Part 5
Desde este incidente, Corinna da Soledade nunca mais viu um sorriso, nem ouviu palavra carinhosa de seu pae. As caricias, repetidas até ao extremo da ridiculez, eram todas para Emma, a quem elle chamava a salvadora da familia. Pensava já Gastão no processo de defraudar a filha mais velha dos vinculos, como esquecido da demanda em que os vinculos estavam tão arriscados, que nem o seu proprio advogado lhe dava esperanças de vencimento.
Cuidaram desde logo os fidalgos em requerer dispensa, que o Nuncio apostolico residente em Lisboa concedeu.
Em seguida usou o pae da noiva de ardilosos rodeios para levar o futuro genro a dotar a filha com os bens livres, que valiam muito, e grandes arrhas. D. João de Mattos, ao principio irresoluto, porque o animo sovina lhe inspirava duvidas, deu-se a final por vencido, e dotou a noiva com avultado cabedal em dinheiro depositado em bancos de Inglaterra, e estabeleceu-lhe arrhas mais que sobejas para uma viuva se não lembrar mais dos sessenta annos do seu defuncto marido, ao ver-se sósinha n'este valle de lagrimas.
Estava resolvido que as nupcias seriam celebradas em Lisboa, para onde iria toda a familia, excepto Corinna, que pedira licença ao pae, e facilmente a obtivera, de ficar n'um mosteiro de Vianna, em companhia de uma prima de sua mãe.
A noiva encarava o futuro com a salutar pachorra de sua compleição, e continuava a aparar as unhas do noivo e a rir-se das muito engenhosas visagens com que o bom do velho julgava bem merecer da estimação da menina. As outras tres meninas, a cuidarem nos arranjos da partida para Lisboa, andavam alvoroçadas e felicissimas. Corinna esperava a vespera da partida, com não menos alvoroço, para entrar no mosteiro de Santa Anna.
Sorriam-lhe lá da sua cella as tristezas e a soledade em que o desafogado coração se gosaria livre, livre para ir-se além-mar, nas longas cartas, escriptas sem medo de ser surprendida, pedir ao digno moço que lhe acceitasse a reclusão, tão voluntaria, como prova de seu esperançado amor.
Estava marcado o dia da partida, tomadas as liteiras, as cavalgaduras, e convidado o prestito dos parentes, que desceriam do alto-Minho para acompanharem os noivos até ao Porto. Quatro dias antes do designado, D. João de Mattos e Noronha, assignadas as escripturas, foi para a mesa, que n'esse dia era lauta e muito concorrida.
Um dos pratos mais de cobiça, e ingratos a estomagos fatigados, era o salmão, o salmão de Vianna, famoso em toda a parte onde a gastronomia tem sacerdotes e martyres.
Entrou o noivo pelo salmão com a voracidade dos vinte e cinco annos, não obstante o cauteloso primo lhe haver dito que se abstivesse de competir com a sua Emma em materia tão indigesta. Parece que Emma gostava muito do appetitoso pescado, e devemos suppor que o velho, por comprazer com o paladar da noiva, quiz fazer heroismos de deglutição. Perdoavel excesso para quem sabe o que é amar!
Declarou-se a indigestão, quando ainda se estava á sobremesa. D. João pediu genebra, bebeu em proporção com o volume do bolo indigesto, e, dando-se alta na incipiente molestia, comeu ovos mexidos em grande porção, e correspondeu a todos os brindes com absorvente enthusiasmo.
Estavam todos admirados do vigor digestivo do sexagenario, e do rubor juvenil que lhe ressumava nas faces, quando o velho se sentiu anciado, e pediu um vomitorio prompto. Cada pessoa de familia lhe ministrava um remedio, e Gastão, mais que todos, mostrava sua inquietação, mandando chamar medico a Vianna. Foram logo sensiveis os symptomas de apoplexia. D. João tinha os olhos injectados de sangue, e a cabeça em brazas vivas. Votaram todos pela sangria; mas não havia sangrador, nem sequer lanceta. O abbade da freguezia estava presente, e, como bom pastor, foi de parecer que seria muito util ministrar os sacramentos ao enfermo, visto que as apoplexias eram summarias n'aquellas idades e por taes causas.
Redobraram os sustos de Gastão de Noronha. A morte, anticipando-se quinze dias, dava um golpe terrivel em toda aquella familia. O menos damnificado seria de certo o morto. Quem mais soffria as angustias do moribundo era Gastão! Perguntou elle ao abbade se seria acertado dizer a D. João que recebesse as bençãos nupciaes.
O clerigo encarregou-se de lh'o propor. O enfermo, já quasi desaccordado, ouviu a pergunta e estorceu-se em desesperada afflicção. Foi então que elle viu a morte na pessoa do inoffensivo abbade. Á segunda instancia, D. João fez um esgar repellente, e sacudiu vertiginosamente os braços e as pernas. Gastão disse a Emma que se approximasse do leito, e lhe dissesse algumas palavras confortadoras. Emma foi com semblante de medo. As feições do velho, já lassas e lividas, para assim o dizermos, cheiravam a cadaver. A pallida menina foi tremendo.
--Dá-lhe a mão--disse-lhe o pae ao ouvido.
Tocou ella na mão tepida e insensivel do agonisante com repugnancia.
O abbade, instado por Gastão, disse:
--Senhor D. João de Mattos, vossa excellencia recebe como sua legitima esposa a senhora D....
O velho deu um sacão, e esgazeou os olhos espavoridos.
Emma retrahiu-se aterrada, e o abbade sahiu a ir buscar os santos oleos.
--Vai-se embora, abbade?!--perguntou o fidalgo furioso de sua afflicção.
--Não ha que fazer aqui, senão cuidar-lhe da alma--disse o padre--O homem já não dá accordo de si: o casamento n'este estado ficaria canonicamente nullo, fidalgo!
Sahiu o abbade da egreja com o viatico, e recolheu logo, por lhe dizerem que D. João tinha expirado.
IX.
UMA CARTA DE CORINNA DA SOLEDADE A ANTONIO D'AZEVEDO BARBOSA.
«Na minha segunda carta lhe contei o que se passou até á morte do tio D. João. Agora é que eu bem comprehendo o desespero em que vive meu pobre pae. Quando elle me disse que iamos empobrecer, cuidei que se inventava um engano para eu consentir em ser a victima voluntaria da pobreza da nossa familia. Soube que a Emma fôra instada com as mesmas razões da pobreza: não a dissuadi; mas, em minha consciencia, julguei que era sacrificada ás ambições de continuar-se em Lisboa o fausto que tiveramos em Paris.
«É verdade o que meu pae me dizia. Os bens do vinculo, unicos que possuimos, estão em risco de se perderem. Imagine o meu querido amigo como será a nossa vida, ouvindo a cada hora o pae lastimar-se, enfurecer-se e lançar-nos injustamente em rosto que fomos nós a causa da sua ruina, porque dissipara os bens livres para nos dar em Paris uma vida brilhante com esmerada educação! Minha mãe, que não tem culpa de ter sido herdeira do dote que lhe tiram, faz-me muita compaixão, quando o pae lhe diz que foi atrozmente enganado para casar com ella.
«Que será de nós, passados alguns mezes? Para onde iremos quando nos expulsarem d'esta casa? Minha mãe já pediu a parentas, que tem em differentes conventos, que nos recebam. Eu creio que irei para Vianna e mais a mana Felismina; outra irá para Vairão; e as outras duas para S. Bento do Porto. O pae diz que vai a Lisboa requerer um emprego, com que possa sustentar-se a si e á mãe. De maneira que estamos em vesperas de nos dispersarmos para nunca mais nos reunirmos! E eu, entre todas as minhas irmans, sou a menos infeliz, porque ha muito suspiro pela solidão do claustro, e sei que lá terei comigo a imagem compassiva do meu querido irmão; porém, eu queria ir para o convento, deixando a minha familia contente e feliz, e não assim a braços com a dependencia, e Deus sabe com quantas desventuras peores que a dependencia!
«Aqui me tem, pois, bem digna do seu amor por minha pobreza. Já me lembrou se Deus me deu esta virtude para merecer aos seus olhos, meu amigo. Tenho momentos em que o futuro se me allumia; sou eu a unica pessoa da minha familia que vê a felicidade através d'esta escuridade. Todos se lastimam, e eu só me lastimo de os ver tão desanimados. Falta-lhes o amparo do amor, e talvez da fé na providencia divina. Eu rezo muito, e desafógo em consoladoras lagrimas; minhas irmans e meus paes abafam sem linitivo. Ás vezes quero consolar meu pae: o infeliz repelle-me, como se eu désse causa a seus desgostos, e não fosse capaz, para o salvar da queda, de me deixar esmagar no coração e na vida!
«Não estranhe que eu lhe diga tudo o que o coração me fôr dictando. Agora que eu estou assim pobre, e d'aqui a pouco obscura e esquecida n'um convento, haveria alguem que me quizesse para esposa? Poderia alguem invejar a sorte do homem que me acceitasse? Pois, é n'esta situação que eu mais confio do seu amor; é assim que eu me affoito a pedir-lhe que venha, que renuncie ao desejo de ser rico, e que... A riqueza para que a procurava? não era para poder ostentar o seu valimento aos olhos de meu pae? Era de certo; que, se fosse para valer em meu conceito, grande injustiça me fazia, meu caro amigo. Pois então faça de conta que estão cahidas as barreiras que só o ouro poderia arrazar. Ninguem me impedirá que eu seja sua mulher. Sejamos ambos pobres: não teremos que medir a desegualdade das nossas posições. A nossa fortuna principiará com a primeira moeda de cobre que empregarmos no primeiro pão. Depois eu lhe darei horas de alegria com a minha ditosa conformidade a tudo que os descontentes chamam infortunio.
«Não cuide que a vida de convento me assusta, e que eu procuro aligeirar o tempo do supplicio. Não, meu amigo. O convento é o unico estado que me quadra, e a mais proxima ventura que se offerece á minha sêde de solidão. Se voltar cedo, lá me encontrará; se, passados muitos annos tornar para Portugal, no convento me encontrará ou desfigurada pela velhice, ou confundida nas cinzas das bemaventuradas, que alli acabaram contentes e amantes de mais seguras esperanças que as minhas.
«Póde ser que o meu irmão, n'essa outra sociedade, com outras relações, e com a mudança que fazem os annos, contra vontade mesmo de quem se transfigura, sinta diminuir-se a boa impressão que de mim levou. Não creio que me esqueça; mas póde ser que a distancia me vá descolorindo aos olhos da sua alma. Se tal acontecer, nem assim deixarei de esperar que em algum momento, entre as fugazes venturas d'este mundo, o seu espirito vá ver-me, no meu asylo, esperando-o ainda, e esperando sempre.
«Mas o meu coração lhe pede que não me esqueça, e que acceite as alegrias que elle lhe promette. Adeus, meu amigo, meu consolador. Sua _C. da Soledade_.»
A PRIMEIRA CARTA DE ANTONIO D'AZEVEDO A CORINNA, ESCRIPTA NO BRAZIL.
«_21 de junho de 1843, onze horas da manhan._
«Aqui estou, minha querida Corinna. Cheguei ha meia hora. A minha tristeza tem uma negrura inexplicavel. Abafa-me mortalmente este ar. Estou como o desterrado que atiraram a uma praia onde não houvessem olhos humanos que me vissem chorar. Ó meu Deus, que atroz supplicio é a saudade! Que desolação em roda de mim, que terror me incute tudo isto que me vê com uma indifferença dolorosa como o escarneo! Sahirei eu d'esta febre que me está arrancando pedaços de vida a cada momento! Ó Corinna, eu não a vejo mais! Aqui é que sossobram as mais robustas almas... Eu não previra isto... É impossivel que haja piedade n'esta gente! A quem escrevo eu, meu Deus! Está a milhares de leguas distante, ó minha amiga! E esta carta só, passados quinze dias, sahirá d'aqui!............................................................... ......................................................................
«_Quatro horas da tarde._
«Sahi no afôgo de uma afflicção sem nome. Levei a minha carteira, e entreguei uma carta do Taveira a um negociante, que, apenas leu a carta, me disse que eu seria hospede na sua chacara, para onde vou ámanhan. Acolheu-me com muito bom rosto, e, apertando-me a mão, disse: «O senhor vem muito recommendado: ha de ter muitos amigos, e eu o mais dedicado de todos.»
«Fizeram-me grande bem estas palavras. A maior oppressão vai desapparecendo. Já a vejo a outra luz, minha Corinna. Já a torno a ver ao meu lado com a missão de anjo do alento e da paciencia. Os desamparados são unicamente aquelles que não tem nenhum amor puro na terra, nem confiança na graça divina. Ha de tudo em minha alma, bemdito seja Deus! Eis-me outra vez forte para a lucta, e envergonhado da minha fraqueza. Não rasgo a primeira pagina d'esta carta porque a minha alma ha de mostrar-se-lhe sempre nas suas intercadencias de força e desanimação. Assim lh'o prometti, e tenho necessidade de cumprir. Toda a gente ha de ignorar os meus desfallecimentos, menos a minha Corinna para me dizer: «Levanta-te, fraco, se queres ser digno de mim!» Vou sahir para entregar outras cartas, antes da minha ida para o campo.
«_Nove horas da noite._
«Todos os portuguezes me recebem nos braços. Suppunha eu que os negociantes me acolheriam com a frieza da sua distancia d'um homem de tão diversa profissão. O que ahi se diz d'esta boa gente é uma calumnia. Os opulentos commerciantes a quem me apresentei parece que me estavam vendo nos olhos espelhadas as saudades da patria; e elles, tambem saudosos, sympathisavam mais com a minha dor, e queriam ouvir-me fallar das menores coisas de Portugal. Aqui é que se sabe o que é esse torrão de flores e alegrias. Em parte nenhuma a palavra «patria» tem tão doce, tão querida e esperançosa significação. Muitos ahi dizem que tem vergonha de serem portuguezes; aqui sente-se orgulho de ter lá nascido, e encontrar tão longe irmãos assim saudosos da mãe commum. Abençoados sejam estes homens que tem olhado compadecidos para mim! Devo-lhes esta serenidade com que lhe vou escrevendo... Mas o cansaço prostra-me, minha amiga. Até ámanhan.
«_22 de junho, oito horas da manhan._
«O meu despertar foi afflictivo. Com os sonhos renasceram as saudades, e o descorçoamento. Assaltou-me a pusillanime ideia de voltar já para Portugal. Seduzia-me o receio de adoecer n'este clima, o terror das febres, a difficuldade de ser rico, onde nem todos são ricos, ainda os mais laboriosos. Adormecera pensando no caminho que devia encetar: todos se me afiguravam difficeis e escabrosos. Que fraqueza! que inconstancia miseravel a do homem mais fervoroso no trabalho! Eu tinha perguntado ao dono do hotel se os advogados enriqueciam depressa; e elle, enumerando todas as profissões que enriqueciam, não mencionou a minha. Instei encarecendo as vantagens que se offerecem a um bom e honrado advogado: ouviu-m'as encolhendo os hombros, e disse que os caminhos direitos eram os mais tortos para quem procurava enriquecer-se. Isto desconsolou-me, amargurou-me os sonhos, e deu-me a hora má que precedeu estas linhas. Deixar fallar o descrente da honra. Se é forçoso, renunciarei á riqueza; contento-me que as muitas fadigas e vigilias me dêem honesta independencia, e o respeito de mim proprio.
«_Cinco horas da tarde._
«Espera-me o amigo de quem vou ser hospede. Brevemente voltarei a dar começo á minha tarefa. Já me estão pezando as horas que vou passar de ocio sem prazer: parece-me que são horas que roubo á sua felicidade e á minha. A vontade energica é uma esperança meio realisada. Ha aqui n'este ar, n'este ceo, n'esta incessante labutação, um rumor mysterioso que eu escuto como o cantico victorioso dos que luctaram e venceram. Porque não hei de eu, a final, vencer tambem com esta ancia e força d'alma, com este amor e saudade, com esta voz prophetica promettedora de honrosos triumphos?...
«_23 de junho, nove horas da manhan._
«A casa em que vivo, minha amiga, faz-me lembrar uma finissima e polida concha entre fofos de verdura e caules de gentis florinhas! As palmas, as tamarindeiras, os coqueiros, e muita especie de arvores do paraizo com sua explendida e agigantada folhagem, absorvem os raios abrazadores d'este sol, e elaboram-no em si, expedindo-o em frescura, que faz lembrar a da nossa terra, as auras das margens dos nossos rios, os salgueiraes do seu Lima, e os choupaes do meu Cávado! Mas que falta aqui da alegria dos nossos arvoredos, minha Corinna? Não sei: parecem-me tristes estas arvores; não me viram na infancia; não me conhecem; não me fallam. Que bello deve ser este diamante do mundo para os que nasceram aqui! Que abrasadas fantasias serão as dos poetas aquecidos a este vapor aromatisado por tantas urnas de florescencia peregrina! Que ar de primitiva magnificencia da creação tem isto tudo? Afigura-se-me que, á sahida do eden, este pedaço de mundo se desdobrou, com as entranhas arquejantes de riqueza, concitando o homem condemnado a trabalhar, a tressuar e a limpar mil vezes o rosto, calcinado sob os ardores do sol, á sombra d'estas arvores, que significam a misericordia divina ao lado da justiça inexoravel. É um como fantastico explendor que me está arrobando os sentidos; mas a minha alma está triste porque esta verdura macilenta não é a da minha patria; estas folhas hirtas, apontadas ao ceo como flexas, ou largas, immoveis e enormes, não me dão o murmurio tremente das nossas selvas. Não oiço o rumorejo dos regatos, nem o gemer dos carros, nem a cadencia melancolica dos pegureiros das nossas serras. Ai! a patria, Corinna! como é linda a nossa tão rica e tão pobre terra! Que copiosas bençãos verte Deus sobre a cabana do pobre jornaleiro que achou a felicidade sem a procurar, formando d'um rochedo e da sebe d'alguns arbustos o seu palaciosinho ás abas da serra da Tranqueira, onde eu, em criança, tantas vezes subi para contemplar as boleadas serras do seu paraizo, minha filha. Tudo agora me lembra quanto é pequeno e pueril ao pé d'estes gigantes de verdura, que me assoberbam com a sua magestade! Ainda vos verei, ó opulentas pobrezas da minha mocidade! Ainda lá recordarei, a sós com o anjo da minha alegria, estas melancolicas horas, este deslumbrante espectaculo, que parece estar-me dizendo que para gosal-o é preciso ter aqui gosado os brinquedos de irmãos, os carinhos de mãe; e, sobre tudo, ter aqui sentido o coração a formar-se, e a desentranhar-se em amor e esperanças................... ......................................................................
«_25 de junho._
«Brevemente, ámanhan talvez, volto para o Rio. Vou praticar com um advogado portuguez de grandes creditos e fortuna, homem de muita idade, que reparte comigo os interesses, e me trespassa as obrigações muito lucrativas de defensor, em que está contractado com corporações commerciaes. Devo esta promettedora estreia ás cartas do pae de Felisberto Taveira, que d'aqui foi ha muitos annos, e deixou respeitado nome, e ainda grosso cabedal. Estou contente quanto, em minha situação, é possivel estar. Esta familia que me hospedou já me parece minha. A intimidade aqui é uma religião, como se um punhado de portuguezes, e não cincoenta mil almas, se encontrassem em torrão estrangeiro. Aqui é onde nós aprendemos o amor de conterraneos: lá, no seio da mãe, somos-lhe ingratos a ella, e maus uns com os outros; aqui suspiramos todos por ella, abençoamol-a, e religamos os corações de todos com vinculos da reciproca saudade.
«Espere, espere, minha querida Corinna, que havemos de ser felizes! ......................................................................
«_27 de junho._
«O lettrado a quem vou associar-me é um ancião de semblante apostolico, viuvo, sem filhos, rico, muito esmoler e doente. Fallamos muito de Portugal, d'onde elle veio com D. João VI ha muitos annos. É filho de Lisboa, e está ha vinte annos com o projecto feito de ir morrer á patria; porém os medicos aconselham-o a gosar-se do clima a que está affeito. É que toda esta gente o venera, e carece além d'isso da sua muita sciencia, e probidade na sciencia. Já aqui teve comsigo dous sobrinhos, que elle amava como seus unicos herdeiros. Morreram ambos por causa da irregularidade da sua vida, e o ancião chorava fallando-me d'elles. Ámanhan começo a praticar e a estudar o direito brazileiro: ser-me-ha preciso naturalisar-me; que importa? Eu serei voluntariamente natural de toda a parte onde encontro irmãos que fallam a minha lingua, com tanto que me deixem o coração, lá, onde tenho tudo que é d'elle. .....................................................................»
A carta é extensa de mais, e o leitor contenta-se com as paginas transcriptas.
X.
Gastão de Noronha valia ainda muito com homens de alta graduação, seus companheiros de exilio.
O litigio, perdido em primeira instancia, foi appellado para o Porto; e com quanto uma espantosa actividade, esporeada pelo ouro do brazileiro, instasse com os juizes de segunda instancia, os padrinhos do fidalgo valeram mais para que o processo paralisasse na mão do relator. Este, porém, com maravilhosa consciencia fez saber ao réo que a sua perda era inevitavel, cedo ou tarde, e que parte da imprensa estava a favor da prompta decisão do pleito.
Decorridos quatro mezes, os tres jornaes portuenses d'aquelle tempo, e alguns de Lisboa, depois d'um prefacio de dez e mais artigos ácerca da corrupção da magistratura, fulminaram o juiz relator, já alcunhando-o de vendido, já de subornado pelas fidalgas influencias que ladeavam Gastão de Noronha. Não houve remedio senão confirmar a sentença.
Recorreu de revista para o supremo tribunal o réo, acompanhando o processo, e cumulando embargos sobre embargos. Em Lisboa a presença de Gastão e a solicitude dos amigos promettiam um anno ou mais de esquecimento dos autos; mas as gazetas, ainda antes de tempo, já se mostravam espantadas da demora, e, por conta de seu espanto, lavraram logo alvará de corruptos a todos os juizes, pedindo ás leis, ao governo e ao universo que os esfollassem, como o tyranno de Siracusa fizera a um juiz venal.
Aproveitou Gastão o ensejo de requerer emprego em Lisboa, já mais que certo do resultado do pleito. Os seus amigos, que o julgavam rico, pasmavam de o verem com aquelle aspeito typico, immutavel, e unico de pretendente. Pedia elle a directoria d'uma alfandega de primeira ordem, posto que nenhuma estivesse vaga. O ministro achou absurdo o requerimento, e os amigos acharam importuno o requerente. Desceu Gastão de suas pretenções, e pedia um governo civil em Vianna, Braga ou Porto. Os funccionarios que exerciam taes commissões na provincia eram sujeitos affectos ao governo, e bons fabricantes de Fabricios e Codros sertanejos. O fidalgo foi esclarecido a este respeito, e azoou. Pediu ainda um logar de escrivão da mesa grande da alfandega de Lisboa; mas o ministro mostrou-se muito sentido de que o serventuario existente não tivesse dado causa a ser demittido.
Ora Gastão de Noronha algumas vezes, em Paris, dera a um dos ministros pares de botas, e muitos jantares a outro. Assim lh'o lançou em rosto, e elles, pelos modos, ouviram a injuria com muito receio de que o fidalgo minhoto fizesse uso dos pulsos não menos rijos que as phrases. Era homem para isso o atribulado pae de cinco meninas, em vesperas de não ter sombra de arvore sua que o cobrisse!
Desanimado, e com o pensamento do suicidio a empeçonhar-lhe a alma, desamparou o processo, e foi para os seus.
Que ia elle fazer alli? que destino ia dar ás filhas? que remedio esperava elle haurir das lagrimas da pobre Mafalda, que em seis mezes envelhecera vinte annos?
A sua entrada em casa denunciou, sem palavras, a desesperança e suprema desgraça que o trazia. As meninas cuidaram logo nos preparos para se recolherem ao claustro, e D. Mafalda, sem consultar o marido, resolvera entrar com Corinna no mosteiro de Vianna. No tocante a si, dizia Gastão de Noronha que as suas tenções estavam deliberadas.
As tenções do fidalgo eram incendiar o palacete no dia em que chegasse de Lisboa a noticia do ultimo arranco da sua fortuna. O que elle faria de si depois era segredo que não deixou transpirar dos seus furores recalcados no peito.
A noticia que o seu procurador lhe deu passados dias foi consolativa. O supremo tribunal annullara o processo desde a appellação por falta de intimação ao réo. Queria isto dizer que a demanda ia recomeçar desde a sentença de primeira instancia.
Recobrou-se Gastão; as meninas descontinuaram os preparativos de convento; aquietou-se o animo de todos, e volveram á casa das margens do Lima alguns parentes, que fugiam _para não presenciarem as angustias d'aquella nobilissima familia_. Boas almas, não tem duvida nenhuma!