Eucalyptos e Acacias: Vinte annos de experiencias
Chapter 3
Todavia, convém notar que as experiencias d'esta natureza mais pertencem ao Estado e ás suas estações do que aos particulares e ás suas minguadas forças. Experiencias florestaes demandam longos annos e extensos campos; nem podem fazer-se em pouco espaço, nem pódem concluir em pouco tempo, como acontece com as hervas e ainda com os arbustos. Tenho _Eucalyptos_ com dezeseis annos de que ainda não colhi semente; tenho, por exemplo, um _urnigera_, já feito e com não menos de doze annos, magnifico e bello, que ainda não deu flôr. O que, devo acrescentar, não me desanima; antes me prende. Quanto mais os fructos tardarem, mais se alongará a esperança e os seus cuidados e prazeres. Tal qual como com os nossos filhos: quanto mais crescidos são e mais trabalhos deram, mais os amamos.
VII
A côrte dos gigantes
Para corrigir a nudez habitual das mattas de _Eucalyptos_, de ordinario esqueleticas, apezar da robustez dos troncos, para lhes dar espessura, misturei-lhes em diversos logares grande cópia de _Acacias_, espalhadas a trôxe-moche, muito bastas e de variadissimas especies. Verifico, porém, ao fim de alguns annos, que se tornou uma exploração economica rendosa aquillo que havia sido feito por méra preoccupação de belleza. Plantando os _Eucalyptos_ a tres metros de distancia e intercalando-lhes, em igual compasso, as _Acacias_, mais conhecidas pela designação popular de _mimosas_, conseguiremos vestir a terra, abundantemente, de folhagem e flôres, e conjunctamente fabricaremos alguma lenha e madeira nos espaços livres nos primeiros tempos, emquanto os _Eucalyptos_ pelo seu desenvolvimento não os tomam e cobrem inteiramente.
O effeito de belleza é grande--o que tambem representa valor. Nem só de pão vive o homem; a vida não se resume em operações arithemeticas de sommar e multiplicar. Disseminando entre os _Eucalyptos_ _Acacias podalyriaefolia_, _Baileyana_, _dealbata_, _mollissima_, _longifolia_, _pycnantha_, _cyanophylla_, _decurrens_, _melanoxilon_ e todas a demais d'este genero, possuiremos quanto baste para termos flôres, de um perfume leve e delicioso, desde os fins de novembro até maio, quasi ininterrompidamente. Por momentos, quando a estação lhes corre favoravel, dão um deslumbramento, de que o lavrador, se bom lavrador quizer ser, alguma coisa colhe e traz ao mercado para engordar o mealheiro.
Entretando, criou-se muita ramagem que aquece o forno da brôa e poupa o córte de arvores adultas, e criou-se tambem, além de muita lenha, uma avultada somma de madeira preciosa, com diversos usos, sobretudo convindo á marcenaria e á tanoaria. Para estes ultimos fins, a _Acacia melanoxilon_ tem hoje os creditos feitos; facilmente se pagará por 20 escudos uma arvore de 20 annos, se foi convenientemente tratada--isto é, rendeu 1 escudo por anno e, calculando que um hectare comporta 1:000, rendeu um conto por hectare e por anno. Mesmo suppondo que os preços baixarão algum dia d'aquelles exageros em que a guerra os pôz, a plantação da _Acacia melanoxilon_, ou da _australia_, como no vulgo é chamada, ficará em toda a hypothese uma cultura altamente lucrativa.
Immediatamente, como productores de madeira, vém a _Acacia decurrens_ e as suas variedades, entre as quaes póde contar-se a _Acacia dealbata_, recentemente em uso para fabrico de tamancos e dando casca excellente para cortumes, de uma elevada percentagem de tanino. Muito proxima, senão igual n'esta ultima applicação, segue-se a _Acacia pycnantha_, de uma rijeza de madeira notabilissima e «uma das cascas taninosas mais ricas que ha no mundo», segundo Maiden diz, o qual acrescenta que «outra mais rica poderá haver, mas não do seu conhecimento.»
Supponho todavia que o principal valor economico das _Acacias_, sobrelevando áquelle muito subido que possam ter para madeira, lenha e cortumes, estará porventura na sua prodigiosa capacidade de criar vegetação nos terrenos áridos, terrenos que, na expressão de Maiden, «nem herva dão», nem para pastagem servem. D'isso tenho na minha experiencia provas concludentes.
Pelos residuos de materia organica que n'essas terras deixam, as _Acacias_ são o baptismo milagroso pelo qual a esterilidade se converte á cultura. Para este effeito, a _Acacia_ é reputada superior ao _Eucalypto_, e creio mesmo que é superior a qualquer outra planta, embora tenha conseguido cobrir gandaras frias e miserrimas com o apertado manto de verdura que a _Hakea saligna_ lhes prodigalisa em poucos annos, enriquecendo essas gandaras, preparando-as para melhores destinos com boas camas de folhido. Mas as _Hakeas_, se depressa medram, cedo morrem e dos seus troncos só nos deixam uma lenha que me parece muito pobre. As _Acacias_ levam-lhes, evidentemente, grande vantagem na missão de fertilisadores: a sua qualidade de leguminosas e o poder fecundante que d'essa qualidade lhes vém, juntando-se a uma incomparavel resistencia ás violencias da estiagem e á avareza nativa do sólo, attribue-lhes um logar unico no desbravamento das nossas charnecas, tanto mais que parece averiguado que a cultura das _Acacias_ se póde prolongar no mesmo terreno sem prejuizo da sua fertilidade. Os cultivadores e botanicos australianos são de opinião que por esse lado não ha inconveniente na repetição immediata de tres ou quatro plantações sucessivas de _Acacias_ na mesma terra. Note-se que a _Acacia_ é uma arvore que se faz depressa e envelhece cedo, mostrando exemplares de 10 e 12 annos com uma boa percentagem de cerne, e este facto, acrescentando-se aos demais que acabo de apontar, legitíma a esperança de melhorar um terreno fazendo tres cortes de madeira boa em 60 annos.
A cultura da _Acacia_ é em tudo igual a do _Eucalypto_, modificada apenas em dois pontos: a sementeira e a póda.
A semente da _Acacia_ tem um invólucro muito rijo; ha exemplos de sementes enterradas fundo, durante muitos annos, que depois d'isso germinaram, quando o acaso da cultura as trouxe de novo á superficie da terra. Por isso, agradece preparo que facilite a germinação; convém lançar-lhe em cima agua a ferver e n'essa agua a conservar antes de a lançar á terra. Isto tenho feito com bom resultado. E ha até quem recommende que se ferva a semente por um instante, advertindo todavia que a temperatura não deve exceder 75° centigrados. Tenho para mim que a melhor sementeira das _Acacias_ é a que se faz com as sementes frescas logo que se colhem. Então germinam quasi todas, mesmo sem prévia immersão na agua quente; e como essas sementeiras são antes do fim do estio, época em que a semente amadurece, habilitam-nos a ter plantas em estado de collocação definitiva na primavera seguinte; o que, afinal, significa o adiantamento de um anno.
A póda é indispensavel, a _Acacia_ facilmente alastra e rasteja, se se encontra abandonada e á larga. Para obter troncos bons, altos, lisos e aprumados, teremos de os guiar com cuidado, limpando os ramos lateraes e decapitando a arvore, para lhe engrossar a haste principal, se ella vai muito delgada, com o risco de se tornar curva pelo peso da folhagem.
O melhor processo, particularmente para a _Acacia melanoxylon_, é a plantação basta; assim, a falta de luz, determinando a inanição dos ramos lateraes, atrophia-os e secca-os, ao mesmo que promove a elevação do tronco. Considere-se, porém, que póda ha-de ser feita com discernimento e paciencia, pouco a pouco, de modo que a arvore se forme bem equilibrada, sem nunca se achar demasiado despida, o que a enfraquece e atraza, quando não a inutilisa.
Maiden é de parecer que as _Acacias_ se devem dividir em dois grupos: as das terras sêccas, que medram com pouca chuva, e d'essas a _Acacia pycnantha_ é o typo; e as das terras frescas e dos climas maritimos, demandando mais agua e florescendo em temperaturas inferiores d'estas, o typo é _a Acacia decurrens_.
Esta distincção, que tenho por fundamental, bastaria para a selecção das variedades conforme as circumstancias da cultura que emprehendessemos; mas entretanto não será ocioso, para mais segura apreciação, tomar conhecimento de certas qualidades peculiares a cada uma das especies que passo a apontar, e que julgo as principaes:
*Acacia Baileyana.*--Lindissima, como planta ornamental, pela profusão das flôres; mas especie pouco firme, degenerando com frequencia, e das menos rusticas. Quer abrigo, boa terra e, ainda assim, não raro morre nova.
*Acacia cyanophylla.*--Arvore robusta. Bellas flôres, das mais tardias. Excellente para logares sêccos. Teme a geada. Comparavel á _Acacia pycnantha_, manifestamente.
*Acacia dealbata.*--A mais conhecida das mimosas. Flôres já muito apreciadas nos mercados. Como arvore florestal, aproxima-se da _Acacia decurrens_, sendo-lhe um pouco inferior no volume dos troncos, na percentagem taninosa da casca, e talvez na dureza da madeira. O Barão de Mueller, no excellente _Diccionario das plantas uteis extra-tropicaes_, traduzido para a nossa lingua pelo illustre professor da Universidade de Coimbra o snr. dr. Julio Henriques, recommenda a _Acacia dealbata_, «principalmente como combustivel, por ter grande poder calorifero.»
*Acacia decurrens.*--D'esta, diz o Barão de Mueller que «é mais resistente do que o _Eucalyptus globulus_, podendo ser cultivada a altitudes mesmo muito notaveis.» Riqueza taninosa superior, boa madeira, contentando-se com terrenos pobres, e, como a _Australia_, com maior tendencia a crescer direita do que as congeneres.
*Acacia longifolia.*--Boa flôr para o córte, crescimento rapido, valor baixo em madeira e tanino, acentuada propensão a rastejar, preciosa como povoador e fixador das areias da costa maritima. É esta a sua qualidade por excellencia, provada entre nós em algumas localidades.
*Acacia melanoxylon.*--Dispensa commentarios. Conhecida e experimentada em todo o nosso paiz que d'ella ostenta exemplares soberbos, em grande variedade de situacões. Madeira magnifica para innumeraveis applicações. Não ha, porém, que fiar na sua generosidade, quanto a qualidade do terreno; nem todos lhe servem. Tenho d'esta especie plantações atrophiadas por não terem gostado de terrenos, onde aliás o _Eucalyptus globulus_ medra bem. Por isso, passei a reservar-lhe algum pedaço de terra mais fresca, leve e penetravel. Encontra-se em grande variedade de situações; é sabido e certo. Mas, até onde a minha experiencia alcança, inclino-me a incluir a _Acacia melanoxylon_ nas _Acacias_ do typo da _decurrens_, para os effeitos da cultura e da escolha do local da plantação.
*Acacia mollissima.*--Maiden julga que a _Acacia mollissima_, como a _dealbata_, é uma variedade da _decurrens_. Por esta poderiamos, pois, aferir o valor economico da _Acacia mollissima_. Das plantações que tenho feito, inclino-me a concluir que a _Acacia mollissima_ não prospera em terrenos agrestes pela seccura ou pela pobreza do fundo. Deixa-la-hia, portanto, na cathegoria das _Acacias ornamentaes_, porque as flôres são realmente opulentas, brilhantes, e de um amarelo de oiro. Degenera e cruza com uma frequencia extrema.
*Acacia podalyriaefolia.*--Cultivo-a ha poucos annos; faltam-me elementos para lhe apreciar o valor da madeira e o desenvolvimento, que entretanto me parece mediano. Supporta terras magras e estiagens aturadas. Como productor de flôres para a venda, é incomparavel, não só pela sua côr, de um amarelo leve, mas sobretudo pela época em que ellas véem, em novembro, logo após os ultimos chrysanthemos, quando as flôres muito escasseiam.
*Acacia pycnantha.*--Os naturalistas australianos reputam-lhe a casca immediata á da _Acacia decurrens_, em riqueza de tanino. O Barão de Mueller diz que «é de rapido crescimento, contentando-se com quasi toda a terra, mas encontrando-se geralmente em terrenos arenosos pobres, proximo á costa maritima.»
Maiden acha-lhe uma casca esplendida, densa e nada fibrosa, pulverisando-se completamente, o que porventura não será indifferente quando se empregue em cortumes. Não é das mais promptas em enraizar na primeira transplantação para vaso; mas depois, na plantação definitiva, vinga bem e atura grandes estiagens. Madeira rigissima, troncos grossos; um exemplar de 20 annos, tinha 30 centimetros de diametro quando o cortei. Passa por ser das mais sensiveis ao frio; mas as que plantei nas encostas e entre outro arvoredo, soffreram temperaturas de 2° centigrados abaixo de zero, sem maior mal. Flôres grandes e magnificas, facilidade em dar á arvore boa fórma por uma póda conveniente.
Notas sobre as principaes especies de Eucalyptos que tenho cultivado
*Eucalyptus acervula.*--Uma variedade do _Eucalyptus Gunnii_, sem vantagem alguma sobre a especie typo, quanto a crescimento e resistencia ou qualquer outra qualidade.
*Eucalyptus acmenoides.*--Da Nova Galles do Sul. Boa madeira, sem duvida, na opinião unanime dos que se lhe referem. Desenvolvimento mediocre nos exemplares que experimentei. Macclatchie aponta-o como «conveniente para o littoral das regiões tropicaes», o que, acrescido ao acanhado desenvolvimento que na experiencia mostrou, o deve excluir das nossas plantações.
*Eucalyptus affinis.*--É um hybrido do _Eucalyptus sideroxylon_ e do _Eucalyptus hemiphloia_, segundo as indicações de Maiden, que o reputa de boa madeira. São muito novos os exemplares que possuo, para que possa concluir o quer que seja sobre a conveniencia da sua cultura. Cresceram bem no vaso, nos primeiros mezes; mas na plantação definitiva amuaram a tal ponto que não farei nova tentativa. Creio que d'alli nada ha a esperar.
*Eucalyptus amygdalina.*--Da Tasmania e muitas outras regiões da Australia. Gigantesca e preciosa arvore, de que se encontraram exemplares com 120 metros de altura e 20 de circumferencia na base. A sua madeira é leve, propria para muito genero de carpintaria; habitualmente não torce ao seccar, e fende em estacas com facilidade; mas não é muito duradoura, quando enterrada, nem tão pouco dá combustivel de primeira ordem.
Tenho d'este _Eucalypto_ muitos exemplares e em muito diversas condições, e apezar da qualidade da madeira que apodrece quando enterrada e dá uma lenha de valor mediano, afoita e calorosamente o aconselho, sobretudo nas encostas frias e humidas, onde em desenvolvimento excede algumas vezes o _Eucalyptus coriacea_ e o _Eucalyptus Gunnii_, generosos e os melhores povoadores d'essas terras. O _Eucalyptus amygdalina_ passa por ser ávido de humidade; mas nunca, porém, me morreu nenhum de estiagens, embora alguns as soffressem e das mais severas. Em terrenos bons, attinge rapidamente proporções magnificas, e em terrenos pobrissimos, nos quaes o _Eucalyptus globulus_ adoeceu e se tornou rachitico, o _Eucalyptus amygdalina_ cresceu devagar, muito devagar, mas sempre sadio.
É positivamente um criador de vegetação notabilissimo; merece ser disseminado com prodigalidade, podendo subir a grandes elevações, pois supporta temperaturas baixissimas, parecendo sob este aspecto mais robusto que os seus companheiros da frialdade, o _Eucalyptus coriacea_ e o _Eucalyptus Gunnii_. Nem nos prenda a limitada applicação da madeira; não servindo para muita coisa em que outras especies se distinguem, ainda assim lhe ficam qualidades de sobra para ser classificada em alto apreço.
O _Eucalyptus coccifera_, o _dives_, o _fissilis_, o melanophloia, o _regnans_ e o _Risdoni_, todos téem com o _Eucalyptus amygdalina_ parentesco, quando não são apenas um estado acidental d'essa especie, determinado pela situação em que vegetam, convindo considerar n'este ponto que, segundo o Barão de Mueller, o _Eucalyptus amygdalina_, mesmo ordinariamente, varía bastante de aspecto, conforme as condições geologicas e climatericas a que fôr sujeito. A essas variedades do _Eucalyptus amygdalina_ me referirei em sua altura; mas desde já será bom fixar que para as nossas culturas florestaes nenhuma d'essas variedades offerece qualquer vantagem comparada com a especie de que derivam.
*Eucalyptus Andreana.*--Naudin julga que provavelmente, será uma das especies a que se deu o nome de _Eucalyptus amygdalina_, e achou-lhe caracteres que d'esta especie o aproximam, emquanto na fórma juvenil parece mostrar parentesco com o _Eucalyptus viminalis_. Sejam, porém, quaes forem as suas affinidades especificas, que aliás não auctorisam a presumpção de grande resistencia de madeira--«resistencia», note-se, não se confunda com «utilidade», a qual não só na resistencia se funda--seja qual fôr o seu logar na classificação botanica, o certo é que o _Eucalyptus Andreana_ dá uma linda arvore, com a folhagem miuda e os ramos delgados e pendentes, tronco direito e grande abundancia de flôres na época propria.
Tenho exemplares de 17 annos com 90 centimetros de circumferencia, prosperando em terrenos mediocres e nunca se havendo mostrado muito captivos do frio. Ainda não decapitei nenhum; por isso, ignoro se tem facilidade em ramificar e formar arvores baixas e copadas que seriam bellas. É uma experiencia a fazer, com probabilidades de bom exito, a julgar pelo parentesco. Tanto o _Eucalyptus amygdalina_ como o _Eucalyptus viminalis_ podem sem maior difficuldade sujeitar-se a fórmas ramificadas.
*Eucalyptus Behriana.*--Pequeno e vagaroso no desenvolvimento. Na opinião dos botanicos, talvez uma variedade do _Eucalyptus largiflorens_ (ou _Eucalyptus bicolor_). O Barão de Mueller diz que «as qualidades technicas da madeira estão ainda por experimentar.» Os exemplares que tenho d'esta especie, semeados em 1903, estão bons e téem mostrado grande resistencia ás estiagens. Mas cresceram anchamente, são de casca persistente, e por estas qualidades supponho que houve erro na classificação e são do _Eucalyptus hemiphtoia_, especie da qual o _Eucalyptus Behriana_ se distingue a custo.
*Eucalyptus Boormannii.*--Maiden tem-no por hybrido do _Eucalyptus siderophloia_ e do _Eucalyptus hemiphloia_, dando madeira de duração. Por este lado, é de boa origem; qualquer das especies de que provém dá madeira rigissima. Acresce que o _Eucalyptus hemiphloia_ é oriundo de regiões sêccas.
Do _Eucalyptus Boormannii_ tenho um só exemplar. Cresceu devagar e não está grande, em terreno de segunda ordem; mas sempre se mostrou sadio. Por isto e attendendo á qualidade da madeira, convém persistir na experiencia, a meu vêr.
*Eucalyptus bosistoana.*--Encontro-o indicado nos livros estrangeiros como de boa madeira e proprio para regiões humidas. O unico exemplar que d'elle tenho, sendo muito novo, e é nos primeiros tempos que mais costumam crescer, e estando em excellentes condições, não mostra pressa de ser grande, e desanima-me de novas tentativas.
*Eucalyptus botryoides.*--Abunda na Nova Galles do Sul e ainda na colonia de Victoria; e tornou-se vulgar no sul da França, na Italia e na Argelia. É, portanto, uma especie experimentada em climas muito parentes do nosso, da qual já se sabe alguma coisa provada.
Mueller apresenta-o como arvore mediana, raro excedendo 40 metros de altura, de casca permanente e madeira sólida, escura na côr, similhando mogno, boa para carpintaria e marcenaria. Acha esta especie uma das mais proprias para cultura á beira-mar, presumpção justificada pelo facto de se encontrar indigena em localidades humidas e arenosas. Naudin tambem a recommenda, «pela fórma pyramidal e pela folhagem abundante e umbrosa» capazes de «a converter n'uma bella arvore de estrada».
Da excellencia da madeira do _Eucalyptus botryoides_ ha, porém, quem duvide; Macclatchie, no seu precioso livro sobre _Os Eucalyptus cultivados nos Estados-Unidos_, muito avisadamente aponta as divergencias, embora previamente confirme as vantagens da cultura. Pois diz: «Esta especie prospera á beira-mar; mas não convém a regiões de clima sêcco. Na Australia prefere as situações arenosas e humidas, junto á costa maritima, e, segundo o Barão de Mueller, vinga bem em terras contendo agua estagnada. Na California dá-se bem em grande variedade de situações que vão até 50 milhas da costa.» Esta arvore é das que se pódem usar para plantação florestal em terras baixas de regiões moderadamente humidas, onde não ha a temer grandes geadas. Pela folhagem é util como arvore de sombra, em muitos sitios. Na Australia, onde os colonos de differentes sitios estimam diversamente a sua madeira, chamam-lhe «mogno dos brejos» e «mogno bastardo». Maiden julga que este ultimo nome deve ser devido a confusão. Bailey e o Barão de Mueller ambos reputam boa a madeira, emquanto Maiden se lhe refere como «inferior, tanto pela resistencia como pela duração». Mueller e Bailey indicam a madeira como dura, rija e duradoura, util para travejamentos nas grandes edificações, cavernas de embarcações, postes, carros e ripado. A madeira é avermelhada e de fibra apertada. Mueller diz que os postes d'esta qualidade são muito duradouros, não lhes havendo notado signaes de decadencia, ao fim de quatorze annos de uso.
Pela minha parte, confessarei grande predilecção por esta especie. Ha bastantes annos que a tenho plantado em grande variedade de terrenos, alguns assaz sêccos e sáfaros, e em todos elles encontro exemplares perfeitos, senão pela rapidez do desenvolvimento, alguns medram devagar, ao menos pela conformação e saude. O melhor de todos, da primeira plantação, ha dezesete annos, tem hoje 1m,50 de circumferencia no tronco, um metro acima do sólo. Note-se que estas plantações sentem ainda o ar do mar; ficam a menos de vinte kilometros da costa, e sem montes de permeio que embaracem a visita das brizas maritimas. Nada posso dizer da madeira, senão que é maravilha o aprumo das hastes quando a plantação é basta; e crescendo este _Eucalypto_ rapidamente, é de crer que a madeira amadureça tarde, e só em exemplares de quarenta annos, pelo menos, attinja aquella firmeza de trama que lhe dá todo o seu valor. Cortada cêdo, achando-se tenra, tanto mais tenra quanto mais depressa cresceu, ha-de por força torcer e rachar, tal qual as congeneres em iguaes condições.
Para arvore decorativa e de sombra, o _Eucalyptus botryoides_ é manifestamente magnifico, o mais bello do seu genero.
Achando-se desafrontado, ramifica abundantemente, sem prejuizo do aprumo do tronco, sendo frequentemente necessario cortar-lhe os ramos inferiores, dos quaes não tem tendencia a desfazer-se espontaneamente, como acontece com muitas especies, sobretudo, com o _globulus_. A folhagem expande-se horisontal, bella de côr e de fórma, e assim fórma uma copa opulenta.
Advirta-se que, apezar de agradecer e preferir a humidade, até hoje ainda nenhum _Eucalypto_ d'esta especie me morreu por effeito da estiagem, o que aliás me tem acontecido com muitos outros, especialmente com o _Eucalyptus capitellata_, com o _Eucalyptus obliqua_, com o _Eucalyptus Stuartiana_ e mais alguns de importancia secundaria.
*Eucalyptus calophylla.*--Uma curiosidade de jardim. Flôres grandes, folhagem bella, lusidia, lauriforme; mas muito melindroso, tanto que nem vale a pena pensarmos na qualidade da sua madeira, embora não falte quem a gabe.
*Eucalyptus capitellata.*--D'esta especie, geralmente reputada de boa madeira, tenho bons exemplares. O melhor, plantado em 1903, mede agora 80 centimetros de circumferencia. Mas é uma _Stringybark_ (de casca encordoada) e, como as parceiras, facil em povoar terras pobres, mas exigente quanto a humidade. Alguns exemplares perdi já com as estiagens.
*Eucalyptus citriodora.*--Folhagem de um delicioso aroma, lembrando o do limão, unica, por este lado, entre as congeneres. Madeira linda e excellente, sem contestação dos que se lhe referem. Extremamente exigente, quanto a clima. Emquanto novo, qualquer geada o mata. Deve, todavia, notar-se que em Portugal se conhecem exemplares crescidos d'este _Eucalypto_, com bastantes annos e grande desenvolvimento.
*Eucalyptus coccifera.*--De Tasmania. Verdadeiramente um arbusto, resistindo bem ao frio e sem valor algum florestal ou decorativo.
*Eucalyptus colossea.*--Vide _Eucalyptus diversicolor_, do qual é synonimo.
*Eucalyptus Consideneana.*--Segundo Maiden, é talvez um hybrido do _Eucalyptus piperita_ e do _Sieberiana_, de madeira descorada e macia, proprio do littoral.