Eucalyptos e Acacias: Vinte annos de experiencias
Chapter 6
*Eucalyptus rostrata.*--Foi com este que fabriquei os meus maiores desastres. Devo-lhe as manchas de maior miseria das minhas plantações, tanto mais sensiveis quanto maior foi a largueza com que o disseminei, incitado pelo elogio caloroso que de outras terras o acompanhava. Grande culpa, na verdade; nada d'isso me aconteceria, se houvesse lido com attenção o livro de Sahut, onde diz: «O _Eucalyptus rostrata_ é muito resistente, supportando grandes calores e frios devéras rigorosos, segundo os logares em que se encontra. O crescimento é rapido; mas, em contrario do _Eucalyptus resinifera_, gosta de _terras ferteis_ e da borda da agua, e resiste muito menos do que este á estiagem.» O sublinhado é meu--«terras ferteis.» Fóra d'isso, não vale um caracol; vegeta emquanto tem a terra solta da cova, e depois não passa d'ahi, torna-se absolutamente rachitico. Mesmo em terras ferteis, desenvolvendo-se bem, ficará por este lado abaixo de muitas outras especies, aliás magnificas.
Quanto a qualidade da madeira, quasi não ha virtude que se lhe recuse. Mas ainda n'este capitulo proponho certo desconto. Maiden, diz; «Quasi tão rija como o ferro, quando bem sêcca.» E o Barão de Mueller, citado por Macclatchie, é um pouco mais explicito; acha que as arvores, _bem maduras_, d'esta especie, cortadas na estação em que a circulação da seiva é menos activa, e _cuidadosamente postas a secar_, produziram uma das mais duradouras das madeiras de todo o mundo.» «Bem maduras» e «cuidadosamente postas a seccar», note-se; tambem aqui os sublinhados foram meus, porque tenho cortado bastantes _Eucalyptus rostrata_ e, se não me engano, é uma das especies que mais tarde amadurece, e por isso uma das que mais fende e torce ao seccar, se a arvore não é velha.
Salvo o devido respeito a auctorisados mestres, direi que só por excepção e curiosidade guardaria logar para o _Eucalyptus rostrata_ em mattas de terras nossas. Se em qualquer arvore de semelhante caracter me sentisse disposto a gastar tempo e dinheiro, então empregal-os-hia com o _Eucalyptus tereticornis_ que vale o _Eucalyptus rostrata_ como madeira e altamente se lhe avantaja em modestia de exigencias.
*Eucalyptus rudis.*--Sabe-se pouco das qualidades da sua madeira; será, porém, evidentemente e para todos os effeitos, superior ao pinheiro, cujo logar haja de tomar. Dá bellos troncos, aprumados, não muito altos, não indo ordinariamente a mais de 25 metros, e engrossando bem. Vigoroso e de crescimento rapido, capaz de descer a povoar terrenos mediocres. Mediocres, note-se; para os ruins não será de confiança. Na America mostrou-se «notavelmente resistente ao calor e ao frio» (Macclatchie); Naudin considera-o «naturalisado» na Europa. A fórma do fructo, proxima da do _rostrata_, promette que será dos que se prestam a cruzamentos, e parece-me mesmo que das sementes que colhi, tenho já exemplares hybridos.
O que tudo visto, e sendo certo que os numerosos _Eucalyptos_ d'esta especie que possuo confirmam a informação dos livros estrangeiros a seu respeito, creio que é de propagar com franqueza e estudar com attenção e com probabilidades de proveito.
*Eucalyptus saligna.*--As noticias que encontro sobre este _Eucalypto_ divergem.
Aqui, leio que a madeira é «esplendida» e que os carpinteiros a estimam muito; além me acautelam contra a sua «inferior» qualidade. Talvez questão de terreno, o que nos _Eucalyptos_ muitas vezes determina a boa e má qualidade da madeira. Quanto a exigencias climatericas, não é maior a conformidade: na America, não sobreviveu a estiagens intensas, e na Australia habita apenas as regiões mais quentes do littoral; mas o _Diccionario das Plantas Uteis_ diz que «é mais rustico do que o _Eucalyptus globulus_». Sobre terreno é que não ha duvida; o apparecimento d'esta especie é uma «indicação de terreno bom», diz a _Eucalyptographia_.
Os exemplares que eu tenho, já não são novos e estão magnificos, em boa exposição e boa terra; mas, não obstante esta demonstração favoravel, correrá talvez a desenganos quem se aventurar á plantação fóra de iguaes condições, e as reservas sobre a qualidade da madeira não auctorisam aventuras.
*Eucalyptus salubris.*--Boa fama; promettedor para as regiões áridas, supportando temperaturas elevadas e geadas consideraveis, e afinal dando boa madeira. E d'estas virtudes nenhuma subsistiu nos poucos exemplares que d'elle obtive. Desde o viveiro foram muito pobresinhos, e, depois, nunca tiveram nem um momento de crescenças francas nem estatura apreciavel.
*Eucalyptus santalifolia.*--Um arbusto. Perdi quantos tinha no primeiro inverno; morreram de frio.
*Eucalyptus siderophloia.*--Um _Iron-bark_ (casca de ferro), de excellente madeira, como todos os da sua classe. Parente proximo do _Eucalyptus_ _crebra_, será talvez menos resistente do que este, o que aliás não foi estorvo a que me desse um exemplar que, da mesma idade do _Eucalyptus crebra_, não lhe está muito inferior nem em desenvolvimento nem em saude. Porventura não será erro, na cultura meramente florestal, plantar conjunctamente, em mistura, o _Eucalyptus crebra_, o _Eucalyptus paniculata_ e o _Eucalyptus siderophloia_.
*Eucalyptus Smithiana.*--D'esta especie pouco pude averiguar. Os exemplares que possuo, de sementeiras de 1913, ainda não passaram invernos bastantes para dizer claramente ao que vem. Alguma cousa dizem já; é certo. O desenvolvimento é magnifico em qualquer exposição, preferindo a frescura, manifestamente; mas tambem sem temer a terra ingrata e ardente onde vejo um exemplar sadio e com um desenvolvimento mediano. Aspecto lindo, folhagem abundante, delicada e pendente. Madeira... parece que é parente do _Eucalyptus viminalis_, ao qual muito se assemelha, realmente, á primeira vista; e, n'esse caso, teremos a contar com uma madeira clara, inferior em dureza á das especies congeneres mais notaveis, mas de muitas e utilissimas applicações apezar d'isso.
*Eucalyptus stellulata.*--Arvore pequena, que não será talvez para desprezar em encostas voltadas ao norte, pois supporta grandes frios e dá boa lenha. Sem grandes esperanças, claro está; em Portugal serão mais de apreciar _Eucalyptos_ que resistam ao calor do que os que supportam grandes frios. Abrigos não faltam em nossos montes; a humidade é que nem sempre será bastante, e sem alguns dias ardentes ninguem passa no estio, quer more á beira do mar, quer paire nas alturas da Estrella.
*Eucalyptus Stuartiana.*--São de 1902 os que eu tenho. Muito me animaram nos primeiros dez annos; depois afrouxaram no crescer, e entretanto moderavam-me o enthusiasmo. Resiste bem ao frio mas teme a falta de humidade; por este lado muito me lembra o _Eucalyptus obliqua_, o _Eucalyptus capitellata_ e os demais _Stringybark_, seccando quando elles seccam e nunca se lhes assemelhando nas proporções quando elles medram. Juntando a isso que o _Eucalyptus_ _Stuartiana_ não dá nada especial quanto a madeira, embora muito aproveitavel seja e faça boa lenha, inclino-me a crêr que não ha vantagem em insistir na sua disseminação.
*Eucalyptus tereticornis.*--Convém não o perder de vista. Agradece a frescura das proximidades do littoral, emquanto ao mesmo tempo não succumbe com a estiagem e a seccura dos valles do interior; e, quanto a madeira, é o rival do _Eucalyptus rostrata_ na opinião do maior numero, e até lhe será superior na opinião de alguns outros. «O snr. Maiden, diz Macclatchie, conta que um poste d'esta madeira se conservou inteiramente são durante 55 annos; e, segundo o mesmo auctor, o snr. Howitt, eminente auctoridade sobre as arvores da colonia de Victoria, põe o _Eucalyptus_ _tereticornis_ na cabeça do rol das madeiras d'aquella colonia proprias para commercio.»
Vão bem os dois exemplares mais antigos que d'esta especie possuo; o maior, de 1902, tem 85 centimetros de circumferencia. Note-se: cresceram devagar nos primeiros annos e, no geral, não terão tendencia a dar troncos muito aprumados,--o que se corrige, já vigiando-os e guiando-os, já plantando basto e assim mantendo direitas as hastes que sobem á procura da luz.
*Eucalyptus uncinnata.*--Um pobre arbusto, que nem sequer pelo vigor se faz valer.
*Eucalyptus urnigera.*--Não fica pequeno; tenho, entre outros, um exemplar com 15 annos e 1m,10 de circumferencia. Talvez o _Eucalypto_ que mais baixas temperaturas supporta; vem das regiões mais frias da Tasmania. Affigura-se-me, porém, assás amigo de humidade, e não tenho podido achar informações algumas sobre a qualidade da madeira. Se é certo o seu proximo parentesco com o _Eucalyptus_ _cordata_, conforme o Barão de Mueller tem por probabilisimo, o _Eucalyptus urnigera_ não nos promette madeira melhor do que a de muitos outros de cultura igualmente facil, senão mesmo mais segura e rendosa.
*Eucalyptus viminalis.*--Um colosso; dos meus, o mais alentado, com 20 annos, mede de circumferencia 2m,20. Cultura facil; até os encontrei nascidos e crescidos expontaneamente em terra de uma vinha abandonada, argilosa e de todo exposta ao sol. Na Italia supportou temperatura de 9° e 10° centigrados abaixo de zero. Além d'isto, uma bella arvore de sombra, melhor do que qualquer outra especie.
A madeira é que não tem muito credito; julga-se inferior á da maior parte das outras especies, pouco duradoura em contacto com a terra e fraca para lenha.
Talvez que o juizo que mais exactamente resume as qualidades e deficiencias d'esta arvore seja o de Naudin, dizendo que o _Eucalyptus viminalis_ é uma bella arvore de ornamento ou de avenida, chegando a mais de 30 metros de altura, sem crescer tão depressa como o _Eucalyptus_ _globulus_. A sua madeira não tem nem a mesma densidade nem a mesma duração da madeira do _Eucalyptus_ _globulus_, o que não a impede de servir para numerosas applicações em obras do interior da casa.
*Eucalyptus virgata.*--Ou _Eucalyptus_ _Sieberiana_, na classificação do Barão de Mueller, que d'elle diz muito bem. É o _Iron-bark_ da Tasmania, frequente nas cumiadas graniticas da costa, nos valles arenosos e pedregosos do interior, assim como nos outeiros de lousinho, e indo até 1:200 metros de altitude. Boa madeira para serrar, dura depois de sêcca, leve e elastica, ardendo bem mesmo em verde, fraca para enterrar, muito superior á do _Eucalyptus hoemastoma_, do qual o _Eucalyptus Sieberiana_ é parente muito proximo. De casca aspera e persistente, ramifica mais copiosamente do que qualquer outra especie de _Eucalyptos_ da Tasmania.
Téem apenas tres annos os exemplares que possuo d'esta especie, provenientes de sementes enviadas para o Jardim Botanico da Universidade de Coimbra pelo professor Maiden, e, por isso, com todas as garantias de authenticidade. Mas estão promettedores, com mais de 2 metros de altura, viçosos, amplamente ramificados e já com fructos, segundo a precocidade sabida e caracteristica da especie. Tudo me anima aqui a novas sementeiras e a insistir na cultura.
*Eucalyptus Wabtoniana.*--De incerta qualidade de madeira e parente do _Eucalyptus maculata_, por extrema susceptibilidade ao frio excluido das nossas culturas, o _Eucalyptus Wabtoniana_ não resistiu á geada, nem mesmo com certo abrigo. Entre nós será quasi uma planta de estufa.
BIBLIOGRAPHIA
As publicações sobre descripção e cultura dos _Eucalyptos_ já não téem conta; o que sobre o assumpto nos offereceu a França, a Australia e a Italia, formaria uma bibliotheca. E, mesmo entre nós, haverá muito a colher e a aproveitar em innumeraveis e utilissimas noticias espalhadas pelas publicações agricolas periodicas, dando conta da experiencia da cultura de varias especies de _Eucalyptos_ em terras portuguezas.
Creio, porém, que com os poucos volumes abaixo indicados se constituirá livraria sufficiente para quem se sentir tentado a proseguir no estudo de similhantes missionarios de abastança das nossas florestas, tão carecidas de renovação:
Em primeiro logar, as obras do Barão de Mueller. Sobretudo a _Eucalyptographia_, publicada em Melbourne, de 1874 a 1884, e o _Diccionario das Plantas Uteis_, edição da _Gazeta das Aldeias_, traduzido em portuguez, em 1905, pelo illustre professor da Universidade de Coimbra, o snr. dr. Julio A. Henriques.
Depois, as obras de Maiden, o eminente naturalista e director do Jardim Botanico de Sydney, particularmente _The Useful Plants of Australia_ e _A Critical Revision of the Genus Eucalyptus_, ainda não concluida.
Em seguida e, finalmente: o livro de A. James Macclatchie _Eucalypts cultivated in the United States_, boletim n.º 35 da repartição de agricultura d'aquelle paiz, publicado em Washington em 1902 (livro excellente, talvez de todos o mais prático); _Description et Emploi des Eucalyptus introduits en Europe_, de C. Naudin (Antibes, 1891); _Les Eucalyptus_, de Felix Sahut (Delahaye & Lecrosnier, Pariz, 1888).
INDICE
Eucalyptos e Acacias
Do logar do Eucalypto na economia florestal do nosso paiz e da apreciação do valor dos seus productos
Cultura do Eucalypto
Póda dos Eucalyptos
Escolha das variedades
Do córte dos Eucalyptos
Eucalyptos hybridos
A côrte dos gigantes
Notas sobre as principaes especies de Eucalyptos que tenho cultivado
Bibliographia
Livraria do «Lavrador»
LIVRINHOS JÁ PUBLICADOS:
I--Manual do podador (2.ª edição), 90 réis
II--Doenças das videiras (3.ª edição), 100 réis
III--Doenças das fructeiras (2.ª edição), 160 réis
IV--O vinho: como se faz e conserva (2.ª edição), 140 réis
V--O desengace, 280 réis
VI--Adubações (2.ª edição), 130 réis
VII--Manual do enxertador (2.ª edição), 230 réis
VIII--Cultura da batata (3.ª edição), 140 réis
IX--Oliveira, 140 réis
X--O Azeite, 140 réis
XI--O Milho; cultura aperfeiçoada (2.ª ed.) 200 réis
XII--Animaes uteis ao lavrador, 140 réis
XIII--Animaes nocivos ao lavrador, 340 réis
XIV--As hortas; sua cultura racional (2.ª ed.) 250 réis
XV--Os pomares, 280 réis
XVI--A capoeira, 280 réis
XVII--O gado, 230 réis
XVIII--Guia do lavrador, 90 réis
XIX--Botanica e Agricultura, 280 réis
XX--Prados e Pastagens, 250 réis
XXI--Doenças internas, não contagiosas, dos animaes domesticos, 350 réis
XXII--Doenças externas, não contagiosas, dos animaes domesticos, 510 réis
XXIII--Doenças contagiosas e parasitarias dos animaes domesticos, 510 réis
XXIV--O bicho da sêda, 280 réis
XXV--A Agua--Como se procura nos terrenos, 310 réis
XXVI--Construcções agricolas, 420 réis
XXVII--O Trigo--Como se obtém grande rendimemto, 350 réis
XXVIII--Os Pinhaes--Como se conservam; como se augmentam, 350 réis
XXIX--As Abelhas, 350 réis
XXX--Ervas más, 340 réis
XXXI--Jardinagem, 350 réis
End of Project Gutenberg's Eucalyptos e Acacias, by Jaime de Magalhães Lima