Chapter 2
Moço Co dinheiro que leixais Não comerei eu galinhas... Escudeiro Vae-te tu por essas vinhas, Que diabo queres mais? Moço Olhai, olhai, como rima! E depois de ida a vindima? Escudeiro Apanha desse rabisco. Moço Pesar ora de São Pisco! Convidarei minha prima... E o rabisco acabado, Ir me-ei espojar às eiras? Escudeiro Vai-te per essas figueiras, E farta-te, desmazelado! Moço Assi? Escudeiro Pois que cuidavas? E depois virão as favas. Conheces túbaras da terra? Moço I-vos vós, embora, à guerra, Que eu vos guardarei oitavas...
Ido o Escudeiro, diz o Moço: Senhora, o que ele mandou Não posso menos fazer. Inês Pois que te dá de comer Faze o que t'encomendou. Moço Vós fartai-vos de lavrar Eu me vou desenfadar Com essas moças lá fora: Vós perdoai-me, senhora, Porque vos hei-de fechar.
Aqui fica Inês Pereira só, fechada, lavrando e cantando esta cantiga:
Inês «Quem bem tem e mal escolhe Por mal que lhe venha não s'anoje.» Renego da discrição Comendo ò demo o aviso, Que sempre cuidei que nisso Estava a boa condição. Cuidei que fossem cavaleiros Fidalgos e escudeiros, Não cheios de desvarios, E em suas casas macios, E na guerra lastimeiros. Vede que cavalarias, Vede que já mouros mata Quem sua mulher maltrata Sem lhe dar de paz um dia! Sempre eu ouvi dizer Que o homem que isto fizer Nunca mata drago em vale Nem mouro que chamem Ale: E assi deve de ser. Juro em todo meu sentido Que se solteira me vejo, Assi como eu desejo, Que eu saiba escolher marido, À boa fé, sem mau engano, Pacífico todo o ano, E que ande a meu mandar Havia m'eu de vingar Deste mal e deste dano!
Entra o Moço com uma carta de Arzila, e diz:
Moço Esta carta vem d’Além Creio que é de meu senhor.
Inês Mostrai cá, meu guarda-mor E veremos o que i vem. Lê o sobrescrito. «À mui prezada senhora Inês Pereira da Grã, À senhora minha irmã.» De meu irmão...Venha embora!
Moço Vosso irmão está em Arzila? Eu apostarei que i vem Nova de meu senhor também. Inês Já ele partiu de Tavila? Moço Há três meses que é passado. Inês Aqui virá logo recado Se lhe vai bem, ou que faz. Moço Bem pequena é a carta assaz! Inês Carta de homem avisado.
Lê Inês Pereira a carta, a qual diz: «Muito honrada irmã, Esforçai o coração E tomai por devação De querer o que Deus quiser.» E isto que quer dizer? «E não vos maravilheis De cousa que o mundo faça, Que sempre nos embaraça Com cousas. Sabei que indo Vosso marido fugindo Da batalha pera a vila, A meia légua de Arzila, O matou um mouro pastor.» Moço Ó meu amo e meu senhor!
Inês Dai-me vós cá essa chave E i buscar vossa vida. Moço Oh que triste despedida! Inês Mas que nova tão suave! Desatado é o nó. Se eu por ele ponho dó, O Diabo me arrebente! Pera mim era valente, E matou-o um mouro só! Guardar de cavaleirão, Barbudo, repetenado, Que em figura de avisado É malino e sotrancão. Agora quero tomar Pera boa vida gozar, Um muito manso marido. Não no quero já sabido, Pois tão caro há de custar.
Aqui vem Lianor Vaz, e finge Inês Pereira estar chorando, e diz Lianor Vaz:
Lianor Como estais, Inês Pereira? Inês Muito triste, Lianor Vaz. Lianor Que fareis ao que Deus faz? Inês Casei por minha canseira. Lianor Se ficaste prenhe basta. Inês Bem quisera eu dele casta, Mas não quis minha ventura. Lianor Filha, não tomeis tristura, Que a morte a todos gasta. O que havedes de fazer? Casade-vos, filha minha. Inês Jesu! Jesu! Tão asinha! Isso me haveis de dizer? Quem perdeu um tal marido, Tão discreto e tão sabido, E tão amigo de minha vida? Lianor Dai isso por esquecido, E buscai outra guarida. Pêro Marques tem, que herdou, Fazenda de mil cruzados. Mas vós quereis avisados... Inês Não! já esse tempo passou. Sobre quantos mestres são Experiência dá lição. Lianor Pois tendes esse saber Querei ora a quem vos quer Dai ò demo a opinião.
Vai Lianor Vaz por Pêro Marques, e fica Inês Pereira só, dizendo:
Inês Andar! Pêro Marques seja. Quero tomar por esposo Quem se tenha por ditoso De cada vez que me veja. Por usar de siso mero, Asno que me leve quero, E não cavalo folão. Antes lebre que leão, Antes lavrador que Nero.
Vem Lionor Vaz com Pêro Marquez e diz Lianor Vaz:
Lianor Nô mais cerimónias agora; Abraçai Inês Pereira Por mulher e por parceira.
Pêro Marques Há homem empacho, má-hora, Cant'a dizer abraçar.. Depois que a eu usar Entonces poderá ser: Inês (à parte) Não lhe quero mais saber Já me quero contentar... Lianor Ora dai-me essa mão cá. Sabeis as palavras, si? Pêro Marques Ensinaram-mas a mi, Porém esquecem-me já... Lianor Ora dizei como digo. Pêro Marques E tendes vós aqui trigo Pera nos jeitar por riba? Lianor Inda é cedo... Como rima! Pêro Marques Soma, vós casais comigo, E eu com vosco, pardelhas! Não cumpre aqui mais falar E quando vos eu negar Que me cortem as orelhas. Lianor Vou-me, ficai-vos embora. Inês Marido, sairei eu agora, Que há muito que não saí? Pêro Marques Si, mulher saí-vos i, Qu'eu me irei pera fora.
Inês Marido, não digo isso. Pêro Marques Pois que dizeis vós, mulher? Inês Ir folgar onde eu quiser Pêro Marques I onde quiserdes ir, Vinde quando quiserdes vir Estai onde quiserdes estar. Com que podeis vós folgar Qu'eu não deva consentir?
Vem um Ermitão a pedir esmola, que em moço lhe quis bem, e diz: Señores, por caridad Dad limosna al dolorido Ermitaño de Cupido Para siempre en soledad. Pues su siervo soy nacido. Por ejemplo, Me meti en su santo templo Ermitaño en pobre ermita, Fabricada de infinita Tristeza en que contemplo, Adonde rezo mis horas Y mis dias y mis años, Mis servicios y mis daños, Donde tu, mi alma, Iloras El fin de tantos engaños. Y acabando Las horas, todas llorando, Tomo las cuentas una y una, Con que tomo a la fortuna Cuenta del mal en que ando, Sin esperar paga alguna. Y ansi sin esperanza De cobrar lo merecido, Sirvo alli mis dias Cupido Con tanto amor sin mudanza, Que soy su santo escogido. Ó señores, Los que bien os va d'amores, Dad limosna al sin holgura, Que habita en sierra oscura, Uno de los amadores Que tuvo menos ventura. Y rogaré al Dios de mi, En quien mis sentìdos traigo, Que recibais mejor pago De lo que yo recebi En esta vida que hago. Y rezaré Com gran devocion y fé, Que Dios os libre d’engaño, Que esso me hizo ermitaño, Y pera siempre seré, Pues pera siempre es mi daño.
Inês Olhai cá, marido amigo, Eu tenho por devação Dar esmola a um ermitão. E não vades vós comigo Pêro Marques I-vos embora, mulher Não tenho lá que fazer
(Inês fala a sós com o Ermitão): Tomai a esmola, padre, lá, Pois que Deus vos trouxe aqui. Ermitão Sea por amor de mi Vuesa buena caridad. Deo gratias, mi señora! La limosna mata el pecado, Pero vos teneis cuidado De matar-me cada hora. Deveis saber Para merced me hacer Que por vos soy ermitaño. Y aun más os desengaño: Que esperanças de os ver Me hizieron vestir tal paño.
Inês Jesu, Jesu! manas minhas! Sois vós aquele que um dia Em casa de minha tia Me mandastes camarinhas, E quando aprendia a lavrar Mandáveis-me tanta cousinha? Eu era ainda Inesinha, Não vos queria falar.
Ermitão Señora, tengo-os servido Y vos a mi despreciado; Haced que el tiempo pasado No se cuente por perdido. Inês Padre, mui bem vos entendo Ó demo vos encomendo, Que bem sabeis vós pedir! Eu determino lá d'ir À ermida, Deus querendo.
Ermitão E quando? Inês I-vos, meu santo, Que eu irei um dia destes Muito cedo, muito prestes. Ermitão Señora, yo me voy en tanto.
(Inês torna para Pêro Marques):
Inês Em tudo é boa a concrusão. Marido, aquele ermitão É um anjinho de Deus... Pêro Marques Corregê vós esses véus E ponde-vos em feição. Inês Sabeis vós o que eu queria? Pêro Marques Que quereis, minha mulher? Inês Que houvésseis por prazer De irmos lá em romaria.
Pêro Marques Seja logo, sem deter Inês Este caminho é comprido... Contai uma história, marido. Pêro Marques Bofá que me praz, mulher Inês Passemos primeiro o rio. Descalçai-vos. Pêro Marques E pois como? Inês E levar me-eis no ombro, Não me corte a madre o frio.
Põe-se Inês Pereira às costas do marido, e diz:
Inês Marido, assi me levade. Pêro Marques Ides à vossa vontade? Inês Como estar no Paraíso! Pêro Marques Muito folgo eu com isso. Inês Esperade ora, esperade! Olhai que lousas aquelas, Pera poer as talhas nelas! Pêro Marques Quereis que as leve? Inês Si. Uma aqui e outra aqui. Oh como folgo com elas! Cantemos, marido, quereis? Pêro Marques Eu não saberei entoar.. Inês Pois eu hei só de cantar E vós me respondereis Cada vez que eu acabar: «Pois assi se fazem as cousas». Canta Inês Pereira: Inês «Marido cuco me levades E mais duas lousas.» Pêro Marques «Pois assi se fazem as cousas.» Inês «Bem sabedes vós, marido, Quanto vos amo. Sempre fostes percebido Pera gamo. Carregado ides, noss'amo, Com duas lousas.» Pêro Marques «Pois assi se fazem as cousas» Inês «Bem sabedes vós, marido, Quanto vos quero. Sempre fostes percebido Pera cervo. Agora vos tomou o demo Com duas lousas.» Pêro Marques «Pois assi se fazem as cousas.»
E assi se vão, e se acaba o dito Auto.
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