Eurico, o presbytero

Part 15

Chapter 153,635 wordsPublic domain

Fora no momento em que Pelagio penetrava, na sua fingida fuga, sob o vasto portal da gruta que o cavalleiro negro saía. O joven guerreiro viu-o e estremeceu. Eurico tinha as faces encovadas, o rosto pallido e transtornado, e havia em todo o seu gesto uma tão singular expressão de tranquillidade que fazia terror. Emquanto os christãos defendiam a entrada elle esteve quedo, como indifferente ao combate; mas, logo que os arabes, acommettidos já pelas costas, principiaram a recuar, e que Pelagio pôde combater na planicie, o cavalleiro, abrindo caminho com o frankisk, desappareceu no meio dos inimigos. Desde esse momento, debalde o duque de Cantabria o buscou: nem elle, nem ninguem mais o viu.

Era quasi ao pôr do sol. Seguindo a corrente do Deva, a pouco mais de duas milhas das encostas do Auseba, dilatava-se nessa epocha denso bosque de carvalhos, no meio do qual se abria vasta clareira, onde sobre dous rochedos aprumados assentava um terceiro. Era, provavelmente, uma ara celtica. Em frente de tosca ponte de pedras brutas lançada sobre o rio, uma senda estreita e tortuosa atravessava a selva e, passando pela clareira, continuava por meio dos outeiros vizinhos, dirigindo-se, nas suas mil voltas, para as bandas da Gallecia. Quatro cavalleiros, a pé e em fio, caminhavam por aquelle apertado carreiro. Pelos trajos e armas, conhecia-se que eram tres christãos e um sarraceno. Chegados á clareira, este parou de repente e, voltando-se com aspecto carregado para um dos tres, disse-lhe:

«Nazareno, offereceste-nos a salvação, se te seguissemos: fiámo-nos em ti, porque não precisavas de trahir-nos. Estavamos nas mãos dos soldados de Pelagio, e foi a um aceno teu que elles cessaram de perseguir-nos. Porém o silencio tenaz que tens guardado gera em mim graves suspeitas. Quem és tu? Cumpre que sejas sincero, como nós. Sabe que tens diante de ti Mugueiz, o amir da cavallaria arabe, Juliano, o conde de Septum e Oppas, o bispo d'Hispalis.»

«Sabía-o:--respondeu o cavalleiro--por isso vos trouxe aqui. Queres saber quem sou? Um soldado e um sacerdote do Christo!»

«Aqui!?... atalhou o amir, levando a mão ao punho da espada e lançando os olhos em roda. Para que fim?»

«A ti, que não eras nosso irmão pelo berço; que tens combatido lealmente comnosco, inimigos da tua fé; a ti que nos opprimes, porque nos venceste com esforço e á luz do dia, foi para te ensinar um caminho que te conduza em salvo ás tendas dos teus soldados. É por alli!... A estes, que venderam a terra da patria, que cuspiram no altar do seu Deus, sem ousarem francamente renegá-lo, que ganharam nas trevas a victoria maldicta da sua perfidia, é para lhes ensinar o caminho do inferno... Ide, miseraveis, segui-o!»

E quasi a um tempo dous pesados golpes de frankisk assignalaram profundamente os elmos de Oppas e Juliano. No mesmo momento mais tres ferros reluziram.

Um contra tres!--Era um combate calado e temeroso. O cavalleiro da cruz parecia desprezar Mugueiz: os seus golpes retiniam só nas armaduras dos dous godos. Primeiro o velho Oppas, depois Juliano cahiram.

Então, recuando, o guerreiro christão exclamou:

«Meu Deus! Meu Deus!--Possa o sangue do martyr remir o crime do Presbytero!»

E, largando o frankisk, levou as mãos ao capacete de bronze e arrojou-o para longe de si.

Mugueiz, cego de colera, vibrara a espada: o craneo do seu adversario rangeu, e um jorro de sangue salpicou as faces do sarraceno.

Como tomba o abeto solitario da encosta ao passar do furacão, assim o guerreiro mysterioso do Chryssus cahia para não mais se erguer!...

Nessa noite, quando Pelagio voltou á caverna, Hermengarda, deitada sobre o seu leito, parecia dormir. Cansado do combate e vendo-a tranquilla, o mancebo adormeceu, tambem, perto della, sobre o duro pavimento da gruta. Ao romper da manhan, acordou ao som de cantico suavissimo. Era sua irman que cantava um dos hymnos sagrados que muitas vezes elle ouvira entoar na cathedral de Tárraco. Dizia-se que seu auctor fora um Presbytero da diocese de Hispalis, chamado Eurico.

Quando Hermengarda acabou de cantar ficou um momento pensando. Depois, repentinamente, soltou uma destas risadas que fazem erriçar os cabellos, tão tristes, soturnas e dolorosas são ellas: tão completamente exprimem irremediavel alienação d'espirito.

A desgraçada tinha, de feito, enlouquecido.

NOTAS

Pag. X

«Chronica-poema, lenda, ou o que quer que seja.»

Sou eu o primeiro que não sei classificar este livro; nem isso me afflige demasiado. Sem ambicionar para elle a qualificação de poema em prosa--que não o é por certo--tambem vejo, como todos hão-de ver, que não é um romance historico, ao menos conforme o creou o modelo e a desesperação de todos os romancistas, o immortal Scott. Pretendendo fixar a acção que imaginei n'uma epocha de transição--a da morte do imperio gothico, e do nascimento das sociedades modernas da Peninsula, tive de luctar com a difficuldade de descrever successos e de retratar homens que, se, por um lado, pertenciam a eras que nas recordações da Hespanha tenho por analogas aos tempos heroicos da Grecia, precediam immediatamente, por outro, a epocha a que, em rigor, podemos chamar historica, ao menos em relação ao romance. Desde a primeira até a ultima pagina do meu pobre livro caminhei sempre por estrada duvidosa traçada em terreno movediço; se o fiz com passos firmes ou vacillantes, outros, que não eu, o dirão.

Conhecemos, talvez, a sociedade wisigothica melhor que a d'Oviedo e Leão, que a do nosso Portugal no primeiro periodo da sua existencia como individuo politico. Sabemos melhor quaes foram as instituições dos godos, as suas leis, os seus usos, a sua civilisação intellectual e material, do que sabemos o que era isso tudo em seculos mais proximos de nós. O esplendor dos paços, as formulas dos tribunaes, os ritos dos templos, a administração, a milicia, a propriedade, as relações civís são menos nebulosas e incertas para nós nas eras gothicas que durante o longo periodo da restauração christan. E, comtudo, o reproduzir a vida dessa sociedade, que nos legou tantos monumentos, com as fórmas do verdadeiro romance historico temo-lo por impossivel, ao passo que o representar a existencia dos homens do undecimo ou dos seguintes seculos será para o que os tiver estudado, não digo facil, mas, sem duvida, possivel.

Qual é a causa d'isto?

É que nós conhecemos a vida publica dos wisigodos e não a sua vida íntima, emquanto os seculos da Hespanha restaurada revelam-nos a segunda com mais individuação e verdade que a primeira. Dos godos restam-nos codigos, historia, litteratura, monumentos escriptos de todo o genero, mas os codigos e a litteratura são reflexos, mais ou menos pallidos, das leis e erudição do imperio romano, e a historia desconhece o povo. O gothicismo hespanhol, ao primeiro aspecto, parece mover-se. Palpamo-lo: é uma estatua de marmore, fria, immovel, hirta. As portas das habitações dos cidadãos cerram-nas os sete sellos do Apocalypse: são a campa da familia. A familia goda é para nós como se nunca existira.

Não cabe n'uma nota o fazer sentir esse não sei quê de magestade _esculptural_ que conserva sempre a raça wisigothica, por mais que tentemos galvanisá-la, nem o contrapor-lhe as gerações nascidas durante a reacção contra o islamismo, que surgem e agitam-se e vivem quando lhes applicamos a corrente electrica e mysteriosa que, partindo da imaginação, vai despertar os tempos que foram do seu calado sepulchro.

Desta differença, que é mais facil sentir que definir, nasce a necessidade de estabelecer uma distincção nas fórmas litterarias applicadas ás diversas epochas da antiga Hespanha, a romano-germanica, e a moderna.

O periodo wisigothico deve ser para nós como os tempos homericos da Peninsula. Nos cantos do Presbytero tentei achar o pensamento e a cor que convem a semelhante assumpto, e em que cumpre predominem o estylo e fórmas da Biblia e do Edda--as tradições christans, e as tradições gothicas, que, partindo do oriente e do norte, vieram encontrar-se e completar-se, em relação á poesia da vída humana, no extremo occidente da Europa.

O romance historico, como o concebeu Walter Scott, só é possivel áquem do oitavo--talvez só áquem do decimo seculo; porque só áquem dessa data a vida da familia, o homem sinceramente homem, e não ensaiado e trajado para apparecer na praça publica, se nos vai pouco a pouco revelando. As fórmas e o estylo que convem aos tempos wisigothicos seriam, desde então, absurdos e, parece-me, até, que ridiculos.

A Hespanha romano-germanica transformou-se na Hespanha rigorosamente moderna no terrivel cadinho da conquista arabe. A obra litteraria (novella ou poema--verso ou prosa--que importa?) relativa a essa transição deve combinar as duas fórmulas--indicar as duas extremidades a que se prende; fazer sentir que o descendente de Theoderik ou de Leuwighild será o ascendente do Cid ou do lidador; que o heroe se vai transformar em cavalleiro; que o servo, entidade duvidosa entre homem e cousa, começa a converter-se em altivo e irrequieto burguez.

E a fórma e o estylo devem approximar-se mais ou menos d'um ou d'outro extremo, conforme a epocha em que lançamos a nossa concepção está mais vizinha ou mais remota da que vai deixando d'existir ou da que vem surgindo. A difficultosa mistura dessas cores na palheta do artista nenhuma doutrina, nenhum preceito lh'a diz: ensinar-lh'a-ha o instincto.

Tive eu esse instincto?--É mais provavel o não que o sim.--Se a arte fora facil para todos os que tentam possuí-la, não nos faltariam artistas!

Pag. 2.

«Leuwighild expulsara da Hespanha os derradeiros soldados dos imperadores .......... e expirara em Toletum.»

Hesitei muito tempo sobre se conviria usar dos nomes proprios, quer de pessoas quer de logares, como as successivas alterações da linguagem na Hespanha os foram transformando, a ponto de muitos delles se acharem hoje totalmente diversos do que eram na sua origem. Destas mudanças, aquellas que apenas consistiam no augmento ou diminuição de uma letra, ou na diversidade das desinencias, podiam, talvez, ser admittidas sem darem um aspecto anachronico ao livro. Outros nomes, porém, havia, sobretudo nas designações corographicas, tão completamente alterados, que me repugnava o substituir o moderno ao antigo. Assim Toletum, Emérita seriam sem difficuldade representados por Toledo e Mérida; mas, como substituir, sem anachronismo na expressão, Sevilha a Hispalis, Leão a Legio, Guadalete a Chryssus e, finalmente, Burgos a Augustobriga, quando, como neste caso, até a situação da moderna cidade não é exactamente a da antiga povoação? Preferi, portanto, conservar os nomes primitivos, os quaes, não influindo de modo algum na ordem e clareza da narrativa, podem facilmente encontrar-se em qualquer diccionario ou tractado de geographia antiga.

Aos nomes individuaes dos primeiros wisigodos procurei conservar, quando alludi a elles, os vestigios da origem gothica: aos dos personagens do meu livro conservei as fórmas alatinadas que se encontram nos monumentos contemporaneos, porque, segundo todas as probabilidades, já nesta epocha o elemento romano de todo havia triumphado na lingua.

Pag. 9.

«Gardingo na corte de Witiza, tiuphado ou millenario do exercito wisigothico.»

Uma das cousas mais disputadas na historia das instituições gothicas é a natureza dessa classe de individuos, que tantas vezes figuram nos monumentos daquellas epochas, chamados gardingos (_gardigg_ em lingua gothica). Masdeu e com elle Romey, que o traduz quasi sempre ácerca da historia dos wisigodos, postoque não o cite senão neste logar, são de parecer que o gardingato não era um titulo de nobreza, mas do cargo de substituto do duque (governador de provincia) como o _vicarius_ o era do conde (governador de cidade). Aschbach deriva a palavra de _Gards_, que significa _solar com terras adjacentes_, e parece querer confirmar assim a opinião de Vossio, que pretendia fossem os administradores ou almoxarifes dos palacios reaes, opinião que sería mui difficil de sustentar á vista de varios monumentos hispano-gothicos. Segui o parecer de Grimm e Lembke, que suppõem formarem os _gardiggos_ uma classe de _curiales_ (cortesãos) ou nobres. Neste caso não serviria a etymologia _gards_ para indicar no gardingato uma nobreza estribada sobre certa extensão e importancia de propriedade territorial, formando a terceira classe de nobreza depois dos _duces_ e _comites_? Rosseeuw-Saint-Hilaire pensa-o assim e faz o gardingo synonimo de _Procer_. Procer, todavia, não indicava em especial o gardingo, mas era denominação generica da nobreza.

Quanto ao cargo de tiuphado ou tiufado, deve saber-se que o exercito godo se dividia em corpos de mil homens, e estes em companhias e esquadras de cem e de dez. Abaixo do tiuphado (_thiud_ ou _theod_ povo e _fath_ conduzir, ou, segundo outra derivação, _taihunda_ mil e _fath_) que, tambem, se chamava millenario (da etymologia latina _mille_) estava o quingentario, segundo uns, capitão de quinhentos homens, especie de major dos regimentos modernos, e, segundo outros, substituto do tiuphado ou semelhante aos nossos tenentes-coroneis. A companhia de cem homens (_centuria_) era regida por um _centenario_, e a de dez (_decania_) por um _decano_.

Pag. 13.

«Com a fluctuante stringe.»

O vestido civil dos wisigodos era uma especie de tunica chamada _Stringe_ ou _Strigio_, já d'antes conhecida pelos romanos. O clero usava deste trajo como os seculares, com a differença de ser branco ou d'outra cor modesta, porque o havia, até, cor de purpura, o uso da qual era severamente prohibido aos sacerdotes. Veja-se Masdeu, Hist. Crit. d'Esp. T. 11, p. 63 e 197, e Ducange e Carpentier ás palavras _Stringes_, _Strigio_.

Pag. 16.

«O ostiario buscava.»

A igreja goda empregava oito ministros na celebração do culto: 1.^o o Ostiario, que abria e fechava o templo, cuidava da conservação dos objetos do culto e vigiava que não assistissem ao sacrificio herejes ou excommungados: 2.^o o Acolito, que illuminava os altares e tinha na mão um candelabro emquanto se lia o evangelho: 3.^o o Exorcista, a quem incumbia o expulsar o demonio dos possessos: 4.^o o Psalmista, que levantava no coro as antiphonas, psalmos e hymnos: 5.^o o Leitor, que lia em alta voz as prophecias do Antigo Testamento e as Epistolas e as explicava ao povo: 6.^o o Subdiacono, que recebia as oblações dos fiéis e dispunha as vestiduras e vasos sagrados para a missa: 7.^o o Diacono, que ajudava a esta e dava a communhão 8.^o o Presbytero, que sacrificava, prégava e dava a benção ao povo.

Pag. 17.

«De Draconcio, de Merobaude e de Orencio.»

Poetas celebres hispano-godos do seculo V.--De Draconcio resta-nos o _Carmen de Deo_ e uma epistola dirigida a Gunth-rik rei dos vandalos. De Merobaude subsiste um fragmento do _Poema de Christo_. D'Orencio, tão elogiado pelo poeta Fortunato e por Sidonio Apollinario, apenas resta uma pequena poesia na _Bibliotheca Veterum Patrum_.

Pag. 26.

«Não eram assim os godos de oeste.»

A raça dos godos, asiatica na origem e germanica na lingua, que, antes de occupar uma parte do territorio romano, habitava ao norte do Ponto Euxino (Mar Negro), dividia-se em duas grandes familias, cujas denominações provieram da sua situação relativa. Os que estanceiavam ao oriente chamavam-se _ost-goths_ (godos de leste) e depois, corruptamente, ostrogodos; os que demoravam ao occidente eram os _west-goths_ (godos de oeste) ou wisigodos, que, depois de ora servirem o imperio como alliados, ora assolarem-no como inimigos, vieram fazer assento no sul das Gallias e na Peninsula, estabelecendo, a final, em Toledo o centro do seu imperio.

Ibidem.

«Combatia nos campos catalaunicos.»

A celebre batalha dada por Theoderik, rei dos wisigodos, e pelo general romano Aecio, seu alliado, ao feroz Attila nos _campi catalaunici_ (planicies de Chalons-sur-Marne) é o mais celebre entre os terriveis combates que custou á Europa no V seculo a dissolução do grande cadaver romano. Podem-se ver em Jornandes e no Panegyrico de Avito por Sidonio Apollinario as particularidades deste successo.

Pag. 42.

«Rodeiaremos a Ilha Verde.»

Algeziras. Este nome foi posto pelos arabes ao logar onde Tarik veio aportar, saindo de Ceuta para a conquista d'Hespanha. O ilheu, hoje chamado _das Pombas_, fica a um tiro d'espingarda daquella povoação, á qual passou o nome que os arabes tinham dado á ilhota, vendo-a verdejar ao longe:--_Djezirat-al-Hadra_ (ilha-verde). Ignorando-lhe o nome antigo, suppuz que essa denominação de origem arabica era anterior e que já os godos lh'a attribuiam. O anachronismo é, a meu ver, assás desculpavel.

Pag. 46.

«O amiculo alvissimo.»

O _amiculo_, que entre os romanos era proprio das mulheres de baixa esphera, tornou-se em Hespanha trajo commum das mais honestas e nobres: era uma especie de manto, com que cubriam as vestiduras inferiores: Os cabellos encerravam-nos n'uma como coifa, denominada _retíolo_. Veja-se Masdeu, Hist. Crit. T. 11, p. 6.

Pag. 55.

«Para o lado dos campos gothicos.»

Os wisigodos tinham dado em especial o nome de _Campi gothici_ ás planicies de Leão e da Extremadura Hespanhola. D'ahi, contrahida a menor territorio, veio a denominação da terra de _Campos_.

Pag. 67.

«Wali de Sebta.»

«_Wali_: Prefeito, caudilho principal, governador de provincia, general d'exercito:» _Conde_, _Declar. de alg. nom. arabes_. Juliano era, segundo parece, o governador da provincia gothica d'além do Estreito, chamada _Transfretana_; cabia-lhe por isso entre os arabes o titulo de Wali. Sebta é a corrupção arabica do nome de Septum, corrupção d'onde os nossos antigos formaram _Cepta_ e, depois, _Ceuta_.

Pag. 70.

«Os golpes do frankisk godo.»

O _frankisk_ ou _frankiska_ era uma especie de machadinha de dous gumes, usada pelos frankos, de quem os godos a tomaram. Consulte-se Masdeu, Hist. Crit. T. 11, p. 52--e Ducange, verb. _Francisca_. A _Cateia_, de que adiante se ha-de falar, era uma lança curta ou dardo, a origem, talvez, da _azcuma_ dos tempos posteriores.

Pag. 82.

«A antiga Romula.»

Sevilha no tempo dos romanos tinha dous nomes--_Romula_ e _Hispalis_. Este ultimo veio a prevalecer, emfim. Veja-se _Flores, Esp. Sagr_. T. 9, p. 87.

Pag. 85.

«O Propheta de Yatrib.»

Mohammed era natural de Medina. Esta cidade chamava-se Yatrib. Foi elle quem lhe poz o nome de Medina-al-Nabi--_Cidade do Propheta_.

Pag. 87.

«Calpe, ou Geb-al-Tarik.»

Os arabes, tendo desembarcado nas costas d'Hespanha e vendo que a montanha do Calpe era um logar grandemente defensavel, fortificaram-se ahi, porventura emquanto esperavam o resto do exercito que passava d'Africa. A montanha recebeu então o nome de _Geb-al-Tarik_ (monte de Tarik) e, tambem, o de _Gel-al-Fetah_ (monte da Entrada). Da palavra Geb-al-Tarik se formou depois a de Gibraltar.

Pag. 89.

«Os crentes do Islam.»

_Islam_ em arabe, o islamismo ou religião do koran. Significa, propriamente, esta palavra _resignação_; _resignação em Deus_.

Pag. 90.

«Alguns esculcas.»

Esculcas eram, nos tempos barbaros, chamadas as rondas ou sentinellas nocturnas dos arraiaes. Esta palavra encontra-se nos escriptores do VI seculo e dos seguintes, como em S. Gregorio Magno; _sculcas quos mittitis sollicitè requirant_: Epist. 12--23.--A fórma pura do vocabulo, _Exculcatores_, apparece já em Vegecio: depois, por abbreviatura, _Exculcae_ e _Sculcae_. _Sculcas_ são contrapostos aos _atalaias_ nas leis das Partidas. P. 2. tit 26, onde estes significam _guardas de dia_.

Ibidem.

«Os romanos!--e a turba repetiu:--Os romanos!»

Os arabes designavam os christãos ou, antes, em geral, qualquer europeu pelo nome de _al-rumi_, o romano, quer fosse grego, franko ou hespanhol. Aquelles mesmos que abraçavam o islamismo conservavam este appellido. Tal era o amir ou general da cavallaria, Mugueiz, um dos mais famosos companheiros de Tarik. Quando, em especial, os pretendiam designar, não pela differença de raça, mas pela de crença, denominavam-nos _Nassrani_ (nazarenos).

Pag. 99.

«O grito de _Allah-hu-Acbar_!»

_Deus só é grande!_ era para os arabes a voz de accommetter, como, depois, foi para os christãos o grito de _Sanctiago_!

Pag. 109.

«Ao longo da ephippia.»

A ephippia era uma especie de sella de lan que os godos haviam imitado da cavallaria romana.

Pag. 117.

«Debaixo das pancadas violentas dos mangoaes.»

«As armas delles (dos berebéres e arabes africanos) quasi se limitam a páus compridos a que se prendem pequenos tóros atados pelo meio, que no combate descarregam sobre os inimigos com ambas as mãos:» Alkhathib, _Pleni-Lunii Splendor_, em Casiri, T. 2, p. 258.

Pag. 153.

«Os cheiks.»

Como a palavra latina _senior_ (o mais velho) veio a significar no latim barbaro e no romance ou linguas vulgares das nações modernas, o _principal_, o _senhor_, assim a palavra arabe _Cheik, Chek, Xeque_, isto é, o _ancião_, tomou entre os sarracenos a significação de senhor ou chefe de uma tribu.

Pag. 157.

«Ás supplicas do velho buccellario.»

No imperio godo os buccellarios vinham a ser o mesmo que os clientes dos romanos, homens livres addictos ás familias poderosas, por quem eram patrocinados e, talvez, sustentados, se, como pretende Masdeu e o seu, nesta parte, quasi traductor Romey, o nome _buccellarius_ lhes provinha de _buccella_ (migalha de pão). O Codigo Wisigothico (Liv. 5. tit. 3.^o) estabelece os deveres e relações destes homens com seus amos e patronos. A obrigação mais importante do buccellario parece ter consistido no serviço militar: _Si ei... arma dederit_. É por isso que se me affigura mais provavel a etymologia que a semelhante denominação attribue com preferencia o erudito Canciani (Barbar. Leg. Ant. Vol. 4, p. 117) derivando-a da palavra scandinava _buklar_ (o escudo), transformada no idioma germanico em _buckel_ e nas linguas modernas em _buckler, bouclier, broquel_. Neste caso o buccellario corresponderia ao _armigero_ ou _escudeiro_ do seculo 12 e 13, que, significando na sua origem o que trazia as armas ou o escudo do seu senhor ou amo, veio a tomar-se por um homem d'armas de certa distincção, a quem, todavia, faltava o grau de cavalleiro.

Pag. 164.

«E as suas almas puras abrigavam-se no seio immenso de Deus.»

O facto narrado neste capitulo é historico. O logar da scena e a epocha é que são inventados. Foram as monjas de Nossa Senhora do Valle, juncto d'Écija, que, em tempos posteriores, practicaram este feito heroico, para se esquivarem á sensualidade brutal dos arabes. Parece que o procedimento das freiras d'Écija foi imitado em muitas outras partes. Consulte-se _Berganza_, _Antiguedades de España_, T. 1, pag. 139; e _Morales, Cron. Gener._ T. 3, pag. 105.

Pag. 197.

«O imperio de Andalús.»

Segundo Lembke, cuja opinião assenta no testemunho de Ibn-Said e de Ahmed-Al-makkari, os arabes conheciam a Hespanha, antes da conquista, pelo nome de _Andalós_ ou _Andalús_, nome que, depois, applicaram em especial ao territorio entre o Wadi-Al-Kebir e o Wadi-Ana (Guadalquivir e Guadiana), isto é, á moderna Andalusia. O nome de Al-Gharb (o occidente) que, igualmente, deram á Peninsula para a distinguir da Mauritania (Al-Moghreb) veio, tambem, a contrahir-se á nossa provincia do Algarve.

Pag. 197.

«Alfaqui dos romanos.»

_Alfaquih._ É titulo que os africanos dão aos seus sacerdotes e sabios da lei: Moura, Vestig. da Lingua Arab. p. 38.

Pag. 220.

«Os nazarenos d'Al-Djuf.»

As grandes divisões da Hespanha, segundo a geographia arabe, eram quatro:--_Al-Gharb_ o occidente; _Al-Sharhiah_ o oriente; _Al-Kiblah_ o meio-dia; _Al-Djuf_ o norte. Era esta, por isso, a designação dos territorios christãos das Asturias e Cantabria.

Pag. 270.

«Os ultimos aripennes de terra livre.»