Estrellas Propícias

Part 8

Chapter 83,826 wordsPublic domain

Corinna balbuciou confusas palavras, e não soube como explicar aquelle disparate, que parecia o despertar subito d'um arrobamento semelhante a somnambulismo!

Se não existissem os pronomes _este_ e _elle_, Corinna teria exclamado:

--Foi Antonio d'Azevedo!

E, se ella tal dissesse, ninguem a entenderia, excepto o leitor.

XIV.

Pediu Zuzarte licença para compartir do contentamento da familia. Em breves e alegres termos, D. Mafalda disse que seu primo Fernando de Athaide desistia da acção que tinha vencida, quando menos se esperava. Sem rebuço de vão orgulho, a fidalga enumerou quantas desventuras estavam eminentes á sua familia, e a ella, pobre mãe e esposa, que, ao mesmo tempo, se havia de separar de marido e filhas para ir quinhoar o pão da caridade de parentes, que, muitas vezes, lh'o atirariam á cara com a cruel censura aos desperdicios da emigração.

O brazileiro mostrava-se jubiloso do successo; e, cada vez que as meninas bem-diziam seu primo Fernando, era muito de notar-se que o hospede guardava um silencio indelicado.

Instado por Felismina a dar explicação do seu silencio, e mais ainda d'um certo tregeito de fria admiração, disse o brazileiro, como surprendido em mysterioso sentimento, qualquer que fosse:

--Eu não sei de que hei de louvar esse senhor Fernando de Athaide, posto que o respeito muito por ser tão proximo parente de vossas excellencias.

--Não sabe?!--disse Mafalda com vehemencia.

--Não, minha senhora.

--Pois a desistencia d'uma fortuna, que era já sua...--tornou a fidalga.

--Minha senhora--replicou Zuzarte--eu conheço o primo de vossa excellencia.

--Conhece!--exclamaram todos.

--Fernando de Athaide desistindo de algumas dezenas de contos, obedeceu talvez a um sentimento de vaidade, o mais barato de quantos lhe tenho conhecido. Seu primo, minhas senhoras, é hoje um millionario. A balança do seu oiro não ergueu duas linhas com o desfalque do valor d'estes vinculos. Não ha virtude que deva espantar-nos na desistencia d'um objecto inutil.

--Não quero pensar assim, nem consinto que minhas filhas assim pensem--tornou Mafalda.

--Pois bem--retorquiu o brazileiro--convenho que em vossas excellencias a superabundancia de sensibilidade reverta em gratidão; aposto, porém, que o senhor Gastão de Noronha não pensa assim.

--Penso como minha mulher--disse o fidalgo--Penso que lhe devemos muito ao generoso Fernando, porque eu fui mau para com elle. Quando estavamos em Paris, recebi duas cartas suas, muito attenciosas, ás quaes não respondi. Chamava-me primo, e eu tive a estupida arrogancia de rejeitar o parentesco de um homem que, por delicados termos, me convidava a entrar com elle em negociações ácerca dos vinculos, que eu illegalmente administrava. Depois d'isso, tenho rejeitado todas as conciliações propostas, e, no arrasoado de minha defeza, fiz que os lettrados empregassem termos injuriosos contra a sua pretendida filiação de nosso tio Fernão de Athaide. Era de crer que fosse implacavel o odio do vencedor, depois que eu, á força d'armas, lhe resisti ainda em ultimo lance. Ora, senhor Zuzarte, seja embora millionario Fernando, força nos é confessar que ha sangue muito fidalgo n'aquellas veias! Se eu pudesse apertal-o ao coração n'este momento, exultaria do nobre orgulho com tal parente!

Carlos Zuzarte fez um signal de assentimento ás calorosas razões de Gastão, e derivou a prática a outro assumpto. Felismina, porém, teimou em fallar de seu primo Fernando, pedindo ao brazileiro que lhe contasse o que sabia d'elle.

--Que interesse, minha senhora!--disse Zuzarte com ar de maravilhado--O primo de vossa excellencia é um homem de bigode grisalho, olhos pretos, alto, debil, muito trigueiro, alegre ás vezes, outras muito triste, com muitos amigos e muitos inimigos...

--É solteiro?--atalhou Felismina.

--É solteiro, e já agora assim morrerá, porque, se me não engano, deve ter trinta e oito annos.

--Justamente--disse Mafalda--Meu tio Fernão morreu ha vinte e dois, e lembra-me elle dizer-me que Fernando teria dezoito. Queria meu tio que eu casasse com o primo; mas como falleceu quasi repentinamente, não chegou a mandal-o chamar.

--Se vossa excellencia tem casado com elle--disse Zuzarte--esta scena, em que todos figuramos, estava na massa dos impossiveis! Ora vejam vossas excellencias que em bem pouco está o não virem á luz da vida magnificos espectaculos! Que quer vossa excellencia saber mais de seu primo, senhora D. Felismina?

--Diga tudo o que souber--respondeu a menina.

--Eu não sei mais nada, minha senhora. A ultima vez que o vi no Rio de Janeiro foi no escriptorio de um velho jurisconsulto, onde tinha banca de advogado um moço portuguez chamado Antonio d'Azevedo Barbosa.

Corinna da Soledade estremeceu expansivamente, como se ninguem a visse, e como por influição magnetica, a cadeira per si mesma se arrastou algumas pollegadas para mais perto do brazileiro. A leitora de certo não acredita n'este magnetismo da cadeira.

Gastão de Noronha relanceou os olhos a Corinna, e as irmans tambem.

--Eu não sei que influencia teve este nome no meu auditorio!--disse o brazileiro, sorrindo.

--Em que consiste a fortuna de Fernando?--interrompeu Gastão com mal disfarçada zanga.

--Em terras, dinheiro, escravos, navios e predios--respondeu Zuzarte--Esta grande labutação demanda um bom zelador, que o primo de vossas excellencias, por natural preguiça, não póde ser. Ouvi-lhe então dizer, que tendo de sahir para demorada viagem na Europa, deixava seu advogado no Brazil o honrado Antonio d'Azevedo, com um ordenado bastante ás suas despezas. Bem escolhido patrono! Em poucos mezes, o doutor conquistou, no Brazil, um nome que vale muito grande fortuna, conservando-se lá seis annos. Alguem me disse que Antonio d'Azevedo amara em Portugal uma menina nobre, e fôra ao Brazil enriquecer-se para voltar a casar-se com ella. Se isto é verdade, devem dar-se os parabens á noiva, que o laborioso moço tinha lá uma boa fada á sua espera.

Gastão de Noronha ergueu-se, e disse com impetuosa acrimonia:

--O senhor sabe que está em casa do pae d'essa senhora, que Antonio d'Azevedo cuida comprar com o dinheiro ganhado no Brazil?

--Como?!--exclamou Carlos com a mais magistral naturalidade--Vossa excellencia assombra-me! Dar-se-ha caso que seja alguma d'estas senhoras a menina que... Com effeito! Parece que estamos compondo um romance!

--Romances d'uma minha filha...--tornou o fidalgo--Não fallemos mais d'isso... que a ferida ainda sangra...

--Eu peço perdão se avivei dores e saudades, sem a menor intenção, nem suspeita de....--disse Carlos.

--Pois está claro que vossa senhoria ignorava tudo...--replicou o fidalgo.

E voltando-se a Corinna, soltou um frouxo de mau riso, riso de repreza cólera, porque lhe vira as lagrimas correrem nas faces a fio.

Carlos não pôde conter esta exclamação:

--Que grande e digno amor!

Gastão fitou-o com certo espanto e azedume, e disse, em occasião opportuna, ao ouvido de sua mulher:

--Não sei o que hei de pensar d'este homem! O acaso não faz d'estas coincidencias senão nas novellas...

O incidente passara. O brazileiro encostara-se ao peitoril d'uma janella com Felismina, e ahi conversaram largo tempo ácerca dos amores de Corinna e Antonio d'Azevedo. Parece que o apologista do bacharel se saboreava muito em discorrer de amores alheios, e não perdia azo de invocar o coração da menina a decidir em theses amorosas, que elle muito de industria estabelecia. A direcção que levou o dialogo, não a sei eu cabalmente dizer; é certo, porém, que Felismina, conversando n'aquelle dia com sua mãe muito á puridade, lhe disse que o brazileiro lhe perguntara se ella poderia amal-o. N'essa mesma noite Mafalda revelou ao marido a pergunta. O marido pensou na resposta, e disse que tinha razões para suppor que Carlos Zuzarte era homem muito rico. A senhora entendeu as clausulas de tal resposta, e disse a Felismina que o pae ouvira a noticia com agrado.

--E tu, filha--accrescentou D. Mafalda--gostas do Carlos?

--Não desgosto, maman.

--E querias casar com elle?

--Se o papá quizesse... Mas olhe que elle não me disse que queria casar comigo, maman!

--Bem sei, filha, bem sei; mas assim é que se principiam os casamentos. Como o visconde da Cruz cá vem, elle nos dirá quem é o brazileiro, e depois, se o partido fôr de vantagem e tu quizeres, o que ha de fazer-se ao tarde, faça-se ao cedo.

Em quanto esta scena, nem edificante, nem rara, se passava no quarto de Mafalda, Corinna fôra sentar-se na varanda mais solitaria do palacete, e o proposito levara alli Carlos Zuzarte, acompanhado de Emma e Leonor, que lhe andavam mostrando a porção antiga do edificio. O brazileiro approximou-se de Corinna em quanto as duas meninas desceram ao jardim a colher agua em pequenas bilhas, e disse-lhe:

--Minha senhora! alegre-se que ha de ser feliz! Antonio d'Azevedo ha de ser seu marido, porque Deus é justo com os corações corajosos sem deshonra. Espere, e vencerá. Faça de conta que esta revelação lhe vem do ceo!

--Bem haja!--disse Corinna apertando-lhe a mão.

No dia seguinte chegou o visconde da Cruz, o bem-vindo para todos, e particularmente para Corinna. Carlos Zuzarte, ao apertar-lhe a mão, murmurou estas palavras:

--Seja discreto, quanto lhe pedi!

--Pois duvída?!--respondeu o visconde.

Gastão, logo que pôde, apartou-se com o visconde, e teve com elle o seguinte dialogo:

--Será censuravel pedir eu a vossa excellencia algumas informações ácerca d'este meu hospede?

--Não é, senhor Gastão--disse o visconde--Direi o que souber.

--Este sujeito parece-me excellente creatura.

--Não sei: recommendaram-m'o como pessoa muito rica. Em materia de costumes nada me disseram.

--Mas muito rico, sim?

--Já tive a honra de dizer a vossa excellencia que é muito. Viaja em navio proprio, e podia viajar com estado de quatro navios...

--Oh! é muito!--interrompeu Gastão abrindo os olhos ao tamanho da boca.

--Estou quasi a adivinhar que vossa excellencia observou que elle amava alguma de suas filhas!...

--Quem lh'o disse?--acudiu alegremente o fidalgo.

--Ninguem m'o disse, meu nobre amigo, nem eu me orgulho de adivinhal-o: quem quer o faria. Qual é a menina predilecta? Naturalmente a senhora D. Corinna.

--Ora... Corinna! não sei que distincção é a de minha filha Corinna! Não são tão formosas como ella as outras?

--São formosissimas todas--respondeu o visconde--mas aquella tem mais que as outras um cunho de melancolia...

--De tolice, meu amigo, o cunho é de tolice... Não é ella; ainda bem que não é... Corinna tem de dar má sahida com os taes amores... Deus perdoe a quem contribuiu para aquella demencia...

--Fui eu?...

--Bem sabe que foi, senhor visconde...

--Pois Deus ha de não só perdoar-me, mas glorificar-me com a satisfação de ter approximado dois anjos...

--Não sei para quê...

--Para se amarem e darem um exemplo de sacrificio raro, sublime e invejavel... Não vim a enfadal-o, senhor Gastão... Começa vossa excellencia a enrugar a testa, e tão bom hospedeiro merece melhor recompensa. Como estão os seus negocios?

--Acabou a questão com meu primo.

--Sim?! e como acabou?

--Desistiu.

--Bello! mil parabens! Não tem, pois, vossa excellencia nada que o penalise?

--Estou contentissimo. A minha casa volta a ser, se não invejavel pela ostentação, ao menos pacifica e bastante ás minhas despezas em agradavel mediania.

--Precisa vossa excellencia de dinheiro para remir-se de algumas dividas?

--Mil graças; ainda tenho algum do producto das joias.

--Mas quer vossa excellencia resgatar as joias de suas filhas? Abro-lhe com franqueza o coração e a bolsa.

--Dispenso o seu obsequio. Minhas filhas enfeitam-se com flores: cá n'estas montanhas o melhor joalheiro é a natureza. Cada primavera é um milhar de cofres de pedrarias preciosas abertos por esses montes e veigas.

--Santa e bella poesia!--disse o visconde--Queria vel-o coherente comsigo mesmo, meu amigo! Se a natureza lhe dá tantas riquezas em flores, porque não ha de querer acceitar das mãos d'ella um genro dotado com quantas virtudes podem adornar o rei da creação?

--Um genro! de quem me falla?--acudiu enleado o fidalgo.

--Fallo-lhe d'um Antonio de Azevedo Barbosa, que sabedor dos infortunios de vossa excellencia...

O visconde reteve a exuberancia do coração, talvez indignado, e doeu-se de levar tão longe seu zelo.

Gastão ia pedir-lhe explicações, quando o visconde, turbado de sua irreflexão, recorreu, ao avisinharem-se duas meninas, a ir ter com ellas, pedindo-lhes flores dos seus canteiros.

Emma e Leonor desceram ao jardim, e o visconde seguiu-as. Carlos Zuzarte passeava n'uma rua abobadada de arvoredo, com Felismina; no tôpo d'esta rua estava Corinna da Soledade corrigindo umas trepadeiras que descahiam da direcção que a sua cultora lhes dera.

O visconde estugou o passo; quando a viu, approximou-se, e disse-lhe:

--A sua felicidade está a chegar. Exulte, minha amiga. São mais alguns mezes: doire-os com a esperança, que é um bem quasi egual á mais querida realidade, quando se tem a certeza.

--A certeza!--exclamou ella.

--Sim, a certeza.

--Ó senhor visconde, meu bom amigo, diz-me uma coisa? Como sabe este brazileiro que eu vou ser feliz?...

--Sabe-o: tem a quasi certeza, e eu tenho a certeza completa. Deus não ha de querer desmentir-nos.

Appareceu Gastão ao fundo da rua, e logo o visconde dirigiu em voz alta perguntas ás meninas que cortavam perto as flores.

Gastão, ao vêl-o perto de Corinna, disse a Mafalda:

--Estes populares são uns pelos outros! Parece que andam conjurados a darem cabo dos titulos e das raças distinctas!

--Porque dizes isso, Gastão?--perguntou Mafalda.

--Porque o digo?! Pois não vês o interesse que este visconde tem em que a nossa Corinna case com o homem de Barcellos! É teima que me ha de fazer chegar a mostarda ao nariz!

Chegaram á curva da rua onde estavam Felismina e Carlos.

Gastão sorriu-se e passou ávante, dizendo a Mafalda:

--Tenho a certeza de que é riquissimo o brazileiro.

--Mas plebeu, não é?

--Não averiguei: ha de ser naturalmente. Mas que pensas tu? Do modo como por cá está isto, o homem, se quizer, é conde ámanhan. Tem cinco navios! cinco navios, Mafalda!... Que te parece? as intenções d'elle serão boas?

--Creio que sim. A pequena sympathisa verdadeiramente com elle. Pareciam dois tolos a brincar á róda do tanque, e assim que o Carlos lhe pede que cante modinhas brasileiras, ella ahi vai logo ao piano, e elle morre por ouvil-a. Quando isto é de quatro dias, que fará se elle se demorar?

--Era uma felicidade, Mafalda! Fortuna de milhões! Então é que diziamos um adeus á aldeia e a estes parvos cá do Minho, que fazem consistir a sua grandeza nobliarchica em terem dois cyprestes á porta, quatro patos reaes n'um tanque, e um lacaio com grandes botas... Ainda tenho esperanças de voltarmos a Paris! Aquillo é que é viver!

--Ai! Paris!--suspirou Mafalda, reclinando a cabeça sobre o hombro do marido--ai! Paris!

XV.

Decorreram alguns dias de excursões pelo Minho e Lima. O visconde acompanhou o festivo rancho. As meninas iam felizes: a propria Corinna, com as suas esperanças, egualava as irmans em contentamento. A espaços, Zuzarte ou o visconde lhe diziam uma palavra confortadora, de modo que o desconfiado Gastão não désse fé. No que elle muito reparava era nas repetidas conversações dos dois hospedes, que se apartavam da caravana para fallarem com certos visos de mysterio.

--Em quanto a mim--dizia o fidalgo a D.Mafalda--o brazileiro consulta o visconde a respeito de Felismina. Seria bom prevenil-o.

Chegaram a Ponte do Lima. D. Mafalda quiz visitar o carneiro de seu tio Fernão de Athaide. Ajoelharam todos a orar por alma do fidalgo. Carlos Zuzarte com tal devoção o fez, que deu nos olhos de todos.

--Parece que é bom christão!--disse Mafalda a Felismina--Vê tu que o homem tinha lagrimas nos olhos, e veio perguntar-me se eu ajoelhara por formalidade, se por sincero sentimento de respeito ás cinzas de meu tio! Que pergunta!...

Alojaram-se n'um velho palacio das margens do Minho, onde tinham nascido os avoengos de Mafalda: era a casa onde expirara Fernão. As meninas riram muito, e andavam a reboque umas das outras nos vastos salões esburacados. No quarto onde morreu o camarista de D. João VI estava um retrato d'elle, roido de traça e pó, com as feições quasi apagadas. O brazileiro disse a Gastão de Noronha que Fernando d'Athaide havia de apreciar grandemente o mimo d'aquella carunchosa lona. Prometteu Noronha mandar retocar o retrato, e presentear-lh'o.

Nem Mafalda, nem alguma das meninas quiz pernoitar no quarto, onde morrera o tio, e estivera inhabitado desde então. Dormiram n'elle o visconde e o brazileiro.

Dois dias depois proseguiram o passeio desandando para o palacete das margens do Lima. O visconde recolheu-se ao Porto, e Carlos Zuzarte ficou ainda sem designar destino.

Abriu-se o theatro lyrico no Porto. O brazileiro convidou a hospedeira familia a visitarem a galera que elle tinha fundeada no Douro, e a gosarem-se de algumas noites de theatro. As quatro meninas iam endoidecendo de alegria com o convite, e mais ainda com a condescendencia do pae. Corinna entristeceu-se. A felicidade adoçava-lhe a solidão agora mais que nunca. Os sitios onde nos afizemos a scismar e soffrer com a nossa saudade dão-nos a sombra do ausente que choramos sempre que a mágoa lá se vai carpir. Se depois nos afastamos d'aquelles sitios, a saudade já é dupla: parece que os novos logares, onde imos, nos não conhecem, nem sabem porque choramos. A nossa dor dera-nos além um clima nosso; aqui tudo estranhamos, tudo nos parece em dobro apartado. Esta sensação amarga adivinhava Corinna da Soledade, quando pediu a sua mãe licença para ficar com o governo da casa. Gastão deu a licença sem constrangimento; mas Carlos Zuzarte não prescindiu da companhia de Corinna, e de modo lh'o disse a ella, que a menina não hesitou.

Esperava-os no Porto uma casa nobre mobilada com riqueza. Pasmou Gastão das rapidas providencias do seu hospede: este disse que, tencionando residir alguns mezes no Porto, incumbira o seu amigo visconde da decoração da casa.

Pediu o brazileiro a D. Mafalda se convidava as suas relações no Porto para lhe honrarem as salas por occasião d'um baile, que elle queria dar ao visconde da Cruz. Deu-se um baile explendido, como o fidalgo portuguez os dava em Paris.

Concorreram as senhoras de primeira sociedade e formosura.

Carlos Zuzarte afigurou-se a muitas meninas um bom marido; todas, porém, excepto uma, se abstiveram de revelar o seu parecer n'um sorriso ao brazileiro, por verem que eram cinco, e todas bellas, as filhas do fidalgo commensal do ricasso; ora a exceptuada não deu pêso a isso, e distinguiu-se em branduras e cortezias que deram na vista.

Felismina foi quem primeiro as viu. Podera não! O seu amor era verdadeiro, porque disparatou em ciumes. Sahiu das salas, recolheu-se ao seu quarto, e, nem com ordem do pae, sahiu de lá. O brazileiro soube isto, e sorriu-se como a vaidade do coração sorri. Foi elle, em pessoa, pedir a Felismina que voltasse á sala: estava fechada por dentro, e disse pela fechadura da porta que não ia servir de escarneo á sua rival. Carlos sustentou o dialogo á fechadura, foi eloquente quanto se póde ser por um tal systema de embocadura de suspiros, e conseguiu que Felismina promettesse voltar á sala.

O brazileiro levou á evidencia de todos que amava a filha de Gastão, desde que o seu perdoavel orgulho se inflou com os ciumes, acintemente provocados.

No dia immediato jantaram a bordo da galera, que se chamara _Aurora_, e n'aquelle dia appareceu chrismada em _Felismina_. Este successo para Gastão de Noronha teve o valor do terceiro proclame lido á missa conventual.

Á noite não sahiram de casa, nem receberam visitas, excepto o visconde da Cruz, e seu irmão Luiz Taveira, que, desde o baile, scismava muito com Leonor, filha de Gastão, a mais mimosa de todas em structura, coisa assim como sonho, sylpho, ou quer que era de imponderavel, que parecia nas walsas uma borboleta de azas iriadas.

Que esperto era aquelle Gastão de Noronha! Deu logo pela ternura dos olhares de Luiz, e de si para si disse: «Mudam os ventos, mudam os tempos!»

Estava, pois, reunida a familia, o dono do palacete, e os dois Taveiras convidados ao desembarque.

Ao retirarem os taboleiros do chá, o brazileiro convidou Felismina a jogar o xadrez, sob condição de ficar sujeita á vontade do vencedor a liberdade do vencido. Felismina annuiu. Todos cercaram os jogadores com anciosa curiosidade.

--Gósto de ver a attenção que nos prestam--disse Zuzarte--porque não é brincadeira isto. Esquecia-me, porém, ouvir o senhor Gastão de Noronha, antes de acceitar a annuencia de sua filha. Vossa excellencia não vem com embargos, se a sorte fôr funesta á senhora D. Felismina?

--Quaes embargos!--exclamou Gastão rindo estrondosamente--E se ella vencer? haverá embargos por parte do cavalheiro Zuzarte?

--Ninguem se importa com o meu destino.

--Quem sabe!...--disse Felismina--Tenho medo....

--Que teme, minha senhora?--perguntou Zuzarte com meiguice.

Felismina sorriu e córou.

Jogaram. Os peões, os delfins, o castello, o rei e rainha do brazileiro, foram todos derrotados e assoprados miseravelmente. Felismina venceu.

--Estou á sua disposição, minha senhora!--disse Zuzarte.

--Está?--acudiu ella com as morenas faces retinctas de escarlate.

--Estou: que determina?

--Que fique sendo o nosso amigo sempre; que não torne para o Brazil.

--Ficarei. Quer-me então como um parente, sim? Irmão, tio, primo... veja lá: qual parentesco lhe quadra mais?

--Seja primo--disse Felismina.

--Pois, sim, seja primo--disseram todas as meninas.

--Pois então venham dar todas um abraço em seu primo--tornou o brazileiro erguendo-se--O primeiro abraço ha de ser o de minha prima Mafalda, sobrinha de meu pae Fernão de Athaide.

Houve um spasmo em todas as senhoras, que pareciam, ao encarar-se mutuamente, perguntarem umas ás outras se tinham entendido o dizer do brazileiro.

--Então, prima Mafalda!--tornou Fernando de Athaide--se não acceita o parentesco que sua filha nos dá, acceite o que nos deu a natureza. Aqui tem o mau, o perseguidor, o implacavel Fernando de Athaide! Vingue-se agora, dando-lhe um abraço de abafar-lhe o ruim coração que trasborda de felicidade!

Mafalda correu aos braços de Fernando; Corinna, Emma, Felismina, Elisa, Leonor, todas a um tempo, pareciam contentar-se com apertar-lhe os braços. O proprio Gastão abrindo os seus queria abraçar o grupo d'um amplexo.

Fernando de Athaide, beijado e abraçado por todas, sentou-se extenuado, e murmurou:

--Devo esta felicidade a Corinna. Dê-me um outro abraço, minha prima Corinna: a si devo o que sou agora; a si é que toda esta familia deve a felicidade que eu posso dar-lhe.

--A mim?!--disse Corinna.

--Como assim, primo Fernando?--acudiu Mafalda--a gente não sabe como é que Corinna deu causa a isto!...

--Eu lhe digo, prima: se Antonio d'Azevedo não tivesse amado Corinna, nunca o eu conheceria no Rio de Janeiro; e, se eu não viesse a encontrar o amigo, o anjo, o honrado amante de Corinna, creia vossa excellencia que seria hoje o perseguidor d'estas pobres meninas. Foi elle quem me ensinou, com duas palavras, como o Christo as dizia aos maus, a ser bom, compassivo e misericordioso. Vi-lhe lagrimas mal abafadas no coração; e quiz Deus que ellas me cahissem no meu. D'ellas se gerou a felicidade de todos nós, de todos, menos a d'elle... Adiante... Elle está debaixo da mão de Deus... A sua hora de premio ha de tambem chegar... Meu primo Gastão, eu perdi o jogo com minha prima: perdi o direito de me revoltar contra as suas decisões; mas, ainda assim, o coração põe embargos, e vossa excellencia será o juiz, e minha prima Mafalda tambem. Eu peço-lhe para minha esposa sua filha Felismina: antes quero ser irmão que primo d'estas meninas; hei de sentir alguma vez o prazer de chamar a vossa excellencia pae. Dá-me sua filha?

--Com orgulho, com soberba, como a não daria ao primeiro sangue de Portugal!--exclamou Gastão, conduzindo Felismina aos braços de Fernando.