Part 2
Mas, se os que o acatavam como um predestinado soubessem quão negra era a predestinação do poeta, porventura que essa especie de culto de que o cercavam se converteria em compaixão ou antes em terror. Os hymnos tão suaves, tão cheios d'uncção, tão intimos, que os psalmistas das cathedraes de Hespanha repetiam com enthusiasmo eram como o respirar tranquillo do somno da madrugada que vem depois de arquejar e gemer de pesadello nocturno. Rapido e raro passava o sorrir nas faces de Eurico; profundas e indeleveis eram as rugas da sua fronte. No sorriso reverberava o hymno pio, harmonioso, sancto dessa alma, quando, alevantando-se da terra, se entranhava nos sonhos de um mundo melhor. Ás rugas, porém, da fronte do presbytero, semelhantes ás vagas varridas pelo noroeste, respondia um canto lugubre de colera ou desalento, que rebramia lá dentro, quando a sua imaginação, cahindo, como a aguia ferida, das alturas do espaço, se rojava pela morada dos homens. Era este canto doloroso e tetrico, o qual lhe transsudava do coração em noites não dormidas, na montanha ou na selva, na campina ou no estreito aposento, que elle derramava em torrentes de amargura ou de fel sobre pergaminhos que nem o ostiario nem ninguem tinha visto. Estes poemas, em que palpitava a indignação e a dor de um animo generoso, eram o Gethsemani do poeta. Todavia, os virtuosos nem sequer o imaginavam, porque não perceberiam como, tranquilla a consciencia e repousada a vida, um coração póde devorar-se a si proprio, e os maus não criam que o sacerdote, embebido unicamente em suas esperanças credulas, em suas cogitações d'além do tumulo, curasse dos males e crimes que roíam o imperio moribundo dos wisigodos; não criam que tivesse um verbo de colera para amaldicçoar os homens aquelle que ensinava o perdão e o amor. Era por isto que o poeta escondia as suas terriveis inspirações. Monstruosas para uns, objecto de ludibrio para outros, n'uma sociedade corrupta, em que a virtude era egoista e o vicio incredulo, ninguem o escutara ou, antes, ninguem o entenderia.
Levado á existencia tranquilla do sacerdocio pela desesperança, Eurico sentira a principio uma suave melancholia refrigerar-lhe a alma requeimada ao fogo da desdita. A especie de torpor moral em que uma rapida transição de habitos e pensamentos o lançara pareceu-lhe paz e repouso. A ferida affizera-se ao ferro que estava dentro della, e Eurico suppunha-a sarada. Quando um novo affecto veio espremê-la é que sentiu que não se havia cerrado e que o sangue manava ainda, porventura, com mais força. Um amor de mulher mal correspondido a tinha aberto: o amor da patria, despertado pelos acontecimentos que rapidamente succediam uns aos outros na Hespanha despedaçada pelos bandos civis, foi a mão que de novo abriu essa chaga. As dores recentes, avivando as antigas, começaram a converter pouco a pouco os severos principios do christianismo em flagello e martyrio daquella alma, que, a um tempo, o mundo repellia e chamava e que nos seus transes d'angustia sentia escripta na consciencia com a penna do destino esta sentença cruel:--nem a todos dá o tumulo a bonança das tempestades do espirito.
As scenas de dissolução social que naquelle tempo se representavam na Peninsula eram capazes de despertar a indignação mais vehemente em todos os animos que ainda conservavam um diminuto vestigio do antigo caracter godo. Desde que Eurico trocara o gardingato pelo sacerdocio, os odios civís, as ambições, a ousadia dos bandos e a corrupção dos costumes haviam feito incriveis progressos. Nas solidões do Calpe tinha reboado a desastrada morte de Witiza, a enthronisação violenta de Ruderico e as conspirações que ameaçavam rebentar por toda a parte e que a muito custo o novo monarcha ía affogando em sangue. Ebbas e Sisebuto, filhos de Witiza, Oppas, seu tio, successor de Siseberto na sé de Hispalis, e Juliano, conde dos dominios hespanhoes nas costas d'Africa, do outro lado do Estreito, eram os cabeças dos conspiradores. Unicamente o povo conservava aínda alguma virtude, a qual, semelhante ao liquido transvasado por cendal delgado e gasto, escoara inteiramente atravez das classes superiores. Opprimido, todavia, por muitos generos de violencias, esmagado debaixo dos pés dos grandes que luctavam, descrera por fim da patria, tornando-se indifferente e covarde, prestes a sacrificar a sua existencia collectiva á paz individual e domestica. A força moral da nação tinha, portanto, desapparecido, e a força material era apenas um phantasma; porque, debaixo das lorigas dos cavalleiros e dos saios dos peões das hostes não havia senão animos gelados, que não podiam aquecer-se ao fogo do sancto amor da terra natal.
Com a profunda intelligencia de poeta, o Presbytero contemplava este horrivel espectaculo de uma nação cadaver e, longe do bafo empestado das paixões mesquinhas e torpes daquella geração degenerada, ou derramava sobre o pergaminho em torrentes de fel, d'ironia e de colera a amargura que lhe trasbordava do coração ou, recordando-se dos tempos em que era feliz porque tinha esperança, escrevia com lagrymas os hymnos de amor e de saudade. Das elegias tremendas do Presbytero alguns fragmentos que duraram até hoje diziam assim:
IV
RECORDAÇÕES
Onde é que se escondeu enfraquecida a antiga fortaleza?
S. Eulogio: _Memorial dos Sanct. liv._ 3.^o
_Presbyterio de Carteia. Á meia noite dos Idos de Dezembro de 748._
1
Era por uma destas noites vagarosas do inverno em que o brilho do céu sem lua é vivo e tremulo; em que o gemer das selvas é profundo e longo; em que a soledade das praias e ribas fragosas do oceano é absoluta e tetrica.
Era a hora em que o homem está recolhido nas suas mesquinhas moradas; em que pelos cemiterios o orvalho se pendura do topo das cruzes e, sósinho, goteja das bordas das campas; em que só elle chora os mortos. As larvas da imaginação e o gear nocturno affastam do campo sancto a saudade da viuva e do orpham, a desesperação da amante, o coração despedaçado do amigo. Para se consolarem, os infelizes dormiam tranquillos em seus leitos macios!... em quanto os vérmes íam roendo esses cadaveres amarrados pelos grilhões da morte. Hypocritas dos affectos humanos, o somno enxugou-lhes as lagrymas!
E depois, as lousas eram já tão frias! Nos seios de um torrão humido o sudario do cadaver tinha apodrecido com elle.
Haverá paz no tumulo? Deus sabe o destino de cada homem. Para o que ahi repousa sei eu que ha na terra o esquecimento!
Os mares pareciam naquella hora recordar-se ainda do rugido harmonioso do estio, e a vaga arqueiava-se, rolava e, espreguiçando-se pela praia, reflectia a espaços nas golfadas de escuma a luz indecisa dos céus.
E o animal que ri e chora, o rei da creação, a imagem da divindade, onde é que se escondera?
Tremia de frio em aposento cerrado, e sentia confrangido a brisa fresca do norte que passava nas trevas e sibilava contente nas sarças rasteiras dos maninhos desertos.
Sem dúvida, o homem é forte e a mais excellente obra da creação. Gloria ao rei da natureza que tiritando geme!
Orgulho humano, qual és tu mais?--feroz, estupido ou ridiculo?
2
Não eram assim os godos do oeste quando, ora arrastando por terra as aguias romanas, ora segurando com o seu braço de ferro o imperio que desabava, imperavam na Italia, nas Gallias e nas Hespanhas, moderadores e arbitros entre o Septemtrião e o Meio-dia:
Não era assim, quando o velho Theoderik, semelhante ao urso feroz da montanha, combatia nos campos catalaunicos rodeiado de tres filhos contra o terrivel Attila e ganhava no seu ultimo dia a sua ultima victoria:
Quando a larga e curta espada de dous gumes se convertera em fouce de morte nas mãos dos godos, e diante della retrocedia a cavallaria dos gépidas, e os esquadrões dos hunos vacillavam, dando roucos gritos d'espanto e terror.
Quando as trevas eram mais cerradas e profundas viam-se á claridade das estrellas relampagueiar as armas dos hunos, volteiando em roda dos seus carros, que lhes serviam de vallos. Como o caçador espreita o leão tomado no fojo, os wisigodos os vigiavam, esperando o romper da alvorada.
Lá, o sopro gelado da noite não fazia confranger nossos avós debaixo das armaduras. Lá, a neve era um leito como outro qualquer, e o rugir do bosque, debatendo-se nas azas da tempestade, era uma cantilena de repouso.
O velho Theoderik cahira atravessado por uma frecha despedida pelo ostrogodo Handags, que com os da sua tribu combatia pelos hunos.
Os wisigodos viram-no, passaram ávante e vingaram-no. Ao pôr do sol, gépidas, ostrogodos, scyros, burgundos, thuringios, hunos, misturados uns com outros, tinham mordido a terra catalaunica, e os restos da innumeravel hoste d'Attila, encerrados no seu acampamento fortificado, preparavam-se para morrer; porque Theoderik jazia para sempre, e o frankisk dos wisigodos era vingador e inexoravel.
O romano Aecio teve, porém, piedade d'Attila e disse aos filhos de Theoderik:--ide-vos, porque o imperio está salvo.
E Thorsmund, o mais velho, perguntou a seus dous irmãos Theoderik e Friederik:--está acaso vingado o sangue de nosso pae?
De sobejo o estava elle! Ao apparecer do dia, por quanto os olhos podiam alcançar, não se viam senão cadaveres.
E os wisigodos deixaram entregues a si os romanos, que, desde então, não souberam senão fugir diante d'Attila.
Quem contará, porém, as victorias de nossos avós durante tres seculos de gloria? Quem poderá celebrar o esforço d'Eurik, de Theudes, de Leuwighild; quem saberá todas as virtudes de Rekkáred e de Wamba?
Mas, em qual coração resta hoje virtude e esforço no vasto imperio d'Hespanha?
3
Era, pois, n'uma destas noites como a que desceu do céu depois do desbarato dos hunos; era n'uma destas noites em que a terra, envolta no seu manto d'escuridade, se povôa de terrores incertos; em que o sussurro do pinhal é como um coro de finados, o despenho da torrente como um ameaçar d'assassino, o grito da ave nocturna como uma blasphemia do que não crê em Deus.
Nessa noite fria e humida, arrastado por agonia intima, vagava eu ás horas mortas pelos alcantis escalvados das ribas do mar e enxergava ao longe o vulto negro das aguas balouçando-se no abysmo que o Senhor lhes deu para perpetua morada.
Por cima da minha cabeça passava o norte agudo. Eu amo o sopro do vento, como o rugido do mar.
Porque o vento e o oceano são as duas unicas expressões sublimes do verbo de Deus, escriptas na face da terra quando ainda ella se chamava o cahos.
Depois é que surgiu o homem e a podridão, a arvore e o verme, a bonina e o emmurchecer.
E o vento e o mar viram nascer o genero-humano, crescer a selva, crescer a primavera;--e passaram, e sorriram-se.
E, depois, viram as gerações reclinadas nos campos do sepulchro, as arvores derribadas no fundo dos valles seccas e carcomidas, as flores pendidas e murchas pelos raios do sol do estio;--e passaram, e sorriram-se.
Que tinham elles, de feito, com essas existencias, mais passageiras e incertas que as correntezas de um e que as ondas buliçosas do outro?
4
O mundo actual nunca poderá entender plenamente o affecto que, vibrando-me dolorosamente as fibras do coração, me arrastava para as solidões marinhas do promontorio, quando os outros homens nos povoados se apinhavam á roda do lar acceso e falavam das suas mágoas infantis e dos seus contentamentos de um instante.
E que m'importa a mim isso? Virão um dia a esta nobre terra d'Hespanha gerações que comprehendam as palavras do Presbytero.
Arrastava-me para o ermo um sentimento intimo, o sentimento de haver acordado, vivo ainda, deste sonho febril chamado vida e de que hoje ninguem acorda, senão depois de morrer.
Sabeis o que é esse despertar de poeta?
É o ter entrado na existencia com um coração que trasborda d'amor sincero e puro por tudo quanto o rodeia, e ajunctarem-se os homens e lançarem-lhe dentro do seu vaso d'innocencia lodo, fel e peçonha e, depois, rirem-se d'elle:
É o ter dado ás palavras--virtude, amor patrio e gloria--uma significação profunda e, depois de haver buscado por annos a realidade dellas neste mundo, só encontrar ahi hypocrisia, egoismo e infamia:
É o perceber á custa de amarguras que o existir é padecer, o pensar descrer, o experimentar desenganar-se e a esperança nas cousas da terra uma cruel mentira de nossos desejos, um fumo tenue que ondeia em horisonte áquem do qual está assentada a sepultura.
Este é o acordar do poeta. Depois disso, nos abysmos da sua alma só ha para mandar aos labios um sorriso de desprezo em resposta ás palavras mentidas dos que o cercam ou uma voz de maldicção desabridamente sincera para julgar as acções dos homens.
É então que para elle ha unicamente uma vida real--a intima; unicamente uma linguagem intelligivel--a do bramido do mar e do rugido dos ventos; unicamente uma convivencia não travada de perfidia--a da solidão.
5
Tal era eu quando me assentei sobre as fragas; e a minha alma via passar diante de si esta geração vaidosa e má, que se crê grande e forte, porque sem horror derrama em luctas civis o sangue de seus irmãos.
E o meu espirito atirava-se para as trévas do passado.
E o sopro rijo do norte affagava-me a fronte requeimada pela amargura, e a memoria consolava-me das dissoluções presentes com a aspiração suave do formoso e energico viver d'outr'ora.
E o meu meditar era profundo como o céu, que se arqueia immovel sobre nossas cabeças; como o oceano, que, firmando-se em pé no seu leito insondavel, braceja pelas bahias e enseadas, tentando esmigalhar e desfazer os continentes.
E eu pude, emfim, chorar.
6
Que fora a vida, se nella não houvera lagrymas?
O Senhor estende o seu braço pesado de maldicções sobre um povo criminoso: o pae que perdoara mil vezes converte-se em juiz inexoravel; mas, ainda assim, a Piedade não deixa de orar juncto dos degráus do seu throno.
Porque sua irman é a Esperança, e a esperança nunca morre nos céus. De lá ella desce ao seio dos máus antes que sejam precítos:
E os desgraçados na sua miseria conservam sempre olhos que saibam chorar.
A dor mais tremenda do espirito quebrantam-na e entorpecem-na as lagrymas.
O Sempiterno as creou quando nossa primeira mãe nos converteu em réprobos: ellas servem, porventura, ainda de algum refrigerio lá nas trévas exteriores, onde ha o ranger dos dentes.
Meu Deus, meu Deus!--Bemdicto seja o teu nome, porque nos déste o chorar.
V
A MEDITAÇÃO
Então os godos cahirão na guerra; Então fero inimigo ha-de opprimi-los Com ruinas sem conto, e o susto e a fome.
_Hymno de_ S. Isidoro _em_ Lucas de Tui. Chronicon liv. 3.^o
_No templo--Ao romper d'alva--Dia de Natal da era de 748._
1
Mais de sete seculos são passados depois que tu, oh Christo, vieste visitar a terra.
E as tuas palavras foram escutadas pelos indomaveis filhos da Gothia, e elles ajoelharam aos pés da cruz.
Era que nessas palavras divinas havia uma poesia celeste, a qual as almas rudes mas virgens do septemtrião sentiam casar-se com as suas primitivas virtudes.
Tu evangelisavas a liberdade e condemnavas todo o genero de tyrannia: tu restituias ao valor a sua generosidade, á generosidade a sua modestia; tu revelavas inauditos mysterios no esforço do morrer: a constancia dos teus martyres escurecia a dos nossos guerreiros quando, debaixo do punhal de inimigo victorioso, recusavam confessar-se vencidos.
Tu convertias o amor, esse sentimento delicioso, até então limitado ao goso material da mulher, em um grande e sublime affecto: alargavas o ambito do coração por toda a terra, por tudo quanto nella vive e respira, e davas-lhe para conquistar todas as existencias dos céus.
A generosidade, o esforço e o amor, ensinaste-os tu em toda a sua sublimidade: só nas almas dos barbaros estavam elles em germen. Não para os romanos corrompidos, mas para nós, os selvagens septemtrionaes, era o christianismo. Para estes o evangelho assemelhava-se ao sol que rompe d'além das serras e que illumina, aquece e alegra; para os escravos abjectos dos cesares assemelhava-se ao sol mergulhando-se no mar, que só deixa nos campos escuridão, frialdade e tristeza.
Por isso, emquanto elles voltavam as costas á tua cruz ou a lançavam d'envolta com os idolos nos seus mesquinhos lararios, nós quebravamos no fundo das selvas ou no topo das montanhas as imagens d'Odin, de Thor e de Freda e corriamos a abraçarmo-nos com ella.
Tem compaixão de nós, oh Christo: lembra-te de que os ossos dos que assim o fizeram ainda não são inteiramente cinzas debaixo das lousas; porque só quatro seculos tem passado por cima delles.
2
Quem é hoje christão e godo nesta nossa terra d'Hespanha?
Uma geração degenerada pisa os restos d'heroes: homens sem crença, blasphemos ou hypocritas, succederam aos que criam na grandeza moral do genero-humano e na providencia de Deus.
D'antes, os principes do povo eram os capitães das hostes: a espada dos reis a primeira que se tingia no sangue dos inimigos da patria.
D'antes, o sacerdote era o anjo da terra: os que passavam curvavam-se para beijar a fimbria da sua stringe; porque a paz e a esperança entravam em todas as moradas sobre que desciam as bençams delle.
D'antes, o juiz era o pae do opprimido, o tribunal o abrigo do innocente, a justiça o nervo do imperio gothico.
D'antes, nos concelhos dos prelados, dos nobres, dos homens livres as leis íam buscar a sancção da sabedoria e afferir-se pela utilidade commum. Lá, o rei sabía que o poder lhe vinha de Deus e da vontade dos godos, que o sceptro era cajado de pastor, não cutello d'algoz, e a coroa uma carga pesada, não uma aureola de vangloria.
Hoje, nos paços de Toletum só retumba o ruido das festas, os frankos e os vasconios talam as provincias do norte, e a espada dos guerreiros só reluz nas luctas civís.
Hoje, os principes na embriaguez dos banquetes esqueceram-se das tradições d'avós; esqueceram-se de que era aos capitães das hostes da Germania que os romanos imbelles davam o nome de reis.
Hoje, a prostituição entrou no templo do Crucificado: os claustros das cathedraes velam com o seu manto de pedra as abominações da torpeza, e as mãos do sacerdote deixam muitas vezes humedecida a tela que veste os altares com vestigios do sangue derramado covarde e vilmente.
Hoje, a cubiça assentou-se no logar da equidade: o juiz vende a consciencia no mercado dos poderosos, como as mulheres de Babylonia vendiam a pudicicia nas praças publicas aos que passavam, diante da luz do dia.
Hoje, a espada substituiu o conselho dos prelados, dos nobres e dos homens livres: a coroa é uma conquista, a lei uma vontade do deshonrado vencedor de pelejas domesticas, a liberdade uma palavra mentida.
Imperio d'Hespanha, imperio d'Hespanha! porque foram os teus dias contados?
3
O sol oriental que ora bate ridente no pavimento da igreja afflige a minha alma, porque me parece que, alumiando esta terra condemnada, se assemelha a homem cruel que viesse dar uma risada juncto ao leito do moribundo.
Porque te havia eu de amar, oh sol, se tu és o inimigo dos sonhos do imaginar; se tu nos chamas á realidade, e a realidade é tão triste?
Pela escuridão da noite, nos logares ermos e ás horas mortas do alto silencio a phantasia do homem é mais ardente e robusta.
É então que elle dá movimento e vida aos penhascos, voz e entendimento ás selvas que se meneiam e gemem á mercê da brisa nocturna.
É então que elle collige as suas recordações; une, parte, transmuda as imagens das existencias que viu passar ante si e estampa nas sombras que o rodeiam um universo transitorio, mas para elle real.
E é bello esse mundo de phantasmas aereos, por entre cujos labios descorados não transpiram nem perjurio nem dobrez e a cujos olhos sem brilho não assoma o reflexo de animos pervertidos.
Ahi ha o repouso, a paz e a esperança que desappareceram da terra; porque o mundo das visões cria-o a mente pura do poeta: ella dá corpo e vulto ao que já só é ideal, e o passado, deixando cahir o seu immenso sudario, ergue-se em pé e, pondo-se diante do que medita, diz-lhe:--aqui estou eu!
E este o compara com o presente e recúa d'involuntario terror:
Porque o cadaver que se alevanta do pó é formoso e sancto, e o presente que vive e passa e sorri é horrendo e maldicto.
E o poeta atira-se chorando ao seio do cadaver e responde-lhe:--esconde-me tu!
É lá que esta alma, arida como a urze, sente, quando ahi se abriga, refrescá-la um como orvalho do céu.
VI
SAUDADE
Christo!--dá-me o perdão; dá-me remedio; Que entre tão vario mal fraqueia a mente!
Eugenio Toledano: _Opusculos--XI._
_Na Ilha-verde. Ao pôr do sol das kalendas de abril da era de 749._
1
O mar estava tranquillo, e o ar puro e diaphano. As costas d'Africa fronteiras, lá na extremidade do horisonte, pareciam uma orla escura bordada no manto azul do firmamento.
A aragem do norte encrespava suavemente a superficie das aguas: as ondas vinham espraiar-se preguiçosas no areial da bahia.
O barqueiro Ranimiro dormia na sua barca amarrada na foz do Palmonio. Uma saudade indizivel attrahia-me para o mar.
Saltei na barca; o ruido que fiz despertou Ranimiro.--«Ao largo»--disse-lhe eu. Empunhou os remos, e partimos.
«Para onde, Presbytero?»--perguntou o barqueiro, depois de vogar alguns momentos em silencio.
«Quero respirar o ar puro e fresco da tarde; mais nada:--repliquei.--Leva-me para onde te approuver.»
--Se vos parece--tornou Ranimiro--rodeiaremos a Ilha Verde, entraremos no canal, e saltareis na margem. Pelo tempo que vai, ella estará agora esmaltada de verdura e boninas.»
Calei-me: o barqueiro tomou por approvação o meu silencio. Voltando a proa para poente, corremos ao largo da ilha e, rodeiando a sua margem occidental, abicámos em terra pelo lado da enseada que a separa do continente.
Ranimiro não se enganara: como uma tapeçaria riquissima lançada ao som das aguas, a superficie da ilha agitava-se trémula com a aragem da terra, que curvava brandamente as flores e as folhinhas lanceoladas da relva.
Assentado á sombra de uma rocha que formava um promontoriosinho do lado do sul, lancei os olhos em volta até onde se descubria o horisonte. Lá, no extremo do Estreito para a banda do mar interior, viam-se na ponta da Africa os cimos das torres de Septum fronteiras aos cerros escalvados do Calpe. De Septum para o occidente as costas africanas contrastavam nas suas ondulações suaves com a penedia aspera das ribas hispanicas, e, confrangido entre os dous continentes, o mar balouçava-se resplandecente com os raios já inclinados do sol.
De roda de mim a atmosphera estava impregnada de um halito perfumado: era a natureza que sorria affagada pela primavera. As aves aquaticas redemoinhavam nos ares ou pousavam sobre as aguas e pareciam, nos seus vôos incertos, ora vagarosos, ora rapidos, folgarem com os primeiros dias da estação dos amores.
Uma melancholia suave se me erguia lentamente no coração, debaixo daquelle céu puro, n'aquella atmosphera balsamica, ante aquelles horisontes saudosos. As lagrymas rebentaram-me involuntariamente dos olhos.
Era feliz neste momento, porque repousava d'amarguras. Olhei para a barca: Ranimiro adormecera de novo á proa. Repousavam bem perto um do outro a materia e o espirito.
Bemaventurado, pensei eu comigo, aquelle em quem os affagos de uma tarde serena de primavera no silencio da solidão produzem o torpor dos membros; porque nessa alma dormem profundamente as dores no meio do ruido da vida!
E este pensamento trouxe-me pouco e pouco á memoria as tempestades do passado. Ai de mim! Logo se me enchugaram as lagrymas, porque eram de consolação, e essa lembrança as estancou!
2
Porque não adormeço eu, como o rude barqueiro, ao murmurio das vagas somnolentas, ao sussurro da brisa do norte?
Porque mulher barbara não entendeu o que valia o amor d'Eurico; porque velho orgulhoso e avaro sabía mais um nome de avós do que eu, e porque nos seus cofres havia mais alguns punhados d'ouro do que nos meus.