Eurico, o presbytero

Part 7

Chapter 73,779 wordsPublic domain

«Ámanhan ou depois, que importa?--replicou a monja, cujo semblante austero descubria não tanto a decadencia dos annos, como os vestigios da penitencia:--emquanto Chrimhilde reger o mosteiro da Virgem Dolorosa, nunca a hospitalidade será refusada nelle ao que a implorar. E quando a virtude de nobre donzella tiver um fiador tal como vós, esta achará sempre em mim o carinho de mãe e nas escolhidas do Senhor, que me alevantaram do meu nada ao tremendo ministerio de sua abbadessa, encontrará o amor e o gasalhado d'irmans para com irman querida.»

Dizendo isto, a boa abbadessa tomou pela mão a desconhecida e, internando-se com ella pelas arcadas que diziam para o interior do edificio, allumiadas escaçamente pelas lampadas turvas que d'espaço a espaço pendiam das abobadas achatadas, desappareceu aos olhos de Atanagildo.

A noite vai no seu fim: a campa do mosteiro dá o signal do terceiro nocturno. Subitamente, o sanctuario illumina-se, e os vidros multicores jorram nas trevas externas a claridade dos candelabros e tochas, como, de dia, deixam transudar a luz do sol no ambito interior da igreja; ésto perpetuo de resplendores, que ora descem do céu para a terra, ora tentam, subindo da terra para as alturas, desfazer o manto das trevas. N'uma extensa fileira, a cuja frente vem a veneravel Chrimhilde, as monjas entram no coro e, tomando para um e outro lado, param voltadas para o altar. Juncto da abbadessa uma donzella de trajos brancos sobresái entre as monjas vestidas de negro, não tanto pela alvura das roupas, como pela formosura: e todavia, são formosas muitas das virgens que a rodeiam, pela maior parte ainda no viço da vida. É a nobre dama recem-chegada, á qual nem o cansaço de trabalhosa jornada, nem o habito dos commodos do mundo poderam impedir acompanhasse na oração aquellas que o tracto de poucas horas já lhe fazia amar como irmans. Chrimhilde prostra-se com a face no chão: as monjas e a dama vestida de branco seguem o seu exemplo. Através desses labios innocentes que beijam o pavimento do templo murmuram durante alguns instantes as orações submissas. Depois, a abbadessa ergue-se, e pouco a pouco aquelles semblantes, que cobre uma pallidez d'ineffavel repouso e brandura, vão-se alevantando da terra, com os olhos voltados para o céu, semelhantes aos de anjos de marmore ajoelhados em roda de um tumulo, que surgissem pouco a pouco animados por vida repentina e, cheios de saudade da morada celeste, enviassem aos pés do Senhor o seu primeiro suspiro. Então a psalmista começa a entoar um dos hymnos sacros do Presbytero de Carteia que havia pouco se tinham introduzido no ritual gothico, e as demais monjas respondem em córos alternos. O hymno dizia assim:

«As azas da tua providencia, oh Senhor, despregam-se por cima da terra, e o justo desgraçado acolhe-se debaixo dellas:»

«Porque ahi moram os sanctos contentamentos; esquecem as dores da vida; vive-se á luz da esperança.»

«Confiado em ti, o fraco affronta as tyrannias do forte; o humilde ri das suberbas do poderoso.»

«Quem revelou aos pequeninos e oppressos esta divina guarida? Quem nos ensinou a esperar? Quem a ser felizes pela fé no meio das agonias?»

«Foi Christo, o teu filho querido. A tua justiça condemnava á dor o genero-humano, ainda no berço: elle nos conquistou para a felicidade no meio dos tormentos da cruz.»

«Nós tomaremos, tambem, esta em nossos hombros: ella é a guia da bemaventurança.»

«O seu peso é suave; porque sob ella os espinhos da existencia que ensanguentam os membros do peregrino sem repouso, chamado o homem, convertem-se em prado macio de relva e boninas.»

«Que reine para sempre a cruz!»

«Erguei-a sobre todos os pincaros das serranias, gravae-a em todas as arvores dos bosques, hasteae-a sobre as rochas maritimas, estampae-a nas muralhas das cidades, na fronte dos edificios, apertae-a ao coração.»

«E depois, que o genero-humano se prostre e adore nella a redempção que nos trouxe o Ungido de Deus.»

«A cruz triumphará eterna!»

Neste momento aquellas vozes harmoniosas cessaram, como se de subito nos labios de todas as monjas se houvesse posto o sello da morte. A porta do templo, aberta com violento impulso, rangera nos gonzos, e um velho ostiario viera cahir de bruços sobre as lageas do pavimento, soltando o grito doloroso que por tantos milhares de bocas diariamente se repetia na Hespanha:--Os arabes!

As vozes confusas dos vigias, misturadas com o tinir do ferro, responderam, como um uivar de feras, ás palavras do ostiario: as faces pallidas das virgens empallideceram ainda mais.

A alvorada começava a repintar na terra a claridade do sol, escondido ainda no oriente. Os godos com as armas nas mãos coroavam as ameias. Do alto de uma das torres Atanagildo observava a campanha, e a fronte entenebrecia-se-lhe com um véu de tristeza.

Naquella noite muitos nobres senhores de terras tinham chegado ao mosteiro, vindos da banda de Legio. Um numeroso exercito d'arabes apparecera subitamente na vespera juncto aos muros da cidade, que logo fora acommettida pelos pagãos. Era o que sabiam. Fugitivos desde o apparecimento dos inimigos, ao anoitecer haviam enxergado para aquella parte um clarão grande e duradouro. Se eram as fogueiras dos arraiaes arabes, se o incendio de Legio, não o podiam resolver; só, sim, que sería impossivel resistir por largo tempo cidade tão mal defendida a tamanha copia d'infiéis, que não tardariam a derramar-se para o lado do mosteiro, proseguindo nas suas devastadoras conquistas pela Gallecia e pela Tarraconense.

Era esta negra prophecia dos fugitivos que se tinha verificado ao romper da manhan. Atanagildo, do alto da torre principal, vira ao longe um vulto negro que descia dos outeiros, onde já allumiava tudo a luz matutina. Esse vulto assemelhava-se a serpe monstruosa que, rolando-se do monte para a planicie em collos tortuosos, se lhe reflectissem nas duras conchas os raios solares; porque naquelle corpo gigante havia um contínuo e rapido scintillar. Atanagildo percebera o que era, e por isso a tristeza lhe obscurecia a fronte.

Como a faisca electrica, o terror se espalhara no mosteiro apenas se dissera que os arabes se approximavam. Mais de um coração de guerreiro batia apressado, como o do pobre ostiario que buscara na piedade de Deus o amparo que mal podia esperar das muralhas do forte edificio; do pobre ostiario, que, sem o saber, fora desmentir o hymno triumphal da cruz, diariamente derribada dos altares nos templos profanados da Hespanha.

Dentro em breve, o exercito do Islam se approximara a tão curta distancia que facilmente se distinguiam os esquadrões dos filhos do deserto e as turmas dos berebéres. Tambem os arabes tinham observado o reluzir das armas através das ameias do mosteiro. A hoste inteira parou no valle, e alguns cavalleiros encaminharam-se pela senda tortuosa que findava na ponte levadiça contigua ao grande portal, erguida desde que pelos fugitivos constara que os mosselemanos se avizinhavam.

Quando o quingentario conheceu que os arabes paravam no fundo do valle, o seu coração generoso verteu sangue com a lembrança de que todo o esforço dos soldados que coroavam os adarves do mosteiro, por muito que houvera sido, não fora bastante para salvar os desgraçados que tinham buscado abrigo á sombra daquellas muralhas. Viu o desalento pintado nos semblantes dos mais valorosos, e a ultima esperança varreu-se-lhe da alma. Todavia, esperou com rosto seguro a chegada dos cavalleiros que subiam a encosta.

Estes approximaram-se, emfim. Pelo seu aspecto e trajo via-se que na maior parte eram godos. Com as espadas nas bainhas, pareciam vir em som de paz: tambem, por isso, nem uma frecha só se disparou contra elles dos muros.

Pouco antes de chegarem ao fosso profundo que circumdava o edificio, um cavalleiro que parecia o principal daquelle pequeno esquadrão, adiantando-se aos demais, veio topar com a entrada da ponte e, olhando para as muralhas, onde reluziam immoveis as lanças dos christãos, chamou:--«Atanagildo!»

Ao ouvir aquella voz, o quingentario empallideceu: com visivel anciedade, voltou-se para um centenario que estava juncto delle e disse-lhe:

«Mandae descer a ponte e dae passagem franca a esse cavalleiro que proferiu o meu nome: mas a elle, unicamente a elle!»

O centenario obedeceu. D'ahi a pouco as armas do guerreiro tiniam pelas escadas da torre. Apenas subiu ao terrado, encaminhou-se para Atanagildo e, estendendo-lhe a dextra, exclamou:--«Meu irmão!»

O quingentario, em cujas faces pallidas passara um relampago de vermelhidão, recuou e, com voz affogada, respondeu:

«Atanagildo teve um irmão; mas esse morreu para elle: porque entre elle e Suintila está a cruz quebrada aos pés dos pagãos; está o céu e o inferno. A minha herança é a ignominia do vencimento, os ferros d'escravo e as promessas do Christo: a tua as riquezas, a victoria e a maldicção de Deus. Não tróco os nossos destinos, nem quero a amizade do precíto. Arrepende-te, abandona os infiéis, e então Atanagildo te apertará ao peito e te dará aquelle nome tão suave da nossa infancia, o sancto nome de irmão.»

«Estás louco!--replicou Suintila--...Porém, não foi para disputar comtigo que vim aqui: vim para te salvar. Olha para o valle: áquella hoste numerosa que lá vês poucas horas poderão resistir estes muros mal guarnecidos, Abdulaziz, o invencivel filho do amir d'Africa, é quem a capitaneia: Legio cahiu hontem em nosso poder, e de parte nenhuma podes ser soccorrido. O bispo d'Hispalis e o conde de Septum, que vem comnosco, offerecem-te o mando de um dos seus esquadrões. Os arabes pedem aos godos que os seguem fidelidade ao estandarte do kalifa, não á crença do Islam: pódes guardar tua fé. Eis o que Suintila alcançou a teu favor. Estas velhas muralhas e as donzellas encerradas nestes claustros, que Abdulaziz soube serem pela maior parte formosas e que elle destina para enviar a Kairwan, são o vil preço da tua salvação. Suintila aconselha-te que o entregues; porque, apesar das injurias, ainda se não esqueceu de que é irmão de Atanagildo. Resolve e responde: que devo dizer a Juliano e a Oppas, a quem suppliquei para ser mandado aqui?»

«Dize-lhes--atalhou o quingentario, cujos olhos faiscavam d'indignação--que eu respeito a vida de um aráuto, ainda quando este é um miseravel renegado, como tu ou como elles, aliás não fora Suintila quem lhe levaria minha resposta. Dize-lhes que as suas infames offertas são para mim tão abominaveis como elles. Dize-lhes que, antes de um sacerdote sacrilego e de um conde traidor poderem estampar o ferrête da prostituição na fronte das innocentes virgens do Senhor, terão de passar por cima das ruinas destes muros e dos cadaveres dos seus e dos meus soldados. E tu, renegado, sae d'aqui! Possa eu nunca mais vêr-te o rosto e esquecer-me na hora de morrer de que nessas veias gyra o sangue de nossos nobres e generosos avós.»

«Como te aprouver, meu irmão!»--replicou Suintila, e um sorriso lhe deslisou nos labios, descorados por mal disfarçada colera. Proferidas estas palavras, desceu as escadas da torre.

A cavalgada, que lenta subira a encosta, descia-a rapidamente emquanto Atanagildo, visitando os muros, exhortava os guerreiros da cruz a pelejarem esforçadamente. Quando estes souberam quaes eram as intenções dos arabes ácerca das virgens do mosteiro, a atrocidade do sacrilegio affugentou-lhes dos corações a menor sombra d'hesitação. Sobre as espadas juraram todos combater e morrer como godos. Então o quingentario, a quem parecia animar sobrenatural ousadia, correu ao templo. Era necessario que as monjas soubessem qual futuro as aguardava. Resignado a acabar defendendo-as, Atanagildo nem por isso esperava salvá-las das mãos dos agarenos. Dolorosa era a nova; mas cumpria não lhes esconder o seu horrivel destino.

As mulheres e os velhos que tinham vindo buscar asylo no mosteiro enchiam já o templo, em cujas abobadas murmuravam e repercutiam os gemidos e as preces. Rompendo pela multidão, o quingentario encaminhou-se para o coro e chamou por Chrimhilde, que com as monjas acompanhava o povo nas suas orações fervorosas. A abbadessa aproximou-se das reixas douradas que a separavam do guerreiro.

«Chrimhilde,--disse Atanagildo em voz baixa--é necessario valor! Dentro de poucas horas sobre os muros do mosteiro da Virgem Dolorosa estará hasteiado o pendão dos infiéis, e eu terei deixado d'existir, porque jurei sobre a cruz desta espada ficar sepultado debaixo das ruinas delle. O exercito dos arabes é irresistivel, e a unica esperança que me resta é que o Senhor acceitará o meu sangue, derramado em seu nome, como um testemunho da minha fé.»

«Os infiéis--acudiu a abbadessa, procurando dar ás palavras que proferia um tom de firmeza que o tremulo da voz lhe desmentia--contentar-se-hão, talvez, com as riquezas aqui amontoadas imprudentemente e com a posse destes logares. Se é isto o que pretendem, saiamos e cedamos ao culto impio de Mohammed o templo do Deus vivo, já que para o salvar sería inutil todo o sangue que se vertesse. Com as virgens esposas do Senhor buscarei os ermos das serras do norte, e, como as monjas primitivas, ahi acharemos a paz e o repouso, emquanto o pae celestial nos não chama á nossa verdadeira patria.»

«Prouvera a Deus, veneravel Chrimhilde--tornou o quingentario--que nos fosse licito desamparar estes muros: deixar só entregues ás profanações dos infiéis a pedra e o cimento! Mas uma atroz mensagem acaba de me ser mandada por quem, como eu, devia horrorisar-se della. Repelli-a, porque se me offereciam vida e honras a troco de perpetua infamia. Agora resta-me unicamente o morrer como godo e como soldado da cruz.»

«E qual era essa mensagem?--perguntou a abbadessa anciosamente.--Em nome de quem vinha ella?»

«Do bispo d'Hispalis e do conde de Septum; de um sacerdote e de um nobre. O preço da nossa liberdade era a prostituição das vossas filhas queridas, das monjas consagradas á Virgem Dolorosa, que esses malaventurados destinam para saciar as paixões brutas daquelles a quem venderam a terra d'Hespanha. Para o obter cumpre-lhes, porém, passar por cima dos membros despedaçados dos guerreiros que povoam estas muralhas. Pela cruz assim o jurámos todos. Havemos de cumpri-lo.»

As palavras de Atanagildo vibraram no coração de Chrimhilde, como vibra o primeiro dobre pelo finado que ainda jaz em seu leito da derradeira agonia na alma do bom filho, que resa, chorando, ajoelhado ao pé delle. Recuou atterrada e, volvendo para o céu os olhos enxutos, porque a afflicção nelles estancara as lagrymas que despontavam, ficou por alguns momentos com as mãos erguidas, como implorando uma inspiração de cima. Pouco a pouco, porém, as suas faces tingiram-se da cor da vida, o sorriso da esperança rodeiou-lhe os labios, e as lagrymas, consolo supremo das maiores magoas e, tambem, expressão eloquente dos contentamentos mais intimos, lhe rebentaram com força e lhe orvalharam a negra estamenha do habito.

«O martyrio! o martyrio!--murmurou a abbadessa.--Oh Christo! bemdicto seja o teu nome.»

«O martyrio, sim:--interrompeu o quingentario--mas depois do sacrilegio; mas depois que as victimas da corrupção dos traidores tiverem sido arrastadas para longe da Hespanha e depois que nos harems do oriente houverem sido polluidas pela sensualidade brutal dos conquistadores. Eu, ao menos, não verei esta ultima offensa á crença sacrosancta de nossos paes...»

«Ide:--proseguiu a abbadessa, que parecia não o haver escutado, embebida em meditação profunda:--Quando os infiéis se approximarem, enviae-lhes mensageiros de paz. Que vos deixem acolher ás montanhas com essa multidão d'infelizes que vieram buscar o abrigo destes muros. Não cureis das monjas da Virgem Dolorosa, nem receieis por ellas. Achei um meio para as salvar da sorte medonha que as ameaça. Desamparae-nos; porque o archanjo do esforço é o nosso defensor. O meu arbitrio será acceito pelas escolhidas do Christo; sê-lo-ha, porque o Senhor m'o inspirou. Nada mais é preciso dizer-vos.»

E, de feito, o seu olhar e gesto eram de uma inspirada: mas nesse olhar e gesto havia o que quer que era de severa aspereza misturado com alegria suave, como em céu que varre o noroeste as nuvens tenebrosas remendam o azul purissimo do firmamento, d'onde, através dellas, jorram torrentes de luz.

«Mas o juramento?--tornou tristemente o quingentario.--Devo respeitar o vosso segredo; todavia parece-me licito duvidar da efficacia dos meios que imaginaes para vos salvardes das mãos dos mosselemanos.»

«O vosso juramento é inutil--acudiu Chrimhilde--e eu vos escuso delle. A resistencia só servirá para arrastardes comvosco á morte os velhos inermes e as criancinhas innocentes. Ide e abri pacificamente as portas aos pagãos. Se tanto é preciso, eu vo-lo ordeno. Atanagildo, um dia nos veremos no céu.»

Dictas estas palavras com toda a firmeza de uma resolução inabalavel, a abbadessa affastou-se da reixa e encaminhou-se para o meio das freiras, que, entretanto, haviam estado immoveis com os olhos cravados no pavimento. O quingentario ficou por alguns momentos pensativo: depois, agitado pela lucta cruel dos affectos e pensamentos oppostos que tumultuavam no seu coração, atravessou vagarosamente o templo e desappareceu.

A um signal de Chrimhilde as monjas saíram do coro; a donzella vestida de branco, ao lado da veneravel abbadessa, apertava-lhe a mão entre as suas; mas os seus meneios eram firmes como os della e mais do que os della altivos. Desde que a ultima freira passou, as préces misturadas de soluços que sussurravam na egreja converteram-se n'um som unico de chôro perdido, como se a ultima esperança houvera desapparecido com ellas.

A campa do mosteiro bateu tres pancadas com largos intervallos: é o signal que convoca as monjas a capitulo. Para lá se encaminham. A donzella que nessa noite chegara acompanha-as, tambem, ahi. Entraram. As pesadas portas da casa capitular rangem nos gonzos cerrando-se, e o correr dos ferrolhos interiores reboa ao longe pelos corredores monasticos. Ao mesmo tempo a ponte levadiça cai sobre o fosso que rodeia as muralhas do vasto edificio; um cavalleiro se arroja sózinho ao meio dos esquadrões do Islam, que já subiram a encosta, e pede para falar com o conde de Septum em nome de Atanagildo. Dentro de poucos instantes ei-lo que volta, e os mosselemanos param a curta distancia. Então um grande numero de crianças, de velhos e de mulheres, saíndo, como torrente comprimida, do portal profundo do mosteiro, atravessam por meio de duas fileiras de soldados de Juliano e de guerreiros arabes que vieram collocar-se aos lados da ponte. Esta multidão desordenada ondeia, separa-se, apinha-se de novo, para tornar a espalhar-se, até que desapparece ao longe, caminho das montanhas. Após ella, cubertos dos seus saios de malha, mas sem armas, os soldados de Atanagildo seguem com rosto melancholico as mesmas trilhas por onde se vai escoando a turba, até que, tambem como esta, se derramam pelas selvas densas dos montes e pelos barrancos escarpados que, retalhando os Nervasios, dão passagem através delles para as regiões septemtrionaes da Hespanha.

Apenas o quingentario, que fora o derradeiro a atravessar a ponte levadiça, volvendo ainda os olhos arrasados de lagrymas para aquella sancta morada, desceu a encosta, as duas fileiras de soldados arremessaram-se ao fundo portal, cujas abobadas pela primeira vez reboaram com os gritos discordes de homens desenfreiados, e o edificio solitario respondeu-lhes com um silencio lugubre. Diante delles estavam patentes as vastas arcarias e escadas, os longos corredores, os pateos espaçosos. Lá, no centro, o templo solitario, com as portas abertas de par em par, amostra-lhes aos olhos ávidos as suas riquezas, ao passo que parece querer vedar ao sol, com as cores sombrias das vidraças das janellas, o espectaculo das profanações de que na sua existencia secular vai ser theatro e testemunha pela primeira vez.

Como o tufão, rugindo, se abysma nas galerias tortuosas de mina extensa, assim os godos renegados e os mosselemanos, que os seguem de perto, se precipitam dentro do mosteiro. Pelas arcadas e corredores, pelas salas e aposentos ouve-se o rir e falar desentoado, o ruído de passadas rapidas, o tinir das armas, o estourar das portas. Arabes, mouros, soldados godos da Tingitania misturam-se, disputam, ameaçam-se, dividindo o sacco. Os cheiks e os capitães do conde de Septum vedam-lhes unicamente a entrada das habitações interiores, onde a riqueza do templo lhes promette á cobiça mais avultada presa. Elles sós se encaminham para essa parte e desapparecem nos claustros monasticos, onde não se ouve outro signal de vivos, senão o som de seus pés e, a espaços, o tinir das proprias armaduras, que roçam pelos pilares de marmore.

Suintila, o deshonrado irmão do virtuoso Atanagildo, era do numero dos capitães que haviam primeiramente penetrado no claustro solitario. Tinha-se adiantado mais e descia por uma escadaria lobrega que terminava, segundo parecia, n'uma quadra allumiada por muitas tochas. Esta circumstancia, que lhe excitava viva curiosidade, o obrigou a apertar o passo. A meia descida parou. Crera ouvir um cantico entoado por muitas vozes accordes, que a espaços era interrompido por gemidos dolorosos. Escutou: não se enganava! Então o terror começou a apossar-se delle, e, porventura, teria retrocedido, se não sentira que alguem mais o seguia. Eram dous cheiks arabes e um centenario do conde de Septum que o acaso guiara para aquella parte. Interposto entre o clarão avermelhado que saía do subterraneo e os tres que se approximavam, Suintila fez-lhes signal de silencio e continuou a descer mansamente, até chegar á porta que dava da escadaria para o aposento illuminado. Então conheceu onde estava. Era um desses logares mysteriosos e sanctos que a primitiva architectura religiosa construía debaixo dos templos--templos tambem, mas da morte; porque ahi, sobre os altares, repousavam as cinzas dos martyres, e aos pés delles os fiéis que obtinham para ultima jazida uma pouca de terra onde ainda fossem affagar-lhes as cinzas o sussurro longinquo das préces e o perfume dos sacrificios.--Suintila achava-se na crypta do mosteiro da Virgem Dolorosa. O clarão que vira era o de muitos lumes, accesos em lampadarios gigantes, e reverberando nas stalactites penduradas das juncturas do marmore: era o reflexo das tochas que ardiam diante dos crucifixos, unicas imagens que se viam sobre as aras núas. Em cada um dos tumulos das monjas antigas, enfileirados ao comprido dos muros, negrejavam apenas uma data e um nome. Era o que restava para memoria de muitas virtudes naquelles annaes do mosteiro, naquella chronologia de pedra. O sepulchro da viuva d'Hermeneghild, o desgraçado irmão de Rekkáred, elevado mais que os outros á entrada do templo subterraneo, semelhava um throno de rainha em palacio de sombras, porque o ambiente grosso e frio e o halito das sepulturas revelavam que ahi era o imperio da morte.

As torrentes de luz que inundavam esta morada de terror não permittiram a Suintila enxergar no primeiro volver de olhos os objectos que estavam ante elle. Espantado, tentava descobrir no meio daquella resplandecente solidão algum vulto humano, quando os cantos e gemidos, suspensos momentaneamente, romperam de novo: primeiro as vozes harmoniosas; depois o gemido íntimo, doloroso, affogado; logo outra vez o silencio.

Os dous cheiks e o centenario tinham chegado ao pé de Suintila. Animados uns pela presença dos outros, encaminham-se para o grande tumulo e d'alli olham para o logar d'onde haviam soado os canticos. Eis o temeroso espectaculo que têem diante de si: