Fanny: estudo

Chapter 8

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Fiquei immovel a escutar o silencio, interrompido apenas pelas precipitadas pulsações do coração. Perto de mim, uma janella alumiada como um grande quadrado de luz, branqueava de clarão baço, a parede innegrecida da casa. Baixando-me sobre os joelhos, enxerguei que esta janella não estava de toda fechada. As beiras das portadas tocavam-se, mas deixavam coar uma resteasinha de luz. Duas cortinas de cassa branca, pendentes diante das vidraças, deixavam-me vêr todo o quarto através d'um alvadio de leite que esfumava um pouco os objectos.

Lembra-me tudo isto. No fundo do quarto havia um grande leito, e sobre este, uma corôa de ebano lavrado donde pendiam cortinas de estofo escuro que contrastavam com a brancura dos lençoes. Á esquerda da cama, um tapete estreito, á direita, uma commoda; ao pé da chaminé uma poltrona de espaldar muito alto. Que sei eu? Creio que outros moveis estavam lá, mas eu não reparei. Ao principio, não vi ninguem no quarto, alumiado desigualmente, por um grande candieiro de cobre, coberto de quebra-luz, que dardejava sobre o pavimento os raios, deixando o tecto escuro. O leito ficava assim cortado longitudinalmente pela zona luminosa. Como quer que eu me chegasse á vidraça para examinar se elle estava occupado, uma sombra passou lenta entre o candieiro e a janella, desenhando-se nas cortinas brancas. Pulsou-me o coração mais rijo. Agachei-me rente com a sala, recuando um pouco.

Reconhecio-o. Era elle. Ainda o vejo. A viração tepida da noite de agosto, suspirava á volta de mim na folhagem; cantava um passaro entre os arbustos; a terra vaporava odores balsamicos; mas eu não via, não sentia, não investigava senão elle. Alongando o pescoço para ajustar os olhos á entre-aberta da janella, vi-o, com espasmo mudo, como se fosse para mim coisa extraordinaria vêl-o de pé n'um quarto de sua casa. Tinha os pés nus em amplas moiras de marroquim amarello; afivellava nos encontros uma larga calça branca de flanella. Despeitorado, arregaçado o colleirinho, arremangada a camiza, ia e vinha pelo quarto, fumando um charuto, dando corda ao relogio, mirando-se ao espelho, e esticando os braços. Assentou-se depois na grande cadeira encoirada, cruzou uma perna sobre o joelho da outra, e bamboando-a deixou cahir a chinela. D'onde eu estava, via-lhe perfeitamente a sola do pé nú levantada ao nivel dos meus olhos, e o braço carnudo descançado sobre o encosto da cadeira. O outro braço subia e baixava do joelho para o rosto, quando levava aos beiços o charuto, cujo fumo odorifero se exhalava até mim.

De repente, voltou a cara para uma porta que eu não tinha devisado, collocada ao pé do leito. Esta porta estava aberta, e no inquadramento obscuro que ella cortava no fundo do quarto, vi, duvidoso da minha razão, uma fórma vaga alumiada em rosto por um castiçal que ella trazia.

Potestades do céo! Era ella! Oh Deus! por que me não fulminaste n'aquelle momento!

Entrou vagarosamente, depoz o castiçal sobre a commoda, e, atravessando longitudinalmente o recinto, foi direita a elle, que a observava tranquillo, e sem levantar-se.

Fanny estava meio vestida com aquelle desleixado traje que eu lhe vira algumas vezes pelas manhãs, quando, ao sahir da cama, passeava no jardim com os filhos. Era um chambrão muito farto de cachemira azul aberta no peito, entre flocos de cambraia, deixando vêr o começo dos seios. Sahiam-lhe das largas mangas os braços nús. Trazia desmanchados negligentemente os cabellos, apanhados sobre as faces lizas, e apertados por grossos tufos sobre a nuca. Aquelle eterno porte de placido pudor, lá o apparentava no semblante.

Mas que vinha ella fazer alli a tal hora? quem lhe pedira isso? Não póde a recordação do amante retêl-a no limiar d'aquella porta? Dir-se-hia que ella nem se quer se lembrava de ter jurado, nem lhe passava pela mente a existencia d'algum homem para ella, senão aquelle que alli estava sentado, encarando-a, sereno como ella.

Fuzilou-me na alma um relampago de esperança, mas foi relampago. Abaixado sobre os joelhos e as mãos, embaciado o vidro pelo meu bafo, senti oscillar-me os braços como se o balcão estremecesse debaixo de mim. Suor de agonia, acre e frio, me banhava a face e os membros; rangiam-me os dentes, cahi, desfallecido, como arvore tombada ao ultimo golpe do machado. Mas ouvi palavras; e, repuchando quantas forças tinha, ergui-me sobre os joelhos e punhos.

Via-a andar mansamente d'um para o outro lado do quarto. Tocava, vagamente, e como em distracção nos objectos de sobre os moveis, tal qual costumava fazer em minha casa. E o marido tendo-a sempre d'olho. Fallavam; mas a minha commoção só me deixava ouvir um murmurinho. Rodeava-o ella, socegada e perfida, com os seus azues e suaves olhos, e apparencias de simpleza vaga. A instantes, sorria um sorriso melancolico. Quiz vêr n'esse rir, que lhe dilatava os labios sem illuminar-lhe o olhar, alguma coisa forçada. Não se mostrava pensativa, nem contemplativa, nem commovida. Estava perfeitamente á sua vontade, natural e tranquilla. Bem sabia ella que a sua grande magia era a irritadora tranquillidade.

O marido riu tambem, por sua vez. Vi-lhe o brilho dos seus alvos dentes. Dava mostras de defender-se ingenuamente d'uma accusação que ella fazia, sem cólera, mas como uma malignidade gracejadora, que não era isempta de desdem e altivez. Discutiam tão pacificamente que pareciam nenhum acreditar na realidade da sua disputa familiar. A final, debaixo da testa quadrada do marido, brilharam mortiços os olhos; e, quando ella perpassava diante d'elle, rossando-lhe com o vestido o pé, a decisão foi prompta; calçou a moira; e tirando brandamente pela cintura da mulher, sem resistencia, fêl-a assentar no seu joelho.

Saltaram-me as lagrimas então, lagrimas ardentes, que as palpebras não podiam reprezar, e desceram silenciosas pelas faces até aos labios. Emfim, comprehendia tudo; via a profanação, posto que a não quizesse vêr; affirmava que não era sonho aquillo, e queria duvidar. Não posso exprimir o que então se apartava de mim, o melhor de minha essencia, e o mal que me fazia vêr aquella mulher, que eu adorava, nos braços d'outro.

Fanny continuava sentada com as mãos cruzadas sobre os joelhos, e com os olhos no marido, conversava serenamente. Nada ha ahi mais casto que a simplicidade da sua attitude, a pureza do seu perfil, e aquella expressão dos olhos azues. No entanto elle, comprimindo-a cingida pela cinta, amimava-lhe a face com a mão livre. A final, Fanny lançou-lhe por sobre o hombro o braço esquerdo, e pendeu para elle langorosamente. Vi-lhe então as costas, cobertas de tranças dos cabellos, e o vestido fazia roda por largo espaço com impudor esplendido. Oh! como a abominavel creatura cheia de graça e lascivia se aconchegava d'aquella espadua robusta!

--É impossivel aquillo!--gritei eu em minha consciencia.--Não ha-de ser assim!--Mas elle abraçou-a, collando a boca espessa ás puras faces d'ella, e não sei o que lhe disse a meia voz. Fanny fez um gesto negativo com a cabeça, muitas vezes, sem córar. Elle, por cortezia, insistiu sorrindo, e ella, resistindo, pouco e pouco se rendia! Mulher scelerada! como ella prolongava o meu supplicio! O debate mudo, durou algum tempo. Não sei como foi que o sinto se lhe despregou, e rolou nas dobras do vestido. E eu chorava sempre. Levantou-se ella em fim, aquella mulher de resplendores e flôres, e, por um só movimento de braços e hombros, fez escorregar o chambre até aos pés. Eu cahi de joelhos, e ergui as mãos, como a exorar piedade. Ella tirou com afan, os pés do monte de estofos, e, um tanto pallida, mas em silencio, caminhou para o leito, achegando ao peito as ultimas coberturas. Quantas vezes a vira eu assim impallidecer! Cravei as unhas no rosto. O marido ia depós ella, vagarosamente.

E eu sem uma arma! Eu queria immediatamente estrangulal-a, espedaçal-a, ingolphar meus braços nas entranhas d'aquella mulher estupida. Com todo o sangue d'ella, não se apagaria o ardôr da minha tortura. Arquejante como o tigre, que vê a garra do leão cravada na sua preza, ergui-me a prumo, ferrei as unhas contra os dentes, escorria-me o suor da face, soluçava, como em arrancos de morte, estrebuchava, e via os horrores d'aquelle quarto.--Piedade! piedade!--foi o meu grito! E furioso, e perdido, avançara um passo! mas os cabellos heriçaram-se-me, e os olhos saltavam-me das orbitas, e a minha vista acerada entrou como um punhal nos cortinados sombrios, e vi... vi tudo! Quiz ir ávante, e não pude. A punição pregava-me os pés á balaustrada, e de minha bôca sahiam gargalhadas de demonio. Que horror! Eu testemunha d'aquelle espectaculo, a rir, como um doudo, a comprazer-me d'um jubilo que não tem nome nas linguas humanas! Tentei de novo avançar, por que ouvira suspiros, e queria saber qual das duas bôcas os exhalavam. Por um esforço prodigioso dos meus musculos todos, cheguei a despregar o hombro da parede, e dei ainda um passo; mas por que ao coração intumecido me refluira todo o sangue, perdi o equilibrio, e cahi como um pezo inerte sobre o balcão.

LXVIII

Quando cobrei o alento, estava a janella fechada e apagada a luz. Corri as mãos sobre os vidros impenetraveis. Corri a baranda em toda a sua extenção; tudo apagado, tudo fechado, dormia tudo. Dominava-me uma raiva glacial. Á custa de tudo, eu queria remirar esta mulher que eu detestava com o coração, com a alma, com os sentidos, com todo o meu ser. Mas ir até ella, como? Pendurei-me na rampa, e deixei-me cahir ao jardim. Rodiei vinte vezes a casa, empurrando todas as portas; mas a minha fraqueza não podia com ellas. Finalmente, atirei-me ao chão, e ahi, com o rosto entre as mãos, desafoguei-me em soluços.

--Trahido! trahido!--bramia eu, com monotonia desesperadora.--E o céo impassivel!--De subito ergui-me, e, sem idéa fixa, atravessei as trévas, rapido como se me viessem perseguindo assassinos. Precorri a tapada; saltei o muro, atravessei a estrada, entrei nos campos, e a correr sempre, com a cabeça nua, chorando e fallando sósinho, atirei-me como um attribulado gamo, que foge com os dentes de matilha feroz incravados nos flancos.

Onde ia eu? não sabia. Fugia áquelle espectaculo. Salvava-me a todo o correr, para o mais longe possivel, para não vêr a imagem horrenda que me ficara nos olhos. Trahido! Trahido! era o grito que me esporeava, e excitava a fuga. Despenhei-me em barrancos. Levantava-me ferido, coberto de suor e lama, e corria de novo, sem destino, por escuridade pavorosa. Lancei-me desamparadamente em cancellos insilveirados; deixava-lhes os meus vestidos a pedaços, e caminhava. Esgalhos de arvores batiam-me no peito, raspavam-me a face e os hombros os tojos lacerantes; parava a chorar e depois caminhava. Atravessei as ruas dezertas das aldeias, que resoavam sob os meus passos; campos cultivados, cujas searas me ondulavam nas pernas como vagas; collinas, bosques, regatos, atalhos, estradas que desfilavam á roda de mim, como se o solo fosse arrastado commigo no arremeço d'um sorvedouro immenso. Faltava-me a respiração, e eu corria ainda, chorando, chorando sempre.

--Ó minha mãe!--bradei eu.--Se soubesses quanto eu soffro!

De repente, achei-me com os pés em agua. Ante mim, distendia-se um vasto espaço negro, uniforme, entranhado nas trevas, d'um lado e d'outro, com grandes e mysteriosos zunidos. A lua dardejando de viez o seu reflexo argentino, sobre esta superficie luzente, parecia serpente enorme assanhada contra mim, para engulir-me. Involvia-me o nevoeiro. Avancei tropeçando nas pedras, mas os jactos d'agua da torrente rapida, embargavam-me o passo. Horrida tentação me assaltou. Contemplei o céo sereno, onde brilhava, entre nuvens immoveis, o dôce astro dos amantes; puz a mão sobre o coração, e caminhei. Dava-me a agua pelos joelhos, mas sentia sempre o chão lodento em redor dos meus pés que escorregavam. Não podia mais. Vergado á fadiga e á commoção, soluçando como as mulheres, cahi, e fui arrastado na torrente que marulhava em sua marcha obscura.

LXIX

O que decorreu depois d'isto, não sei.

Atrophiara-me um frio horrivel. Era nos ouvidos o sibilar lacerante. Sentia abafar. Muitas vezes cheguei a ajoelhar, impellido sempre pelo peso das aguas. Por fim, esqueci tudo; entendi que morria.

Quando me senti viver, estava na minha cama, com a cabeça em fogo. Abri os olhos esgazeados. Tremia em todas as fibras. Sacudia-me o corpo, desde a cabeça aos pés, uma horrivel febre. Ao meu lado, estavam dois amigos observando-me. Fallei, e elles abanaram a cabeça. Veio um homem, e tomou-me o pulso: encolheu os hombros, e partiu. Continuei a tremer. Isto durou muitos dias.

Depois soube que uns pescadores me tinham, de madrugada, encontrado sem sentidos, nas margens do Sena, com a cabeça envazada no lôdo. Buscaram-me as algibeiras, e acharam na minha carteira uma carta, e, guiados por ella, me trouxeram a minha casa. Delirei no caminho, e tiveram-me em conta de doido. Estava-o, realmente.

Fanny, porém, ignorante de tudo, admirada de me não vêr, veio uma manhã; mas o meu creado, a chorar, impediu-lhe a entrada no quarto, e contou-lhe o que sabia. «Quiz afogar-se--disse elle--e agora está doido»--Ella, porém, não quiz crêr no suicidio, e supplicou a entrada. N'esse dia, um abatimento sem nome, semelhante ao dos cadaveres prostrados em seus sepulchros, me tinha como pregado pelas costas ao leito, com os braços alquebrados e os olhos abertos. De repente, devisei na porta, que se abriu ao pé do meu leito, uma fórma humana, de pé e quieta.

Não atinei logo com quem fosse aquella mulher que me vinha vêr moribundo, adornada de trajos de estio tão elegantes e frescos, com braceletes nos braços e flôres no chapéo: tambem não entendi por que chegava com ambas as mãos o seu véo branco ao rosto. Os meus amigos tinham-se retirado para o fundo do quarto, afim de respeitar, quanto fosse possivel, um segredo que não queria ser penetrado. A mulher adiantou-se até á minha cama, e eu ouvi-lhe o fremito do vestido. Curvou-se-me sobre o leito, e levantou o véo. Como que senti refrigerar-se-me a alma, de vêr sobre o meu rosto aquella face viçosa cheia de graça, e como perfumada de saude.

Fanny! exclamei subitamente, erguendo os braços. Fanny abaixou-se a soluçar sobre o meu peito. Mas a memoria restaurara-se com o conhecêl-a; levei-lhe á face os punhos fechados, e repelli-a de mim, gritando furioso «sai d'aqui!» Ella acreditou que eu estava doido, e arredou-se chorando; mas com um resto de força que a raiva me déra, bati-lhe no hombro, e, ao lançar-me fora da cama, cahi por terra aos pés d'ella.

LXX

Quando sahi do lethargo, suppliquei, de mãos postas, aos meus enfermeiros, que não deixassem entrar em minha casa aquella mulher.

Ella, porém, que não podia suspeitar o succedido, e continuava a crêr na minha demencia, vinha todos os dias--disseram-m'o depois, e todos os dias com gestos afflictivos, sollicitava vêr-me.--O medico não consente--respondia inflexivel o meu creado. Fanny offerecia dinheiro e prendas; mas comprehendendo a final que a sua presença podia matar-me, retirou-se, pedindo a Deus a minha cura, e offerecendo-lhe, em troca da minha, a sua vida. D'isto não sabia eu nada então. Decorriam os dias, e, por desgraça minha, graças aos disvellos que me rodeavam, a vida pouco a pouco affluiu apagando a febre.

LXXI

Ao cabo de seis semanas entrei em plena convalescença. Já os amigos me tinham deixado. Perguntou-me, muitas vezes, o creado, se eu queria receber aquella pessoa que tanto parecia amar-me, e cuja presença tão mal me fizera uma vez. Sempre com repellão lhe disse que o expulsava se a deixasse entrar. O desejo, porém, de a vêr, entrou commigo, e tornou-se emfim n'uma irresistivel necessidade. Fiz fallar o creado sobresaltado, que não intendia a minha frieza. Contou-me tudo que eu não sabia; que ella vinha diariamente, e elle já não sabia que dizer-lhe, para estorvar-lhe a entrada. Se ella vier hoje,--murmurei eu impetuosamente, corrido de vergonha,--recebo-a.

Sentia-me eu abalado como se alguma funesta esperança tentasse renascer em mim. Com o abatimento da molestia, quasi que a cólera se desvanecera; mas ganhara-me uma dôr intensa, e eu assentava--tamanho desgosto era o meu por tudo--que não podia viver. Aquella noite terrivel da traição, lembrava-me como um sonho máo. A um tempo, amava e desprezava a mulher graciosa e perfida, cuja imagem era commigo sempre. O que eu esperava para acabar com tudo, era alguma cousa indelineavel.

Estava eu sentado n'uma poltrona, ao pé da minha janella, com os olhos fechados, repassando no animo o que eu diria á prejura, quando senti apertarem-me a mão, e misturarem-se n'ella os beijos com as lagrimas. Abri os olhos. A meus pés, de joelhos, livida, mas formosa ainda, formosissima, estava Fanny, olhando-me com eloquente ternura. Senti o perfume d'ella. Nada diziamos. Eu sei que chorava.

Fanny ergueu-se, abraçou-me maternalmente a fronte e os cabellos, com os seus dois braços nús. Não resisti, porque me era aprazivel receber aquellas caricias, a que eu tinha direito, em quanto não fallasse. E por isso mesmo é que não fallava. Finalmente, como eu chorava sempre e a não abraçava, Fanny disse:

--Foi-se o teu amor, Roger?

--Ainda não--respondi, tapando o rosto com as mãos. Ella não intendeu, e deteve-se em pé e agitada defronte de mim.

--Fanny, diz-me que é um sonho, ou que estou doido. Diz-me que não devo odiar-te, porque este odio dilacera-me.

Não córou. Não impallideceu. Pura como a chamma, e crendo-se talvez ella mesmo pura, amimou-me internecida, com apparencias de admirada.

Foi então que eu, reunindo as minhas forças todas, a tomei pela cintura gentil em meus braços, e a fiz sentar defronte de mim. E disse-lhe:

--Sei tudo.

«O que? tu que sabes?

--Vi tudo.

«Mas que?

--Porque me trahiste? Tu não cedeste, porque foste tu quem o procurou, não foi elle a ti. Foste tu, que trocando despejadamente o papel, o seduziste a elle.

Fanny não perdeu ainda a côr, e quiz fallar. Eu, porém, com os olhos cravados n'ella, sem cólera, e frio como o aço, continuei:

--É necessario dizer-te tudo? Não merecias confiança. Comprei a caza vizinha da tua, em Chaville...

Aqui, impallideceu, e disse:

«E depois?

--Uma noite, horrivel noite!... depois de te espiar em vão quinze dias, arriscando a minha vida, consegui introduzir-me sobre o balcão da tua casa. Não sei que hora era. Ajoelhado por traz da vidraça do quarto de teu marido, pude vêl-o. Como te vejo agora, tudo vi. Estava elle só. Entraste...

«Isso é falso!» exclamou Fanny, mais horrivelmente pallida. Semelhava um cadaver sentado n'uma cadeira defronte de mim.

--Será preciso dizer mais?--accrescentei.--Vestias um chambre de cachemira azul. Trazias os cabellos em desalinho, e o peito nú. Calçavas chinellas de setim. Nús, trazias os braços. Serena como sempre, no momento mesmo em que prejuravas, não amaldiçoaste aquelle que vinhas saciar, por que ha em ti dois corações, para amar dois homens, Fanny, a elle, e a mim.

Fanny sacudiu rapidamente a cabeça, e disse com voz abafada:

«É falso! é falso! tu não me conheces!

--Será preciso dizer mais?... Exprobraste-lhe a traição, que é certissima. Defendeu-se elle, a sorrir. Tu, cem vezes, passaste diante de teu marido, por que querias fascinal-o, sem lh'o dar a intender, com os teus exteriores pudibundos. Sahiu-te tudo ao pintar, por que elle puchou-te para sobre o coração, e tu deixaste-te sentar sobre os joelhos, e nem de mim te lembravas, de mim, a agonisar, com aquelle espectaculo diante...

«Basta!»--exclamou Fanny, e ficou a olhar para mim. Parecia soffrer horrorosamente; mas não chorava. Dilatavam-se-lhe as pupilas, e crispavam os labios resequidos. Com pena d'ella, baixei os olhos, mas accrescentei:

--Sabe que eu estive ali, eu, que te adorava, e é de crêr que a vergonha e a dôr não matem, por que eu vi tudo, e não morri.

Como duas estatuas fronteiras, nas bordas d'um jazigo, assim ficamos em contemplação, e immoveis. Por fim, disse ella:

«Eu devo fazer-te horror!

--Fazes.

Ergueu-se, levantou as mãos ao céo, lançou-se a mim, como sobre uma preza, apertou-me entre os braços, sentou-se-me nos joelhos, peito a peito, e a buscar-me os labios, com estas exclamações:

--Não importa! eu adoro-te sempre.

Mas eu, levantando-me, sacudi-a, e atirei-a ao chão, e ella ahi ficou. Abismada a meus pés, como a Magdalena, soltas as tranças, nodados os braços aos meus joelhos, desfeita em pranto, exclamava:

«Perdão! piedade! Eu tinha perdido o juizo! estava doida! mas amo-te sempre! Tem compaixão de mim.

E prometteu submetter-se a tudo que eu exigisse d'ella. Propôz-me a fuga, bradando:

«Mata-me, e não me repulses! Esmaga-me aos teus pés. Sou culpada, mas não me abandones. Amo-te. Rasga-me o coração...

Fiz que se erguesse e sentasse. Estava corada, e escondia o rosto; mas eu sentia-me impiedoso. Recrudescera o meu furor com a narração do meu supplicio. Voltei as costas áquella mulher, cuja soberba, por tanto tempo me mentira. Ainda assim queria ella violentar-me, estendendo para mim os braços; mas fiz-lh'os recuar á face, com um gesto.

--Sabe que te detesto e adoro--disse-lhe eu--É isto o meu castigo, por que eu fiz minha, a mulher d'outro, e devo ser castigado. Tu, para mim, és uma deshonra, e mais nada. És um idolo attascado em lama. Vi-te, em attitude pudica, com o rosto angelical, e olhar infantil; vi-te grotesca e disforme, raivar e uivar, como a loba mordida pelos cães. Cala-te! tu fizeste peor que as creaturas com quem esse homem hediondo te compara: essas, ao menos, não mentem.

«Mas elle é meu marido!--disse Fanny.

--Não tens consciencia? Diz-me com franqueza se é certo seres tu um ser intelligente, e se uma idéa dirigiu a tua acção funesta. Quem te obrigava a ir procural-o?

Fanny, com grande esforço, respondeu:

«Eu via que elle se desprendia de mim. Não o amo, por que te amo, mas dependendo d'elle. Não é natural? Repartida entre o desejo de conservar sua affeição, e o receio de ser forçada a mostrar-lhe uma affeição semelhante, quiz segural-o quando me fugia, e, quando se approxima, é escusado tentar eu fugir-lhe. Cedi ao dever. Reciei que me deixasse. O temor de me vêr abandonada com os meus filhos, inlouqueceu-me. Perdoa-me. A mulher, que elle conheceu em Londres, é a causa de tudo. Eu preciso de paz, socega-me tu. Fiz mal, por que te amo; mas sou mulher, e tu não conheces as mulheres. Não calculas quanta honestidade pode haver nas traições d'ellas.

--E o teu juramento?--exclamei. Fanny contorcia as mãos afflictivamente. Eu prosegui:

--Mentes, quando dizes que cedeste ao dever. Não cedeste senão ao orgulho. Intristecia-te o ser abandonada por esse homem que não amas, e te não ama, e te opprime, e te despreza e insulta. Não cedeste tambem á sêde d'um prazer abominavel? Repito-te que ouvi tudo.

Neste conflicto, encontraram-se os nossos olhos. Fanny fez-se escarlate, quiz fugir, tornou para mim, e cahiu de joelhos, exclamando:

«Se soubesses quanto eu me abomino! Eu queria arrancar o coração deste corpo. O meu coração está puro. Vêr-te, ouvir-te, sentir-te ao meu lado, bastára-me sempre. Por isso mesmo que te amo, é que tu és o unico ente, mais que homem para mim. Tu és neste mundo o meu amor unico. És a minha vida.