Eurico, o presbytero

Part 9

Chapter 93,847 wordsPublic domain

«Como assim!--exclamou o mancebo--ainda não buscastes o repouso? Depois de tão larga correria, não imaginava achar-vos ao pé de mim, que vélo, porque a amargura não consente que o somno me cerre as palpebras. Tendes, acaso, uma irman querida, uma esposa que muito ameis, por quem devais tremer, e que, talvez, neste momento seja victima das paixões desenfreiadas dos infiéis?»

«Não tenho ninguem no mundo:--respondeu o cavalleiro, cujo aspecto se carregou ainda mais ao ouvir estas ultimas palavras:--mas não póde aquelle cujo coração é ermo desses affectos ser tambem infeliz?»

«Infelizes são todos os moradores de Covadonga--acudiu Pelagio:--mas o que á desventura commum ajuncta receios bem fundados pela honra ou, ao menos, pela vida daquelles que muito amou é mil vezes mais desventurado.»

«Duque de Cantabria, quando tiverdes medida por onde afferir ao certo o meu e o vosso coração podereis falar assim.»

«Te-la-hia, talvez, se conhecesse a historia da vossa vida: mas vós a cubrís de impenetravel mysterio.»

«Porque é o segredo mais sancto da minha alma--interrompeu com vehemencia o cavalleiro;--segredo que esta boca nunca revelará na terra.»

«Nem eu o exijo: longe de mim tal intento. A carta que me trouxestes de Theodemiro me assegura que sois um nobre gardingo: tanto bastou para que vos recebesse entre aquelles com quem reparto a minha caverna de foragido. Nunca vos perguntei, sequer, porque abandonastes um homem que de suas palavras vejo vos amava como irmão.»

«Oh, quanto a isso, dir-vo-lo-hei--atalhou de novo o guerreiro, pondo a mão sobre o punho da espada.--Foi porque eu o cria um anjo de virtude e esforço, e elle era apenas um homem! Foi porque a paz que pactuou com os mosselemanos, honrosa aos olhos do vulgo, era, a meus olhos, infamia. Paz com o infiel? Ao christão só cabe fazê-la quando dormir ao lado delle somno perpetuo no campo de batalha; quando, ao lado um do outro, esperarem ambos que as aves do céu venham banqueteiar-se em seus cadaveres. Antes disso, não a comprehendo. Disse-lh'o, sem colera, sem injurias, ao abandoná-lo para sempre. Nesse momento algumas lagrymas correram destes olhos; porque a alma de Theodemiro era a ultima em que morava um affecto que respondesse aos meus; era o ultimo templo em que me sorria a esperança!»

E as lagrymas que elle dizia haver derramado nessa triste separação corriam, de novo, quatro a quatro pelas faces do guerreiro.

Apenas o gardingo proferira estas derradeiras palavras, o clarão avermelhado da lareira bateu subitamente no vulto agigantado de Gutislo, que surgira á boca da gruta e parecia hesitar se devia ou não interromper o dialogo dos dous guerreiros.

«Velho lobo do Herminio, approxima-te--disse Pelagio em tom de gracejo, como que tentando affastar as tristes idéas que lhe opprimiam o espirito.--Que buscas a taes deshoras? Tiveste, acaso, em sonhos saudades das barrocas das tuas serras nevadas e creste que Covadonga era o antro de teu irmão, o javali?»

«O caçador das montanhas--replicou o lusitano, na sua linguagem pinturesca de barbaro--não estaria aqui, se a saudade dos logares em que nasceu lhe morasse no coração. Os homens d'além do mar lhe mataram ou captivaram mulher e filhos quando estes, por seu mal, n'um dia em que elle perseguia nos cimos da serra os lobos cervaes, ousaram descer com o rebanho aos valles do Munda. Por isso te seguí eu, oh godo: tu derramas o sangue dos homens d'além do mar, e eu quero derrama-lo tambem.»

«A que vens, pois, aqui?--replicou Pelagio, a quem as palavras do celta traziam de novo ao espirito a lembrança de que tambem elle era, talvez, orpham de irman querida.

«A dizer-te que um desconhecido chegou ao valle. Fala não sei de que nome godo, como o teu; d'Hermengarda, me parece. Pede para te falar.»

«Onde está elle?--exclamou Pelagio, em cujos olhos brilhara a esperança misturada de temor.--Que venha! oh que venha breve!»

E, alevantando-se, encaminhou-se ligeiro para a entrada da gruta, d'onde Gutislo outra vez desapparecera. Antes, porém, que ahi chegasse, um velho, cujos trajos desordenados, rotos e cubertos de lodo davam indicios de ter atravessado largo espaço das serranias, entrou na caverna e, arrojando-se aos pés do duque de Cantabria, rompeu em soluços, sem poder proferir palavra.

N'um relance Pelagio o conhecera.

«Aldephonso! onde está Hermengarda? Buccellario! onde está a filha do teu patrono?»

O velho tentou responder; porém não pôde, e continuou a soluçar.

«Entendo-te: é morta! Nunca mais te verei, minha pobre irman!--murmurou o mancebo, escondendo o rosto entre as mãos.

Ao gardingo, que durante esta scena se conservara immovel, fugiu um gemido abafado. Depois, levou o punho cerrado á fronte, como se quizesse conter ahi uma idéa dolorosa que tentava resfolegar.

Houve um largo espaço de temeroso silencio. O velho o quebrou por fim:

«Não; não é morta! Mas, porventura, ainda o seu fado é mais horrivel. Jaz captiva em poder dos infiéis. Não me foi dado salvá-la, e não quiz morrer sem vos dar esta nova cruel. Agora...»

Um brado de Pelagio atalhou as palavras do buccellario suffocadas pelo choro.

«As minhas armas e o meu cavallo! Que me deem o meu frankisk! Velho vilissimo, já que não soubeste deixar-te despedaçar juncto della, dize, ao menos, onde poderei encontrar os pagãos que captivaram Hermengarda.»

Lavado em lagrymas, o ancião narrou-lhe em breves palavras os successos que se haviam passado no mosteiro da Virgem Dolorosa. Elle tinha feito tudo para a resolver a tentar a fuga. «Ainda na crypta fatal--concluia Aldephonso--através das grades que me embargavam os passos, por vós, pelas cinzas de vosso pae, lhe suppliquei de joelhos que me acompanhasse. Os velhos buccellarios de Favila, no meio do tumulto, a teriam, talvez, posto em salvo! Sorriu, porém, das minhas esperanças e conservou-se firme no seu proposito. Mas Deus tinha ordenado que, em vez de obter o martyrio, cahisse nas mãos dos agarenos. De todos os que vinhamos em sua guarda, só eu, acaso, pude escapar, misturado com os soldados de Transfretana. Assim, segui por algum tempo os arabes, que se encaminham para o lado do Segisamon. Ao anoitecer, embrenhei-me nas montanhas. Um pastor que encontrei me serviu de guia, até que cheguei aos pés de meu senhor para lhe pedir a morte e para lhe jurar que estou innocente.»

«De pé, cavalleiros! Aos infiéis, em nome de Christo!--gritou o duque de Cantabria, com uma voz que retumbou nas profundezas da caverna.

Habituados ás subitas arrancadas nocturnas contra os arabes, quando vagueiavam em correrias longinquas, os companheiros de Pelagio ergueram-se de salto, ainda mal despertos, e por uma especie d'instincto lançaram mão das armas penduradas por cima de suas cabeças. Era solemne e tremendo o espectaculo que apresentava a gruta naquelle alçar repentino de tantos homens, no brilho das armas que relampagueiavam á luz da fogueira e tiniam umas nas outras. Entretanto Pelagio ordenava a Gutislo que despertasse os homens d'armas espalhados pelas choupanas do valle e fizesse dar o signal d'encavalgar. Era necessario partir.

No meio, porém, da revolta, havia alguem que se conservava quedo e que parecia tranquillo. Era o gardingo desconhecido. Encostado á parede anfractuosa da gruta e demudado o gesto, contemplava aquella scena com o vago olhar de quem alongara o pensamento para mui longe d'alli. Emquanto todos os demais cavalleiros rodeiavam Pelagio, indagando inquietos a causa daquelle subito apellidar para uma correria nocturna, elle só ficara immovel e como indifferente ao tumulto que as vozes do duque de Cantabria tinham excitado entre os seus guerreiros.

«Qual de vós outros cavalleiros--dizia Pelagio aos que o rodeiavam--duvidará um momento de que, se um mensageiro chegasse e lhe dissesse: «vossa esposa, vossa filha, vossa irman cahiu em poder d'infiéis» eu hesitasse em ir ajudá-lo a arrancar essa victima querida á bruteza cruel dos pagãos? Nenhum; porque mais d'uma vez tenho arriscado a vida para curar saudades e amarguras dos desterrados como eu. Deu-me o céu uma irman; deu-me o ultimo suspiro de meu pae uma filha; deu-me a ternura por essa virgem, cuja imagem vive eterna neste coração virgem como ella, uma esposa. Quando a triste innocente vinha abrigar-se á sombra do escudo de seu irmão, os infiéis roubaram-ma. Viuvo e orpham, appello para os ultimos corações generosos da Hespanha. Por Deus, que me ajudeis a salvar a minha pobre Hermengarda. Como tua filha Brunehilde, ella é formosa, Gudesteu! Como tua esposa Elvira, ella é boa e carinhosa, Algimiro! Como tua irman, Munio, ella é innocente e pura. Godos, por tudo quanto amaes, salvae-a, salvae a mesquinha!»

O nobre esforço do mancebo desapparecera ante a idéa dolorosa da sorte que a providencia reservara á desventurada filha de Favila. Elle estendia as mãos unidas para os cavalleiros, como uma creança timida que implora compaixão.

«Partamos!--exclamaram ao mesmo tempo os nobres foragidos.--Tua irman será salva ou nenhum de nós voltará mais á gruta de Covadonga!»

Uma voz trémula, mas retumbante, trovejou por detrás delles:

«Não partireis d'aqui!»

Voltaram-se. Era o gardingo.

«Quem o ordena?--bradou Pelagio, com toda a energia que esta inesperada resistencia despertara subitamente nelle.

«Um homem--replicou o desconhecido, atravessando o circulo dos guerreiros que rodeiavam o duque de Cantabria e lançando em volta olhos altivos;--um homem cujo coração é ha longo tempo morto, porque as paixões o queimaram; mas cuja intelligencia por isso mesmo é mais fria. Quantos sois vós? Quantos buccellarios dormem pelas tendas desse valle? Apenas alguns centenares de lanças poderiam, ao todo, transpôr comvosco os passos das serras. Os infiéis e os renegados que os servem quantos são? Se podeis contar as estrellas que ora recamam o céu, podereis dizer-me o numero delles. Tu, Pelagio, braço de ferro, coração de bronze, quem és tu? O guardador das ultimas esperanças da cruz e da patria. Quem te deu, pois, o direito de correres a morte certa? Quem te deu o direito de apagar no sangue dos ultimos godos o unico facho que alumia as trevas do futuro da escravisada Hespanha?»

«E a ti--interrompeu furioso e arrancando meia espada o violento Sancion--quem te incumbiu de nos dizeres: «não saireis d'aqui? Quem és tu, que, vindo não sei d'onde, pretendes dominar como senhor aquelles que só obedecem a Deus?»

O desconhecido olhou para o movimento ameaçador de Sancion, e pelo rosto passou-lhe um sorriso desdenhoso. Cruzou os braços e respondeu com voz lenta e solemne:

«Por minha boca falaram milhares de godos que gemem no captiveiro e que voltam de continuo os olhos para os cerros das Asturias, onde apenas fulgura tenue o sancto fogo da liberdade: falaram por minha boca as aras do Senhor calcadas pelos pés dos pagãos, as imagens do Christo derribadas no lodo, os muros ennegrecidos das cidades incendiadas. É isto tudo que vos diz:--não saireis d'aqui!--Perguntas quem sou? Dir-t'o-hei. O ultimo homem que, juncto do Chryssus, viu, combatendo, a face dos arabes vencedores, emquanto os valentes fugiam; o homem que tentou morrer com a patria, e que a mão de Deus salvou para neste momento vos dizer: «não saireis d'aqui! Queres saber quem eu sou? Lê, Pelagio, o que escreveu ahi Theodemiro. Dize-lhe depois qual é o meu nome!»

E, tirando da escarcella uma tira de pergaminho dobrada, abriu-a e entregou-a a Pelagio.

O duque de Cantabria correu-a pelos olhos e, deixando-a cahir em terra, murmurou:--«Meu Deus, o cavalleiro negro!»

Os godos apinhados em roda recuaram alguns passos, e houve um momento de ancioso silencio.

«Anjo ou demonio, que nos explicas um mysterio por outro mysterio--exclamou, emfim, Pelagio visivelmente perturbado:--christãos e arabes lembram-se ainda das tuas incriveis façanhas nas margens do Chryssus. Mil vezes eu proprio tenho dicto: dez como elle haveriam salvado o imperio de Theoderik! Devemos obedecer-te, se és um homem, como dizes, porque vales mais que nós. Se és o anjo que preside ao fado da Hespanha, mais submisso ainda será o nosso obedecer. Mas que mal te fez minha desgraçada irman?...»

«Que mal me fez tua irman?--atalhou com vehemencia o gardingo.--Nenhum!... E quem te disse que não quero, que não posso salva-la, eu que não sou anjo, que sou, como tu, um homem? Quaes d'entre vós--proseguiu, voltando-se para os cavalleiros que o rodeiavam--sois n'este mundo sós e não tendes quem na morte regue com lagrymas a terra que vos cobrir? Quaes de vós sois, como eu, desterrados no meio do genero-humano? Que os orphams de coração ergam a dextra para o céu, onde só ha um seio que lhes receba os gemidos de amargura, o seio immenso de Deus!»

Doze guerreiros, e entre elles o fero Sancion, alevantaram a dextra para o ar á voz imperiosa do gardingo.

«A cavallo!--gritou este, apertando o largo cincto da espada e enfiando no braço a ferrea cadeia do frankisk.--Pelagio! se dentro de oito dias não houvermos voltado, ora ao Christo por nós, que teremos dormido o nosso ultimo somno, e chora por tua irmã, cujo captiveiro já ninguem, provavelmente, quebrará, senão o anjo da morte. Partamos!»

Proferindo estas palavras, o gardingo atravessou rapidamente a caverna e desappareceu nas trevas exteriores: os doze guerreiros escolhidos seguiram-no machinalmente, porque os seus meneios e gesto os tinham fascinado, ao lembrarem-se de que este homem era o cavalleiro negro. O duque de Cantabria, subjugado tambem pela especie de mysterio solemne que cercava todas as acções d'este ente extraordinario, nem ousou perguntar-lhe por que meio intentava salvar Hermengarda. Todavia, uma voz intima e irresistivel lhe dizia: «resigna-te e confia». Confiado e resignado esperou, portanto, o cumprimento das promessas do incognito gardingo.

XIV

A NOITE DO AMIR

Arrebatada no pallor das trevas.

_Breviario Gothico--Hymno de S. Geroncio._

Era ao cahir do dia. O nordeste secco e regelado corria as campinas do espaço, onde, através da atmosphera purissima, scintillavam as estrellas. O clarão de Segisamon incendiada reflectia de longe nas brancas tendas dos arabes, acampados a bastante distancia dos muros da povoação destruida. Em volta do arraial, pelas coroas dos outeiros, accendiam-se as almenaras, a cuja luz tenue, comparada com a do incendio de Segisamon, se viam passar os atalaias nocturnos. Abdulaziz, semelhante a cometa caudato, seguia a sua orbita d'exterminio, deixando após si vestigios de fogo. O exercito devia ao romper da alva internar-se nos valles da Tarraconense.

Segisamon tinha na vespera offerecido um espectaculo semelhante ao de muitas outras cidades da Hespanha levadas á escala pelos mosselemanos. Não só a cubiça e o desenfreiamento da soldadesca multiplicavam ahi as scenas de rapina, de violencia e de sangue, mas tambem a politica dos capitães arabes procurava augmentar a terribilidade desses dramas repetidos para quebrar os animos dos godos e persuadi-los á submissão. O dia precedente a esta noite que começava tinha sido consagrado pelos vencedores ao repouso, depois de um duro lavor de morte e ruinas. Os jogos, os banquetes, as dissoluções de todo o genero haviam recompensado brutalmente o esforço brutal dos destruidores de Segisamon.

Ás cohortes do renegado Juliano tocava nesta noite a vigia do arraial: eram godos os que guardavam o campo, onde as virgens da Hespanha tinham sido violadas; onde a cruz captiva fora mais uma vez ludibriada; onde os velhos sacerdotes haviam soffrido contentes o martyrio no meio das affrontas. Aquelles homens perdidos, rodeiando esse montão de abominações, ainda não fartos dos deleites infernaes em que tinham tido parte com os infiéis, embriagavam-se, bebendo pelos vasos sagrados, e escarneciam blasphemos a crença da sua infancia no meio de hedionda ebriedade.

O murmurio immenso do arraial foi amortecendo gradualmente com o fechar da noite. Em breve, não se ouviu nas tendas do Islam mais que o respirar lento de tantos milhares d'homens adormecidos nos braços do goso. Juncto, porém, das almenaras as risadas dos soldados do conde de Septum, os cantos obscenos inspirados pela embriaguez, as disputas ardentes do jogo, em que o ouro corria de mão em mão, soavam ainda em volta do silencio do campo. Pouco e pouco, este mesmo ruído foi affrouxando, ao passo que os fachos accesos nas chapadas dos outeiros esmoreciam. A escuridão e o silencio reinaram, emfim, até nas atalaias. Os soldados godos, cansados de dissoluções, haviam tambem repousado. E para que prestaria velar? O terror que inspiravam os arabes era o melhor guardador do arraial. Como ousariam os christãos, medrosos atrás dos muros dos seus castellos, salteiar o campo de Abdulaziz? As vigias e almenaras eram apenas uma velha formula militar, cuja significação a serie não interrompida dos triumphos até então alcançados tornara inintelligivel.

Pela calada, porém, da alta noite e no meio das trevas que cobrem, como amplo manto, aquelle turbilhão d'homens de guerra, descansando então para ao romper do sol rugir de novo impetuoso, vê-se ainda, através das telas mal unidas de uma tenda mais vasta, reverberar vivo clarão, e ouve-se o rir alegre, o altercar, o tinir argentino das taças; todos os indicios, emfim, de que a orgia se prolongou ahi até mais tarde. Ao redor da tenda jazem por terra, com os alfanges nús junctos a si, alguns soldados da guarda de Abdulaziz, composta dos guerreiros mais temidos do exercito, os negros do remoto paiz de Al-Sudan. Nos ouvidos delles restruge debalde o alto ruído que soa do interior do pavilhão. Dormem, tambem, profundamente, e apenas á porta da tenda um delles vela immovel encostado á acha d'armas.

A tenda era, de feito, a do esforçado filho de Musa. A mesa do banquete ainda vergava com os restos das iguarias: os brandões já gastos e os candieiros mortiços derramavam uma claridade suave pelo aposento. Reclinado sobre um almatrah cuberto de preciosa alcatifa do oriente, o amir escutava o mais moço dos cheiks que estavam juncto delle, o qual, ora cantava os versos voluptuosos de Zohèir, que accendiam a imaginação do joven guerreiro, ora lhe repetia os antigos poemas licenciosos e satyricos de Ibn-Hagiar, que elle applaudia com estrondosas risadas.

O conde de Septum e os mais capitães godos alliados dos agarenos conservavam-se ainda nos logares que haviam occupado durante o banquete. Para aquella extremidade da vasta mesa viam-se algumas amphoras tombadas e outras ainda cheias dos vinhos mais preciosos da Hespanha: as taças que gyravam ao redor eram as que produziam o tinir que soava fóra, no meio do ruído das falas, dos gritos, e dos cantos monotonos do cheik Abdallah.

Um guerreiro, cuja barba crespa e cerrada lhe cahia como frócos de neve sobre os anneis dourados do saio de malha, estava assentado á direita de Juliano. A brancura dos seus cabellos era o unico signal que se lhe enxergava de uma larga peregrinação na terra; porque o rosado da tez, a viveza dos olhos azues, o garbo nos meneios e a robustez dos membros agigantados mostravam n'elle mais que muito a compleição vigorosa de homem de boa idade. Era Oppas, o bispo Oppas, que se esquecera do sacerdocio, como se havia esquecido da patria, e que, habituado á vida solta dos arraiaes, excedia já na violencia de paixões ignobeis os mais desenfreiados e barbaros chefes das tribus semi-selvagens da Africa. Muitos outros tiuphados e quingentarios, assentados ao longo da mesa, davam mostras de infernal alegria, despejando as taças de prata, que os libertos lhes enchiam de novo para de novo rapidamente se esgotarem.

«Vêde os nazarenos maldictos--dizia Abdulaziz em voz baixa ao cheik Abdallah, olhando de través para os godos.--O amor da embriaguez nunca os deixará ver a luz que mana das paginas do divino koran. Para elles o fructo da vide será sempre a ponte estreita, da qual, ao passarem na morte, se despenharão no inferno.»

«E que nos importam as suas almas tisnadas--replicou Abdallah--se elles nos ajudam a sujeitar á lei do sancto propheta o imperio de Andalús? Sem Deus e sem patria, deixae-lhes ao menos a sua bruteza.»

O bispo d'Hispalis percebeu que falavam delle e dos outros godos, porque os cheiks haviam volvido para lá os olhos. Erguendo-se então com a taça em punho, exclamou em arabico:

«Ao invencivel Abdulaziz; a um dos mais nobres vingadores de Witiza!»

«Alfaqui dos romanos--respondeu o amir--a lei do propheta não consente que eu acceite a saudação que atravessou por labios tinctos no licor amaldicçoado por elle.»

«E que montam as maldicções do teu propheta?--replicou Oppas em tom de gracejo.--Devemos nós por isso deixar de saudar o illustre filho de Musa com o abençoado e generoso vinho dos ferteis outeiros da Hespanha?...»

«Infiel!...--interrompeu o amir, em cujos olhos scintillara o despeito. Depois, reportando-se, proseguiu em tom brando, mas firme, como quem queria ser promptamente obedecido:--Nobres cavalleiros do Gharb, valentes cheiks do Negid, de Berryah, e d'Almoghreb, a noite vai alta, e ao romper da manhan é necessario partir. Que o somno vos desça sobre as palpebras nas vossas tendas de guerra!»

A estas palavras, godos e arabes, alevantando-se, foram sahindo da tenda vagarosamente e em silencio. Só o bispo d'Hispalis, apertando a mão de Juliano, murmurou:--«Oh, quanto fel se mistura com o prazer da vingança! Mas cumpra-se o nosso fado.»

Ao atravessarem o arraial, os dous filhos renegados da Hespanha notaram que nos cabeços das almenaras a escuridão era tão profunda como no resto do campo. Tudo, porém, estava tranquillo. Apenas a pouca distancia lhes pareceu verem passar como sombra um cavalleiro, que se encaminhava para o lado do pavilhão de Abdulaziz. Era, provavelmente, algum soldado d'Al-Sudan, que, transnoitado, se retrahia para o seu alojamento juncto da tenda do amir.

Entretanto este, apenas só, começou a caminhar agitado e a passos largos de uma até outra extremidade do aposento, que ricos pannos da Syria dividiam dos que occupavam os servos. No seu gesto, turbado por affectos encontrados, passavam successivamente os vestigios destes: ora a indignação lhe pesava nos sobrolhos confrangidos; ora lhe sorria nos olhos um pensamento voluptuoso; ora a compaixão parecia suavisar-lhe esse feroz sorrir. Por fim, o moço Abdulaziz, como vencido pela tempestade da sua alma, assentou-se no almatrah e cobriu o rosto com ambas as mãos. Conservou-se assim por largo tempo, em silencio e quedo, até que, a final, as suas paixões triumpharam e rebentaram com violencia.

Batendo as palmas, o amir bradou:--«Al-Fehri!»

Um dos pannos que dividiam a tenda em varias quadras alevantou-se de um lado, e um vulto negro e disforme, que parecia arrastar-se com difficuldade, encaminhou-se para o amir. Era como um tronco de gigante pelo espadaúdo do corpo, pela amplidão do ventre e pela desmesurada grossura da cabeça, onde só lhe alvejavam os olhos embaciados. O monstro, apenas deu alguns passos, parou, cruzando sobre o peito os braços grossos e curtos, semelhantes a dous madeiros informes.

«Eunucho--disse Abdulaziz com voz agitada--conduze aqui a ultima das minhas captivas que especialmente confiei de ti.»

O vulto recuou e, franzindo a especie de reposteiro que lhe dera passagem, desappareceu. Passados alguns momentos, tornou. Uma figura de mulher, cujas fórmas mal se podiam adivinhar através d'um raro cendal que a cubria até os pés, acompanhava-o. Com passo firme, ella se encaminhou para Abdulaziz, e o eunucho desappareceu de novo.

«Filha dos christãos--disse em lingua romana o amir--os dous dias que me pediste para chorares o teu captiveiro passaram. Resolveste, finalmente, ser a mais amada entre as mulheres de Abdulaziz; ser a invejada das donzellas do oriente e quasi a rainha das provincias de Andalús, porque acima de Abdulaziz só dous homens existem na terra, o amir d'Almoghreb, aquelle que me gerou, e o descendente do propheta, o que rege todo o imperio dos crentes?»