Chapter 2
Seus esforços foram vãos ao princípio. Despeitado interrogou Fernanda, mas esta não só não o iluminou na dúvida, senão que o desconcertou com uma apóstrofe de simulada indignação.
Soares julgou dever-se recolher aos quartéis da expectativa.
Estavam as coisas neste pé quando o parente de Madalena que levara Fernando à Europa deu um sarau por motivo do aniversário de sua mulher.
Não só Fernando, como Soares e Fernanda, foram convidados para aquele sarau.
Fernando, como disse, já ia a essas reuniões por vontade própria e natural desejo de aviventar o espírito.
Neste alguma coisa mais o esperava, além da simples e geral distração.
Quando Fernando chegou ao sarau, seriam onze horas da noite, cantava ao piano uma moça de 22 anos, alta, pálida, de olhos e cabelos pretos, a quem chamavam todos Teresa.
Fernando chegou a tempo de ouvir toda a canção que a moça cantou, inspirada e febril.
Quando ela acabou, um murmúrio de aprovação soou em toda a assembléia, e no meio da confusão em que o entusiasmo deixara todos, Fernando, mais instintiva que voluntariamente, atravessou a sala e foi dar o braço a Teresa para conduzi-la à sua cadeira.
Nesse momento o anjo dos destinos escrevera no livro dos amores mais um amor, o de Teresa e Fernando.
O súbito efeito produzido no coração de Fernando pelo canto de Teresa não foi só resultado da magia e do sentimento com que esta cantara. Durante as primeiras notas, isto é, quando a alma de Teresa ainda se não tinha derramado toda na voz argentina e apaixonada, Fernando pôde conversar com alguns rapazes a respeito da cantora. Disseram-lhe que era uma donzela desprezada no amor que votara a um homem; profetizaram a paixão com que ela cantaria, e por fim indicaram-lhe, a um lado da sala, a figura indiferente ou antes zombeteira do traidor daquele coração. A identidade das situações e dos sentimentos foi o primeiro elo da simpatia de Fernando para com Teresa. O canto confirmou e desenvolveu a primeira impressão. Quando Teresa acabou, Fernando não se pôde ter e foi prestar-lhe o apoio do seu braço para voltar à cadeira que ficava junto de sua mãe.
Durante a noite Fernando sentiu-se mais e mais impressionado pela bela desdenhada. No fim do sarau estava decidido. Devia amar aquela mulher e fazer-se amar por ela.
Mas como? Ainda no coração de Teresa existia alguma coisa da flama antiga. Era aquele o estado em que o seu coração ficou logo desde que soube da perfídia de Fernanda. O moço contava com o apaziguamento da primeira paixão, de modo que um dia os dois corações desprezados se ligassem em um mesmo amor e envergonhassem por uma união sincera aqueles que os não tinham compreendido.
Esta nova mudança no espírito de Fernando escapou, a princípio, à mulher de Soares. Devo dizê-lo, se ainda algum leitor não o compreendeu, que Fernanda estava de novo apaixonada por Fernando; mas agora era um amor egoísta, calculado, talvez misturado de remorso, um amor com que ela pretendia, resgatando a culpa, quebrar de uma vez a justa indignação do seu primeiro amante.
Não reparando o moço nas reticências, nos suspiros, nos olhares, em todos esses anúncios do amor, ficando insensível às mudas revelações da esposa de Soares, resolveu esta ser mais explícita um dia em que conversava a sós com Fernando.
Era um mau passo que dava, e em sua consciência de mulher casada, Fernanda conhecia o erro e temia as conseqüências. Mas o amor próprio leva longe quando se apossa do coração humano. Fernanda, depois de hesitar um pouco, determinou-se a tentar o seu projeto. Fernando foi de bronze. Quando a conversação tomou um caminho mais positivo, Fernando fez-se sério e declarou à mulher de Soares que não podia amá-la, que o seu coração estava morto, e que, mesmo que revivesse, seria pela ação de um hálito mais puro, à luz de um olhar mais sincero.
Dito isto, retirou-se. Fernanda não desesperou. Pensou que a constância seria uma arma poderosa, e acreditou que só no romance ou na comédia podiam existir tais firmezas de caráter.
Esperou.
Esperou em vão.
O amor de Fernando por Teresa crescia mais e mais; Teresa atravessava, uma por uma, as fases por que passara o coração de Fernando. Era outra; o tempo trouxe o desprezo e o esquecimento. Uma vez esquecido o primeiro amor, que restava mais? Cicatrizar as feridas adquiridas no combate; e que melhor meio de cicatrizá-las que aceitando o concurso de uma mão amiga e simpática? Tais foram os preliminares do amor de Fernando e Teresa. O conforto comum trouxe a afeição recíproca. Um dia descobriu Teresa que amava aquele homem. Quando dois corações se querem entender, ainda que falem hebraico, descobrem-se logo um ao outro. No fim de algum tempo foi jurada entre ambos uma sincera e eterna fidelidade.
Fernanda não foi das últimas a saber da nova paixão de Fernando. Desesperou. Se o coração entrava por pouco no amor que confessara ao médico, se era mais o amor-próprio a razão de ser dessa paixão culpada, foi ainda o amor-próprio, e mais indomável, que se apoderou do espírito de Fernanda e induziu-a a queimar o último cartucho.
Desgraçadamente, nem o primeiro nem o último cartucho eram de incendiar, com um fogo criminoso, o coração de Fernando. O caráter de Fernando era mais elevado que o dos homens que rodeavam a esposa de Soares, de maneira que, supondo dominar, Fernanda achou-se dominada e humilhada.
Neste ponto devo transcrever uma carta de Fernando ao parente em cuja casa vira Teresa pela primeira vez.
Meu bom amigo, dizia ele, está na sua mão concorrer para a minha felicidade, ou antes completá-la, porque foi em sua casa que eu comecei a adquiri-la.
Sabe que amo a D. Teresa, aquela interessante moça abandonada no amor que votava ao F... Conhece ainda a história do meu primeiro amor. Somos dois corações igualados pelo infortúnio; o amor pode completar a nossa fraternidade.
E deveras nos amamos, nada se pode opor à minha felicidade; o que eu desejo é que me ajude neste negócio, assistindo o meu acanhamento com o seu conselho e a sua mediação.
Tenho ânsia de ser feliz; é a melhor ocasião; entrever, por uma porta aberta, as glórias do paraíso, sem fazer um esforço para gozar da luz eterna, fora loucura. Não quero para o futuro um remorso e uma dor.
Conto que as minhas aspirações sejam satisfeitas e que eu tenha mais um motivo de ser-lhe eternamente grato. — Fernando.
Daí a dois dias, graças à intervenção do referido parente, que aliás fora desnecessária, Teresa estava prometida a Fernando.
O último lance desta simples narrativa passou-se em casa de Soares.
Soares, mais e mais desconfiado, lutava com Fernanda para conhecer as disposições do seu coração e as determinações de sua vontade. Andava escuro o céu daquele casamento, realizado sob tão maus auspícios. Desde muito que a tranqüilidade desaparecera dali, deixando o desgosto, o tédio, a desconfiança.
— Se eu soubera, dizia Soares, que no fim de tão pouco tempo a senhora me faria beber fel e vinagre, não teria prosseguido em uma paixão que foi o meu castigo.
Fernanda, muda e distraída, mirava-se de quando em quando em um psyché, corrigindo o penteado ou simplesmente admirando a esquivança desarrazoada de Fernando.
Soares insistia no mesmo tom meio sentimental.
Afinal, Fernanda respondia desabridamente, exprobrando-lhe o insulto que fazia à sinceridade dos seus protestos.
— Mas esses protestos, disse Soares, é que eu não ouço; é exatamente o que eu peço; jure que eu estou em erro e fico contente. Há uma hora que lho digo.
— Pois sim...
— O quê?
— Está em erro.
— Fernanda, juras-me isso?
— Juro, sim...
Entrou um escravo com uma carta para Fernanda; Soares deitou um olhar para o sobrescrito e reconheceu a letra de Fernando. Contudo, depois do juramento de Fernanda não quis ser o primeiro a ler a carta, esperou que ela começasse.
Mas Fernanda, estremecendo à vista da letra e do mimo do papel, guardou a carta, mandando embora o escravo.
— De quem é essa carta?
— É de mamãe.
Soares estremeceu.
— Por que não a lês?
— Já sei o que é.
— Oh! é demais!
E levantando-se de sua cadeira dirigiu-se para Fernanda.
— Vamos ler essa carta.
— Depois...
— Não; há de ser já!
Fernanda resistiu, Soares insistiu. Depois de algum tempo viu Fernanda que lhe era impossível guardar a carta. E por que a guardaria? Fernanda cuidava ainda que, melhor avisado, Fernando voltasse a aceitar o coração ofertado e recusado. A vaidade produzia este erro.
Aberta a carta, eis o que Soares leu: Mana. Sábado dezessete caso-me eu com D. Teresa G... É um casamento de amor. Peço-lhe que dê parte disto a meu cunhado, e que ambos venham ornar a pequena festa desta união. Seu irmão. — Fernando.
A decepção de Fernanda foi grande. Mas pôde dissimulá-la algum tempo; Soares vendo o conteúdo da carta e acreditando que sua mulher apenas quisera entretê-lo com um engano, pagou-lhe em beijos e carícias a felicidade que semelhante descoberta lhe deu.
É inútil dizer que Fernanda não foi assistir ao casamento de Fernando e Teresa. Pretextou moléstia e lá não pôs os pés. Nem por isso a festa foi menos brilhante. Madalena estava feliz e contente vendo o contentamento e a felicidade de seu filho.
Daí para cá, vai para três anos, o casamento de Fernando e Teresa é um paraíso, em que ambos, novo Adão e nova Eva, gozam da paz do espírito, sem intervenção da serpente nem conhecimento do fruto do mal.
Não menos feliz é o casal Soares, ao qual voltaram, depois de algum tempo, os dias saudosos da pieguice e da puerilidade.
Se algum leitor achar esta história muito nua de interesse, reflita nestas palavras que Fernando repete aos amigos que costumam visitá-lo:
— Consegui uma das coisas mais raras no mundo: a perfeita conformidade das intenções e dos sentimentos entre duas criaturas, tão longe educadas e tanto tempo separadas e desconhecidas uma para outra. É que aprenderam na escola do infortúnio.
Vê-se, ao menos nisto, uma máxima em ação.
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