Estrellas Propícias

Part 3

Chapter 33,950 wordsPublic domain

--Accrescem razões d'outra ordem no caso especial em que estamos, Corinna. A nossa casa está desfalcada a ponto de eu não poder remediar com a mais apertada economia o mal que vem de avós, e eu continuei na emigração, para vos dar decencia, educação e prazeres. Moços eguaes a ti em nascimento muitos haverá; mas, pouco mais ou menos, empobrecidos como nós, e retirados como realistas á obscuridade dos seus solares e da sua inactividade. Uns por inercia, outros por ignorancia, todos se devem considerar formando á parte uma phalange de estatuas d'algum devastado jardim que não ha de mais florir. Já vês, Corinna, que ha difficuldade em achar-se um marido como teus bisavós o desejariam; mas facil te ha de ser encontral-o como teu pae t'o deseja. Felisberto Taveira, sobre ser rico, é um gentil moço, é doutor, revela fina educação, e... não é assim?

--Parece-me excellente sujeito--disse Corinna.

--Bem: eu não podia enganar-me--tornou com alegre semblante o pae--Já te disse elle que... sim... manifestou-se-te?

--Nada me disse com relação a casamento, papá.

--Não admira: era a primeira vez que fallava comtigo; mas que te amava...

--Tambem não disse...

--Pois sim; convenho em que o respeito e a delicadeza o contivessem; porém tu deves conhecer, depois de uma hora de conversação...

--Não fallamos a nosso respeito, papá--disse candidamente Corinna.

--Pois então?!

--Eu lhe digo: apresentaram-me um sujeito que me disse umas palavras muito amarguradas, e sahiu do baile. Fiquei pasmada e curiosa de saber quem era o tal sujeito. O Antão de Menezes, que m'o tinha apresentado, trouxe-me o Taveira para me dar as informações que eu desejava. Ficamos a fallar d'elle todo aquelle tempo que o papá viu. Ahi tem vossa excellencia o que foi.

--E quem era o sujeito? que te disse elle? e porque ficaste tu assim curiosa de o conhecer?!--perguntou Gastão com demudado rosto.

--Era um doutor Azevedo Barbosa, de Barcellos, hospede do Felisberto Taveira...

--E que mais?--atalhou o pae precipitadamente.

--E que mais?! o papá que deseja que eu lhe diga mais?

--Se é rapaz de fortuna... Em Barcellos não sei que haja...

--É pobre, e vive muito penalisado, porque tem quatro irmans, e cuida que o persegue uma má estrella.

--Pois sim, não duvido que o persiga uma má estrella, e que seja pobre e tenha quatro irmans; mas que tens tu que ver com isso? Em que se funda a tua interessante curiosidade?!

--Tive compaixão d'elle, papá.

--E gastaste uma hora a colher informações!... O Taveira havia de persuadir-se que tamanho interesse significava alguma coisa mais que simples curiosidade. Se assim foi, como havia de elle dizer-te que te amava?! Ora, minha filha, nunca faças praça d'essas tuas compaixões sem utilidade. Se o Taveira te procurar nos bailes, agradece-lhe a preferencia, e não lhe faças suspeitar que o escolhes por medianeiro: isso não só desanima, mas offende o amor-proprio. Teu pae pede-te que olhes com toda a seriedade ao teu futuro, que por em quanto se figura triste. Com um bom casamento davas-te, e davas á tua familia a felicidade.

Corinna da Soledade, ausente o pae, scismou largo tempo com muita tristeza, e meditou em fingir-se doente para não ir, na seguinte noite, ao baile da Torre da Marca.

O fingimento era facil; porém o bom ou mau anjo d'ella segredou-lhe seducções, que a deliberaram a conservar-se no goso de sua perfeita saude para ir ao baile dos condes de Terena.

Antonio d'Azevedo, sinceramente violentado, entrou na sala em que estava Corinna, e foi ao lado de Taveira cumprimental-a. Momentos depois, Felisberto ia retirar-se, crendo que assim comprazia a Corinna. Chamou-o ella, e disse-lhe a resguardo de Azevedo:

--Desagrado a meu pae, que está aqui defronte, se ficar conversando com o seu amigo. Peço-lhe que me não deixe só com elle, e, quando meu pae estiver jogando, então...

E de feito, Gastão de Noronha fitava os olhos na filha, e perguntava á pessoa com quem fallava, se o sujeito que entrara com Taveira era um tal Azevedo, de Barcellos.

Dizia Taveira ao seu hospede:

--Aposto mil contra um... aposto!

--O que?--perguntou Azevedo.

--Que Corinna te ama, e te ama de véras! A esconder-se do pae para te fallar! ha nada mais persuasivo! Quando uma menina se confia n'um confidente, e desconfia de seu pae, e se esconde d'um terceiro para dizer ao medianeiro que volte com o outro quando o papá estiver jogando; e quando esse _outro_... és tu!...

Antonio d'Azevedo ergueu os hombros, e disse:

--Valha-te Deus! Cuidas tu que eu tenho espirito bem folgado para entrar n'estes brinquedos pueris, em que a tua seriedade corre perigo de sahir-se mal!... Queres tu que eu me capacite de que estamos figurando n'uma das graves comedias humanas? Pois sim, meu amigo: figuremos e discutamos. Tu já disseste áquella senhora que eu sou um pobre bacharel que consumiu sua sensibilidade, _fazendo a côrte_ aos ministros da justiça?

--Não lhe disse tudo isso, nem parte d'isso. Como ella me não perguntou se eras rico, dispensei-me de ser o inventariante dos teus pares de botas e dos teus camapheus. Perguntou-me se eras bom, e eu disse-lhe que eras um moço honrado, e o coração d'um anjo. Tudo o mais que dissemos foi commentar o que é ser-se honrado e ser-se anjo. Provavelmente Corinna, que viu tudo em Paris, não achou lá a exquisitice do anjo-coração, e está em ancias de saber em que tu te apartas do restante do genero humano. Esta curiosidade é já uma escolha, e a escolha, se a tua modestia m'o consente, é o amor com todos os seus recatos e astucias.

Proseguiram n'esta contenda, até que Taveira viu abancar ao jogo o pae de Corinna; mas, momentos antes, observara elle que o fidalgo segredara com sua mulher, olhando o bacharel de travéz com o sabido disfarce dos que olham de travéz. D. Mafalda fizera um gesto, que vinha a dizer que estava sciente.

--Vejo que a familia está de sobre-rolda!--disse Taveira ao seu amigo--mas ainda assim avisinhemo-nos cautelosamente da praça.

Corinna acabara de dansar, e passeava pelo braço do parceiro, que por fortuna era Antão de Menezes, o apresentante emérito. Este, que adivinhava todas as subtilezas do coração dos seus apresentados, approximou-se de Azevedo, e disse-lhe com mui galharda cortezania:

--O thesouro não me pertence. Aqui o tem, que eu sou apenas o indicador dos thesouros.... sou uma especie de S. Cyprianno, que descobre as riquezas encantadas.

Antonio d'Azevedo deu o braço a Corinna, e Felisberto Taveira retirou-se com Antão.

Agora é que havia de ser umas delicias ouvil-os, se D. Mafalda, vigilante observadora da passagem innocente, não mandasse um cavalheiro dizer a sua filha que fosse fallar-lhe.

Corinna respondeu:

--Queira dizer á maman que eu vou já.

--Vá, minha senhora--disse Azevedo. Não seja eu causa de sua mãe a desgostar.

--Não importa.... Eu queria pedir-lhe que não fosse tão infeliz...

--A mim?!--atalhou Azevedo suavemente enleado pela musica d'aquella voz, em que o tom da supplica tinha o mavioso do carinho filial.

--Sim... pois não me disse que era muito desgraçado?...

--Sou.... era muito desgraçado; mas condoeu-se vossa excellencia a tal ponto de mim que....

--Que lhe peço com instancia que se não deixe vencer do tedio da sociedade; não fuja das pessoas que imagina felizes... Olhe que não encontra seis que o sejam n'estes centenares de pessoas. Eu, se fosse senhora das minhas acções, tambem aqui não vinha, e ficaria a soffrer sem nada remediar... Não posso demorar-me, que minha mãe está impaciente... Olhe que eu desejo a sua amizade... Conduza-me a minha mãe... e não se esqueça...

Este lance, que, a dar-se uma vez na vida do homem, nunca se repete, foi uma especie de vertigem, que deixou o espirito de Azevedo na indecisão de quem, a sonhar, a si mesmo se pergunta se está sonhando.

Corinna sentou-se ao lado de sua mãe, e o bacharel com os braços pendentes e a boca descerrada para tragar fôlego que lhe alargasse o peito, ficou, tres passos distante, arrobado na contemplação da gentil menina.

Taveira, que não os perdera de vista, estava-se deliciando no espectaculo que só elle via. Quando achou que era tempo de acordar o amigo de um extasis desagradavel a D. Mafalda, tomou-o pelo braço, e disse-lhe simulando seriedade:

--Quando quizeres vamos embora. São duas horas da manhan.

--Já!--murmurou Azevedo.

--Vê lá.... se queres sonhar mais alguns minutos....

Azevedo comprehendeu a intenção de Taveira, e disse com uma voz que não era a sua, e com um brilho d'olhos que nunca tivera:

--Nasce o novo homem... Sinto o coração... Agora sei que ha uma felicidade commum de todos os desgraçados. Se isto não é uma sensação passageira, hei de beijar-te as mãos, que me arrancaram do meu abysmo.

--A beijares as mãos de alguem--disse Taveira, sorrindo--é melhor que beijes as mãos de Corinna.

Antonio d'Azevedo deteve-se um pouco de tempo em recolhimento silencioso, e disse de sobresalto:

--Isto é uma nova desgraça!

--O quê? uma desgraça beijares as mãos de Corinna?

--Vê tu--proseguiu elle como se não ouvisse a pergunta galhofeira do amigo--que engenhosa é a minha funesta estrella! Hontem tive um pensamento que me deu vigor novo para crer e esperar. Projectei ir ao Brazil, e logo os horisontes do meu futuro se rasgaram, e não sei a que luz a esperança me mostrou dias ditosos. Sonhei com as alegrias do meu plano, e acordei hoje com um alvoroço estranho. A desgraça viu que eu tive algumas horas menos negras, e duvidou da sua omnipotencia. Trouxe-me aqui para eu sentir que o apartar-me hoje do local onde ouvi aquella mulher me ha de ser um tormento.

--Melhor!--interrompeu Felisberto--Ella e os teus amigos não querem que vás ao Brazil procurar a felicidade que deixas cá. Onde a procuramos é que ella não está.

--Entendes tu--disse o bacharel--que se é feliz, amando, na minha posição, uma senhora na posição de Corinna de Noronha, filha do nobre Gastão de Noronha...

--Nobre e pobre, accrescenta. Se elle fosse rico como foi, dizia-te que, a não quereres renunciar aos teus austeros principios de dignidade, convinha-te esmagar o coração debaixo da barra d'oiro que ella valesse; mas, segundo as informações que hoje me deram, a filha do fidalgo não tem mais do que tu. Entre ti e ella está estabelecida a egualdade humana, no maximo rigor da palavra.

--Ainda não--atalhou Azevedo--Eu sou filho de um lavrador de Barcellos.

--Vai tu perguntar aos lavradores de Barcellos se elles dão seus filhos ás filhas dos fidalgos que não tem terras que lavrar.

--Essa é outra questão, meu amigo. Não te esqueças que eu sou um homem sem occupação. Tão reprehensivel seria eu disputal-a ao pae sendo ella rica e eu pobre, como se quizesse associal-a á minha pobreza. Que faria eu d'aquella menina se me fosse permittido casar com ella?

--O que fazem das esposas os maridos que casam pobres. Amam-as como se costumam amar os pobres; por amor d'ellas redobram de vigor para luctarem com a adversidade; por amor dos filhos nunca esmorecem no desalento em que tantas vezes se nos deparam os celibatarios, que apenas luctaram um anno com as contrariedades. A familia é uma accumulação de forças no braço do seu chefe. O pae nunca succumbe; o marido tem uma força providencial que o ampara.

Este dialogo, o primeiro que n'este genero talvez se travou n'um baile entre dois rapazes menores de vinte e cinco annos, foi interrompido por Gastão de Noronha, que quiz ser apresentado a Felisberto Taveira.

VI.

Quiz o fidalgo do Minho apalpar o coração do filho do millionario, pessoalmente. A sua prosapia soffria-lhe que, ageitando-se o ensejo, elle mesmo se offerecesse para sogro, e poupasse o timido moço aos embaraços de pedir-lhe a filha, e aos receios de ser mal acolhido.

Ouviu Felisberto Taveira uma longa e não falsa descripção das virtudes e prendas de Corinna da Soledade. Aqui se dá um fragmento da paternal exposição:

--Minha filha, posto que vivesse na melhor roda de Paris, e a rodeassem os mais graduados moços d'aquelle viveiro da elegancia, nunca se captivou d'algum. Não lhe direi que ella se isentasse por soberba do seu nascimento, bem que pudesse tel-a, porque meu quinto avô sahiu da casa dos marquezes de Villa-Real, por onde somos Noronhas; todavia, não era vaidade a frieza de Corinna. Bem póde saber vossa senhoria que o coração é de essencia democrata, e ao coração se deve o triumpho da democracia, em virtude de se irem a pouco e pouco amollecendo as durezas de que as antigas educações callejavam o coração da mulher de linhagem. O que minha filha tinha e tem, era um juizo prudencial á prova de todas as velleidades e pompas, que seduzem o vulgar das meninas. Os seus gostos foram sempre moderadissimos; riquezas nunca a deslumbraram; os bailes e os banquetes era preciso obrigal-a a gosal-os; tudo lhe era pesado, menos a solidão, a meditação e a obscuridade. Cuidei sempre que minha filha seria insensivel ao prazer de se ver amada, e mais ainda ao de receber satisfeita a côrte de algum moço. Em Portugal, principalmente, é que não devia esperar vel-a possuida de sentimentos amorosos; porque, sem desaire da nossa patria, devemos confessar que nós, os portuguezes, temos em amor uma certa gravidade, que toca a extrema do aborrecimento. Falta-nos um certo espirito _pétillant_, um não sei quê de que as mulheres se deixam seduzir. Não acha?

--Sim, senhor... nós temos isso...--respondeu Felisberto Taveira, descobrindo um grande fundo de ridiculez através do aspeito encanecido do fidalgo.

--Sem duvida nenhuma... Pois, meu caro senhor Taveira, penso poder affirmar-lhe que a minha filha está pagando o universal tributo. Descobri que ama! Só o Porto podia fazer tal milagre!

--É muita honra para o Porto, senhor Noronha! e muita mais ainda para o homem escolhido.

--Que vossa senhoria conhece perfeitamente...

--Eu?...--balbuciou Taveira, quasi convencido de que o fidalgo alludia a Antonio d'Azevedo.

--Sim, senhor: conhece-o como ás suas mãos, porque vossa senhoria e elle formam dois seres n'um só ser: são inseparaveis.

Isto acabou de persuadir Taveira, que, na mais candida boa fé, accrescentou:

--E creia vossa excellencia que a pessoa preferida pela senhora D. Corinna tem virtudes e coração dignos d'ella.

--Creio, creio, e o meu maior prazer era vel-os unidos, em quanto eu tenho vida e alegria para poder felicitar-me de tão boa união.

--Agora me convenci--acudiu Felisberto--de que vossa excellencia ama sinceramente sua filha, e viu com benignos olhos a inclinação desegual que ella manifestou.

--Inclinação desegual! Eu não sou parvo de fidalgas desegualdades, senhor Taveira! Soberania ha uma só, que é a da virtude: o resto são convenções humanas sem criterio nem fundamento real. O que eu quero é ver minha filha feliz. Se os meus appellidos valem alguma coisa, meus netos hão de chamar-se Noronhas, e a todo tempo que elles queiram humilhar arrogancias d'outros nobres, poderão sempre abrir a historia, na certeza de que encontram o nome d'um avô em cada pagina. Os tempos são outros, senhor Taveira, porque são outros os corações. Violentar a vontade de minha filha!... Deus me feche os olhos antes que eu tal faça! Respeito-lhe a inclinação, que ella manifestou, porque sei que a sua dignidade foi a primeira voz que lhe deu conselho.

--Admiro a grandeza de sua alma!--tornou Taveira com mui sizuda e admirativa satisfação--E mais me espanta que vossa excellencia, antes de acceder á vontade de sua filha, não curasse de saber se o homem escolhido é bastante rico a mantêl-a na decencia com que foi criada.

--Não, senhor, não quiz saber se era rico: o que perguntei foi se era bem comportado, se tinha grangeado a estima publica, se seria um bom marido e um bom pae. Unanimemente me disseram que sim.

--E disseram-lhe a verdade, senhor Gastão de Noronha--confirmou Taveira--A riqueza de Antonio d'Azevedo só bem lh'a podem avaliar os que mais perto vivem de sua nobre alma.

--A riqueza de quem?--atalhou Gastão de Noronha com um gesto de irrisorio espanto.

--De Antonio d'Azevedo Barbosa--tartamudeou Taveira, corrido do engano em que tinha estado.

--Não nos temos entendido!... Pois vossa senhoria cuida que eu estou fallando d'esse tal sujeito?

--Cuidava... Pois não é elle a pessoa distinguida por sua filha?!... Perdão! eu entendi mal.

--Vejo que sim; e eu peço tambem perdão de entender mal, cuidando que era outra a pessoa... Ora esta!... Pois não é o senhor Felisberto Taveira?

--Eu!

--Sim, o senhor!

--Não pensei tal... e creio que vossa excellencia entendeu mal a propensão da senhora D. Corinna, posto que a escolha me daria muita gloria.

--Muito bem: façamos de conta que estivemos a fantasiar--tornou Gastão simulando um desenfado risonho, que lá por dentro era accesso de zanga e vergonha.--Pelo que diz respeito ao senhor Antonio de... como é?

--Antonio d'Azevedo.

--Ah! sim, d'Azevedo... filhote de Barcellos?

--Justamente.

--Não sei quem são os Azevedos de Barcellos... Sejam lá quem forem, meu caro senhor Taveira... tenho a dizer-lhe...

--Os Azevedos de Barcellos--interrompeu com louvavel desabrimento Felisberto--são tão nobres como os Taveiras do Porto. Meu pae veio da lavoira de Fafe para aqui; o pae do bacharel Antonio d'Azevedo morreu na lavoira de Barcellos.

--Sim, senhor: convenho em que tão nobres são uns como outros; mas a minha filha não ha de, creio eu, illudir-me mais uma hora. Queira desculpar um engano, em que vossa senhoria nada perdeu, e rogo-lhe que diga ao senhor Antonio d'Azevedo que se preoccupe com aspirações mais rasoaveis, se não interessa em dar graves desgostos a uma familia que vive tranquilla.

Quando as ultimas linhas d'este dialogo se trocavam entre os dois, qual d'elles mais corrido do seu equivoco, outro dialogo terminava entre Corinna e Antonio d'Azevedo por estas palavras d'ella:

--Eu receio que meu pae se não demore no Porto, e Deus sabe se nos veremos mais! Olhe: se tiver precisão de queixar-se da sua má estrella, faça-o a mim, que sou, desde hontem, desde sempre, desde que nasci sua amiga, e talvez sua irman por sympathia de dores. Escreva-me: eu lhe direi de Vianna em que nome me ha de escrever. Vá visitar-me em espirito á minha soledade: lá me verá sósinha por entre as arvores, em quanto minhas irmans, quasi tão infelizes como eu, procuram ao menos entreter-se umas com as outras em volta das suas saudades de Paris... Eu nem isso trouxe de lá... Não se demore, que vejo meu pae...

Felisberto chegou diante de Antonio d'Azevedo, e disse com forçado riso:

--Estás outra vez somnambulo, Antonio? Eu estou peor, porque venho estupido de spasmo!

--Que é?

--Querem casar-me com a tua Corinna!

Azevedo ergueu a fronte avincada, e disse:

--Pois é costume offerecerem-se assim as filhas n'um baile ao homem a quem se é apresentado?!

--Não é costume: é moda agora... O Gastão vai sahir com a familia--ajuntou Felisberto--Podemos ir, e lá fóra conversaremos.

Ouviu o bacharel o dialogo em resumo; contou ao seu amigo as ultimas palavras de Corinna; e adorou a imagem da primeira mulher amada nos alvores da aurora que repontava. O que elle então disse, em arrobos de poesia, era o sublime represado n'aquelle coração em sua primeira primavera.

Perguntou-lhe Taveira se pensava ainda em ir ao Brazil.

--Hoje mais que nunca--respondeu elle.

--Como assim?! Aquella mulher não te prende á patria?

--Prende-me sobre tudo a um sacratissimo dever. Até agora pensava em ir ao Brazil para segurar o futuro de quatro irmans pobremente criadas e boas de contentar com pouco; d'hora em diante hei de ver no horisonte das minhas ambições, além de minhas irmans, Corinna da Soledade, educada com as regalias da sua condição, e só digna do homem que a não obrigar a descer de posição aos olhos da sua sociedade.

--E quem te assevera--redarguiu Felisberto--que voltas rico a Portugal? De que genero de trabalho fias tu a tua prosperidade?

--De todos os generos honestos. Se não valer como advogado, valerei como caixeiro; se não tiver aptidão para o negocio, ensinarei o que sei; se tiver de descer, descerei sem vergonha; se descer tão baixo que nunca possa erguer-me d'entre os ultimos operarios, ahi ficarei, e lá morrerei: ninguem dirá, depois, que transigi com a minha inutilidade.

--Quer-me parecer--retorquiu Taveira--que a linda Corinna está sendo ainda pouquissima coisa na tua alma! Dar-se-ha caso que, em verdade, tu sejas refractario ao amor, ou que a tua sensibilidade, como disseste, se consumisse em galantear os ministros da justiça!? Qualquer homem, que não fosse tu, forte do amor inspirado por um anjo como Corinna, e com as tuas habilitações, cuidava desde já em agenciar na patria uma mediania, que a doçura da vida intima convertesse em opulencia invejavel aos mais opulentos. Suppondo que tu não pudesses, n'um ou dois annos, alcançar emprego, ou clientela como advogado, é de crer que tivesses um amigo a quem pedisses um, dois, ou mais contos de reis para te estabeleceres aqui, em Lisboa, na tua terra, ou onde quizesses viver. Suppondo mais que tu me tivesses na conta do teu primeiro amigo, era a mim que tu pedias esse emprestimo, e eu com mil vontades te servia agora, e depois, e sempre.

Antonio d'Azevedo, após algum espaço de reflexão, respondeu:

--Meu caro amigo, se o verdadeiro amor é uma desordem da razão, esse não é o amor que eu sinto. Que a minha vida está passando por nova phase, é certo: esta excitação d'alma, que eu não sei se deva chamar alegria da juventude feliz, nunca a experimentei. Porém nenhuma das minhas faculdades, que pensam, julgam, e antevêem os successos, se escureceu: ouso até affirmar-te que o juizo se revigora, e a previdencia se aclara mais. Depois d'isto, imaginemos que tu me emprestas o cabedal necessario para eu ter uma casa, uma esposa, e a subsistencia certa de algum tempo. A esposa devia ser necessariamente a filha de um homem que cahiu da sua dignidade offerecendo-t'a porque és rico, e que se dignou recommendar-me que não perturbasse o socego de uma familia, que vive tranquilla. Não foi isto?

--Pouco mais ou menos.

--Bem: e não entendes tu que seria uma indignidade ir eu perturbar o socego do pae de Corinna, casando-lhe com a filha, por meio d'um rapto ou da intervenção da justiça?

--Não entendo assim a dignidade. Se Corinna consentir em ser raptada para o mais santo dos intentos a que o coração a pode impellir; e, se ella rasoavelmente se não quizer sacrificar á ambição do pae, nem a tua honra, nem a sua, nem a da familia illustre ou não illustre, soffrem desaire.

--Discordamos--replicou Azevedo--Gastão de Noronha quer que sua filha case rica: entende elle que sua filha só póde ser feliz sendo rica. Será absurdidade uma tal opinião? Vai tu perguntar a qualquer pessoa estranha a Corinna, se a julga feliz na pobreza: ha de responder-te que a julga mais feliz sendo rica. Pois se os estranhos pensam assim, que fará um pae?

--Convenho; mas sobejam exemplos de mulheres sacrificadas por esse erro dos paes.

--Deixal-os sobejar: ainda mesmo que todos os exemplos fossem contra os paes, nem por isso a vontade bem intencionada d'elles deixava de ser respeitavel; mas crê tu, meu amigo, que o maior numero de casos justifica o arbitrio dos paes. Eu tenho vivido muito arredado d'estes estudos da sociedade em que tu deves saber muito; assim mesmo, se tu quizeres posso recordar-te de os ter ouvido a ti e aos outros, alguns casamentos mal agourados por terem sido contra vontade das filhas, arrancadas por força a affeições de moços pobres para serem adjudicadas a homens odiados com toda a sua riqueza. Pois, com o rapido andar de alguns mezes, se não dias, as esposas violentadas apparecem radiosas de alegria nas suas carruagens, nos seus camarotes e nos seus salões; em quanto os mocinhos pobres e amantissimos, ou porque emmagrecem, ou porque engordam muito, chegam a passar por as noivas, que os poetas denominam _martyres_, sem ellas os conhecerem.

Felisberto riu-se do semblante grave com que o seu amigo proferiu as ultimas palavras.

Após breve pausa, Antonio d'Azevedo continuou: