Fialho d'Almeida

Part 2

Chapter 23,762 wordsPublic domain

De facto, dentre os grandes plasticos da Peninsula, quem mais que o grande Artista conseguiu ainda praticar um semelhante ou equivalente embrenhado de esmaltes e de linhas, o segredo da luz e da côr, identica riqueza no processo de exprimir Arte, toda aquella ancia de vida luxuriosa que ergue o mais da obra arabe, e, em que domina sempre, ao lado do culto do individuo, considerado na sua religiosidade como no seu luxo,--a preoccupação alacre do supremo culto da Natureza!

E, entretanto, não foi, ainda, sob um tal ponto de vista que principalmente nos demos a estuda-lo.

A verdade é que fiamos pouco do rigorismo dos methodos geralmente considerados como mais logicos, por mais naturalistas, os que tudo explicam pela razão exclusiva da procedencia e do meio--quando se trata de comprehender emotivos da estatura de Fialho, cuja obra precisa, a nosso entender, principalmente ser considerada sem opinião previa, ou seja a toda a luz dos seus livros, e onde ha, a par das admiraveis fatalidades das suas taras de artista do Sul, o conhecimento, os commentarios, como a presença ou suggestões de tudo o que nesse rodopio de Arte, que foi a segunda metade do outro seculo, podia considerar-se de mais interessante ou notavel.

Mas caminhemos vagarosamente. Em primeiro logar, convem ter presente que ha nos recursos de Fialho d'Almeida um grande numero de facetas e a tal ponto imprevistas e admiraveis, que, a elle proprio, o offuscaram, perturbando-o, e impedindo até que realizasse o que para todo o auctor deve ser o primeiro fim--a obra de conjuncto, que, exactamente, resulta do ajustamento ou systematização de todo o seu trabalho, de molde a levantar a figura do Artista se elle é um temperamento, ou o objectivo da sua Arte, quando elle tenha de desapparecer, em sacrificio á sua mais propria missão.

O tempo é ainda um material ao dispor dos artistas, embora, quanto a nós, o peior dos materiaes.

Fialho devotou-se-lhe, talvez, excessivamente. Pois que tinha auscultado a miseria do povo, no seu instincto, por desventura apurado nos primeiros annos da sua vida de acaso, não raro deixou falar o coração, para alem da sua mesma canseira de Artista.

Quantas vezes elle, que foi um espirito alto e pairante, se deu a desmedir o grito dos que a propria miseria, confinada da cobardia congenita das desgraças populares, havia tornado quasi aphonos, e que ainda, por uma razão de indole, eternizou vivo e plebeu,--tal como lhe sahiu, ao primeiro golpe, nas paginas formidaveis dos _Gatos_!

Foi isto um delicto de Arte, seria um bem?

Foi um facto. E este facto vale o melhor da sua obra de pamphletario que, antes de qualquer outra, convem ter presente.

Ora, neste rumo de trabalhos, seguiu elle, naturalmente, o exemplo de todos os pamphletarios;--isto é, deu-se a compor paginas do material commum, o que vale dizer de aspirações e casos, não raro menos claros de que vulgares!

Dahi partiu, e logicamente foi até ao fim: a servir a propria plebe politica--a peior das plebes!

Houve tempo em que não socegou. Numa canseira pertinaz, diaria, quasi tomou por seu dever perseguir a vida constituida, onde quer que ella surgisse ou se se lhe afigurasse.

Ora, este foi, tambem, porventura, o seu mal, assente como está que, em materia de vida conjuncta, peior do que qualquer instituição crapulosa ou gasta, é a sua substituição á doida, á sorte, como infelizmente, entre nós, elle a ajudou a preparar!

Acabo de percorrer os _Gatos_, onde reuniu o melhor da sua Arte de pamphletario.

Do primeiro ao ultimo opusculo, que serie de estudos, de commentarios, de almas e acontecimentos tratados pelo seu riso!

Tudo o que elle tinha de imprevisto, como tudo o que da inferioridade de uns poude reunir e editar para servir a inferioridade dos outros, está ali, nos seis volumes que hoje formam a Obra, e ficará como documento dos seus violentos e extremadissimos recursos.

Pois que foi a civilização quem categorisou o riso, transfundindo-o, filtrando-o até á ironia, uma das grandes forças da demolição moderna,--importa ainda considerar o riso de Fialho.

A ironia de Fialho, se assim podemos escrever daquella sua indole--era ainda, como não podia deixar de ser, um caso mais do seu temperamento de violento, aggravado do tempo e meio em que, por acaso, reagiu.

Assim, nada tem de commum, por exemplo, com Eça e Camillo, por falar dos humoristas mais discutidos da lida contemporanea.

Camillo era a graça a flux, com os seus laivos de razão intima, muito para alem dos castellos politico-litterarios de momento, golfando risos ao acaso da sua natural interpretação sinistra de Humanidade.

Eça deu-se scepticamente a lapidar costumes e figuras infimas, no geral de uma banalidade exhaustiva, á conta do prazer do seu riso frio, que logo se fez moda, como tudo o que nos vinha de fóra, por seu intermedio.

É ver o successo das _Cartas de Fradique Mendes_, «um Acacio a serio», informa Fialho, e cuja prosa relata o apontoado symetrico das notas dum civilizado, ali paciente e cuidadosamente estylizadas pelo seu sentido de mundano.

[IMAGEM: Fotografia de Fialho d'Almeida.]

Ora, nada de premeditado encontramos em Fialho, e nomeadamente nas notações dos Gatos, por cujo entrecho natural é que comecemos o exame á sua obra.

A razão desta preferencia incide, é claro, na mesma indole dos folhetos que reuniu debaixo daquelle titulo, e, onde, de facto, encontramos, a despeito dos seus propositos, o Fialho definitivo, quer sob o ponto de vista do estylo e inauditismo de Arte, quer ainda pela acção demolidora que tanto foi de seu empenho e naquella obra rajou desesperadamente, a paginas plenas, como em nenhum outro dos seus trabalhos.

[1] Terras do Sul.

III

O PAMPHLETARIO

Abre os _Gatos_ o aviso-cartaz de que o auctor se propõe tratar criticamente os homens e os acontecimentos, explicando, humoristicamente, o nome da publicação.

O primeiro folheto da serie tem a data de Agosto de 1889, e inaugura por um capitulo, pleno de paixão artistica, com seus esmaltes de irreverencia, e a que elle chamou:--_Bric-á-bracomania, como cultura e como doença._

No desenvolvimento da curiosa these encontra-se naturalmente com o caso do testamento de D. Fernando. Este caso foi um dos mais antipathicos e escandalosos do tempo, pois que accendeu nos Paços, com o odio da rainha pela condessa d'Edla, uma questão de familia burgueza, em que se discutiu tudo, desde a imaginada loucura lucida do principe, ao tempo das suas ultimas disposições, até ao valor e direito dos _bibelots_ e quadros do seu espolio!

Veio a questão para a rua, e, ainda dessa vez, rua e Paço se deram as mãos, na roda de insultos dirigidos á viuva de D. Fernando, sem attenção pela memoria deste principe, cuja probidade foi tratada sem sombra, não diremos já de justiça, mas de delicadeza.

Em nome dos republicanos dirigia, no _Seculo_, a campanha Rodrigues de Freitas, valha a verdade, serenamente. Por parte do Paço, e vestindo, mais uma vez, a innocente pelle do povo--. escrevia Emygdio Navarro, tratando cynicamente D. Fernando, em quem diagnosticara dois scirrhos--o da cara, que o levara á morte, e o do coração, que elle, Emygdio Navarro, se propunha sarjar publicamente, fazendo-lhe a historia na praça das _Novidades_, e isto, affirmava, por dignificar a memoria do Rei!

Fialho que, de facto, era um delicado, e, por accidente, se fizera politico, e, bem por certo, lhe repugnava toda aquella griteira, tratou tambem do caso moderadamente, chegando a lembrar até a arbitragem para resolver os direitos do espolio controvertido.

Ainda, por egual forma, trata a figura de D. Fernando, cujo perfil surprehende, sobretudo, á luz da sua aventura de amoroso e homem de Arte.

Assim visto, não podia elle deixar de lhe ser sympathico, e dahi tambem o seu elogio, mal disfarçado, como as attitudes em que o focou, e donde mal sobresahe o vulto, ao tempo tão acintosamente discutido, do Rei!

Quer dizer, em verdade, é ali presente a homenagem do Artista ao Artista, para lá de todo o convencionalismo critico, como de toda a exigencia publica.

Começa o segundo opusculo por um capitulo dedicado ao violoncellista Sergio, e que, neste proposito a que nos obrigamos, de mero indiciador das suas passagens de mais interesse e que melhor o mostram--mal podemos tratar condignamente.

Registe-se, no entretanto, o extremado capitulo, como um dos mais notaveis da sua obra, e, alem de tudo, a forma como elle, sempre tão presente nos seus livros, sabia, embora excepcionalmente, apagar-se, quando as circumstancias lhe conferiam Arte que um tal sacrificio valesse.

É o caso do violoncellista. Para no-lo descrever, Fialho quasi se apaga no café-concerto da Mouraria, em que o apresenta, e, onde, de facto, elle costumava ir, ás noites, transfigurando-o da sua Arte, cuja referencia é, ainda, como que a sombra resoante da alma tão extranhamente regressiva do Musico.

Paginas adiante, é tambem com paixão e valor equivalentes que, a proposito das exequias de D. Luiz, trata a figura da Rainha.

D. Maria Pia resalta do seu exame como uma resurreição dos grandes dramas reaes de Shakespeare, ou seja como um verdadeiro prodigio de alma, genialmente estatuada da sua tristeza de soberana-viuva, equilibrando-se no orgulho profissional da sua creação de princeza de raça, acaso abordada ás praias portuguezas.

Inegualavelmente soberba, de facto, a sua maneira de tratar a lendaria Rainha que surprehende nos funeraes do Rei como um alabastro solemne!

Assim a tinha sonhado, tanto como o Paço, a propria Rua que, entretanto, lhe perdoava tudo, ainda os mais custosos dispendios, tomando-a, mais do que como Rainha--como uma figura de luxo, especie de marmore vivo, por boa fatalidade, a soldo no Museu Real das Necessidades.

Tambem, por seu lado, ella cumpria escrupulosamente o papel a que, por sua mesma prosapia, se compromettera (fôra cheia de protocolo a sua escriptura de esponsaes)--e dahi o vê-la toda a gente mais do que cerimoniosa, theatral, quasi memoria, seguindo sempre, de par da sua lenda, de que ninguem, nem ainda os mais ousados, tentaram algum dia separá-la!

Quando endoideceu (a natureza é logica; que outra doença devia segui-la?) logo os jornaes vieram contar as parabolas da sua loucura, nos Paços de Cintra; corriam historias de _toilettes_ que jámais usara; e, por fim, enterneceu a sua retirada de Portugal, quando, na Ericeira partiu, tão magestosa e alheadamente, como annos antes, tinha chegado...

A differença dos dois espectaculos, estava, unicamente, no tempo, que daquelle passo final da sua vida tinha urdido mais uma tragedia!

Chegara solemnissima, recebida por toda a ordem de festas e alegrias officiaes; retirou, á opportunidade da primeira revolução, como uma rainha usada, que já não serve, e segue, á pressa, devolvida, ao paiz de origem.

Despedimo-nos com pezar destas paginas, que tão fundamente, por si, bastariam a vincar a alma do Artista, acaso nellas mal casada á sua preoccupação de pamphletario,--para derivar a outras que, na sua obra, dão o contraste da violencia, talvez, mais inopportuna e abrupta, que ainda instigou critica portugueza!

Reportamo-nos ao caso grosseiro das suas diatribes contra Guilherme de Azevedo que justiçou depois de morto, e declara analysar sobre uma pedra de autopsia, ainda sem piedade por si, como pelos leitores, e quando aquelle, já longe, havia ganho, ha muito, o esquecimento publico!

Na sua quasi diabolica sanha de deprimir vê-o primeiramente no seu logar de escrivão de fazenda em Santarem, onde o surprehende a passear os seus aleijões, de par das suas canseiras de lyrico e apaixonado ridiculo.

Depois examina-lhe, publicamente, os defeitos, as suas fraquezas e purgueiras de estrumoso, como a sua obra, na parte mais rebuscada, indo até pracear-lhe os papeis unhados pela lida do chronista!

Por fim, como que convida o publico a assistir-lhe á morte, em Pariz, numa casa de saude!

E, para o caso de que o publico falte, redige elle mesmo a informação da agonia do Artista, passada, esclarece, entre sujidades!

Ora eu não sei de outra hora tão extranhamente infeliz para um escriptor!

Do mais dos artistas contemporaneos, e, especialmente, dos pintores, é sabido o que escreveu de desalentador para elles que já, contra si, tinham tudo:--a rua, o mundo politico, o meio pobre em que trabalhavam, o paiz de origem, e toda a serie de prejuizos que, para mais, Fialho conhecia intimamente como ninguem!

Comtudo, nem Columbano escapou a esta sua impertinencia, por vezes de uma irritação doente, quasi atrabiliaria e descomposta, á conta da sua faina de exigir do mundo plastico, mais do que representações da natureza, verdadeiras telas vivas, porventura, a capricho, illuminadas das suas mesmas composições escriptas.

Dahi a sua injustiça para com o grande pintor que, no seu juizo facil da primeira hora, qualificou de mero artista hesitante, como que estagnado, «perdido, na monotonia cadaverica dos seus quadros de imitação!»

E, de identica maneira, tratava os outros.

Não lhe era facil fugir á fatalidade do seu genio, sempre em duvida, e que mascarava de desdens; para mais acossado pela circumstancia de viver, o mais do tempo, em Lisboa, onde os Artistas teem _ateliers_ paredes-meias, e a Arte anda sempre ao de cima das sympathias duma tal Cidade, ainda, como nenhuma outra, de entre as nossas, aberta a intimidades, mettediça, e pretenciosamente futil!

Dahi tambem a sua maneira, quasi mesquinha, de tratar a Politica e, em especial, os politicos.

A Carlos Lobo d'Avila, por exemplo, processa-o como degenerado.

Lopo Vaz é, para elle, um mero «preboste regio». A Barjona toma-o como um conselheiro de negocios, anecdotico e sujo. Hintze é uma especie de empresario de Portugal--feitoria-ingleza, figura dependente e quasi irresponsavel ás ordens da dynastia, e assim os outros.

A paixão do pamphletario céga-o a qualquer vislumbre de justiça para com politicos e assim tambem para com o Rei, que, ainda á maneira popular, considerava como figura enkystada no corpo governativo da Nacionalidade.

Dahi tambem o atacá-lo systematicamente, afeiando-o de todos os delictos, em que não deixou de figurar a pecha das mais ruins ingratidões, as já classicas ingratidões dos reis!

Quer dizer, consciente ou inconscientemente, foi, como todos os pamphletarios, um Orpheu da Rua, pelo menos até se sentir sacudido por ella.

E fossem lá insinuar ao seu aferro pelas chamadas reivindicações democraticas, que atraz da ingratidão dos reis, está sempre a ingratidão dos povos; que a França, por exemplo, politicamente radical, no curso de dezenas de annos, conserva no _Père Lachaise_ a ossada de Balzac, ao passo que carreou, ha muito, para o Pantheon Carnot e outros menores!

De que lhe serviria, de momento, o aviso? O que sempre enche a obra do pamphletario é a philosophia facil do odio ao Constituido, onde quer que elle se encontre. Emquanto ha reis, a culpa de tudo o que existe de mau, ou por tal passa, é dos reis; como é dos padres emquanto ha padres; dos validos emquanto ha validos; em ultimo logar, dos parlamentos; de tudo, emfim, o que o povo, em nome dos seus direitos, nunca até hoje definidos, organiza e desorganiza, menos a seu talante, do que ao acaso de uma esperança ou das gerações por apparecer!

E, comtudo, não falta nunca quem se dê a orchestrar a sua voz, por mais vaga, ou dissonante que ella seja.

É preciso que o escriptor tenha, mais do que talento, uma sensibilidade propria e escrupulosamente cerrada ao gosto publico, melhor ainda, religiosamente isenta, para que possa afastar, com desprezo, o applauso geral, repulsando, para longe, o titulo de dirigente, ou seja o de encantador das multidões, pelo qual, principalmente, o maior numero dos apostolos se bate.

E, em todo o caso, como aquella isenção é rara!

Ainda os de melhor fé e que se julgam de posse duma missão necessaria, raro chegam, por si, a conhecer do erro de excesso, em materia de reverencia e culto pelo publico!

O que, a miudo, se dá, é a inutilidade da sua faina, e isto pelo mesmo uso daquelle prestigio, ainda sujeito, como tudo, á acção do tempo que sómente, não consome as obras de sentido definitivo.

Este foi tambem o caso de Fialho que durante annos destruiu, sem treguas, confundindo, propositadamente, os principios e os homens, batendo, de toda a maneira, um systema que, sobretudo, foi erro não termos reformado dentro das nossas melhores tradições; e que elle, Fialho, como os demais contemporaneos escriptores politicos, reputaram fóra de toda a razão nacional.

É claro que deste erro se confessou mais tarde repeso--ou tenha sido quando as suas palavras offereciam menor echo--ao ver que, para os logares mais responsaveis, quando o antigo regime cahiu, o paiz, democratizado á força, não encontrou, de momento, para substituir o corpo official expulso, mais do que gente ousada, que mental e moralmente valia menos do que a anterior, que de si já estava muito abaixo da geração que a havia antecedido, e cuja herança nem sequer soubera defender!

É de justiça lembrar que tambem Fialho foi dos primeiros a corrigir os impetos dos pretendentes que, de todos os lados, surgiram com a sua conta de serviços; embora o facto valha unicamente a justificar a sua boa fé.

Era tarde. Á sombra das suas paginas, como das de Ramalho, Junqueiro, Eça e Bordallo, por lembrar os maiores, se tinham elles organizado de vez, entretanto que a alvorada do regime abria logicamente por um banquete!

Para mais, quasi todos os demolidores, companheiros de Fialho, tinham desapparecido. Ao acaso do tempo ficara, unicamente, Ramalho--velho, surdo a louvores como a insultos, fechado na sua cella de valetudinario, em Lisboa, de facto uma especie de santo de nicho do _bairro alto_, a quem já, a bem dizer, ninguem recorria, de cujos milagres ninguem mais queria saber...

Bordallo morrera, providencialmente, antes do bôdo.

Alem de que, quem se atreveria a continuar-lhe a obra? Onde o artista da sua coragem, á altura de um jornal nos moldes do _Antonio Maria_? Onde o redactor graphico do seu estylo, e, mais ainda, onde as personalidades-motivos a enchê-lo?

Como quer que seja, Fialho, leal ao que, de começo, se impuzera, tentou ainda o ultimo esforço, contra o muito do que succedera e lhe repugnava tanto como á consciencia, á sua sensibilidade, acuradissima, de Artista.

Era tarde, repetimos. Já ninguem o ouvia, demais que elle proprio tinha perdido o vigor das suas primeiras investidas!

E, entretanto, o Artista crescera ainda, depois das novas provações, ou antes tinha-se accrescentado daquella razão de amargura que a vida empresta sempre, cedo ou tarde, aos temperamentos da sua impressionabilidade, e que nelle deu a transfiguração notavel de um ousio artistico sem egual, e de que é, sobretudo, exemplo essa obra trasbordante da sua derradeira colheita--«_Barbear e Pentear_».

Este livro, sublinhado pela explicação amarga--_Jornal dum vagabundo_, que aliaz emprega noutras obras, attinge, effectivamente, o maximo da sua perfeição exquisita.

É ali que verdadeiramente elle trata a mulher-fada, tão de sua predilecção, e de quem se dá a referir a _toilete_, á luz dos móres recursos, escrevendo da sua razão de vestir, como arte maxima; das joias que redundam do seu imaginar em preciosos esmaltes vivos, especie de insectos inertes, quasi pedras mornas por não arrepiarem a carne-seda das animadas estatuas que são chamadas a guarnecer;--de tudo, emfim, o que do abraço caprichoso da arte e da natureza elle poude aventurar de imprevisto na ideação dum espectaculo para embriagar sensibilidades!

E, de facto, chega ás maiores extranhezas de gosto na inventiva daquelle livro, e especialmente no seu capitulo:--_Juizo do Anno_, quer pelo turbilhão de côr que delle entorna, quer, sobretudo, pelo seu empenho de phantasia e _nuance_ ali expressos, como ainda pela circumstancia de considerar a mulher o que, porventura, virá um dia a ser, um caso de perfeição sómente, quando a natureza mais accordada com o homem, sahir de sua attitude esphingica, e isto ainda por viver com elle uma futura vida luxuriosa, sem medos e sem pecados...

As _Pasquinadas_ e o _Á Esquina_ subordinam-se á mesma rubrica:--_Jornal dum vagabundo._

Nesta ultima obra ha de tudo:--paginas notaveis e criticas de menos folgo.

São do melhor interesse as que abrem o livro e titulou:--_Autobiographia_; e devem ter-se como supremas aquellas em que nos descreve os _Ceifeiros_, como as que referem as suas impressões da Atalaya e Exposição-Bordallo.

Tambem este livro inclue umas notas a que deu a epigraphe:--_Problema taurino_, e que, já agora, glosaremos, embora de fugida.

Neste capitulo lança o Escriptor á balha a idéa do toureio a serio nas praças portuguezas, o que vale informar:--a opinião da morte do touro, com os demais episodios sangrentos dos curros hespanhoes.

Ora a proposta, se foi sincera, destoa, a nosso ver, da sagacidade do critico, acaso perturbada pela paixão do aficionado e homem do sul, paredes-meias da Hespanha e seus costumes.

O portuguez habituou-se facilmente á morte pela associação politica; aceita, como de direito, o assassinato por adulterio, e toda a ordem de morte por um delicto sectarista ou passional; o que elle jámais decretará é a morte por uma razão de Arte, e isto pelo mesmo facto de não comprehender outro sacrificio que não seja para sagrar ou colher interesse.

Ora, para elle, o toureio, ainda como exposição de vida e educação de raça, não tem interesse.

As _Pasquinadas_ reunem uma serie de artigos de impressão rapida--instantaneos dos acontecimentos e pessoas de occasião.

Entretanto, como se tenha dado o caso de ter sido obrigado a tratar de figuras da categoria de Camillo e Sarah Bernhardt, este livro inclue, a seu proposito, paginas que, bem por certo, ficarão ainda como documentos da sua desproporcionada maneira de considerar os grandes artistas!

Insurgia-se elle, a espaços, contra as lettras, friamente rigorosas, dos modelos mais classicos e academicos.

E, de facto, importava-lhe sahir não só das velhas disposições, como ainda dos recursos em uso, por inteiro alheios ao genio, mais que revolucionario, desmedido, daquelles dois vultos, que, por isso mesmo, tratou, não só fóra de todos os moldes, mas, mais ainda, fóra do tempo.

A _Lisboa Galante_, outro livro de voga, comprehende, em geral, episodios e aspectos de cidade, por entre apontamentos de casos minimos, por communs, a todos os logares de accumulação.

Entretanto, ainda ahi Fialho incluiu phantasias e situações admiraveis, haja em vista o conto--_Amor de velhos_; e, sobretudo, a _Chavena da China_, porcellanas da sua maior delicadeza e inventiva.

Passaremos á pressa sobre o livro--_Saibam quantos..._ não só porque literariamente o não accrescenta, como pela circumstancia de nelle ter reunido cartas e artigos politicos que valem, meramente, como actos de sua contrição.

Archivemos, no emtanto, do capitulo--_A morte do Rei_, o seu leal proposito de homenagem a D. Carlos, a cujo caracter, por fim, concede as mais complexas facetas, e a impossibilidade de falar destas em paginas resumidas, como as que, de momento, lhe consagra; e, mais ainda, como fecho dellas, o seguinte:--«Pobre D. Carlos! quando se pensa que afinal era mais intelligente e teve talvez virtudes superiores ás dos seus adversarios, e por não dizer ás dos seus cumplices...»

Eis, finalmente, palavras suas, ácerca de D. Carlos, alinhadas, talvez, sobre a impressão da morte brutal do rei, á hora, quem sabe? em que o seu cadaver, abandonado de todos, presidente do Conselho incluso, lhe dava a lembrar a calumnia, tanta vez pelo pamphletario, contra elle, escripta, de primeiro responsavel da desordem a que o paiz descera!