Eucalyptos e Acacias: Vinte annos de experiencias
Chapter 2
De quantos processos de cultura experimentei, e creio ter percorrido a escala toda ou pouco menos, o que decididamente offerece mais probabilidades de exito começa pela sementeira em vasos ou caixões, seguida da transplantação de cada pé para seu vaso privativo--sementeira em abril ou ainda mesmo na primeira quinzena de maio; transplantação para vasos de 8 e 10 centimetros de bocca e altura correspondente, quando as plantas estão de 3 a 4 centimetros; plantação definitiva, logo no começo do outomno, de exemplares não muito grandes, de cerca de palmo, tirados dos vasos antes que as raizes comecem a enrodilhar-se, como sempre acontece se se prolonga a estação nos vasos, determinando-lhes aquella fórma de desenvolvimento em espiral que ulteriormente conservam e as prende mal á terra, sujeitando a arvore a cahir quando o temporal a açoite. As transplantações para vasos deverão fazer-se pela fresca, de manhã cedo ou á tardinha, onde o sol não toque a raiz; a simples exposição da raiz a uma atmosphera secca e quente, por poucos minutos que seja, bastará para inutilisar alguns pés e atrazar nos demais a renovação do crescimento interrompido pela transplantação. Deverão os vasos ser postos á sombra, durante quinze dias, e quer então, quer posteriormente, depois de passados para o sol, convém regal-os abundantemente duas vezes por dia, de manhã e á tarde. Em outubro e d'ahi por diante até aos primeiros dias de março, abrindo apenas um parenthesis durante o tempo das geadas mais rigorosas, poderá proceder-se á plantação definitiva. Para esta, será grande vantagem cavar ou lavrar primeiro a eito o terreno da plantação, abrindo depois de tres em tres metros covas de tres palmos em toda a direcção e tendo o cuidado de picar bem fundo o leito da cova. Bem sei que se encontram bellissimos _Eucalyptos_ plantados em covas sem arroteamento prévio de toda a terra, e não é cousa que eu não tenha feito e repetido, algumas vezes com resultado; mas para mim não soffrem duvidas as vantagens incalculaveis do arroteamento prévio. É miraculoso.
A sementeira em viveiros e a plantação definitiva immediata é o processo vulgar, o mais usado, ficando contente o lavrador quando achou e comprou exemplares bem desenvolvidos, frequentemente de um metro de altura e mesmo mais. Mas, a não ser em terrenos cultivados e muito frescos, ainda não observei factos que me demonstrem a vantagem de semelhante regra. Não só por este systema as probabilidades de vingar serão largamente reduzidas porque na transplantação se inutilisaram as raizes mais delicadas; simultaneamente e tambem por effeito da perda d'essas raizes, os _Eucalyptos_ grandes levarão tanto tempo a pegar que os pequenos, não havendo soffrido igual perda e trazendo intacto do viveiro todo o raizame, depressa alcançam e ultrapassam os que foram plantados já grandes.
Sementeiras de outomno nunca me deram boa prova. Não vingam tão facilmente como as da primavera e prolongam inutilmente, e até prejudicialmente, o tempo de viveiro; não crescem tanto que estejam em termos de plantação definitiva na primavera immediata á sementeira, e ficarão demasiado desenvolvidas para plantação ao fim de um anno, no outomno seguinte depois da sementeira.
A melhor época para colher a semente é o fim do inverno, quando as capsulas só esperam o calor de março para expontaneamente se abrir e lançar á terra a semente. Antes d'isso, as capsulas murcham muito, quando se colhem, e téem certa difficuldade em largar a semente, o que indicará talvez um amadurecimento imperfeito. Segundo o Barão de Mueller, a semente do _Eucalyptus globulus_ conservaria durante 4 annos o poder germinativo que no _Eucalyptus amygdalina_ vai até 6 annos e n'outras especies alcança mesmo 13 annos, se a semente foi conservada em logar secco e frio. Mas tenho-me dado mal com sementes velhas; em regra, poucas nasceram. Por isso, direi:--Semente fresca, o mais possivel, de poucas semanas, e até de poucos dias, podendo ser. Vai n'isso uma vantagem manifesta.
Exceptuando as argilas e os calcareos, todo o terreno convém ao _Eucalypto_, comtanto que não seja fundado em rocha a pequena profundidade e dê ás raizes possibilidade de penetração. Tenho lido que o _Eucalyptus gomphocephala_ e o _cornuta_ supportam os barros e os calcareos; não vi, porém, ainda demonstração prática d'essa faculdade auctorisando qualquer experiencia de certa latitude. O livrinho de Souza Pimentel diz que o _Eucalypto_ viverá onde o sobreiro viver, e inclino-me a crêr que essa indicação será, em geral, segura. O certo é que o _Eucalypto_ é facil de contentar quanto a terreno e capaz de vestir e enriquecer os mais ingratos, desde os seixos frios das charnecas até as areias mais safaras.
Outro tanto não se poderá dizer das exigencias do _Eucalypto_ em materia de clima. Na Australia supporta temperaturas de 70° centigrados ao sol e algumas especies ha, como o _Eucalyptus largiflorens_ e o _polyanthema_, que affrontam impunemente as nossas estiagens mais duras. Mas desenganemo-nos, tanto mais que os enganos poderão sahir caros ao lavrador, como aconteceu na Argelia; o _Eucalypto_ é arvore de climas moderados, alegra-se na frescura e soffre deveras com o frio. Em temperaturas inferiores a 4° centigradus abaixo de zero, dá logo signais de doença, e nas especies mais melindrosas gela até ao colo da raiz, mesmo quando já está com alguns metros de altura. Isto me aconteceu, por exemplo, com o _Eucalyptus maculata_; perdi n'um só inverno quantos tinha, já muito crescidos e lindos.
Sobretudo, acabemos por uma vez com a illusão de que os _Eucalyptos_ podem formar abrigos contra o vento do mar. Tenhamos bem presente a preciosa recommendação de Souza Pimentel, que, sendo de 1876, ainda hoje carece de ser repetida, tão lenta é a diffusão dos conhecimentos agricolas:--«Apezar do clima maritimo ser muito favoravel para os _Eucalyptos_, não devemos fazer plantações d'esta arvore em sitios muito proximos do mar e que estejam directamente expostos ás emanações salgadiças e aos ventos muito violentos do littoral; ou então procederemos de modo que as plantas fiquem abrigadas por alguma elevação natural, ou outra qualquer defeza, o que é facil encontrar.» Quererá o _Eucalypto_ sentir o alento das aguas do mar, mas onde lhe chegue isento de toda a aspereza que é caracteristica da nossa costa maritima.
Sem embargo, a grande zona do _Eucalypto_, em Portugal, aquella que admitte largo numero de especies e lhes assegura condições de desenvolvimento perfeito, será essa que as brumas maritimas de perto ou de longe e em toda a estação bafejam. O fallecido e benemerito Bernardino Barros Gomes, nas _Cartas elementares de Portugal_ que, a meu vêr, continuam sendo um documento fundamental no estudo da physiographia do nosso paiz, acha a linha culminante que domina a vida physica do paiz na extensissima cordilheira que com depressões de variada profundeza vai subindo lentamente do Cabo da Roca á Estrella, pelas serras de Cintra, Aire e Louzã, e da Estrella vai a Larouco, na fronteira da Galliza, pelas serras de Montemuro, Marão e Gerez. «Linha seguida de condensação mais extensa e elevada não ha no paiz: 1:580, 1:206, 1:422, 1:389 1:993 e 1:202 são as alturas dos seus pontos culminantes, marcados na carta geographica com os nomes de Larouco, Gerez, Marão, Montemuro, Estrella e Louzã.» São essas as muralhas que os ventos do mar téem a vencer na passagem para o interior da Peninsula, e por sua poderosa influencia de condensação essas serras dividem o paiz ao norte do Tejo em duas grandes zonas--littoral e interna.
Ora, é esta zona littoral ao norte do Tejo que eu julgo ser a grande zona da cultura do _Eucalypto_ em Portugal--na faixa média, isto é, a distancia sufficiente do mar, para não soffrer com o rigor da ventania, e limitando-se na subida ás alturas, para não morrer victima dos gelos, devendo todavia notar que a 600 metros de altitude tenho encontrado lindos exemplares do _Eucalyptus globulus_ e que, se o _Eucalyptus globulus_ prospera n'essas alturas, é de suppôr que o _Eucalyptus amygdalina_, o _coriacea_ e o _Gunnii_ consentirão em crescer nos nossos montes a 700 ou mesmo 800 metros de altitude, se ahi lhes soubermos escolher situação. Fóra d'essa extensissima região litoral do norte do paiz, quer no sul, quer no interior do norte, haverá, sem duvida, muitissimos logares onde o _Eucalypto_ medre rapida e magestosamente, sobretudo nos valles e na proximidade de ribeiros que alguma frescura lhe facultem. Mas, pois que não é licito contar aqui como regra a abundante e permanente humidade da zona norte que tracei, a cultura do _Eucalypto_ passa a ser como accidental, o que aliás não impede de apresentar muitas e valiosas manchas de explendor, igualando as melhores da zona eleita.
III
Póda dos Eucalyptos
Algum tempo, e muito longo, tive como regra invariavel que os _Eucalyptos_ não careciam de póda. Mais do que isso, a póda era-lhes nociva. Isto me diziam os melhores livros que se occupavam da sua cultura; isto me era confirmado pelo que observava nas minhas plantações e nas dos visinhos; e isto tambem me era aconselhado pelo exame das proprias arvores que, despojando-se expontaneamente dos ramos caducos, d'aquelles cuja acção havia cessado, estavam em seu trabalho organico a mostrar-nos a indiscrição de qualquer intervenção, que por certo nunca poderia exceder, ou sequer emparelhar, a sua natural previdencia. Ellas, as arvores, é que sabiam, muito melhor do que nós, quando é que lhes convinha desfazer-se das roupas velhas.
As minhas observações então limitavam-se, porém, a uma só especie de _Eucalyptos_, ao _globulus_. E para esse e para todos os afins no modo de vegetar, isto é, para aquelles que crescem em haste direita e se despojam expontaneamente dos ramos velhos, a regra prevalece:--não se lhes deve tocar. A não ser, claro está, para cortar algum ramo muito baixo que por acaso persista e se desenvolva, encurtando mais tarde o comprimento das madeiras ou empecendo, no presente, o caminho ou passagem. E esta ultima hypothese não é rara nos _Eucalyptos_ plantados isoladamente, em condições de bracejar com largueza, a seu capricho.
Nas especies que não dão expontaneamente haste direita, e n'este numero se tornam notaveis e predominantes o _polyanthema_, o _melliodora_, o _Behriana_ e o _bicolor_ ou _largiflorens_, n'estas, se não lhes acudimos a tempo encaminhando-as pelo córte dos ramos rasteiros, teremos todas as probabilidades de as vêr convertidas em grandes arbustos, pendidos, tortos e curvados por mil modos, sem dois palmos de madeira direita aproveitavel. Ahi, a póda é essencial e tem sua arte, reclamando a attenção de quem a faz, para que não seja tardia, nem excessiva, para que não deixe engrossar demasiado os ramos e tambem para que por excesso de póda não adelgace muito a haste e lhe prejudique a robustez.
Mas ha mais: em certos casos, e mesmo para _Eucalyptos_ que naturalmente crescem em haste direita, poderá haver vantagem no córte das pontas terminaes a quatro ou cinco metros do chão. Em Roma, encontrei frequentemente _Eucalyptus rostrata_, assim degolados, com troncos magnificos na base e bem vestidos de frondosos braços no cimo. E aqui, nas minhas plantações, aconteceu que, havendo sido cortadas (por malvadez) as pontas de oito _Eucalyptus macrorrynchas_, crearam outras que soldaram perfeitamente no tronco, e este engrossou bem, e até mais do que o dos _Eucalyptos_ da mesma especie que estavam proximos e foram poupados pelo vandalismo.
Por isso me inclino a crêr que, n'esta materia, a regra é, na verdade, não podar; mas tem muitas excepções, a que convém attender. E não me tenho dado mal, muito pelo contrario, admittindo-as no meu uso.
A proposito, acrescentarei que o _Eucalypto_ que comece a crescer inclinado, seja de que especie fôr, não só d'aquellas que acima aponto como tendo invariavelmente esta tendencia, mas tambem de outras que accidentalmente a revelam, como, por exemplo, o _Gunnii_ e o _Stuartiana_, _Eucalypto_ que assim cresça deve ser cortado a meio palmo do chão, logo que o tronco chegue a robustez bastante, de ordinario no quarto ou quinto anno. É o unico modo de obter boas hastes d'essa cêpa; véem depressa, direitas e vigorosas. Algumas tenho que subiram mais de dois metros logo no primeiro anno depois do córte. E, se considerarmos que os rebentos são mais promptos em crear cerne do que as mães, convencer-nos-hemos de que similhante operação é de todo o ponto vantajosa. Muitas vezes a tenho feito e nunca me arrependi.
IV
Escolha das variedades
Evidentemente, em mais de oitenta especies e variedades de _Eucalyptos_ que tenho experimentado, o _globulus_ mantém o seu logar de primazia, quanto á rapidez de desenvolvimento. Quem procurar o volume maximo de madeira a crear em determinado tempo e espaço, não tem que hesitar: plante o _globulus_. E, se nos lembrarmos de que a sua madeira é excellente, propria para innumeraveis applicações, teremos por seguro e certo que, quem assim resolver, procede com as maiores probabilidades de haver feito um magnifico negocio, rendoso como os melhores.
Mas, se o _Eucalyptus globulus_ conta a seu favor a vantagem do mais rapido desenvolvimento, outras especies o preterem, quanto á resistencia a doenças parasitarias, e quanto a belleza e quanto á capacidade de supportar as vicissitudes climatericas e a pobreza do sólo, e quanto á qualidade da madeira.
Não ha plantação de _Eucalyptus globulus_ que se mostre viçosa por igual. Aqui e além apparecem sempre exemplares rachiticos, e tenho para mim que esses, em geral, definham por doenças cryptogamicas, sobretudo se a exposição é ao norte e batida do vento d'esse lado. O _Eucalyptus_ _Risdoni_ partilha com o _globulus_ d'essa susceptibilidade; adoece tambem muito facilmente. Mas, exceptuando este, julgo que, em grande maioria, as outras especies de _Eucalyptos_ são, em geral, muito menos sensiveis ás invasões cryptogamicas do que o _Eucalyptus globulus_.
Quanto a belleza, se queremos formar avenidas copadas, ou vestir de folhagem abundante um pedaço de terra, se procuramos sombra e frescura, o _Eucalyptus botryoides_, aliás facil de contentar em riqueza do sólo e favor do clima, excede todos os demais. Em seguida, para este effeito, virá o _Eucalyptus Andreana_, uma especie de chorão, de folhas delgadas, um pouco esguio, na verdade, mas lindo, sem embargo, principalmente quando se cobre de flôr. Por ventura o _Eucalyptus virgata_, ou _Sieberiana_, segundo outra classificação, tem de ser incluido n'esta cathegoria. Ramifica copiosamente. Mas os exemplares que possuo estão ainda muito novos para que me auctorizem juizo definitivo. É possivel que com a idade se tornem mais despidos.
Para os terrenos humidos e frios, a solução não offerece duvida. O _Eucalyptus amygdalina_, o _coriacea_ e o _Gunnii_ téem de ser os redemptores d'esses brejos miseraveis das nossas florestas, assim como nos terrenos sêccos o _Eucalyptus polyanthema_, o _melliodora_, o _bicolor_ ou _largiflorens_ (são synonimos) e o _Behriana_ e o _hemiphloia_--de crescimento lento, note-se--excedem em coragem para supportar a estiagem todos os demais. Sobretudo, o _Eucalyptus polyanthema_, quando plantado basto e bem guiado, porque facilmente entorta e deixa engrossar os ramos rasteiros com prejuizo da haste principal--é muito de cultivar, tanto mais que a madeira é rija como ferro. O _Eucalyptus melliodora_ cresce mais depressa e dá troncos mais direitos; mas pelo que tenho visto e lido, supponho que a madeira, embora boa seja, é inferior à do _polyanthema_.
Pela qualidade da madeira é que muitos _Eucalyptus_ se antepõem ao _globulus_, coincidindo a superioridade da madeira com uma celeridade de desenvolvimento e aptidões de cultura inteiramente satisfatorias e mesmo comparaveis ás d'aquelle gigante das nossas florestas. Aqui seria longa a lista das especies de _Eucalyptos_ do meu conhecimento e experiencia que convém preferir ao _globulus_, embora este jámais deixe de ser excellente. Outros o vencem, é incontestavel: e para abreviar, mesmo porque ha vantagem prática em abreviar e não dispersar o nosso esforço em incertezas e caprichos, eu recommendaria, a quem quizesse produzir madeiras de excepcional valor, todos os _Iron-bark_ (casca de ferro), como é, por exemplo, o _crebra_, de que facilmente conseguiremos bons exemplares, e poria na cabeça do ról o _Eucalyptus corynocalyx_ ou _cladocalyx_, que não torce depois de sêcco, o _marginata_, de uma dureza maravilhosa, e ainda o _resinifera_ que não dispensa logar favoravel; mas que, cemo o _crebra_, não é tão esquivo que não vegete bem em muitissimos valles e encostas do nosso paiz e possa formar florestas esplendidas.
V
Do córte dos Eucalyptos
Sobre o córte dos _Eucalyptos_, a _Eucalyptographia_ do Barão de Mueller reproduz as recommendações de George Simpson, o qual, na opinião de Mueller, «falla em resultado d'uma longa experiencia e com auctoridade»; e porque essas recommendações se me afiguram de uma importancia capital, aqui as reproduzo.
Dizem assim:
«Por causa da sua densidade, a madeira do _Eucalypto_ não póde seccar nos cêpos; troncos de 12 pés de comprimento por 12 polegadas de espessura, deixados durante 7 annos no logar onde foram cortados, empenaram, quando depois foram serrados em pranchões, quasi tanto como se houvessem sido cortados recentemente. D'aqui vem que a exposição dos cêpos a influencias proprias a effectuar a séca alcança apenas a parte externa e com prejuizo, pelo menos, d'essas camadas que attinge. Por isso, G. Simpson insiste, com razão, na conveniencia de serrar os troncos nas dimensões que se quizerem, logo que são derrubados. A madeira serrada deve depois ser empilhada, e, para obstar a que se fenda e torça, convem cobril-a levemente com serradura, sendo esta substancia a mais facil de obter e applicar para evitar uma evaporação demasiado rapida da humidade da madeira. A serradura é um mau conductor do calor. A madeira do _Eucalypto_ (pelo menos do _Jarrah_, _Eucalyptus marginata_) requer para seccar por este processo cerca de 3 mezes, se é feita em pranchões de 3X2 polegadas; para pranchões de 12X12 polegadas demandará, aproximadamente, um anno. Quanto á occasião do córte, o snr. Simpson está de accôrdo com todos os observadores sensatos, insistindo em que as arvores devem ser cortadas quando o movimento da seiva é menos activo; por conseguinte, ahi pelo fim do estio, antes que as chuvas pesadas dos mezes mais frios venham despertar uma circulação mais vigorosa da seiva. Mais nota ainda G. Simpson que os ramos de _Eucalyptos_, quando cortados na estação humida, fendem muito mais do que quando o córte se faz nas épocas mais sêccas do anno. Deve haver tambem muito cuidado em livrar as arvores de grande abalo ao cair. De outra fórma, a madeira apresentará defeitos, embora algumas vezes estes só se revelem muito tempo depois de a empregarmos. Poder-se-ha evitar muito esmagamento inclinando a quéda para onde haja ramada e afastando-a dos terrenos pedregosos e das rochas.»
VI
Eucalyptos hybridos
Desde que, em 1902 comecei a fazer sementeiras de _Eucalyptos_ com maior assiduidade e experimentando largo numero de especies, achei entre exemplares que inteiramente se conformavam com a descripção que d'elles tinha nos livros proprios do seu estudo, alguns que eram uma aberração manifesta do typo especifico. A principio julguei que essas divergencias, então raras, proviessem de menos cuidado no apartamento das sementes; seriam resultado de qualquer mistura casual. Mas, havendo plantado algumas dezenas de especies n'um espaço relativamente estreito, verifiquei, á medida que comecei a colher sementes das arvores por mim plantadas, a progressiva frequencia dos exemplares extravagentes, e tive por indubitavel a hybridação. Até que, ultimamente, me veio ás mãos a obra do illustre botanico e professor Maiden, _A Critical Revision of the genus Eucalyptus_; e ahi vi o facto da hybridação dos _Eucalyptos_ confirmado por uma das mais subidas auctoridades contemporaneas em materia de flora australiana.
Maiden considera «absolutamente provada» a hybridação dos _Eucalyptos_, e acha que d'esse facto abundam provas. Segundo as suas observações, o _Eucalyptus Boormanii_ é um hybrido do _siderophloia_ e do _hemiphloia_; o _affinis_ vem do cruzamento do _sideroxylon_ e do _hemiphloia_ e o _consideneana_ será talvez um hybrido do _piperita_ e do _Sieberiana_.
Nas minhas sementeiras, os _Eucalyptos_ que se mostraram mais facilmente susceptiveis de cruzamento foram o _Gunnii_ e o _leucoxylon_. De quinze exemplares provenientes de uma sementeira d'este ultimo, não havia talvez dois perfeitamente iguaes. O _robusta_, o _botryoides_ e mais acentuadamente o _Stuartiana_ tambem não eram dos mais esquivos em apresentar exemplares divergindo das mães, não sei se por hybridação, se por tendencia ingenita a variar, a qual é igualmente fóra de duvida para grande parte das especies d'este genero. Em compensação, ha outras que não variam. Do _globulus_ nunca encontrei um só hybrido. No _amygdalina_ são rarissimos os exemplares divergentes; n'uma sementeira que produziu mais de quatrocentos pés, apenas encontrei um que não se conformava inteiramente com o typo commum.
Dado este facto da hybridação e começando nós a conhecer as especies em que se manifesta, convém saber se d'ella poderemos tirar proveito economico e não teremos antes de a considerar no ról das meras curiosidades da cultura florestal.
N'este ponto é que a obra de Maiden nos dá, se não me engano, uma indicação de valor, onde diz que as especies e variedades de _Eucalyptos_ agrupadas na designação vulgar sob o nome de _box-trees_ (arvores de buxo) e entre as quaes se encontram o _melliodora_, o _polyanthema_, o _largiflorens_ e outros, mostram «uma particular tendencia para cruzar com aquellas outras especies chamadas _iron-barks_ (casca de ferro) das quaes o _crebra_ é muito nosso conhecido e a todos os respeitos justamente famoso.
Esta affirmação do sabio director do Jardim Botanico de Sydney porventura envolverá para nós uma indicação preciosa. O _polyanthema_, um _box-tree_, é muito provavelmente o _Eucalypto_ que entre nós melhor supporta o calor do estio, emquanto resiste perfeitamente aos nossos invernos; mas é lento, muito lento no desenvolvimento. Entretanto, o _crebra_, um _iron-bark_, mais sensivel ás vicissitudes climatericas, prosperando, todavia, sob temperaturas elevadas e supportando sem maior mal frios rigorosos, tem um desenvolvimento mediano, em termos manifestos de aproveitamento economico. Em ambos a madeira é excellente. Seria possivel pelo cruzamento do _polyanthema_ e do _crebra_ obter hybridos que tendo as notabilissimas qualidades de resistencia do _polyanthema_ lhes juntassem uma maior celeridade de desenvolvimento? E o _Gunnii_ tão prompto em cruzar e tão proprio para povoar as encostas frias, não poderia ser melhorado pela insinuação de elementos novos, trazendo á sua madeira qualidades superiores a essas, devéras aproveitaveis, que já possue, e fazendo-a tão boa para construcções como magnifica é para lenha?
A experiencia é tentadora para os lavradores moços e confiados que queiram juntar a uma justa ambição de lucros uma intelligente applicação dos seus ocios e um sympathico esforço para legar aos filhos e aos filhos dos seus filhos uma riqueza nacional.