Estrellas Propícias

Part 6

Chapter 63,889 wordsPublic domain

De pouco tempo foi este repousar para maiores angustias. Os zelosos procuradores de Fernando de Athaide obtiveram despacho para embargo dos fructos pendentes, fundamentando sua justiça em artigos que o leitor curioso póde ver de seu vagar no codigo.

Foi, para este effeito, citado Gastão de Noronha. Era de mais: foi uma faisca que atiraram áquella alma cheia de rancor, que ameaçava explosão! O fidalgo chamou os criados, armou-os, postou-os ao portão da quinta, e sentou-se no muro para capitanear a defeza.

Os officiaes de justiça, idos de Vianna, quando avistaram os homens armados, retrocederam. Os criados, vencedores sem consumo de polvora, deram-lhes uma bateria de apupos e assovios, que nunca a justiça d'estes reinos foi tão ridiculamente escorraçada.

Gastão preparou-se para mais pugnaz arremettida. Chamou os caseiros em grande numero, armados de foices, enxadas e escopetas vesadas a matar uma andorinha no ar.

Sahiram de Vianna os mesmos esbirros e outros mais afoitos, com doze soldados e um sargento. As inculcas do fidalgo anticiparam-se com a noticia. Gastão fechou toda a sua familia n'uma sala interior da casa nova, e postou-se com trinta homens nas janellas do edificio solarengo.

A diligencia viu aberto o portão, e receou cilada. Os aguazis incitaram o exercito a ir na dianteira. O bravo sargento, direito como um Giraldo-sem-pavor, entrou com o dedo no gatilho, bradando: «preparar!» com voz tão marcial, que fazia lembrar os bons tempos de Nuno Alvares e João de Castro. Os soldados compassaram-se em atiradores ao longo das alas de cilindras e acacias.

As avesinhas, que se aninhavam calorosas por entre a folhagem, crepitavam em bandos, e fugiam para o lado da casa, como a pedirem abrigo ás cinco meninas, suas unicas visitas áquelles pacificos caramancheis.

Parou a tropa no terraço fronteiro á casa. O sargento viu uma cabeça entre as duas columnatas mosarabes d'uma janella, e disse:

--Cuidado! que lá está um!

--É o fidalgo!--disse o escrivão, aventurando uma espreitadella por entre as franças de uma olaia--Está sósinho?

--Está, pelo menos não vejo mais ninguem--disse o sargento.

Animou-se o executor a sahir em claro, e cortejou de baixo Gastão.

--Que quer vossê?--perguntou o fidalgo.

O escrivão tartamudeou palavras inaudiveis. Sahiu á frente um official de chibança, e disse stentorosamente:

--Vimos a fazer embargos nos fructos a requerimento de Fernando d'Athaide, e com mandado do senhor doutor juiz de direito. Está vossa excellencia citado na presença de todas estas testemunhas. Agora vamos cumprir a diligencia: somos mandados. Vossa excellencia, se quizer, ponha embargos ao embargo.

--Eu não lhe tolero conselhos, _su_ miseravel!--bradou Gastão--Já, e sem perda de tempo, meia volta á direita, e fóra da minha quinta, quando não vão debaixo de fogo!

--Auto de resistencia!--exclamou o escrivão, desentarrachando um tinteiro de osso negro, e examinando na unha do pollegar esquerdo os bicos da penna.

Mal o scriba proferira a bombastica exclamação, o fidalgo deixou ver o cano de um bacamarte, e vinte se não mais bocas de fogo romperam das differentes janellas. O escrivão escoou-se ao longo d'um massiço de murtas e acocorou-se. Os esbirros tomaram a retaguarda do exercito, e o sargento, em vez de arengar á tropa enfiada de pavor, sahiu do seu posto de honra e foi perguntar ao agachado escrivão se devia dar voz de fogo.

O escrivão ouviu a sibylla do medo, e disse que o melhor seria não haver sangue, e retirarem-se a lavrar o auto de resistencia.

--Meia volta á direita, rodar!--bradou o sargento. Os soldados voltaram costas ao inimigo, e obedeceram ás vozes «braço-arma!» e «marcha!»

A victoria, posto que incruenta, seria uma ridicula derrota para as armas e para as lettras juridicas, se alguns dos caseiros de mais rópia e chulice, como lá dizem, não sahissem por portas travessas contra vontade do amo, e não cortassem por atalhos a retirada á corrida justiça. Mal precatada ia esta, quando o tiroteio lhe rompeu á frente e pelo flanco direito, com grande algazarra de gritos, e de balas, cujo assovio encrespava de horriveis titilações as orelhas do escrivão. Os soldados viam, a intervallos, surgirem umas cabeças por detraz das moitas, ou deslizarem rapidos os vultos sobre uma clareira de dois troncos seculares do escuro arvoredo. Um soldado mais afoito rompeu ao bosque, e voltou de lá a manquejar com um raspão de bala n'um artelho. O esbirro chibante, que queria dar o exemplo da bravura, viu-se de repente na boca d'uma clavina, e metteu a coragem debaixo dos joelhos, que poz em terra, pedindo misericordia.

Gastão, logo que ouvira o tiroteio, mandou chamar os seus bravos, mas não a tempo de aggravar a resistencia com o ferimento do soldado. Cessou o fogo. Os escaramuceiros recolheram á cidadella com um chapeo de aguazil arvorado no gancho d'uma foice, e o escrivão com os seus chegaram a Vianna com aspecto livido como aquelle soldado unico dos trezentos de Leonidas que foi annunciar a Sparta a morte de todos os seus camaradas nas Thermopylas.

O regimento de infanteria aquartelado em Vianna, quando viu o soldado ferido, quiz sahir em pezo a vingar a affronta. Conteve o commandante a soldadesca, promettendo em nome da justiça mais legal e solemne vingança.

Póde dizer-se, sem injuria ao fidalgo, que a pobre cabeça d'elle estava perdida. Era aquillo tudo um cavar abismos em abismos. De hora a hora mandava atalaiar a estrada, em quanto recolhia gente armada das aldeias proximas, munições de guerra e vitualhas. Aquella casa, tão quieta dias antes, a remirar-se no crystal do Lima, estava sendo um castello de antigo barão em guerra com rei, ou senhor feudal inimigo de velhos odios de raça. As pallidas meninas e sua mãe aconchegavam-se umas das outras, e tremiam a cada estrondo de cronha d'armas no sobrado ou tinnir de varetas no cano das espingardas.

Mafalda ia supplicar ao marido que fugisse e as deixasse a ellas recolher aos conventos para se pouparem á desgraça de o verem a elle morto ou preso.

Gastão enfurecia-se contra as lagrimas; e, no auge de sua demencia, chegava a bradar que elle e sua familia morreriam no incendio da casa para não sobreviverem ao opprobrio da indigencia.

Os espias, ao terceiro dia de providencias para formal assedio, foram avisar o fidalgo de que vinham na estrada tres cavalheiros com um lacaio.

Momentos depois apearam no pateo os pacificos invasores da fortaleza, passando por entre fileiras de homens armados.

Gastão da sua janella-guarita reconheceu um parente de Vianna e Felisberto Taveira, já então visconde da Cruz, cujo era o lacaio.

Felisberto abraçou effusamente o pae de Corinna, maravilhando-se do aspeito bellicoso do castello, e pedindo licença para cumprimentar as damas castellans.

Appareceram as meninas com sua mãe. Corinna não se teve que não abraçasse expansiva e lagrimosa o amigo de Antonio d'Azevedo.

Ditos os logares communs, que eram para pouco em lances tão extraordinarios, o visconde da Cruz disse que lêra no _Periodico dos Pobres do Porto_ uma correspondencia contando com negras cores a primeira resistencia que o fidalgo fizera á acção judiciaria, e os motivos que promoviam o embargo. Ajuntou que resolvera desde logo sahir caminho de Vianna para, como bom amigo de tão sympathica familia, offerecer o seu valimento. Accrescentou que chegara a Vianna quando se tomavam violentas medidas para vingar o aggravo feito á justiça e á força armada; e então, de accordo com o cavalheiro parente da casa, e advogado d'um tal Fernando de Athaide, conseguira, mediante um deposito equivalente ao rendimento dos bens litigados, cancellar os processos crimes instaurados e mandados de prisão.

Não ficou assim mesmo Gastão de Noronha extremamente satisfeito de tal serviço; mas agradeceu-o com um sorriso, e as meninas com lagrimas.

A parecer do visconde, os caseiros depozeram as armas e os criados voltaram ao seu trabalho. O chapeo do aguazil, em testemunho de alegria, foi arcabusado e sacudido em farrapos aos quatro ventos do ceo.

O restante do dia e noite correu tranquillo e alegre. Corinna recebeu furtivamente a segunda carta de Antonio d'Azevedo, e sentiu ancias de oscular a mão do visconde, que lh'a entregou com estas palavras:

--O nosso Antonio está n'um largo caminho de venturas. Ha de vel-o em Portugal dentro em pouco, e rico. Tenha orgulho de ser amada por tal homem.

--Tenho! Deus sabe que tenho!--murmurou ella.

XI.

O incansavel estudo, auxiliado pelo muito saber e prática do doutor Valentim da Costa, habilitou Antonio d'Azevedo a grangear renome em poucos mezes de exercicio.

O velho presava o praticante com mais que a vulgar estima captada pela probidade. Quantos ganhos podia declinar em lavor do laborioso moço todos lhe dava, não exceptuando mesmo os resultantes de seu proprio e exclusivo trabalho. Os clientes não distinguiam entre os dois, e alguns iam mais contentes da linguagem e escripta concisa e vigorosa do doutor novo.

--Já póde o senhor Azevedo, quando quizer, estabelecer-se sobre si--lhe disse o velho um dia--Ha de sobejar-lhe clientela, e está na carreira que leva á consideração e á fortuna. De mim é que já não precisa, meu caro amigo.

--E vossa senhoria assim me dispensa da sua companhia?--atalhou Azevedo--Fiz sempre quanto pude por que esta sociedade lhe não fosse onerosa.

--Ora ahi está! Eu a cuidar que o senhor desejava estar sósinho em seu escriptorio, como todos desejam, e vai agora sae-me o Azevedo o contrario de toda a gente! Pois, em sua boa verdade, o senhor quer ficar na minha companhia?

--Desejo-o; e nunca me lembrou que havia de sahir.

--Pois fique, Azevedo, fique, se o não move o interesse de mais algum punhado de oiro no fim de cada anno. Bem vê como este meu trabalho é interrompido pela gota, pelo rheumatismo e por outros achaques, contra os quaes não tenho que allegar nos nossos reinicolas. Isto está acabado, e acabada estava ha muito a minha tarefa, se não fossem velhos amigos que me tiram da cama para a cadeira, e ás vezes conseguem arrastar-me, em holocausto á amizade, aos tribunaes. Agora os novos que trabalhem, e cá se avenham com o seculo, com o qual eu já me não entendo. Tome o Azevedo conta das minhas procurações, dos meus livros, dos meus amigos, e, se quizer, do meu rheumatismo e da minha gota.

O velho doutor era mui faceto, e mettia sempre a riso a sua gota e o seu rheumatismo.

Estavam elles n'uma d'estas feriadas praticas, quando entrou um cliente de Valentim da Costa.

--Muito bem apparecido seja--disse este--o senhor Fernando de Athaide, fidalgo em Portugal e fazendeiro no Brazil. Vem-me dizer que está de posse dos seus vinculos de S. Torquato, de Alvites e de Ameixoal? Parabens!

--Quaes parabens, meu caro senhor doutor!--disse Fernando de Athaide--Aquillo tem dente de coelho! Tenho gasto o valor dos bens; tenho cinco sentenças a favor, e ainda pelo ultimo barco recebi uma carta do advogado e outra do procurador. Veja lá vossa senhoria o que por lá vai!

Leu o doutor mentalmente, e interrompeu-se em meio com esta exclamação:

--Magnifico bruto é o seu advogado, e o seu procurador outro bruto magnifico! Pois não deixam de intimar ao réo a primeira sentença! Esta, esta é das que desbancam a propria estupidez!...

--Pois olhe que tenho pago a rios de oiro essas brutalidades--disse Fernando.

--Não que ellas valem-no pela raridade!--disse o doutor limpando os oculos e proseguindo na leitura mental.

--Isto agora é que tem graça!--exclamou o velho, arfando em risadas--Está-se lá em Portugal na edade media. Recebem a justiça a fogo e ferro! Ó Azevedo, oiça lá isto, que é perdido em pouca gente.

E leu:

«A diligencia que sahiu de Vianna, retirou apupada e não fez o embargo; a outra que foi com a tropa, retirou debaixo de fogo, e recolheu com um soldado ferido. Á hora que lhe escrevo consta-me que mais de cem homens armados fazem sentinella ao palacio artilhado de Gastão de Noronha....»

--Como? de quem?--exclamou Azevedo.

--De Gastão de Noronha--disse o velho--Conhece-o?

--Conheço!--disse mui alvoroçado e pallido Antonio d'Azevedo--Mas que tiros são esses?

--É muito simples--respondeu Fernando d'Athaide, eu sou o directo successor dos vinculos que retem D. Mafalda de Athaide, mulher de Gastão de Noronha e minha prima. Ha muitos annos que tracto de senhorear-me do que é legitimamente meu. Tenho vencido em todas as instancias; obtive despacho para embargo nos fructos até á final decisão do pleito, annullado por um estupido descuido; e quando os officiaes de justiça vão cumprir a lei, o senhor Gastão dá-lhe fogo, e diz que a casa é sua. Ora vejam o que é Portugal! que civilisação aquella! Com que então o senhor doutor conhece meu primo Gastão de Noronha?

Azevedo, de abstrahido que ficou, não ouviu a pergunta. Fernando encarou em Valentim, como perguntando-lhe se era surdo o praticante.

--Diz o senhor Fernando se o meu amigo conhece Gastão de Noronha--tornou o velho.

--Conheço, creio que já disse.

Esta resposta foi dada com enfadado franzimento de sobr'olho, estranho ao velho.

Azevedo, vencido insolitamente de sua nobre paixão, fitou em cheio o rosto de Fernando, e perguntou:

--O senhor é pobre?

--Graças a Deus, não.

--É rico?

--Assim, assim.

--É muito rico--accrescentou o doutor Valentim.

--E não carece dos bens de sua prima D. Mafalda para ser feliz?--tornou Azevedo.

--Os bens são meus; não são de minha prima Mafalda--redarguiu Fernando com desabrimento.

--Convenho que são seus. Os bens que legitimamente possue sua prima são cinco filhas. Se o senhor tirar áquella familia as terras de que viviam, sua prima e seu primo e cinco meninas terão fome; ao passo que o senhor Fernando de Athaide não saberá que fazer d'essa parcella, que accrescenta á sua abundancia.

--Pode ser que assim seja--disse Fernando descommovido--mas a pobreza não é orgulhosa. Eu escrevi duas cartas a Gastão de Noronha, quando elle estava em Paris, propondo-lhe uma conciliação, e elle nem sequer desceu do seu orgulho a responder ao filho natural de Fernão de Athaide. Ora o filho natural quer desforçar-se como seu pae se desforçaria lançando fóra de sua casa os miseraveis que o não reconhecem como dono, nem sequer como parente. Colloque-se lá na minha posição, e diga-me o que faria?

--Tinha commiseração--respondeu Azevedo, e fingiu-se occupado a folhear uns autos.

--Commiseração com o senhor castellão que manda despejar balas sobre os executores do meu direito!--volveu Fernando--Olha em que postas eu era talhado se vivesse lá n'aquellas serras, em que os ladrões fidalgos se acastellam!

Antonio d'Azevedo pegou do chapeo, e disse que ia jantar e voltaria depois. Ao sahir cortejou urbanamente Fernando, como a pedir-lhe desculpa no sorriso.

--Este homem é exquisito!--disse Fernando ao doutor.

--É um modêlo de honra e virtude--tornou o velho--Não imagina que puro oiro é o d'aquella alma! Foi a commiseração que o excitou a tal estranheza de phrases. Desculpe-o, que o pobre moço, no fim de tudo, disse-lhe uma augusta verdade. Olhe que é triste coisa um homem que educou cinco filhas com todo o mimo e regalias de fidalgas, vel-as privadas de pão e de respeitos sociaes.

--Então que quer o senhor doutor?--atalhou Fernando.

--Eu de mim não quero senão absolver a compaixão de Antonio d'Azevedo, e lembrar ao senhor Fernando, que a caridade e o perdão são as virtudes fundamentaes do doutrinamento de Jesus Christo.

--E achava vossa senhoria acertado--acudiu Fernando--que eu perdesse contos de reis, que tenho gastado n'este capricho, e deixasse os meus vinculos na posse e direitos de minha prima?

--Eu não aconselho, senhor Fernando. Isto de bem fazer não se lê nem se ensina: está dentro do coração, é foro intimo, é materia de tractar com Deus. Faça o que bem quizer; mas de modo se haja que nunca venha a sentir-se mal comsigo proprio.

--A minha consciencia está tranquillissima--retorquiu Fernando.

--Quantas vezes a consciencia está quieta, e o coração inquieto? A consciencia é a inspiradora dos deveres; e o coração da piedade, da humanidade, e d'outras virtudes menos pautadas que os meros deveres e obrigações de uma recta razão. Faça o que quizer, senhor Fernando...

--Como eu me enganei!--atalhou Athaide.

--Enganou-se!? Com quê e com quem?

--Com o seu socio de escriptorio.

--Ora essa! pois...

--Eu lhe digo, senhor doutor. Disseram-me que este Antonio d'Azevedo era um advogado esperto.

--Não lhe mentiram.

--Será; não duvido. Ora, como eu queria acabar com isto á custa de mais alguns contos de reis, vinha com o fito posto em offerecer tres ou quatro contos ao doutor Azevedo para elle ir a Portugal tomar posse dos vinculos em meu nome, removendo todos os embaraços com a sua esperteza. Vinha n'esta ideia, e, quando menos o cuido, acho um prégador de caridade...

--Gratuito...--accrescentou, sorrindo, o velho.

--O que faltava era ter de lhe pagar o sermão que não lhe encommendei!

--Pois olhe que valeu dinheiro! Vossa senhoria, se for scismar no que ouviu, ámanhan está melhor de coração que hoje. Acha que não vale dinheiro um melhoramento moral? Oh! se vale! Até eu lhe devo, a elle mui salutares conselhos para a caduquez, e quando o escuto estou como pezaroso de não ter sido o que elle é. Pois que lhe disse o meu Antonio d'Azevedo? Cifra n'isto: «O senhor é muito rico: deixe essas migalhas que está disputando á familia, que não tem mais nada: faça de conta que pegou de sete pessoas pobres de sua familia, e deu a cada uma sua subsistencia.» Não lhe sôa bem isto ao animo desassombrado, senhor Fernando de Athaide? O seu bom sangue de fidalgo não se azedaria nas veias, se lhe cá viessem dizer que uma porção tão chegada de seus parentes andava lá por Portugal arrastada sobre os espinhos da pobreza, da miseria, e talvez da deshonra? Tem o senhor em Portugal cinco primas. Onde cuida vossa senhoria que as póde levar a indigencia?...

Valentim, fallando d'este theor, tinha os olhos embaciados de lagrimas. Fernando olhava-o em certa estupefacção, que umas vezes é dureza de sentimento, e muitas encendimento de renascida sensibilidade. O velho calou-se, e o primo de D. Mafalda, tomando o chapeo, sahiu sem proferir palavra, cortejando o doutor com um aceno.

--Adeus, meu amigo--disse o velho--Pense no fim da vida. Lembre-se que, no inverno d'ella, costumam os velhos lembrar-se das flores d'alma, que esmagaram na primavera.

Fernando ouviu, no patamar da escada, as ultimas palavras, e sahiu tanto ou quanto abalado.

Pouco depois entrou Antonio d'Azevedo. Viam-se-lhe nos olhos os residuos das lagrimas. É que elle acabava de escrever a seguinte lauda d'uma carta a Corinna:

«.....................................................................

«_2 d'Abril de 1844--quatro horas da tarde._

«Acabo de saber as desventuras que vão em tua casa. Ouvi-as da boca do mesmo homem que vos quer privar d'essas arvores e do berço onde te embalaste, minha querida Corinna. Eu alcanço a profundeza das vossas amarguras, pobres meninas e pobre mãe! Que tremenda afflicção hallucinou teu pae ao ponto de resistir á justiça impiedosa, que não entende de infortunios, nem de lagrimas! Quantas vezes te voaria ao coração angustiado a imagem invalida do teu amigo! Tardias exclamações, filha! Deixa-me ver o que posso conseguir a bem de teu pae, cujas mãos eu espero beijar ainda. Talvez que á hora em que receberes esta carta, começada com tanta alegria, e tão atormentada agora, tudo esteja sanado, e teu pae olhe como suas para sempre essas reliquias de uma grande fortuna mal desbaratada. Tenho um presentimento de que hei de merecer a intervenção da providencia nas minhas intenções. Talvez que, a estas horas, estejas orando, e o anjo do nosso amor me segrede os dons que Deus te concede. Vou sahir, minha Corinna. Vou ouvir o santo varão a quem devo tudo. É tempo de eu lhe mostrar que anjo tu és para o fazer teu amigo, e bemfeitor de ambos. Até logo.»

Valentim observou o ar magoado do seu estremecido amigo, e quiz ver uma extraordinaria causa áquelle compungir-se pela familia portugueza.

--Olhe que eu cá fiquei prégando com o homem--disse o velho--As suas palavras foram o thema do sermão; mas, a fallar-lhe a verdade, não vejo lura d'onde saia coelho. Este Fernando de Athaide, cujo pae e mãe conheci, se não fosse a balda da fidalguia, havia de ser um homem muito estimavel. Está muito rico, e acha-se pobre quando veste a casaca sem o habito de cavalleiro ou official da Roza. Ha pouco arranjou em Portugal não sei que fitinha, que ellas por lá são tantas e tão bastas que não ha saber estremar os fidalgos pelas fitas. Mas o pobre homem não se contenta com ser condecorado pelo que faz (que eu, a bem dizer, não sei o que elle faz ou fez) quer tambem que a sua fidalguia lhe proceda em linha direita dos godos. Para isso precisa justificar-se tomando posse das quintas vinculadas e dos pardieiros que, pelos modos, tem ameias, adarves, barbacans e brazões com corôas e mitras. Isto é o que explica a crua insensibilidade de Fernando com os seus parentes. Ora diga lá, Azevedo, vossê conhece pessoalmente o tal Gastão de Noronha?

--Conheço-o de vista apenas; mas Gastão de Noronha está tão identificado á minha vida, que por causa d'elle estou hoje no Brazil. O senhor doutor Valentim já sabe que o meu coração tem lagrimas de saudade. Eu era na patria o que ainda sou aqui: um rapaz sem bens e sem futuro; e Gastão de Noronha era o fidalgo não rico, mas de sobra ambicioso e soberbo para me não dar sua filha. A mulher que eu amo e choro é filha de Gastão de Noronha.

--É notavel a coincidencia!--disse Valentim--Agora é que a sua mágoa me parece racional, e digna me pareceria de todo o modo. Entretanto, meu Azevedo, na sua mão está salvar essa menina, e desde já, das contingencias da pobreza. O senhor já sabe que tem bastos recursos no Brazil. Vá a Portugal, que a soberba do fidalgo deve estar amollecida. Case com a sua dama, e volte, que os seus amigos cá o ficam esperando.

Riram os olhos de Antonio d'Azevedo; mas este clarão de alegria foi instantaneo.

--Seria a felicidade perfeita para mim, mas não para ella--disse o bacharel, após instantes de reflexão.

--Como assim?--perguntou o velho--que mais póde ella desejar?!

--Que seus paes e irmans não soffram as horriveis privações tanto mais amargas, quanto a vida lhes correu abundante e respeitada. Calcule o senhor doutor que desgosto não seria o d'ella ao lembrar-se que suas quatro irmans ficaram encerradas em conventos, e dependentes da esmola de parentas! e que sua mãe, privada d'ellas, e talvez do marido... como poderia eu ser assim feliz, meu amigo?!...

Antonio d'Azevedo deixava cahir as lagrimas para que o velho não lh'as visse enxugar! Ha lagrimas que tem um como pudor, e recato que é talvez o medo de serem mal avaliadas. O chorar do homem ha de ser assim, ou ficará sendo miseravel alardo de sua feminil fraqueza.

XII.

--Valha-me Deus!--disse o doutor, esfregando as palmas das mãos tremulas--como ha de a gente remediar isto? O que o meu Antonio queria é que todos vivessem contentes. Christan utopia, que ha de realisar-se no ceo!

--Eu vinha animado d'um pensamento quando aqui entrei--tornou Azevedo--porém desanimei logo que o senhor me disse que Fernando de Athaide queria os vinculos para mostrar a sua fidalga genealogia.

--É o que é; e se não fosse, que ideia era a sua? Vamos discutil-a.

--A minha ideia era contrahir eu um emprestimo aqui: sei que o obtinha.

--Tambem eu sei que o meu amigo obtem o emprestimo. E depois?

--Avaliavam-se os bens vinculados e as despezas feitas para os liquidar: eu dava o valor de tudo a Fernando de Athaide, e elle desistia do direito por conciliação.

--E o Antonio ficava pobre e a trabalhar toda a sua vida para remir a divida?

--Necessariamente.