Estrellas Propícias

Part 2

Chapter 23,889 wordsPublic domain

O infortunio abastarda os espiritos, desalenta-os, e de todo os transfigura. Antonio d'Azevedo vergava debaixo da dependencia, sem maldizel-a. Sentia-se alquebrado por sua mesma inercia, e esmagado pelo quasi opprobrio de sua inutilidade. O futuro estava-lhe fechado, futuro para onde o arremessavam esperanças, que todas vira morrer, durante aquelle triste viver de supplicas e repulsões á porta de ministros, de magnates, de influentes, homens que vestem o arnez do egoismo, logo que, no dizer do senhor A. Herculano, «se recostam nos sophás para onde se atiraram de cima do tamborete de couro ou da cadeira de pinho.» Sentia-se o moço brutificado pela desgraça: tem ella de seu o fatal condão de deslapidar o brilho das ideias, enredando-as, escurecendo-as, falsificando-as; ha uma como nevoa que empana os objectos ou os desfigura; o infeliz vê sempre errado; ora crê e confia-se em tudo que ao commum dos homens é despresivel; ora esquiva-se a tomar pelos caminhos direitos do bem-estar, que eventualmente se lhe offerecem. Póde ser que uma linguagem energica lhe valesse uma transformação de vida; mas o susto, o quasi pavor com que falla aos grandes, e a humildade lagrimosa com que intenta commovel-os, é ainda um sestro mau da sua desgraça. E em tudo assim, em tudo, até no amor, que devia estar forro das cadeias com que a desfortuna peia e trava as demais faculdades. É ao pé da mulher amada, amada sem confiança nem expansão, é ahi que mais a olhos observadores se manifesta o infeliz. Nenhuma palavra diz que lealmente lhe sirva o coração. O que diz é incongruente e absurdo, quando não é disparate de desfranzir um riso. As agudezas triviaes, que inculcam fina têmpera de alma, e que todo o homem, medianamente servido de olhos e intellecto, sabe dizer, tomam no discurso do infeliz umas entoações ridiculas e antipathicas. Se algum pensamento bem ordenado lhe entreluz, esmorece ao proferil-o, afroixa-o como inconciliavel com sua baixa posição, e prefere antes trocal-o por uma semsaboria. Esta é a sorte de todos os desgraçados, que não são tolos; porém é coisa muito rara encontrar-se um tolo desgraçado.

Antonio d'Azevedo sondara-se, compulsara-se, e vira a lenta desfiguração que se operara em sua alma. Impozera-se silencio, que os seus amigos estranhavam. Negava-se a dar parecer nas mais insignificantes questões. De si para si dizia elle que sentia uma depressão no cerebro, uma placa de ferro premindo-lhe a bossa do entendimento. Onde concorresse com senhoras, ninguem lhe ouvia palavra, senão as precisas para dar um pretexto a ausentar-se. Muita gente o reputava malfadado; e outra optava antes por que fosse estupido.

Quando elle viu Corinna da Soledade, estava ao lado d'um sujeito, cuja maxima gloria n'este globo era poder apresentar um conhecido a outro conhecido. Assim que alguem lhe dizia: «Vossa senhoria conhece fulano?» respondia logo: «Quer ser apresentado?» E se os apresentados lhe ficavam á mão, era logo.

Foi o que aconteceu com Antonio d'Azevedo.

Apenas lhe elle perguntou quem era aquella menina vestida de azul-celeste, o sujeito travou-lhe do braço, e disse:

--Venha cá.

O bacharel mal sabia onde era levado, quando se viu rosto a rosto de Corinna, a quem o apresentante disse:

--O meu amigo doutor Antonio d'Azevedo Barbosa, que eu satisfactoriamente apresento á excellentissima senhora D. Corinna da Soledade e Noronha, filha do nobilissimo Gastão de Noronha. Agora deem-me licença, que tenho de fazer quatro apresentações ao conde do Casal.

Deus livre o leitor de ver-se alguma vez nos apertos do bacharel! Corinna esperou o logar-commum que deriva da apresentação. Antonio d'Azevedo não sabia o logar-commum. Foi ella quem o disse:

--Está animadissimo o baile; mas abafa a gente de calor!

--Sim, minha senhora--disse o nosso pobre amigo, puxando pelo colchete da luva até arrancal-o com a pelica.

Corinna esperou ainda que o moço fosse além da affirmativa do calor, em que elle parecia estar mais abafado que toda a outra gente: tão copiosas lhe borbulhavam na testa e faces as camarinhas do suor!

Antonio d'Azevedo viu-se tal qual estava sendo aos olhos da filha de Gastão de Noronha. Apiedou-se d'elle o seu bom anjo. Levantou-se aquelle espirito com todo o peso da sua amargura, e disse abruptamente, mas de compasso:

--Eu não solicitei a honra de ser apresentado a vossa excellencia. Um homem desgraçado não pede relações. Fui barbaro comigo mesmo entrando aqui; mas a desventura tem mil rodeios por onde me encaminha a tudo que me augmenta o desgosto da vida. Resta-me ainda uma sombra de vaidade... Custa-me que vossa excellencia fique fazendo de mim uma ideia injusta. Não sou absolutamente estupido: sou infeliz. Perdi o dom da palavra, e só sei fallar em lagrimas, ou com a minha consciencia, na solidão. Perdôe-me vossa excellencia este intempestivo desafogo.

E retirou-se, sem dar tempo a um monossyllabo.

Corinna da Soledade seguiu-o interdicta com os olhos, e estranhou aquella novidade romanesca de que não encontrára exemplo mesmo em Paris.

Antonio d'Azevedo sahiu do baile, que era na casa do quartel general, e tomou pela rua do Sol a passo vagaroso, até receber a bafagem fria do Douro, debruçando-se sobre o peitoril do passeio das Fontainhas. Pouco depois desenrolou-se do mar um denso nevoeiro que se estendeu rio acima, e logo despediu em nuvens a subir as fragosas ribas da margem direita, e espraiou-se com taciturna presteza por sobre a cidade. A regélida neblina arrefecera a cabeça do moço. O que elle estava soffrendo era um d'aquelles phrenesis que, a longos espaços, atacam os misanthropos.

As pessoas nunca apalpadas por esta penosa enfermidade, cuidam que ou ella não existe, ou, se existe, em pouco está o combatel-a com os suaves linimentos da sociabilidade, ou pouco se deve doer de a não gosar o misanthropo que lhe foge.

Pouco sabe de tamanha desventura quem tal diz! Os accessos de vertiginosa raiva que padecem os feridos d'esta lepra moral são agonias mortaes. O esquivarem-se á sociedade, o ouvirem-se unicamente a si proprios nos monologos selvagens com que a si se amaldiçoam e amaldiçoam a humanidade, dispara por vezes em enfurecimentos e raivas, que só bem desafogam se o desgraçado, com as proprias unhas, se dilacera. O homem sem irmãos, sem familia, sem amigos, sem um mundo que lhe absorva a sua individualidade e n'elle se identifique, sáe tanto fóra das leis da natureza, que a sua angustia ha de superar todas as angustias inconsolaveis. D'estas horas tinha muitas Antonio d'Azevedo, e uma das mais longas e convulsivas estava elle penando n'aquella noite.

Havia de pensar a leitora que o infeliz ia para as Fontainhas scismar na imagem de Corinna da Soledade, contar-lhe os seus infortunios sem pejo d'ella nem das estrellas, consubstancial-a em sua alma pelo mais facil dos processos que usam amantes imaginativos; em fim, haviam de pensar os meus amigos que Antonio d'Azevedo era um poeta como nós todos os que andamos de noite a namorar senhoras nos luzeiros do firmamento, como se isso servisse d'alguma coisa para o amanho da vida de cada um e de cada uma. Em minha boa e leal verdade hei de dizer-lhes que o bacharel de Barcellos era bastante desgraçado para entender em coisas do coração, que requerem contentamento e paz de espirito. Um homem que medita no presente e futuro de quatro irmans, reconcentra toda a sua sensibilidade no coração paternal. O coração dos amores conjugaes--alvo mais ou menos remoto dos affectos enamorados--esse não se compadece com as tristezas, que gelam e como que endurecem o espirito.

Em quanto, porém, o moço engolfava os olhos e o pensamento na alvacenta nuvem que mais e mais se condensava sobre a torrente, Corinna da Soledade relanceava inquieta os olhos á procura do cavalheiro que lhe tinha apresentado Antonio d'Azevedo. Ao vel-o, fez-lhe signal com vehemente interesse, e perguntou-lhe quem era o sujeito que lhe elle apresentara.

--É um doutor de Barcellos, que eu encontrei, ha dias, hospedado em casa dos Taveiras, riquissimos commerciantes. Estes meus amigos é que devem conhecel-o cabalmente, e só elles podem informar vossa excellencia... Dê-me licença...

O cavalheiro vira de relance um dos dois bachareis, condiscipulos de Antonio d'Azevedo, e apanhou pelos cabellos o ensejo d'uma apresentação. Instantes depois voltava, e dizia ter a honra de apresentar á filha do nobilissimo Gastão de Noronha o doutor Felisberto Taveira, e deixou-os, segundo disse, para ir apresentar dois amigos da provincia á senhora condessa do Casal.

Este cavalheiro, alguns annos depois, á hora da morte, ainda apresentou ao seu confessor as testemunhas do testamento.

IV.

Corinna e Felisberto Taveira conversaram largo espaço. Gastão de Noronha, reparando no interesse e apparente intimidade com que sua filha, estranha ás dansas e a tudo, se entretinha, cuidou em averiguar quem fosse o cavalheiro. As informações deram em resultado que o fidalgo ficou contente. Houve alli um sujeito que respondeu assim arithmeticamente á pergunta do nobilissimo Gastão:

--João Bernardo Taveira, quando casou, dotou-se com cento e cincoenta contos; a mulher trouxe-lhe de dote cento e dez contos: somma duzentos e sessenta contos. Depois, o Taveira herdou de sua cunhada cento e dez contos: somma trezentos e setenta contos. O negocio d'esta casa tem ido sempre em crescente prosperidade. Dou-lhe que, feitas as despezas domesticas, o capital de trezentos e setenta contos, em trinta annos, tenha rendido nove por cento. Ahi tem vossa excellencia que a casa de João Bernardo Taveira deve hoje valer perto de setecentos contos, que repartidos por dois filhos...

--Trezentos e cincoenta contos--atalhou o fidalgo--é uma fortunasita soffrivel em Portugal...

--Eu não se me dava de a soffrer em Londres--disse o outro.

Em vista do que, o condescendente pae estimou que sua filha gastasse o tempo com gente d'aquella bitola.

Ao abrir da manhan entrou Felisberto no quarto de Antonio d'Azevedo, e encontrou-o emmalando a sua roupa.

--Isso que é?--disse Taveira--onde vaes tu?

--Vou para Barcellos--respondeu serenamente o hospede--Basta de vida regalada: vamos ao trabalho, que é o unico regalo dos infelizes. Estou aqui deslocado, meu amigo. Esta vida do teu galhardo Porto não se fez para mim. Ha de ser-me mais consoladora a soledade e a tristeza de minhas irmans. Desgraçados com desgraçados.

--Mas--interrompeu Felisberto--que vaes fazer em Barcellos?

--Abrir um escriptorio de requerimentos, e nos dias em que merecer um tostão com o meu trabalho, dar a minhas irmans um banquete que valha um tostão; e nos dias em que a minha sciencia das leis não tiver que fazer com a paz em que vivem os homens, farei discursos a minhas irmans para persuadil-as á resignação. De qualquer das maneiras carecem ellas de mim, e eu d'ellas.

--E porque não has de tu--atalhou o leal amigo--dizer ao teu Felisberto que tuas irmans estão precisadas, e que os prazeres da vida te amarguram em quanto ellas estão penando? Abre as minhas gavetas, e manda dinheiro a tuas irmans.

--Obrigado, meu bom irmão. Se a amizade te impõe o dever de ser generoso, a estima de mim proprio obriga-me a ser homem. Aquelle que vive de emprestimos, sem ter exhaurido as suas faculdades de aptidão para o trabalho, póde hypothecar a sua palavra, mas a dignidade, não, que a não tem.

--Faz a tua vontade, Azevedo; mas vê lá que o teu catonismo de dignidade te não leve até á ingratidão!...--disse com branda severidade o filho do millionario.

--Ingratidão!--acudiu o mancebo com sincera magoa.

--É ingratidão esconderes tua vida de quem está com a alma aberta convidando-te a dar-lhe o prazer de te ser util. É ingratidão privares-me da alegria de te fazer bem a ti e aos teus.

--Perdoa-me, pois...--interrompeu Azevedo, apertando-lhe estremecidamente a mão.

--Estás perdoado--tornou Felisberto abraçando-o; mas has de cumprir uma pena. Ficarás mais algum tempo comnosco. Tuas irmans não são felizes; mas necessidades creio que as não soffrem. Teu irmão Joaquim reparte com ellas o seu ordenado, e bem sabes que quatrocentos mil reis abundam á subsistencia d'uma familia em Barcellos... Vou ajudar-te a desfazer a mala.

Felisberto ia desdobrando o pouco fato do seu hospede, e fallando ao mesmo tempo:

--Porque sahiste tão cedo do baile, Azevedo? Ás onze horas já te não vi...

--Estava triste...

--E que fizestes até ás seis horas e meia fóra de casa?

--Andei a fazer a digestão da felicidade com que sahi de lá--respondeu sorrindo amargamente Azevedo.

--Que te pareceu aquella mulher com quem falaste? a Corinna?

--Chama-se Corinna?

--Da Soledade! Vê tu que nome, que poesia, e que romance! Quanto daria o Eugenio Sue por um nome d'estes? Quando aquella menina fôr conhecida dos poetas menores do Porto, todas as poesias se chamam «Corinnas da Soledade.» Que te pareceu ella a ti, alma de gelo?

Antonio d'Azevedo córou, lembrando-se de que o seu amigo ouvira d'ella ou d'outra a singular sahida da sua apresentação, adornada comicamente de motejos feminis, os mais pungentes de quantos ha.

--Riram-se de mim?--perguntou elle--Tu de certo não ririas, meu Taveira!

--Se riram! que desproposito! Que ha em ti provocador de riso?

--Entre-lembro-me de ter dito não sei quê a essa senhora... O que foi está-me fazendo a impressão de um mau sonho.

--Disseste-lhe que eras infeliz. Tu crês que a infelicidade faça rir alguem? Corinna ouviu-te, estranhou o infortunio que se confessa em bailes; mas não sorriu, condoeu-se, lastimou-te, e pediu-me que te levasse ámanhan ao baile da Torre da Marca.

--É curiosidade de mulher ociosa?

--Não: é sympathia...

--Com a desgraça?--atalhou Azevedo.

--E com o homem, creio eu; muito mais com o homem. Uma menina de vinte annos, bella, nobre, e não sei se rica, só por milagre sympathisa com o homem desgraçado.

--Então...--disse Antonio d'Azevedo, e sosteve-se.

--Então, ias tu perguntar-me se seria amor?

--Não: o infortunio estraga as faculdades da razão, mas não as cega, meu amigo.

--O que me espanta é o sangue frio com que tu ouves esta revelação, que faria endoidecer muitos felizes!--tornou Felisberto--Dar-se-ha caso que tu sejas aleijado de coração! Ó Azevedo, tu já amaste?

--Não tive ainda tempo. Quando a alma trabalha sempre, o coração nunca está ocioso. Bem sabes que fiz a minha formatura á custa de muitas vigilias. Acabei de formar-me, e fui para Lisboa requerer. Estive lá nove mezes; e, n'este longo prazo de desgostos, o menor foi a fome, e o maior foi a convicção da minha nullidade. Uma vida assim, nem por descuido se acha illaqueada nas armadilhas do amor.

--Mas deves ter sentido uma aspiração que é commum: deves ter sonhado uma mulher.

--Não, porque adormecia sempre com a barra de ferro da desgraça sobre o peito. As mulheres que via nos meus sonhos eram minhas quatro irmans lindas, desamparadas e pobres. Tinha o coração cheio d'ellas. A Providencia divina tem-me feito a mercê de não ajuntar uma quinta imagem ás quatro infelizes que sobejam á minha sensibilidade.

--Ora vamos--tornou Felisberto Taveira--Corinna da Soledade não é mulher que algum homem veja isentamente. Não te havia ser penoso amal-a, pois não?

--Tem graça a pergunta!--respondeu Azevedo com affavel sorriso--Creio que me seria muito facil amal-a se eu fosse Felisberto Taveira, ou um d'esses mil que recebem um raio d'este sol universal da esperança ou da alegria. Como queres tu que a minha alma saia do seu abysmo escuro, e vá como doida banhar-se na luz immensa, n'este mar de paixões deliciosas que eu mal conheço dos romances que traduzi, como quem copía caracteres hebraicos, sem os entender? Meu amigo, eu creio que o amor só resiste ás lagrimas, que são suas: ha um chorar que vem d'outras angustias mais severas e profundas; e, a meu ver, estas lagrimas vão ao coração, e devoram o sentimento melindroso do amor.

--É uma theoria, que estás compendiando para um futuro livro, meu Azevedo; estimo que desbanques o Balzac, o Ovidio, o Sthendal, o Castilho, e quantos escreveram do amor e da arte de amar; entretanto, convem-te recolher experiencias. Começas ámanhan a experimentar no baile da Torre da Marca.

--Tu és tão bom que me deixas ficar em casa!--disse Azevedo.

--Não posso: dei a minha palavra a Corinna, contando com a tua condescendencia.

--Iremos--acudiu Antonio d'Azevedo.

N'este mesmo dia, Joaquim, guarda-livros dos Taveiras, foi ao quarto de seu irmão, e disse-lhe:

--Trago-te uma boa nova, Antonio. O senhor Taveira chamou-me ao seu escriptorio, e augmentou o meu ordenado a um conto e duzentos, para que eu continuasse a dispender na minha decencia e pequenas negociações que faço a quantia que dava a nossas irmans. Beijei-lhe as mãos, e agradeci-lhe em nome d'ellas, e em teu nome. Agora vê tu se precisas d'alguma quantia para os teus arranjos, que eu tenho de sobra. Se queres tornar para Lisboa, vai, Antonio, que te não hão de faltar meios. D'aqui a meia duzia de annos as nossas irmans podem estar casadas com lavradores remediados, se eu tiver vida e saude. Dois mil cruzados é um bom dote para cada uma, e eu sinto-me com bastante aptidão e fortuna para os grangear de dois em dois annos, sem lhes diminuir a ellas a mesada. Quero ver se tu agora com esta boa noticia te não alegras, Antonio! Andas ahi tão acabrunhado que pareces um velho! Quem te vir assim abatido e descuidado do teu aceio, ha de pensar que algum remorso te atormenta! Vive como toda a gente mais infeliz do que nós somos. Se foste contrariado, se trabalhaste muito para te formar, agradece a Deus a intelligencia com que venceste todos os obstaculos. Se não tens agora emprego, tu serás empregado. Os senhores Taveiras morrem por ti, e tem muitos amigos na capital. Já o pae me disse que, em cahindo este ministerio has de ser delegado ou administrador d'um bairro aqui do Porto. Depois, as nossas irmans se estiverem solteiras, veem para a nossa companhia, e vão comnosco aos bailes e aos theatros...

--Cala-te, criança!--interrompeu Antonio--Se as nossas irmans hão de ir comnosco aos bailes e aos theatros, como queres tu que ellas casem com lavradores, dotadas a dois mil cruzados! Vê se as dotas, Joaquim; e dá-lhes os seus maridos lavradores, e não as chames á cidade. Não te lembras d'aquelles choupos onde cantavam de madrugada e ao anoitecer os pintasilgos, debaixo da janella do nosso quarto?

--Lembra.

--Pois olha que não ha musica mais suave a corações felizes! Deixa que nossas irmans a gosem por muito tempo; que, se a esquecerem por outra, em vão te cansarás em dar-lhes novas alegrias. Faz por que ellas não tenham de vender o seu patrimonio, que está na pequena propriedade onde os passarinhos cantam nos choupos, e onde o anjo da paz mora com ellas. Em quanto ao offerecimento que me fazes do teu dinheiro, meu bom irmão, póde ser que eu t'o acceite para uma longa viagem, visto que já não sou aqui preciso para meditar no futuro esteio da nossa familia.

--Pois onde queres tu ir?--atalhou Joaquim.

--Penso em ir ao Brazil. Dizem-me que ha alli trabalho para os braços de todas as nações, e particular amor e bem-querença para o portuguez que trabalha. O cansaço do espirito enfraqueceu-me os braços, é verdade; mas, ainda assim, quando eu puder acabar de todo com este incommodo hospede chamado a sciencia--a minha estupida e inutil sciencia!--então póde ser que os braços se revigorem, e eu restitua á minha propria dignidade, em trabalho, o que perdi na inactividade de doze estereis annos de lidas de pensamento e de vans ambições. Outras ambições me hão de levar ao Brazil: é ajudar-te, Joaquim; é ser, como tu, digno da estima dos nossos e da estima de estranhos. O homem inerte, aqui no Porto, é desconsiderado: devia sel-o assim em toda a parte onde fosse um e unico o padrão da honra. Não sei em que conta sou tido pelas raras pessoas que me conhecem aqui; mas escuto o que se diz dos pouquissimos que por ahi vagueiam de rua em rua, affectando com jactanciosa necedade que o Porto póde imitar Lisboa no seu peculiar caracteristico da vadiagem. Vexa-me a actividade d'esta boa gente, que parece trabalhar incessantemente para dar nome de laborioso a este paiz! Ando como humilhado ao par do commerciante, do artista, do escriptor e do ultimo operario. Esta ancia de lavor e de fadiga chega a mortificar-me. É ver que benefica influencia tem a labutação dos mais materiaes mesteres sobre os espiritos exclusivamente dados ás funcções da intelligencia! Parece que todo o homem anda em competencia com o outro na sua esphera de trabalho. O commerciante agenceia grandes operações em poucas horas; as forjas convertem em fórmas maravilhosas milhares de arrobas de ferro em rapido tempo; o poeta, se outro fito o não descaminha, realça na facundia e selecção de seus poemas; o romancista, com este mesmo mundo de boas paixões e febril actividade, comporá livros sobre livros sem lhe ser mister explorar as sinuosidades do vicio para ser bem-quisto e lido. E que sou eu aqui, meu irmão? Que fiz eu do meu cabedal de intelligencia? Deixei-o congelar-se sob a mão do infortunio, quando devia rasgar umas cartas de bacharel affrontosas, e vestir a jaqueta do operario, em cujas lapelas o respeito publico aprezilha muitas vezes a condecoração, invisivel sim, mas venerada na consciencia dos que nobilitam o trabalho..................................................

Eu tenho a sizudesa de poupar o leitor ao muito mais estirado discurso do bacharel. Fallou muito, como fallam os misanthropos quando uma luzinha de esperança lhes lampeja na sua escuridade. A sua esperança sorria-lhe d'além-mar, do ceo hospedeiro do novo-mundo.

V.

Dizia Gastão de Noronha á filha Corinna:

--Vi-te hontem á noite muito distrahida, menina, e gostei que te inclinasses áquelle rapaz...

--A qual, papá?

--A qual ha de ser?!--tornou o pae com um gesto de intelligencia e comprazimento--é o unico com quem te detiveste uma boa hora...

--Ah! já sei... o Taveira?

--Alli tens um excellente marido, Corinna! Trezentos e cincoenta contos... Não sabias?

--Não, meu pae--respondeu a menina, indecisa se devia desenganal-o, ou evadir-se á continuação das perguntas.

--É necessario--proseguiu Gastão em tom solemne--acabar com as distincções de raças. A velha nobreza é um merito relativo que o progresso acata, se outros meritos de natureza commum a sustentam na altura d'onde procede. As altas linhagens predominavam, quando eram as representantes dos illustres nomes e das grandes riquezas. Porém, depois que as industrias abriram fontes de ouro, sem terem de o fazer á ponta da espada e da lança, a fidalguia baixou muito do seu quilate, e teve de associar-se com ellas para não ficar sósinha, estacionaria e dessociavel. Tu viste como em França as netas dos grandes titulares de Luiz XIV vão casando com os netos dos plebeus d'aquelle tempo. Ennobrecer-se de veneras e titulos custa tão pouco, ou vale tão pouco no bom juizo dos governos illustrados, que já hoje póde cada homem rico abrir a sua burra, e fazer com que ao mesmo tempo se abra o cofre das graças. Muita gente irreflectida diz que isto é um mal; e os atilados acham que a depreciação dos fóros de fidalguia é coisa de incalculaveis vantagens para o adiantamento da humanidade. Entendem elles avisadamente que só assim, egualando os homens pela nobilitação, já que elles não querem egualar-se pelo plebeismo, conseguiremos ser todos eguaes. Ora nós, filha, que vivemos em França, onde as fitinhas são respeitadas, porque todos as desejam e trabalham para ganhal-as, vencendo uma batalha, apedrejando um rei, ou inventando uma machina de fazer colchetes, devemos ter na devida conta de desprêso uma chimera que, felizmente, em Portugal preoccupa todas as cabeças para, a final, as nivelar todas na mesma linha...

Corinna da Soledade estava ouvindo e recolhendo as sentenças do pae, com o proposito de responder com ellas ao mesmo apostolo da egualdade, se alguma vez carecesse d'isso.

Gastão continuou no mesmo tom de circumspecta gravidade: