto, como ali está, naquella simples novella todo o seu original processo, desde o poderosissimo descriptivo que lhe anima o melhor da obra, até á sua pintura, ainda narrativa, de costumes; a hesitação do Artista no papel violento ou declamatorio dos personagens; a sua maneira dispersa e fragmentaria; o dialogo; a imprecisão de traços; a preoccupação das grandes telas; a falta de peças no esqueleto do seu trabalho; a paixão de certas figuras, como de certos logares; a sua dolorosa e sensual sanha de necrographo, de par dos seus carinhos, como dos seus sustos pela morte; o monstruoso dos typos, desgarrando, autónomos, um drama proprio; o sentido da vida no que ella tem de mais intimo, como no que pode suggerir de mais esparso; a falta de ajustamento e equilibrio no curso da acção; e, para alem destas qualidades e defeitos, dos typos, como das situações, o Auctor, exuberante da sua razão de belleza a esmo, desmedindo, revolucionando a Arte, por servir a Arte; no seu intimo medroso, e instinctivamente avesso, se não inimigo de todo o methodo;--e, entretanto, sempre elle, comsigo mesmo, fazendo valer o defeito pelo que nelle nos dá de grande e imprevisto; creando das suas desproporções, uma Arte propria; arruando de graça a cidade amoral dos seus viciosos; enscenando a vida do verde-amarello da sua biliosa de pamphletario;--e tudo como quem empresta a sua fatalidade de exotico aos homens e coisas a tratar; e sempre para alem de todas as convenções, como de todos os moldes academicos!

Particularizemos, ainda um pouco, este seu processo, não tanto por firmar principios, como por tratar do seu ousio de Artista, ou seja das suas figuras de imaginação, visto que esta não é, nos emotivos do seu destino, mero delirio do sentido, mas, pelo contrario, uma força ainda a avaliar das suas creações.

Effectivamente, bem errada e mesquinhamente trabalham os que se dão a encaixar a vida num preceito!

Pois que esta é, de si, infinita, recurso algum, por minimo, deve escapar ao seu apercebimento.

Ora este cuidado tinha Fialho bem affecto da sensibilidade, cuja ancia de representação, jámais deixou de archivar tudo quanto a vida real ou a phantazia lhe importavam, embora, ás vezes, á doida,--fosse numa pagina, ou numa simples linha.

Assim, naquelle mesmo volume--_(Contos)_, ha um capitulo, _Os dois Primos_, em que apparece a sombra de Albertina, uma actriz, e que vale menos pela belleza real da sua figurinha de exigua, que pela sua presença artificializada de quasi-dahlia--ao acaso cahida num palco de Lisboa, onde elle, o Artista, a surprehende, á luz da sua _toilette_, á qual, por fim, de todo, attribue o successo feliz da sua linha de _cocotte_!

Este ainda um exemplo do seu occultismo de Arte,--do seu segredo e poder de imprevisto.

Tambem a mesma graça quasi infantil, de tratar a phantasia a que deu o nome de _Chavena da China_, como todos os seus objectos e figurinhas do mais delicado relevo, usa elle já no conto--_Os dois patifes_, do mesmo volume, ao escrever ácerca de dois gatitos, verdadeiras porcellanas vivas e mexidas, e de cujas correrias elle logrou a deliciosa tragicomedia do arrasamento duma cidade de cartão, prenda de annos do pequeno Arthur.

Lê-se dum folgo a linda historia, como essa outra--_Ninho d'Aguia_, de que, por egual, o Artista tira o partido, já notavel, do seu engenho de considerar figuras suaves e innocentes, e em que, tambem, as pobres aves do conto são tratadas como barros vivos, a que sempre alligou carinhos que jámais o vimos dispender no capitulo humano da sua Obra.

E propositadamente nos referimos a estas suas pequeninas obras primas, menos por feriar-nos da historia magoante dos seus nevroticos--figuras quasi-anjos, ao lado de mulheres e bambinos quasi-flores--do que por mostrar as delicadezas da sua Arte, tão sinceramente desegual, quanto, por vezes, exhaustiva, á conta de certas insistencias e mal escolhidos episodios.

Comtudo, verdadeiramente grande é só mais tarde, quando, muito para alem daquelle livro, sae a moldar do seu genio adulto, então notavel de extremos recursos, a vida monstruosa dos grandes e desafortunados typos do seu fabulario. Reportamo-nos ao tempo da _Madona do Campo Santo_, do _Anão_, da monographia-_Manuel_ e principalmente dos _Pobres_.

E, pois que mal poderiamos concluir do seu grande poder de plasticizar da Imaginação, sem nos referirmos a estas obras, tratemo-las, embora passageiramente, menos para as ver que para as apontar.

O _Manuel_ é, sem contestação, a mais sincera figura da sua galeria de _Nocturnos_. É um ser que da sua propria alma o Escriptor edita; e, de si, nos dá como um ex-voto á sua tortura de humano quando, penitente da propria escravidão da sua Arte, della se entrega a versar o que de mais inquietante ella tem:--o indefinido da sua universalidade dolorosa e reveladora. Quer dizer, é ainda menos do que uma obra de Arte, um espelho doloroso, em que elle se transfigura dos seus medos, como dos seus sonhos,--dando-se ahi, de facto, como melhor nos não podia surdir:--no espectaculo da sua figura de receio, ou seja no esgar caricatural e dramatico da sua afflicção de presciente.

Mas reconstruamos, tanto quanto possivel, por palavras suas, a sinistra figura de _Manuel_, ainda por melhor a esclarecer.

Primeiramente a creança:

--«Era aos nove annos como uma figurinha de aguarella, fina de carnes, os cabellos sem pigmento, as unhas longas, a voz avelludada e com demoras sentimentaes em certas inflexões--amando a solidão e as musicas plangentes, colleccionando estampas de castellos, terrivel no amor como no odio, e duma volubilidade tal na phantasia, que era impossivel prende-lo a uma lição por meia hora, sem elle cortar o assumpto com extravagancias de mimo e _enfant gaté_.»

Mais:--«Tinha a feminilidade da igreja, o nervosismo do incenso, paixões quasi physicas por imagens, sentido este que nunca se lhe apagou de todo, e que a reclusão de Campolide exasperou a um mysticismo de fazer inquietações aos proprios padres.»

Quando já homem, «no typo de algarvio, branco de cera, idealmente puro como a afilada gravação dum camafeu, a sua belleza tinha transcendencias extaticas, uma pacificação de tinta lurenta, macerada, esfallecida de insomnia; e dava a impressão dum destes insexuaes no gosto da Seraphita, cujo mysterio desorienta,--por terem tudo o que faz sonhar, sublinhado por tudo o que faz soffrer.»

Esta a epoca em que o Escriptor melhor fixa o drama de _Manuel_, que já daquelles retratos, resulta menos uma figura autonoma do que uma imagem de especial e entranha vocação, especie de seraphim de egreja, dahi fugido por viver a vida emprestada do Artista que o elegeu.

Mas sigamos, ainda mais vagarosamente, o graphico doloroso das suas grandes azas de anjo bohemio...

_Manuel_ chega a Lisboa quando--diz o Artista--«a bem dizer já ninguem esperava por elle», isto é, «quando decrescia no Martinho a terrivel phalange dos revoltados á Byron, e entrava a achar-se um tic pulha nas attitudes procuradas, nas vozes de chibato, nos olhares revoltos, e mais artificios de que até ali os homens de lettras se revestiam em publico, por fugir ao molde burguez da outra gente.»

Era uma figura «toda nervos, altivo como se viesse de berço real», a preceito recortado pelo Artista, do seu album intimo,--o que lhe reproduzia as sombras carinhosas dos «bellos seres de excepção do seu cyclo, os da extranha lumininosidade interior» que ante a sua «mysantropia moral» conseguiam impor-se, pela mesma razão do seu genio,--de que elle via chispar, a par de extravagantes «inauditismos» «maravilhas minusculas» da mais emotiva Arte.

Chegado a Lisboa, ei-lo, primeiramente perplexo, o pobre _Manuel_, no papel de anjo despregado, e, como que por acaso, transferido da Egreja da sua aldeia ao museu vivo duma cidade tão falha de interesse que nem sequer tem torpeza propria;--depois vivendo o expediente dos sem-recursos, longe dos seus, luctando entre o seu pudor de Artista e a intranquilidade do seu genio atrabiliario e dispersivo.

Esta inadaptação é a mesma que depois lhe dá a Tragedia--aquella «_tragedia dum homem de genio obscuro_», que Fialho extrae da sua caprichosa maneira de reagir, tal como devia sahir-lhe, lavrada de ironias--como daquella philosophia e tristeza que enchem a obra a que o Artista dá o nome de--«_Esculptura_ em fragmentos» pois que «dos seus avulsos bocados» ninguem poderia tirar mais do que «mutilações de uma grande estatua...»

Ora, dessa estatua nos apresenta elle, a par de bocados infimos, com extranhezas caricaturaes e laivos dum rir doente, _boutades_ e dôr inferior, por demais fragmentada, quasi sem significação de Arte,--trechos formidaveis, como certas passagens da «_Noite de Alcacer Kebir_», aliaz tão lugubres e intensivamente trabalhadas como raro encontramos outras, ainda na obra de Fialho.

E, entretanto, não é a Arte de _Manuel_ o que mais interessa da sua biographia.

O que melhor vale, e della resalta, é a sua mesma reacção, ainda mais que de encontro ao meio alheio, quando do ruflar do seu genio no intimo de si proprio!

Esta lucta fóca-a o Artista da sua lente amarello-lugubre, desde a primeira infancia do bohemio até á edade da «fixação do seu typo de adolescente» que estatua da «hereditariedade», desenvolvendo-se, determinando-se, sobretudo, na vida de collegio--na sua reclusão de Campolide, onde toda a ordem de factores apropriados, ajustando-se-lhe «como serpes» se porfiam «a esfuriar nesse corpinho espurio» todos os instinctos do seu genio de tarado, e que de si erguem o perfeito modelo morbido que, effectivamente, chega a realizar.

Na sua vontade lassa nada mais governa que o proprio instincto do luxo, do inesperado, da extravagancia da sua ideação frouxa e admiravel,--como a inclinação bohemia da sua vida de acaso, á qual se dá, sem que alguma vez se interrogue.

Ainda por dessedentar os nervos, logo de começo perros ás suas exigencias, entrega-se á embriaguez.

Tinha necessidade de excitar-se, de viver violentamente os seus delirios, ainda como por melhor escutar a sua nevrose, de tal arte mais nitida á sua sensacional expectação.

Intermittentemente cahia em marasmos; tinha «syncopes de intelligencia» que eram como que sombras daquella sobrexcitação e o derivavam do seu tumulto ao que Fialho chamou os seus «crepusculos intellectuaes com sobrelaivos de perseguição e delirio religioso.»

«De resto na sua esthetica, como na sua vida, sobresaltos de louco!»

Depois dum maior exgottamento de vida nervosa, adoeceu gravemente, e tão gravemente, informa o Escriptor, que não era difficil «marcar na sua intelligencia o accesso vesperal da sua ennublação».

A partir deste momento deu-se a errar...

A sua enfermidade era como que uma obsessão de si proprio, sempre alerta contra o _outro_, isto é, contra aquelle que a sua duplicidade mental dava como presente aos seus menores actos--e lhe embaraçava tudo o que deliberasse!

Novos dias e elle cada vez mais doente, erratico, somnambulo, com a paixão do alcool e o susto de tudo.

Certa madrugada accordou horrorizado com a idéa de que o estavam a enterrar vivo e o desejo «de que o deixassem apodrecer fóra da cova»...

A partir deste dia a sua vida torna-se pavorosa; é a creatura sem rumo, equilibrando-se, ao justo, no acaso geral do arranjo commum.

É, sobretudo, como expoente de vontade que o homem vale; ora elle perdera absolutamente a vontade, mantendo-se como que, provisoriamente, a dentro do seu corpo, ao tempo já desconjunctado de fantochino, e que lhe sobrevivia por milagre, como num assomo de quasi extravagante apego pelo que fôra...

O resto adivinha-se:--é a convulsão das ultimas horas; são restos de sonho; os derradeiros phantasmas, nos seus derradeiros dias; é elle gritando a sua agonia doida, numa casa de saude, a pelejar a morte, como se, de minuto a minuto, lhe rompessem cordões nervosos; finalmente elle ainda, mas com a vida a fugir-lhe e como que afilando-se-lhe até perder-se na noite rehabilitante da sua podridão...

E, entretanto, a sua historia não acaba ahi!

Como noutro logar affirmamos, ha, para alem da sua vida de symbolo, o caso vivo, em aberto, duma real figura da qual o bohemio «um duplo», se accrescenta e desdobra, e que, a nosso ver, é, nem mais nem menos, do que o seu proprio revelador,--o Artista que, na alludida monographia, sinceramente, lugubremente, trata o caso da morte de _Manuel_ como se a espreitasse em si proprio!

Passaremos adiante a miuda informação daquelle desenlace, ainda logico dentro da extravagante «_Tragedia de um homem de genio obscuro_», por ver, de relance, o Artista, ao pretexto do admiravel estudo em analyse.

De facto, qual a figura que surde para alem da mascara de _Manuel_?

É, affirma-lo-emos ainda uma vez, nem mais nem menos do que o Auctor, embora transfigurado da sua Arte:--isto é o artista «_violento e contradictorio_» que dahi resulta; ou seja o escriptor atavicamente «_presciente do raro em arte_», com o mais extranho «_senso pictoral de certos aspectos sociaes_», de par do maior «_poder amplificador dos grotescos_»; o artista, a um tempo «_fragmentario e dispersivo_»; o transfigurador; a creatura perdida «_em assumpções de genio_» e logo baixada dos «_fulgurantes cimos da intelligencia_», como que distrahido por casos minimos; o «_de filiação hysteriça e infancia convulsiva, terrivel no amor como no odio_», o «mystico» e necrographo, de «_vontade frouxa, com antipathias invenciveis pelos grandes fanfarrões da sociedade e escriptores lançados_»--o emotivo, emfim, que no _Manuel_ não faz mais do que esmaltar de picaresco e lugubre a sua propria figura, errando nelle o seu drama de morbido, e parabolando-lhe, nas attitudes, como na desgraça, os seus grandes pavores da morte, de par da duvida que lhe advinha da sua mesma Obra, que, no fundo, julgava irremediavelmente episodica e fragmentaria![2]

Por isso, tambem, ao deixar o quarto, do _outro_, agonisante, elle põe na boca do indio, o Pratas, velho confidente dos dois, como que o echo do seu pensamento intimo:--«O ideal seria que a alma delle não morresse, e nós ainda a encontrassemos, intacta e genial, num outro mundo insubmisso»!

Ainda uma vez mais, elle formula o seu velho sonho:--não acabar! Em ultima analyse:--o seu drama em duas palavras[3].

Finalmente nada mais haveria a escrever de commentario ao extraordinario capitulo da obra de Fialho que principalmente nos demos a desarticular ainda por compor a figura que nelle foi--se não tivessemos de incluir um tal trabalho na parte que reservamos das suas melhores provas.

Como demonstração de Arte, mal poderiamos deixar de alludir ás paginas que fecham a tragedia, em parte verdadeira, de _Manuel_--e que tambem, de si, são, ainda de uma precisão e valor notaveis.

De facto, velou elle o doente de duas figuras que mal apparecem no curso da acção e, no quarto do moribundo, apresenta silenciosas,--duas esphinges de odio que o encaram e ao Pratas, o segundo companheiro de _Manuel_, como se fossem elles os verdadeiros culpados da sua desgraça!

A primeira é um velho, o pae do doente que, depois de lhe ter negado os recursos, tomando á conta de extravagancia todos os seus dispendios, como o seu irremissivel alcance de saude, vem assistir-lhe á morte.

A segunda, e mais notavel das duas figuras, é aquella que o Artista designa na folha-cartaz da monographia por--_essa mulher de negro!_

«É, segundo informa, quasi velha, com um vestido negro e uma gollilha bordada, em grandes bicos. Sobre as orelhas ha já cabellos brancos, tem a pallidez macerada duma santa, as mãos reaes, queixo voluntario... Emtanto essa rigidez guarda uma boca pura de creança, e sae dessa magua, uma obra prima de martyrio.»

«Tóco, narra, por fim, as mãos do agonisante, um marmore molhado. Está a amanhecer lá fóra, e os cinzentos azues dessa madrugada de inverno entram no quarto, com albescencias funeraes que me espantam. Pelas quatro horas Pratas que lhe sustinha o pulso, dá de repente um grito: é o momento: e o velho erguendo-se, em vez de correr ao filho morto, é contra nós que parece crescer, rigidamente...»

Eis o final do drama!

Mas quem é aquella _mulher de negro_?

Eis o que mal nos diz. O que della se sabe é unicamente que fôra uma rara figura de dedicação, envelhecendo no sonho de ser noiva do bohemio, que lhe escrevia, e elle amara vagamente...

De momento, aponta-a o Artista como um regelo de amor, acaso um symbolo assomado ali ainda por enscenar as ultimas horas do bohemio.

Derivando, no exame das suas obras primas, ás paginas que, dentre as citadas, maior contraste offerecem com aquella monographia, encontramo-nos com o seu admiravel conto,--o _Anão_.

Este demonstra, alem de tudo, de par da mais frisante extravagancia imaginativa, o seu grande poder caricatural.

Trata-se duma ligeira farça que o auctor compõe, mais que dos personagens, das suas situações.

Por outro lado, o drama é um jogo de riso, em cujo taboleiro Fialho incluiu uma pedra dolorosa--o Carrasquinho, o _Anão_...

Este é uma figura minima, minuscula a ponto de se perder na copa dum chapeo de pello, e no bolso da madrinha quando do seu casamento; é um quasi monstro de fabula, entre humano e herbivoro, de «focinho aguçado e movel, mascando sempre, com as bosseladuras da testa de tendencias conicas para chibato, sensivel e espantadiço aos rumores dispersos do campo, a quem os bodes reconheciam um ar de familia, e por quem as cabrinhas amorosamente se roçavam» quando elle, o pobre cabreiro, se misturava com ellas no redil.

Casou com a Rosa «um cavallão da mais desmedida estatura, que a mãe trouxera vinte e sete mezes no ventre e levára seis dias a expulsar!»

O Anão dansava o fandango e era videiro. De principio tudo lhe foi bem; a boda correra-lhe alegre, bem folgada, depois da qual o manageiro de Torres, o Jacinthinho, se installou por metade de cada dia em casa da Rosa.

Esta a desgraça! Quando o _Anão_ chega a mulher bate-lhe e o manageiro obriga-o a dansar...

A seis mezes do casamento a Rosa dá-lhe um rapagão, forte como «um boi bravo».

Tudo no conto são confrontos e confusões de animaes armados...

O Anão, cada vez mais chibato, lá vae vivendo, ora em casa, ora entre os sementões, sempre lamentando-se, na sua «voz balada», até que um dia, tendo-o a mulher enfaixado (por confusão com o filho) e conduzido á missa, lá o povileo toma-o pelo proprio diabo, e logo um devoto bebado o arremessa da torre abaixo, e era uma vez o pobre Carrasquinho, esborrachado contra as lages sepulcraes do adro!...