Part 7
--Com effeito!--exclamou o doutor--e dizem lá que já não ha santos! Sabe vossê, Azevedo, como é que o mundo, desde que perdeu a fé nos milagres, chama aos santos da sua virtude? Chama-lhes mentecaptos. Assim devia de ser, porque a philosophia inscreveu tambem como demencia o amor divino dos crucificados por sua lealdade a Deus, e d'estes vejo que ainda os ha devotados á _sublime loucura da cruz_. Queria então vossê adjudicar o trabalho de toda a vida ao pagamento do dinheiro com que pretende restabelecer o bem-estar da familia da sua futura senhora?... Vamos meditar. Este Fernando de Athaide, como já lhe disse, o que quer é provar _urbi et orbi_ que é fidalgo de raça por seu pae. A herança não lhe importa. Poderemos conseguir que elle convença o universo da sua fidalguia, sem se apossar dos vinculos de D. Mafalda? Aqui é que bate o ponto. E poderemos conseguil-o sem que o meu amigo hypotheque o seu trabalho á solvencia da divida? Invoquemos as musas das entalações, e vejamos o que ellas nos decretam em coisa tão prosaica, já que os praxistas nos tapam todas as sahidas. Poderemos pensar no modo de approximar Fernando de Athaide de uma das primas, casando-os? Este expediente bem se vê que é inspiração de musas, porque é de todo em todo poetico. Que diz a isto, meu rapaz?
--Creio que por parte de Gastão de Noronha seria um negocio concluido, ainda mesmo que Fernando de Athaide fosse do mais baixo plebeismo--disse Azevedo.
--Feliz genio de homem para os nossos fins! Mas vossê sabe que a renuncia d'um direito transmissivel, como é o dos vinculos, é nulla; e que os descendentes do renunciante estão sempre ao abrigo da lei. É preciso que Fernando de Athaide case com a menina successora dos vinculos, na hypothese de serem elles legitimamente de sua mãe...
--Essa é Corinna!--interrompeu Azevedo--Corinna é a que eu amo!
--Ah! sim? então muda de figura o negocio.... Deixe-me pensar... E se nós conseguissemos que Fernando casasse com uma das outras senhoras? Leval-o-iamos a deixar aos sogros a administração dos vinculos, melhorados e desembaraçados de dividas com liberalisado capital pelo ricasso, e sobre tudo pelo fidalgo, orgulhoso de reedificar os pardieiros de seus avoengos. Que lhe parece?
--Gastão de Noronha não acceitaria a humilde posição de mordomo de seu genro--disse Azevedo--Por parte d'este a reconciliação seria impossivel. Só vejo um meio.
--Diga lá.
--Fernando obteria uma filha de Gastão, se, antes de pedir-lh'a, rasgasse as provas com que se diz successor dos vinculos.
--Não se rasgam assim facilmente as provas. A perfilhação está archivada, e as cartas e testamento que o legitimam filho de Fernão de Athaide estão em notas de tabelliães de Portugal e do Brazil.
--A desistencia, portanto, é invalida?--tornou Azevedo.
--É, a menos que o senhor me não assevere que a descendencia directa de Fernão de Athaide acaba em seu filho.
Proseguiram largo tempo dialogando juridicamente, e ultimaram indecisos no que deviam fazer.
Antonio d'Azevedo desvelou aquella noite em hypotheses que se combatiam e destruiam. Amanheceu-lhe o dia seguinte para incessante inquietação e dolorosa perplexidade. Voltou ás onze horas ao escriptorio de Valentim da Costa, e encontrou-o encerrado com Fernando de Athaide.
--Já se demorava--disse-lhe o doutor--Sente-se aqui.
O velho, voltado a Fernando, proseguiu:
--Dá-se o caso, amigo e senhor Athaide, que este Antonio d'Azevedo veio ao Brazil ganhar alguns punhados de oiro para poder voltar a Portugal e casar com uma das cinco primas de vossa senhoria, filhas de Gastão de Noronha.
--Pois conhece minhas primas?!--atalhou Fernando.
--Especialmente a mais velha, a senhora D. Corinna--disse Azevedo.
--Alguem me disse que é muito galante essa--tornou o millionario.
--São todas galantes: são cinco anjos, que fariam o orgulho d'um pae menos infeliz que o senhor Gastão, e teriam sido felizes se nascessem em menos elevada condição.
--Alguem as viu em Paris--tornou Fernando--e achou-as educadas muito á franceza.
--Por força devia achal-as assim educadas: as mais novas lá nasceram.
--Mas desenvoltas... é o que eu quero dizer.
--Não senhor: enganaram-o: vi-as em alguns bailes do Porto com quanta gravidade e compostura se póde desejar na mulher que se ama para nos felicitar e honrar a vida.
--Agora fallo eu--atalhou o velho--O senhor Azevedo affligiu-se quando vossa senhoria nos contou a situação em que ficou seu tio; é natural; porque a senhora que elle ama, até ao sacrificio de vir grangear-lhe aqui o pão futuro, está lá n'essa casa, d'onde vossa senhoria vai expulsar toda a familia.
--Minhas primas devem odiar-me de morte!--interrompeu Fernando em tom de desagradavel ironia.
--Fazem ellas muito bem--disse o velho, sorrindo.
--Que lhe diz de mim a prima Corinna?--tornou Athaide com prasenteiro semblante.
--A carta que ella me escreveu n'este ultimo navio contém uma pagina com referencia a vossa senhoria. Queira lêl-a, que ella de certo me perdoa a confidencia.
Fernando de Athaide leu a penultima lauda da carta, dobrou-a vagarosamente, e restituiu-a sem fitar os olhos no bacharel.
--Aqui não ha odio de morte n'estas palavras, senhor Fernando de Athaide--disse Azevedo.
--Então isso é segredo cá para o velho, heim?--disse o doutor.
--Ha meia hora que recebi a carta--respondeu o moço, entregando-lh'a.
--Sempre quero ver o juizo que ella faz do priminho. Mostre lá o sitio onde vem a catillinaria.
--Antonio indicou-lhe a pagina, e o velho leu alto:
«Ouvi dizer ao nosso amigo Felisberto que o primo de minha mãe é muito rico, e não precisa d'estes poucos bens. Que triste gloria reduzir á ultima pobreza uma familia tão numerosa! Ha corações muito duros, meu querido Antonio! Ás vezes penso com tristeza e ao mesmo tempo consolação, no differente modo de pensar que Deus dá ás suas creaturas tão semelhantes no exterior. Não se lembrar esse homem das afflicções que nos dá sem proveito nenhum para si mesmo! Não saberá elle que a subsistencia de sete pessoas, creadas na opulencia, era só isto que nos tira!? Se um dia lhe disserem que meu pae morre de desgosto e miseria, a voz do sangue não lhe gritará como um remorso ao coração? Ai! como os felizes gosam, ó meu pobre Antonio!................................... .....................................................................»
--Estas palavras, senhor Fernando--continuou o veneravel doutor--podem mais que tudo quanto eu lhe dissesse, se as lagrimas que eu vejo nos seus olhos não são uma illusão dos meus. Olhe fito cá para mim, Athaide! Não se envergonhe de ser bom: tenha só pezar de o não ter sido. Vamos! deixe lá fallar esse coração! Sente-se disposto a salvar esta familia?
--Responderei--disse Fernando de Athaide, erguendo-se de golpe.
--Uma resposta, n'este caso, não é operação diplomatica que demande vigilias e subtilezas de engenho. Sente-se!--disse com gracioso imperio o velho.
--Mas que quer de mim o doutor?
--Quero que se meça em bizarria d'alma com este cavalheiro que aqui está. Antonio d'Azevedo quiz contrahir um emprestimo de trinta contos, ou mais, caucionados com a sua honra e trabalho. Estes trinta excedem em doze, segundo vossa senhoria me tem dito, o valor dos vinculos. O restante será o que Fernando de Athaide tem gasto no costeio da demanda. Antonio d'Azevedo queria offerecer a vossa senhoria esta quantia como gratificação pela desistencia da demanda.
Sorriu Fernando, e atalhou:
--O doutor não disse a este senhor que eu dou trinta contos pelo menor dos meus caprichos, e que ainda fico bastantemente rico para dar de esmola o valor dos vinculos ao soberbo Gastão de Noronha?
--Esmola que elle não acceitará--disse com altivez o amado de Corinna.
--Nem eu estou pedindo esmola para o marido de sua tia--accrescentou o doutor.
--Então que pede?!--tornou Fernando com philaucioso sobrecenho.
--Peço ao fidalgo que tenha uma alma fidalga; que, se a não tiver, que importam os seus brazões em confronto da caridade com que o escravo nu levanta da rua o seu irmão prostrado de fome?! Quer saber o que lhe fica bem? O cavalheiro manda suspender a execução, sem desistencia dos seus direitos, que as leis e todos lhe reconhecem. O seu vencimento foi completo: agora é preciso coroal-o com a generosidade, se quer o triumpho. Está vencida a questão: está reconhecido Fernando de Athaide o successor dos vinculos de seu pae. São seus os vinculos, e é sua a honra de os deixar administrar por sua prima. Isto é que é nobreza! De resto, as armas dos portões das suas quintas são pedaços de pedra lavrada, onde as aranhas fazem seus ninhos como entre a palhiça que colma a cabana do jornaleiro! Que diz?
--Responderei!--repetiu Fernando--tenho de dar satisfação á minha dignidade. Entre coração e pundonor vai larga distancia: preciso de explicar o despreso com que foram recebidas as minhas cartas por Gastão de Noronha. É preciso que o mundo não pense que os meus direitos se atemorisaram diante do arcabuz do valentão.
--É preciso, primeiro que tudo, respeitar o infortunio!--disse brandamente Antonio d'Azevedo.
--Digno de respeito--accrescentou o neto dos Athaides sahindo de má sombra.
XIII.
Lembra-se o leitor de eu lhe ter dito, no primeiro capitulo, que, por uma tarde de Agosto, estava Corinna da Soledade, nas margens do Lima, reclinada n'um dos bancos circumpostos á fonte do tôpo da sombria avenida?
Agora é que o romance prende com aquella tarde! Vejam que desconcerto este! Chega uma novella ao meio, e torna a começar. Parece que é isto um abuso da indulgencia com que o leitor costuma indultar-me os desarranjos do meu engenho. Ora queira perdoar mais este, attendendo a que as coisas, na vida como ella é, tambem assim vão desordenadas, e começam não só pelo meio, mas até pelo fim.
A carta, que Corinna lia e regava de lagrimas, era de Antonio d'Azevedo. A pagina que mais a enternecia a prantos dizia assim:
«..................................................................... Eu não sei que deva esperar de Fernando de Athaide. Pareceu-me bom quando lhe vi lagrimas, e mau quando se despediu. Será tudo, ou não será nada do que me pareceu: os individuos vulgares são os menos intelligiveis. O melhor, Corinna, é nada esperar que bom seja.
«Entretanto, eu posso mandar á tua familia o bom coração que tu fizeste, e não póde ser teu sem ser dos teus. Prézo teu pae e tua mãe, quero ás tuas irmans como ás minhas. Tenho-vos a todos no mais sagrado dos meus affectos e ardentes desejos de ser util.
«Os meus haveres, por em quanto, não merecem tal nome; porém a minha palavra vale muito com os amigos que me deram os Taveiras. É-me facil possuir alguns contos de reis, e mandal-os a teu pae para ter uma casa e segura subsistencia de sua familia, até que a minha posição seja mais solida. Mas como hei de eu, e com que pretexto, remetter-lhe este dinheiro? Como ha de elle acceital-o? Pensei n'isto muitos dias; e, a final de desanimados arbitrios, tomei um expediente que tu, minha Corinna, applaudirás, porque, sobre tudo, és a minha irman. Remetti seis contos de reis ao nosso Felisberto Taveira, pedindo-lhe que fosse elle offerecel-os a teu pae como coisa sua. Contrariou-me logo a conjectura de que teu pae os não acceitaria, por não poder dar abonação; mas tão cansado estava eu já de ser contrariado, que fechei os olhos, e deixei ao meu bom amigo o desapressar-se das difficuldades. Aqui tens o que fiz: Deus fará o resto.
«Pedi ao Taveira que aconselhasse a sahida de teu pae para o Porto ou Lisboa. A especial situação em que elle se collocou é muito violenta. Digam-lhe todos que abandone as terras que já não são suas. Em toda a parte ha sol e arvores e paz. Todas as flores te hão de festejar, minha filha, e o meu coração te será companhia onde quer que vás............ .....................................................................»
Era bem para lagrimas este singelo dizer e extremo amar do pobre ausente!
Expiravam nas cristas das serras fronteiras os ultimos raios de sol, que Corinna contemplava, coroando de escarlate os pinhaes, quando um barquinho abicou á margem relvada, mesmo no ancoradoiro pertencente á quinta de Gastão de Noronha.
Corinna viu saltar e subir por entre as aleas das ramosas arvores um homem, seguido d'um criado com uma mala. Como a fuga, sem ser vista, seria extemporanea, a menina, escondendo a carta, esperou que o adventicio chegasse.
A certa distancia descobriu-se o sujeito, e perguntou se estava em casa o senhor Gastão de Noronha.
--Meu pae está para Vianna--disse Corinna--mas deve chegar ao escurecer: não tardará.
--Poderei esperar que elle chegue para lhe apresentar uma carta do senhor visconde da Cruz?
--Sim, senhor: queira subir, que eu dou parte a minha mãe, posto que ella está recolhida no seu quarto por doença.
Chamou Corinna um criado que encaminhou o hospede á sala.
Pouco depois entrou a menina na sala, desculpando sua mãe em não poder ir receber um amigo do senhor visconde, e pedindo ao cavalheiro o favor de esperar seu marido, que voltaria breve.
Corinna retirou-se, ouvidos os termos cortezãos com que o hospede agradecia a delicadeza da senhora D. Mafalda.
Não se demorou Gastão. Foi logo á sala, e recebeu a seguinte carta:
«Illustrissimo e excellentissimo senhor, e meu respeitavel amigo de minha maior consideração e respeito. Amigos de meu pae, e muito da nossa estima, nos recommendam o cavalheiro portador d'esta carta, brazileiro nato, que anda visitando a Europa, e quer ver o nosso Minho, e mais ainda o Minho de vossa excellencia, symbolisado na sua formosa quinta. Confiados na amizade de vossa excellencia, ousamos pedir-lhe o favor de recebel-o, e indicar-lhe as principaes bellezas que enfeitam as margens do Minho e Lima. Digne-se vossa excellencia acolhel-o com a sua costumada delicadeza, e dar-nos a honra de lhe devermos esta nova consideração. De vossa excellencia etc.==_Visconde da Cruz._
«_P. S._ Passados dias terei o prazer de visitar vossa excellencia e sua amavel familia, para quem peço respeitos e saudades.»
--Offereço-lhe esta casa como a offereceria ao senhor visconde--disse o fidalgo com palaciana graça--Queira sentar-se. Temos alguns locaes bonitos na nossa provincia; mas se vossa senhoria viu a Suissa, a Italia e alguns departamentos de França, de certo achará encarecida a pintura que lhe fizeram do Minho. Eu viajei muito com a minha familia antes de estabelecer casa em Paris, no tempo das nossas guerras intestinas! Sinceramente lhe digo que lá fóra vi a natureza mais adornada, e por isso mesmo mais bella: tudo assim é. O artista quer achar a nudez para enfeital-a com a poesia do pincel ou do buril; mas o mero curioso sente melhor o bello onde elle realmente é.
Proseguiram em conversação sobre viagens, até horas do chá. Já o hospede, a esse tempo, sabia que o seu quarto de dormir era contiguo á sala, e que o seu criado dormia na alcova inferior correspondente ao pavimento do quarto.
Antes de servir-se o chá, mandou Gastão chamar as cinco meninas, e apresentou-as a Carlos Zuzarte, que assim disse chamar-se o hospede. Felismina tocou piano para acompanhar Emma; seguiu-se Elisa a cantar, acompanhada por Leonor: Corinna estava no quarto de sua mãe. Carlos sentia-se como encantado entre aquellas meninas, que fallavam um portuguez feiticeiro em suas incorrecções, como fallariam anjos, se descessem a tractar com portuguezes, circumstancia de idioma que os poetas nunca observaram, que me lembre. Em quanto a ellas, o dizer do hospede, puro brazileiro, era coisa de muita graça, com o que ellas francamente riam, e de modo o faziam, que o viajante folgava de lhes dar motivo a rirem. É onde póde chegar a condescendencia com meninas galantes!
A noite correu ligeira para todos. Ao dia seguinte madrugou Zuzarte, e desceu ao jardim. Argentava o sol a serra d'Arga, e lá em cima os montados d'aquella mystica selva dos franciscanos, onde ainda rumorejam os psalmos das singelas almas que d'alli, tão visinhas do ceo, se alaram para Deus. Com que pena, leitor, eu acho o meu frei Luiz de Sousa estranhamente trivial e despoetico na descripção d'aquelle ermo e dos seus moradores! Elle, o dulcissimo panegyrista das solidões de Bemfica, passou por entre os cenobitas de mais ignorada vida, nas chronicas monasticas, e apenas disse: «É convento de religiosos entregues mais á vida contemplativa, que aos cuidados e trabalhos da activa.» E mais nada d'aquellas brenhas, e grutas e lageas sem nome que...
Se eu me deixava ir agora á vontade da penna, lá me ficava o romance enredado nos silveiraes da mata de S. Francisco de Vianna, por onde já passei um dia, lá muito no alto, d'onde eu avistava a casa acastellada de Gastão de Noronha, em quanto outro anachoreta me ia contando o romance d'aquella familia.
O hospede estacou surprezo á entrada d'um pavilhão de olaias. Estava lá dentro uma como estatua de alabastro, que poderia chamar-se o anjo da meditação. A estatua, porém, se o era, dos jardins do ceo devia de ser, porque tinha luz nos olhos e celestial graça no sorriso, quando Zuzarte a viu. Era Corinna da Soledade.
Cortejou-a o sujeito com certa turvação, e retirou-se. A menina correspondeu ao cumprimento, e sahiu do jardim logo que o hospede se distanceou da gruta.
Por alli se deteve contemplativo o brazileiro até horas de almoço. Lá veio procural-o Gastão de Noronha, e se andaram ambos conversando ainda sobre coisas que tendiam todas, por parte do fidalgo, a averiguar se o hospede era rico.
--Tenho trinta e oito annos--disse o brazileiro--e principío agora ainda a pensar nas delicias que tem o mundo. Até agora cuidei em fazer-me rico, pensando que bastava sel-o para ser feliz. Como me enganei, cuido d'hoje ávante em dar nova applicação á fortuna.
--Na sua idade--atalhou Gastão--quando se é rico, acham-se abertas as portas do mundo para todos os gosos.
--Não é tanto assim--replicou o hospede--A riqueza é muitas vezes um estorvo á felicidade do coração; e o coração, aos trinta e oito annos, é quasi sempre enganado pela juventude que o reflexo do oiro lhe dá. Quando me proponho um programma de vida nova, o meu primeiro pensamento é casar. A felicidade do celibatario, se elle não fôr monge ou santo, ou temperamento excepcional, é uma concatenação de deleites viciosos com muito desconto de amarguras. Para além d'este difficil passo do casamento rasgam-se-me novos horisontes, encantam-me as alegrias da vida domestica, vejo os bens que Deus concede na velhice aos que dignamente consumiram suas forças nos annos em que as forças carecem de ser subordinadas ao dever...
--Pensa muito acertadamente, senhor Zuzarte--interrompeu o fidalgo.
--O quadro delicioso que vim achar em sua casa, senhor Gastão de Noronha, redobrou-me o encanto, porque é elle a mais sublime realidade das minhas imaginações. Que ditosa velhice a do pae que vê em volta de si cinco filhas, cinco amores de filha a florescerem-lhe a alma com as suas primaveras! Assim não se deve sentir o pezo dos annos, nem o temor da morte. O caminho final, a ultima jornada deve ser suave entre os anjos. Não é muito feliz, senhor Gastão de Noronha?
--Sou infeliz--disse, em boa consciencia, o fidalgo.
--Infeliz?! Com familia tão querida e extremosa, n'este paraizo, é infeliz!? Então lá se vão as minhas chimeras!...
--Fui ditoso até ao momento em que uma inesperada desventura me bateu á porta para me dizer que esta casa não era minha, e que as minhas filhas teriam um futuro de dependencia, obscuridade, e... Deus sabe que futuro!...
--Pois não é de vossa excellencia esta casa?--perguntou o hospede com um ar de espanto, que denotava artificio por demasia de naturalidade.
--A herança de minha mulher foi-me disputada por um parente; são vinculos que as leis concederam a um filho natural do antecessor de minha mulher. Passados alguns mezes terei de sahir com minha familia. Um descendente dos marquezes de Villa Real não terá choupana onde se abrigue com suas filhas e mulher. Aqui tem o senhor Zuzarte a razão da minha amargura. As filhas, que eram minhas delicias, estão sendo um constante incentivo de soffrimento. Eduquei-as em França, dei-lhes uma infancia de rainhas, premeditava casal-as nas primeiras familias d'esta provincia: muito fidalgas, muito prendadas e muito pobres, quem as quer, a não serem maridos de quem eu de certo as não fiava assim mesmo pobres?...
Carlos ouvia Gastão com semblante mais assombrado que compungido: dir-se-ia que aquelle homem, conscio da indole soberba do fidalgo, pasmava de ouvil-o abrir-se em palavras tão brandas, francas e humildes. De si para si dizia Gastão, vendo o aspecto indefinivel do seu hospede, que, depois da revelação da pobreza, o rico o estava olhando com menos prestigio, e talvez reflectindo no modo de esquivar-se a alguma petição de dinheiro. Esta hypothese, beliscando o orgulho do fidalgo, fel-o proromper n'estas palavras destoantes das ultimas que proferira:
--Ainda assim, as pessoas que se hospedam em casa de Gastão de Noronha, por em quanto, são recebidas como em todo o tempo. A revelação que lhe fiz, senhor Zuzarte, não é lastimas de quem acaba pedindo um favor. Tenha vossa senhoria muita confiança na minha independencia, que eu hei de morrer Gastão de Noronha. Ha mezes que o nosso amigo visconde da Cruz depositou um capital de dois contos de reis para evitar um embargo nos fructos pendentes d'estes bens: quando eu tal sube, vendi as joias de minhas filhas para embolsar o senhor visconde do seu deposito.
--Vossa excellencia está-me fazendo revelações que me confundem--atalhou o hospede--e ao mesmo tempo fere-me com suspeitas que eu não mereço! Por ventura crê-me capaz de o julgar abatido e desmerecido em seu infortunio? Que disse eu para vossa excellencia passar de uma tão nobre confissão dos seus desgostos a prevenir-me de que os hospedes em sua casa são recebidos como nos tempos prosperos?!
--Desculpe-me--acudiu Gastão--é que eu não nasci para estas queixas, e cuido sempre que a pobreza me abate aos olhos dos estranhos, desde que me vi desconsiderado dos parentes.
Entraram na casa do almoço, e encontraram D. Mafalda, que os esperava com as cinco meninas. Carlos foi apresentado á fidalga, e deteve-se conversando especialmente com ella durante o almoço. A polidez assim o mandava ao hospede: mas o familiar affecto com que elle a tratava era por demais. Notaram as meninas que elle não desfitava os olhos de sua mãe senão quando encontrava os d'ella, já tambem admirada da fixidez attenta do brazileiro.
Da casa do almoço passaram á sala do piano. Felismina foi cantar modinhas brazileiras com o requebro e mimo das ardentes e languidas filhas do Brazil. Felismina era uma formosa morena, com olhos negros, cabellos curtos e annelados como spiraes de ebano, esbelta de corpo, alta mais que todas, muito agil e inquieta, relanceando sempre a vista a todos e a tudo, a mais diserta e chistosa de todas, e a menos dada ás flores, á poesia, e ás bellezas campezinas que suas irmans encareciam umas mais que outras, e Emma, a pachorrenta Emma, esta mais que nenhuma.
Felismina estava gracejando com Zuzarte a respeito das damas brazileiras, cujas graças o hospede, sem favor, elogiava, quando um criado entrou á sala onde estavam todos, e entregou uma carta ida de Lisboa para Gastão de Noronha. Era a carta do procurador.
--Teremos golpe?--disse o fidalgo a D. Mafalda.
--Não sei qual possa ser!--respondeu a senhora--As dores mais de temer estão todas passadas.
Leu Gastão a carta, e disse com alvoroço:
--O Fernando manda suspender a execução, e retirar o processo de julgamento com desistencia! Que significa isto?
--O quê, papá?--exclamou Felismina, que mal ouvira, de entretida que estava com o brazileiro.
--É o primo Fernando que desiste da demanda--disse Mafalda.
--Foi elle!--exclamou Corinna.
Voltaram-se todos para a menina que soltara o brado, e viram-a muito escarlate.
--Elle! quem?--perguntou o pae.