Part 4
--Estamos aqui a fallar de casamento, como se Corinna me tivesse dito que quer casar comigo!... O que ha entre nós é uma ligação das que se desligam no intervallo de dois bailes, meu amigo. Lembra-te que eu não sou de todo hospede n'estas materias: traduzi vinte ou mais volumes de romances, e acredito nos romances, cujas passagens a minha razão explica. Dado, porém, que a magîa é duradoura, e que este amor encerra em si um drama, que ha de fechar pelo casamento, eu só poderei ser marido de Corinna quando o pae me acolher, _sem equivoco_, como te acolheu a ti ha poucas horas. É preciso que a justiça não interceda a favor do meu coração. Quando eu puder dizer a Corinna que sou bom, e ao pae de Corinna que sou rico, então verei se este presentimento da felicidade era mais que um sonho dos que os grandes desgraçados convertem logo em excruciante realidade da vida. Por ora, nem bom nem rico. Para a bondade falta-me ter esgotado as forças que ainda sinto em adquirir meios com que sustente uma grande porção do bem-estar, impossivel de alcançar-se sem elles. Eu não sei que merecimentos póde ter, no conceito d'uma mulher, o homem pobre que, em nome da sua desvairada paixão, a convida a ser pobre com elle, e a receber da sociedade as, talvez involuntarias, desattenções que necessariamente avexam o pobre, se elle não está santificado pela paciencia. Ora, a santificação n'estes nossos dias, meu amigo, nem o muito amor a póde dar aos casados pobres.
--Do teu arrazoado--disse Felisberto--concluo, e toda a gente ha de concluir, que amas Corinna como um inglez, estabelecido nas Antilhas, amaria a sua noiva, que elle nunca viu, estabelecida em Londres. Dentro de quinze dias estás mudado, ou então ha ahi grande aleijão na tua alma! Hei de dar-te um conselho, se não mudares.
--Então dá-m'o já, que eu fico pela minha constancia.
--Ordena-te, faz-te conego, bispo, patriarcha, cardeal, e não vás ao Brazil.
VII.
Gastão de Noronha, poucos dias depois do baile da Torre da Marca, sahiu do Porto apressadamente com a familia, por saber que chegara a Vianna um seu parente de Lisboa, com o intento de passar a estação da primavera na quinta das margens do Lima.
Momentos antes da partida, Corinna da Soledade escreveu esta carta:
«Vamos partir. Lembre-se d'esta sua outra irman para lhe contar os seus dissabores. Póde parecer-lhe que este desejo das suas cartas é desejo de quem vai viver na solidão da aldeia, e precisa distrahir-se seja com o que fôr. Talvez a sua bondade me não recusasse tal distracção, ainda mesmo tendo o meu amigo a certeza de ser tamanho e tão de gelo o meu egoismo. Não, não é assim. Eu, sem pejo, lhe confessei que o estimava quanto podia, e nenhum accidente da minha vida me fará mudar. Se vir o caminho da felicidade, siga-o, meu irmão, e não volva a face lá para a minha soledade, para aquelles arvoredos onde eu hei de esconder-me com as suas cartas. Adeus.==«_C. da S._»
Na carta ia incluido um bilhete com um nome de homem, a quem deviam ser subscriptadas as cartas de Antonio d'Azevedo.
Agora sabe a sensivel leitora se Corinna da Soledade tinha razão de estar triste mais que suas irmans, quando, idas do tumultuoso Porto, se viram outra vez no ermo, quando as arvores mal sacudido tinham os gelos do inverno, e começavam a abrolhar os gomos da sua nova folhagem.
O parente, que esperava em Vianna, Gastão, era um fidalgo sexagenario, filho de Lisboa, grande morgado no Alemtejo, e muito amigo de divertir-se, do que dera cabal prova no decurso de sua vida celibataria. Chamava-se D. João de Mattos e Noronha, e vinha a ser segundo primo de Gastão, ou coisa assim parecida. O ir elle ao Minho, na primavera d'aquelle anno, posso asseverar-lhes que não era movido por desejo de vêr florido o jardim de Portugal, nem se lhe a elle dava que as claras aguas do Lima corressem para baixo ou para cima. O caso era todo medicinal. Como sentisse as pernas fracas, e o estomago preguiçoso, consultou varios medicos, e todos lhe disseram que fizesse exercicio, e bebesse bons ares, especialmente os do Minho. Occorreu logo a D. João de Mattos que tinha um parente nos suburbios de Vianna; e, posto que nunca se vissem nem correspondessem, entendeu elle que, a toda a hora, um Noronha seria bem recebido no solar do fidalgo minhoto. Outra razão vem condizendo para explicar a escolha da provincia, e era que o velho fidalgo de Lisboa, na ultima decada da vida, se fizera tão economico e aváro, quanto fôra prodigo e dissipado até aos cincoenta annos: d'onde resultava que o seu grande prazer seria achar bom gasalhado gratuito em casa de parentes, que se dariam por bem pagos com a honra de o terem hospede.
Cresceu de ponto a satisfação do velho, quando se viu alegremente acolhido nos braços de seu primo, dando a beijar a mão ás cinco formosas meninas, que lhe chamavam tio D. João.
A medicina teve um triumpho. O estomago de D. João activou admiravelmente suas digestões; as pernas pareciam recaldeadas de aço; movia-se o remoçado velho com a flexibilidade dos seus quarenta annos. A natureza brindou-o com as suas urnas aromaticas: eram tudo tapetes e doceis de flores a festejal-o; as calhandras e os rouxinoes desgarravam-se em cantilenas quando o velho passava com as sobrinhas pelos braços; até o Lima, recobrando a primitiva magîa de dar o esquecimento a quem o transpunha, parecia ter matado no sexagenario saudades, e renascido esperanças em novo começar de vida.
Esperanças! ora, esperanças aos sessenta annos, (diz o leitor) em que, a não ser na salvação de sua alma?
Verão o que d'alli sáe. Hão de maravilhar-se do influxo d'aquelles ares e aguas do Minho, nas fibras revelhas de um peito ido de Lisboa, onde as cachexias do coração vem muito mais temporans--o que, a meu ver, se deve ao mau ar e á pessima agua, elementos importantissimos do sangue.
D. João de Mattos, conversando, uma vez, a sós com seu primo Gastão, disse ao correr do dialogo:
--Olha, primo, o celibato dá aos moços vantagens, que, no velho, são amargamente descontadas. Mil vezes, nos ultimos vinte annos, me tenho arrependido de não haver casado. Desprezei grandes fortunas, porque era rico, e formosas mulheres, porque era um estroina de pessimos costumes: parecia-me que a belleza é uma flor boa para se aspirar e deixal-a ainda viçosa para que nol-a invejem e furtem; em quanto que a obrigação de conservar em casa a flor murcha é um pesadelo. Isto é que eu pensava com a minha libertina philosophia dos vinte, dos trinta e dos quarenta annos. Quando orcei pelos cincoenta, lembrou-me que, aos sessenta, precisaria de uma familia, de uma esposa, de filhos, de carinhos e das doces illusões da velhice. Pensei em casar-me. Procurei as mulheres que amara aos trinta, e achei-as mães e avós; algumas que se conservavam solteiras estavam feias e velhas. Veja o primo o poder dos maus habitos!--quando assim as vi, ainda cá disse de mim para mim: «olha se eu tenho casado, que bonitas creaturas estas para me ajudarem a bem-morrer!» Muito custa a purgar a peçonha dos maus principios, primo Gastão! Aqui tem, pois, vossa excellencia que por um triz não cedi á tentação de casar com uma menina de vinte e cinco annos, filha segunda da casa da Trofa em Evora, a qual os paes me davam com a melhor vontade, e ella tambem não mostrava sombra de constrangimento; mas um dia, não sei como, vou a casa d'um tenente de cavallaria, ainda nosso parente, e vejo-lhe sobre uma mesa um ramo de flores velhas atadas com uma fita de setim verde que eu mandara á minha futura, atando outro ramilhete, em dia dos seus annos. Pensei no que vi sem dizer nada. Faz lá ideia do castigo dos meus erros começados n'aquella hora de ciume! Ninguem imagina a dor de um velho ludibriado, se elle ainda conserva coração com bastante memoria para lembrar relances reprehensiveis de sua mocidade!... Fui para Lisboa sem me despedir da noiva, e de lá escrevi ao pae, dizendo-lhe que seria grande acerto casar sua filha com o tenente de cavallaria. Como de facto acertaram casando, e lá estão felizes com muitos filhos. O que eu nunca pude acabar de entender é como podia aquella menina acceitar-me, e com que vistas o faria? Dispunha-se a ser feliz comigo, e vai depois ser feliz com o outro! Entendam lá as mulheres d'agora tão differentes das do meu tempo! De maneira, meu caro primo, que a minha decrepitude será triste a mais não poder. Á hora da morte hei de ver-me rodeado dos successores do morgadio, sobrinhos que aborreço, porque os vejo sempre a contarem-me as rugas novas da cara, e sei que tem o lisongeiro cuidado de perguntarem por mim, todos os dias, aos medicos. Tenho accumulado os rendimentos por não saber em que dispendel-os; e tudo isto ha de ir dar áquellas mãos ávidas de meus sobrinhos, e depois elles é que hão de saber gosar o que eu já não posso.... Triste, tristissima coisa, primo Gastão!
--Isso é assim, primo D. João....--murmurou com doloroso tregeito de beiços e olhos o pae das cinco meninas solteiras; e proseguiu--O primo, ainda assim, por causa de uma é injusto com as outras mulheres. As de hoje são como as de todos os tempos: ha bom e mau. Ora assim como D. João deu com uma das más, podia ter encontrado uma das muitas que ha boas, e estar a esta hora muito satisfeito, e ter já um herdeiro dos seus vinculos.
--Palavra de cavalheiro!--exclamou com alvoroço D. João--quando penso que podia ter um herdeiro dos meus vinculos, e arrancar a minha casa das garras famintas de meus sobrinhos, morro de desesperação por me não ter casado! Que contentamento seria o meu, ó primo! um filho! um herdeiro!
--Pois ainda está em tempo--atalhou Gastão--case-se; não hão de faltar-lhe noivas, sem sahir da sua qualidade. Ha de achal-as mesmo na sua parentella, dignas, formosas, capazes de lhe honrarem a velhice, e encherem de alegria e mocidade os seus ultimos annos.
D. João fitou os olhos descorados e franzidos no rosto do primo, estendeu-lhe a mão cortada de cordoveias, e tartamudeou:
--Se eu tivesse vinte annos menos, pedia-lhe uma de minhas sobrinhas, primo Gastão.
--Escolha, primo--disse o pae de Corinna apertando-lhe affectuosamente a mão.
--Não escolho nem peço nenhuma--tornou o velho--Veja se me tira vinte annos das costas, e depois pedirei a nossa Corinna, que é um anjinho, mas não para mim, que posso ser avô d'ella. Nada, primo, nada: para desgraçado basto eu.
--Façamos um contracto. Eu tracto de sondar a vontade de minhas filhas, e especialmente de Corinna. Se esta, ou alguma das outras se mostrar bem disposta a ser sua esposa, o primo D. João não se nega.
--Palavra de D. João de Mattos e Noronha, que não me nego; pelo contrario, morrerei de felicidade, porque, além da esposa e da sobrinha, levo comigo a mulher, cujos costumes tenho apreciado em mez e meio de convivencia a todas as horas.
Fechou-se o dialogo com poucas mais palavras de reciproca satisfação dos dois fidalgos. Em quanto elles praticavam, lia Corinna da Soledade a decima carta de Antonio d'Azevedo, que dizia assim:
«Esta é a ultima carta que lhe escrevo em Portugal, minha amiga. O navio parte depois de ámanhan de tarde. Agora vou a Barcellos abraçar minhas irmans, e despedir-me das memorias da minha infancia. Sinto um prazer amargo em me ir approximando do seu ermo. Cinco leguas apenas nos hão de separar quando ler esta carta. Dê-me uma lagrima como retribuição da angustia com que eu hei de lançar a derradeira vista ao ceo que cobre os seus arvoredos. Quando eu era criança, ia tantas vezes d'um alto, onde ha ruinas d'um castello, olhar para esses sitios! Que visão seria aquella da minha alma, então magoada como se presentisse a saudade de hoje!
«Mande-me ter coragem, minha querida amiga: diga-me antes, como tantas vezes me tem dito, que a dignidade excessiva me tem dado ao coração liga de bronze. Ai! quanto se engana, Corinna! quanto se enganam os mesmos amigos de quem não escondo um pensamento!
«Levo alegres esperanças. Os bons Taveiras tem-me dado cartas de summo valor de pessoas muito importantes d'aqui para outras do Rio de Janeiro. A mim não me ha de custar a merecer a bem-querença de todos: levo comigo a segurança no firme proposito que fiz de não sahir do caminho dos meus deveres. O que fui comsigo, minha amiga, hei de sêl-o em todas as situações da minha vida. Se esta estrada me não guiar á felicidade sem remorsos, é que não ha nenhuma.
«Vou no intento de advogar. Em poucos annos, com o auxilio de amigos e fervor de trabalho, posso ganhar a mediania que basta aos nossos moderados desejos. Poucos annos, Corinna, que rapidos hão de ir como vão os annos dos felizes. Verá que a esperança lhe aligeira o tempo, e as minhas cartas lhe hão de acudir nas más horas da desanimação. Temos Deus por nós. Deus, minha Corinna! Escrevo-lhe estas quatro lettras com quanta uncção póde dar a fé ardente d'um homem sem culpa. O premio que Deus me dá é a consciencia de poder assim fallar de mim; e chego a crer que este dom me basta para valer muito em seu conceito. Se me não sentisse puro de vergonhas e remorsos, Corinna, julgar-me-ia indigno de si.
«Eu quizera poder dizer a todo o mundo, e a todos os desventurosos escravos de suas paixões, que nenhum amor, por mais desmedido que seja, carece de provar que o é com destinos e excessos censuraveis. É a primeira vez que amo, Corinna, e amo-a muito: pois, por sua vida lhe juro, que ainda leve sombra de intenção culposa me não nubelou a limpida esperança de a ver minha esposa. Estou chorando e estas lagrimas não sei se qualquer amante as verte. Sei que muitos as fariam chorar de sangue a outrem, para se esquivarem ao trance que me está fundamente doendo no coração. E eu, por mim, antes quero padecer agora, porque sei que hei de ser consolado. Os dias prosperos não vem do acaso: são grangeados, como as searas, a muita fadiga e com muitos intervallos de desalento: a final a colheita de fructos e de bençãos; o coração ainda novo para saborear os fructos, e o espirito cheio de santa vaidade por ter merecido as bençãos.
«Espere-me, minha doce amiga; seja o meu anjo animador; mostre-me de cá sempre a patria á luz da sua alma allumiada de graça divina.
«Escreva-me, e mande as suas cartas ao nosso bom amigo Taveira; as minhas, por mediação d'elle, todas receberá, e muito longas, para lhe encurtar as horas, e dar alguma alegria ás minhas noites.
«Corinna, minha querida esposa, não posso continuar. Sejamos dignos um do outro. Offereço a Deus as lagrimas que hei de chorar, pedindo-lhe que enxugue as suas com as consolações da esperança. Tenha muito animo. A religião ha de dar-lhe o que o meu amor não puder. Estarei sempre com a sua alma, e Deus será sempre entre nós, porque muito do intimo creio que entre dois infelizes sem culpa está sempre um bom anjo. Adeus.»
VIII.
O jubilo de Gastão de Noronha, causado pela proposta de D. João de Mattos, foi, n'aquelle mesmo dia, aguado por extraordinaria e imprevista angustia.
Os vinculos que administrava o descendente dos marquezes de Villa Real, trouxera-os sua mulher, D. Mafalda de Athaide, natural de Ponte do Lima, havidos de um tio, que morrera sem descendencia directa.
Em quanto Gastão estivera no estrangeiro appareceu um filho natural do antecessor dos vinculos administrados por D. Mafalda, allegando o seu direito á successão dos bens de Fernão d'Athaide. O fidalgo não deu pezo ás consideraveis provas de habilitação do contendor. De mais a mais, como o seu nome de liberal valesse muito a favor do pretendente, o pleito decidiu-se contra Gastão em primeira instancia. Seguiu o processo os termos de appellação para as superiores instancias. Gastão tinha parentes nos altos cargos da judicatura, liberaes rebuçados, que protegeram o réo ausente, contra o favorecido author. O pleito ficou alguns annos trancado no desembargo do paço, até que o emigrado voltou. Os primeiros annos, que seguiram a restauração, foram tumultuosos e favoraveis em todo o sentido para os que, mais ou menos prestantes, se diziam restauradores. Como em tudo assim era desleixado e imprevisto, o fidalgo não curou de rematar o litigio, destruindo as provas do filho natural, nem mesmo quiz averiguar a sua plausibilidade, ou fazer que o processo se perdesse.
Em 1840 requereu novamente o filho natural, documentando o seu arrasoado com uma carta de perfilhação concedida por D. João VI no Rio de Janeiro, para onde Fernão de Athaide, pae do habilitando, fôra com o rei em 1807. Ajuntava este aos autos reconstruidos cartas escriptas por seu pae, tanto a elle, como a sua mãe, portugueza de origem, que fallecera no Rio de Janeiro, casada e dotada pelo fidalgo de Ponte do Lima. Accrescia a isto o depoimento de doze testemunhas de ouvirem dizer ao moribundo Athaide que tinha no imperio do Brazil um filho natural, chamado Fernando de Athaide, ao qual testava todos os seus bens livres e vinculados.
Este legado, com quanto em principio devesse tornar duvidosa a successão de D. Mafalda aos vinculos de seu tio, foi pouco no conceito dos principaes lettrados, quando Gastão de Noronha os consultou: diziam que os bens vinculados não podiam ir ao filho natural, nem a declaração do velho á ultima hora da vida podia esbulhar da successão a legitima descendencia.
Em 1829 viera Fernando de Athaide a Portugal a tomar conta da herança: achou sua prima empossada n'ella, e a favor d'elle os jurisconsultos que tinham dado por boa e legitima a espoliação.
Em 1832, enfadado das delongas da decisão e do patronato que sua prima tinha em Lisboa, voltou para o Brazil onde tinha o seu florente commercio de café, herdado de sua mãe, que morrera abastada, e universal herdeira de seu marido.
Voltara novamente Fernando á patria de seu pae, depois de visitar as capitaes da Europa, e mais por brio do seu appellido, que por necessidade de duas duzias de contos de reis, instaurou segunda vez o pleito, confiou-o a habeis advogados e procuradores, e seguiu viagem para o Rio de Janeiro.
Esta noticia, com os accessorios funestos de um presumivel perdimento da causa, foi surprender Gastão de Noronha, quando elle cogitava no melhor modo de fallar a Corinna em casamento com o tio D. João. Sahiu o fidalgo para Vianna a ouvir o parecer de advogados, que lhe foram desfavoraveis. Voltou a casa mais firme na resolução de segurar a futura subsistencia da familia, casando uma das filhas com o provecto primo, cuja abastança daria para viverem todos largamente.
Chamou Corinna a mui secreta prática, e contou-lhe em miudos a historia do filho natural, as probabilidades da perda da demanda, a irremediavel pobreza da familia e a precisão de ella se sacrificar á decencia de seus paes e suas irmans, casando com o tio D. João, por ser das cinco a menina que elle preferia, posto que se não despedisse de casar com uma das outras.
--E nenhuma de minhas manas quer casar com o tio D. João?--perguntou Corinna.
--Ainda as não consultei; eu é que desejo que sejas tu.
--As boas intenções de meu pae são providenciar ao futuro de nossa familia por meio d'este casamento?
--Sim, minha filha.
--Eu com lagrimas lhe digo que não posso servir a esse bom intento.
--Porque?--atalhou o pae entre pasmado e colerico.
--Porque morro, porque hei de morrer antes de ser mulher do tio D. João. Não me recuso, meu pae: faça vossa excellencia o que quizer.
--Ora!--tornou o pae modificado em sua ira--Não morres, não, filha. Isso é o que te parece agora; tu verás que todos te ajudaremos a levar a cruz. E, depois, cuidas que teu tio ha de viver muito? Está alli e está na cova. As escripturas hão de ser feitas de modo que, ainda mesmo que tu fiques viuva sem filhos, has de ficar riquissima.
--O pae não quer acreditar-me...--atalhou, soluçante, Corinna.
--Acreditar o quê?
--Que me mato, se Deus me não levar para si.
--Sei o que é isso...--tornou Gastão escarlate de ira--É o homemzinho de Barcellos que te ha de fazer perder de todo a minha estima. Não tem duvida: tu te arrependerás!... Cuidas que, por ser a mais velha, tens os vinculos? Já te disse que não tens nada. Quando quizeres um vestido, e não haja em casa um objecto que se venda para t'o comprar, veremos como te vestes com o amor do valdevinos de Barcellos.
Disse, e sahiu enfurecido.
A irman de Corinna, sua immediata em idade e formosura, era Emma. Esta menina parecia a mais meiga, docil e resignada. Devia estas virtudes á brandura de sua indole fleugmatica e um tanto fria. O seu prazer era a quietação, que parecia uma invencivel preguiça. Bem que estranhasse tanto como as outras a mudança de Paris para a quinta do Lima, foi a primeira a conformar-se, e achar certa suavidade no socego e silencio, que affligia as irmans. Era esta tambem a que dava mais trela ao palavriado do tio D. João, e por vezes se ria a bom rir das baforadas de juventude que ainda, a tempos, sahiam mornas lá das cinzas do coração do velhusco. Como amiga de estar em casa, sentada ao piano, ou amezendrada n'um tapete, D. João tinha sempre certa a palestra com aquella pachorrenta sobrinha.
Gastão foi ter com Emma, e encontrou-a aparando as unhas a D. João, e a rir-se muito das caretas, que o velho fazia, receando que a tesoura lhe entrasse pelo sabugo. Gastão tomou como de bom agoiro a scena intima das unhas. Compoz o semblante de risos, avisinhou-se do grupo, e achou tambem graça aos chistes da filha e aos esgares do primo.
--Ahi está o nosso D. João--disse elle--gosando um dos milhares de prazeres da vida domestica. Quando era moço, e requestava damas, sentiu alguns d'esses innocentes jubilos, primo D. João?
--Já estive a pensar n'isso, primo Gastão; mas o diacho da Emma não me deixa pensar em nada se não em guardar os dedos da implacavel tesoura d'esta linda parca... Olhe que já me quiz cortar a ponta do nariz, a traquina, que só não tem preguiça para cortar narizes... e corações.
Accrescentou D. João ao galanteio um regougo de riso, com o que a menina desatou uma gargalhada tão pachorrenta, que acudiram as irmans, salvo Corinna, a rir sem saber de quê. D. João cuidou que ella se desmanchava assim, á conta da ultima e novissima careta que elle fizera.
Logo que o ensejo se proporcionou, Gastão de Noronha perguntou ao primo se Emma seria uma digna esposa d'elle. O velho acudiu logo, dizendo:
--Estava eu para lhe dizer, primo, que, a não ser Corinna, de boa vontade casaria com Emma. Acho-a mais dada que as outras; mais socegada e amiga da casa. A creatura passa horas e horas sentada no tapete, em quanto as outras me estão sempre a convidar a passeios, e querem que eu salte portellos e vallados como ellas, senão fazem-me apupadas as doidinhas! Corinna agradou-me pelo seu juizo; mas, a dizer-lhe a verdade, acho-a triste de mais; e esposa triste não serve para velho, que bem lhe basta a rabugice e pezo dos annos. Em fim, primo, se Emma me quizer, aqui estou.
Poucas horas depois, Gastão encerrado com Emma, perguntava-lhe se ella quereria segurar uma enorme fortuna, casando com seu tio D. João.
--O papá está a mangar comigo!--disse ella rindo.
Com poucas palavras a convenceu da seriedade da proposta. Emma ouviu tudo com desusada seriedade. Viu no rosto do pae signaes não fingidos de atribulado, fallando da imminente ruina de seus haveres, e da recusação de Corinna. O tom com que elle pedia a Emma o sacrificio era já supplicante. A menina respondeu primeiro com lagrimas e depois com a promessa de satisfazer os desejos de seu pae.
Nunca pae algum beijou sua filha com tamanho transporte de ternura!
Foi logo avisado D. João da resposta de Emma. O velho desenvolveu de repente um pudor senil de muita graça! Estava, como noiva que se peja de apparecer ao noivo, na sala onde o papá a manda chamar, a fim de, em presença de ambos, confirmar vocalmente os anhelos de todos tres. Esquivava-se D. João de encontrar a sobrinha; e, quando lhe ouvia a voz, córava! Era a segunda infancia a fazer milagres de remoçar corações mumificados!