Estrellas Propícias

Part 10

Chapter 103,857 wordsPublic domain

--Confia bem, visconde. Que admiraveis virtudes as d'este moço! Sabe vossê que um homem, conhecedor de taes exemplos de honra, nunca está bem com a sua consciencia!? Eu não sei o que já hei de fazer a favor de Antonio d'Azevedo!... Aqui me diz o meu correspondente que elle deixou ficar o dinheiro em deposito até nova ordem. Está claro que o não acceita...

--Clarissimo. Se elle não vem, como iria levantar a prenda da noiva?!--disse o visconde.

--Que se ha de fazer, meu amigo?

--Não sei: é esperar que elle tenha o que julga necessario á sua independencia.

--Vou dar um passo decisivo!--tornou Fernando, depois de breve meditação.

--Qual?

--Vossê verá. Vamos á sala. Receio que meu primo diga alguma grosseria a Corinna.

Quando entraram, a pobre menina estava chorando, e Felismina, lançando-lhe os braços sobre os hombros, segredava-lhe consolações.

Fernando approximou-se de ambos, e disse a Corinna:

--Está tudo remediado. É questão de alguns dias.

E, voltado a Gastão, disse jovialmente:

--Olé, primo! o incidente passou: torna tudo ao seu curso regular. Aqui não se falla bem nem mal de Antonio d'Azevedo. Defendel-o seria ultrajal-o. Accusal-o seria um vilipendio. Ninguem ficou mais nem menos do que era.

Na noite d'esse dia estava Corinna no seu quarto com Felismina, quando entrou Gastão de affavel semblante. Sentou-se entre ambas, e disse com mellica entoação:

--Tu és minha filha, és o meu sangue, tens pundonor de raça, e deves estar curada, Corinna. Ha muito quem te pretenda; e teu cunhado deixa-te a administração dos vinculos para tu poderes escolher marido. Tens tres bons partidos a escolher. O morgado de Villar da Rocha está aqui em Lisboa, viu-te, e perguntou-me se não estavas promettida. Um filho segundo do marquez de Travassos, familia mais antiga que a Lusitania, fez-me egual pergunta. O barão da Teixeira, vindo ha pouco da Bahia, com mais de quinhentos contos, fallou em ti ao Fernando. Escolhe.

--Não escolho ninguem--disse resolutamente Corinna--O que eu escolhia era a morte.

--Antes isso que a vergonha da familia!--replicou o pae.

--Que vergonhas dá ella á familia?--perguntou Felismina com os geitos especiaes de quem tem dois milhões.

Gastão involuntariamente respeitou a interpellação da filha millionaria. A bem dizer, a pergunta era irrespondivel.

D'ahi a pouco estava febril Corinna, e as ancias e soluços tão frequentes a opprimiram, que a familia houve medo d'algum accesso de loucura.

Fernando de Athaide, conscio da brevidade do insulto nervoso, disse ao primo:

--Não volte a injuriar a pobre menina, que a mata a ella, e perde a minha estima. Eu hei de necessariamente fazel-a feliz. Se o não conseguir, maldigo a hora em que a conheci.

Dias depois, Corinna sahira do seu quarto, pallida, desolhada e triste. O sangue mal lhe acudia ao pulso. As palavras sahiam á força de caricias. Era preciso fazel-a chorar para que as lastimas subissem do coração aos labios. Fallavam-lhe em Antonio de Azevedo, e as faces retingiam-se-lhe; mostravam-lhe o anjo da esperança a voejar para ella, e o sorriso volitava-lhe em toda a face até se confundir com as lagrimas de jubilo. Mas este mesmo jubilo era um accesso de febre. Os medicos tinham-se enganado: aquelle quebranto de forças e feições eram prenuncios de morte. A gente experimentada facilmente diagnostíca estas insaneaveis doenças: os medicos é que, do cocuruto da sciencia, o que ordinariamente palpam n'estes symptomas é uma doença que entende com o estomago ou com o figado. De coração só conhecem lezões, turgecencias, hypertrophias, aneurismas, &c. Tem assim, e por conta da sciencia, morrido muita gente, que se curava com um raio de alegria e um pouco de compaixão do mundo.

Fernando encerrou-se com Gastão, e disse-lhe:

--Vou liquidar a minha casa ao Rio de Janeiro. Mandei crenar a galera. Parto na proxima semana. Minha mulher vai comigo; e Corinna irá tambem, se o primo a ama e me estima a mim. Se ficar, morre; e se morrer, Felismina não quer voltar a Portugal.

--Vai procurar o noivo minha filha?--disse Gastão ironicamente.

--Vai procurar a vida; e se Antonio d'Azevedo lh'a dér, bem haja o salvador da nossa Corinna!

--Pois que vá: nós partiremos para o Minho.

--Pedia-lhes que ficassem em Lisboa, e não alterassem os costumes de minha casa. Tenho relações que desejo conservar. Meu primo honrará os nossos amigos, recebendo-os. Em seu poder fica a porção da fortuna que tenho em Portugal. A sua estima por mim ha de chegar ao sacrificio de esperar em Lisboa a nossa volta do Brazil.

Não se fez rogar o fidalgo. Sujeitou-se plenamente á vontade do genro.

Recebeu Corinna da Soledade a nova da viagem. Alvoroçou-se até recahir na febre; mas a crise foi leve, e rapida a convalescença.

A galera de Fernando, construida em Inglaterra, era garbosa, linda e leveira como um cysne. A tolda era um camaranchel de sedas, como o das antigas gondolas de Veneza. O chrisma para «Felismina» fadou-lhe mais ricos destinos. O amor lhe inventara os adornos, os perfumes, as graças e garridices que só o amor desentranha de suas fantasias. A sala de ré era uma ante-camara de sultana. Ia por esses mares fóra aquella concha de perolas, namorada das auras que ciciavam no velame, imitando as branduras de suas irmans derramadas pelas moitas dos gestaes. Que vontade fazia aquella gentil galera de ir ter um mundo na vastidão do oceano, e não vêr mais que ella e ceo, e um ente amado, debaixo das estrellas a espelharem-se nos paramos azues das aguas! Como alli o coração, golpeado na terra, se iria contente, se cá d'estes abysmos levasse ainda a salvo o condão da poesia que faz sahir mundos sobre mundos dos abysmos do mar!

A galharda galera, como ovante da gentil alma que levava, sahiu barra fóra com todo o panno e prospera monção. A festival menina, por esses mares fóra, sobre a tolda, a scismar, com os olhos lá no infinito horisonte, d'onde a chamava o esposo, e os favonios a enfunarem-lhe as roupas alvissimas... que linda ia! julgareis ver a pomba sobre a arca fluctuante nas aguas já serenas do diluvio!

Ao vigesimo nono dia de viagem avistaram pharoes das terras de Santa Cruz.

Corinna, ao repontar da alva, subiu ao tombadilho, e viu a cidade d'oiro, a rainha do novo mundo, espreguiçando-se do ultimo somno entre os ceruleos coxins do seu immenso leito com pavilhão de mil flammulas e bandeiras. Parecia-lhe ver caminhar a terra, mar dentro, a recebel-a; mas tardio era o avançar da galera a encontral-a.

--D'aqui a meia hora?--disse ella a Fernando.

--Sim, d'aqui a meia hora, minha egoista!--respondeu o primo, e continuou sorrindo--D'aqui a meia hora já não tens patria, nem irman, nem cunhado! O Antoninho, que, a estas horas está escrevendo uns _provarás_, com o supremo tedio de que é susceptivel a creatura humana, vai receber um golpe d'alegria mortal!... Haverá no genero humano um segundo homem a ponto de experimentar prazer egual?! É impossivel que elle te não adivinhe, mana Corinna! salvo se o coração de um jurisconsulto é tapado a toda a casta de inspiração divina!........... ......................................................................

A este tempo, chegava Antonio d'Azevedo Barbosa, ao caes.

Adivinhou, com effeito?--pergunta o leitor.

Nem sombra de presentimento, meu amigo! O que trazia ao caes, e a bordo de um navio, Antonio d'Azevedo, é successo infausto que tem uma historia concisa, mas necessaria.

Um dos irmãos do bacharel, Francisco d'Azevedo, era caixeiro, em Lisboa, n'uma casa de cambio da rua dos Capellistas. Merecera um bom nome, e cahira em tentação depois de o ter merecido. As desordens da vida, as demasias de luxo, a ancia de mostrar-se rico aos olhos d'uma mulher que distinguia os moços ricos, induziram-no a subtrahir, com intenção de os repor, capitaes, que excediam os seus ordenados de dois annos. Francisco jogou na esperança de resgatar-se, e cavou mais no abysmo de sua perdição. Quasi a ponto de ser descoberto, quando o patrão dava o balanço, o caixeiro desappareceu, e fugiu caminho do Brazil, confiado na reforma de seus costumes, e na possibilidade de ganhar depressa com que restituir o furto.

Chegou ao Rio, e procurou o irmão. Deu explicações inventadas da sua ida, e conseguiu logo, mediante Antonio d'Azevedo, boa casa, bom ordenado e muita estimação dos patrões.

O bacharel estava contente do expediente de seu irmão. Lembrava-se que assim mais cedo as irmans teriam bom amparo.

Lia, passados trinta dias, Antonio d'Azevedo o _Commercio do Rio de Janeiro_, e casualmente parou os olhos sobre esta correspondencia, intitulada: _Cautela com os ladrões._

E seguia d'este theor:

«_Fugiu de Lisboa, com direcção ao Brazil, um caixeiro do cambista F***. Chama-se Francisco de Azevedo, natural de Barcellos. Desfalcou o patrão em dois contos de reis. Para que o ladrão não logre o bom resultado das suas manhas, avisa-se o commercio do Brazil._»

Antonio d'Azevedo viu entre si e o jornal um redemoinho de scintillas de lume, e, ao levar as mãos aos olhos, tinha perdido os sentidos. Este lance passára-se no escriptorio de Valentim da Costa.

Entrara o velho, e ouvira o soluçar cortante do seu amigo. Interrogou-o com paternal carinho. Azevedo ergueu-se como atordoado, e, ao sahir, murmurou estas palavras:

--A infamia está ahi escripta n'esse jornal.

Foi ao armazem onde Francisco era guarda-livros; entrou no gabinete particular do negociante, e encontrou-o lendo o jornal.

O negociante estava correndo a primeira pagina, e a noticia vinha na segunda.

--Por cá, doutor!--disse alegremente o patrão de Francisco--Vem saber como vai o nosso homem? Optimamente. Estou contentissimo. É seu irmão, e basta!

Eram frechas que varavam o peito de Antonio de Azevedo! A dor rompeu-lhe em lagrimas. O negociante viu-as, e exclamou:

--Que tem o doutor?! Alguma desgraça de familia lá na terra? Morreu-lhe algum de seus irmãos?

--Morreu Francisco--balbuciou o bacharel.

--O quê? morreu Francisco! O doutor está a sonhar! Pois não o viu quando entrou?!

--Morreu para a honra--tornou já serenamente Antonio--Ahi está na segunda pagina d'esse jornal o ignominioso epitaphio do desgraçado.

--O quê? que diz o doutor de epitaphio?

Azevedo collocou o dedo indicador sobre a correspondencia. O commerciante leu, e fez-se amarello. Depoz o jornal, levou as mãos aos raros cabellos brancos, e disse:

--Tem razão, doutor! seu desgraçado irmão está morto!

--Vim para o levar comigo. Queira o senhor dar-lhe ordem de sahir. Rogo-lhe a generosidade de não lhe dizer a causa por que o despede.

Deteve-se a scismar o negociante, e disse com energia de boa alma:

--Vamos ver se o salvamos.

--Salval-o como?

--Vai com outro nome para o Pará.

--O nome não é o infamado; é elle. Creia o meu amigo que eu não vim pedir-lhe a sua protecção para salvar o homem indigno d'ella. Vim buscar meu irmão.

Foi chamado Francisco.

--Dá contas ao senhor Silva, que vaes sahir de sua casa.

O guarda-livros fez-se roixo.

--Não ha explicações previas--tornou Antonio--Apresenta os livros a teu cargo ao senhor Silva.

--Os livros estão vistos--disse o negociante--Não tenho a menor suspeita da probidade do senhor Francisco.

--Suspeita?--atalhou este.

--Silencio!--disse imperiosamente Antonio--Vamos.

O commerciante apertou a mão do bacharel, e lançou ao irmão um olhar compassivo.

Francisco hospedou-se com Antonio. Dois dias depois, recebeu de repente a noticia da sua volta a Portugal, accrescentada d'estas palavras:

--Entrega esta carta em Lisboa. A pessoa a quem a entregas irá comtigo a casa do cambista F***, teu patrão que foi. Darás ao cambista o dinheiro em que elle se disser roubado por ti. Cobrarás recibo, que me enviarás. Feito isto, recolhe-te a Barcellos, e pede a tuas irmans que te dêem um quinhão da sua subsistencia.

Francisco, lavado em lagrimas, quiz ajoelhar aos pés de seu irmão, e contar a historia dos seus desatinos.

--Não ha historia que absolva um roubo--disse o bacharel.

E no dia seguinte, quando elle acompanhava ao navio o irmão, é que a vistosa galera _Felismina_ se baloiçava, como odalisca, sobre a camilha azul das aguas que reverberavam o sol nascente, e se cobriam de scintillante lhama de oiro.

Olhem a felicidade de Corinna e a felicidade de Antonio de Azevedo!

XVIII.

Antonio de Azevedo foi abrir a reprêsa de lagrimas no seio do ancião que o esperava com as suas, unico balsamo das supremas afflicções.

--Veja a minha vida!--disse entre soluços o bacharel--Pensar eu que o muito trabalhar me daria um quieto contentamento, e que, além dos dissabores do coração, nunca teria outros!... E agora estes! os da ultima deshonra! uma vergonha irremediavel que me priva de olhar de frente para os homens que estimaram meu irmão por amor de mim!

O velho, combatendo os escrupulos do moço, teve a admiravel e inspirada eloquencia da verdade. Declinou a deshonra sobre quem a praticara, e provou ser aquella desgraça mais uma prova para aquilatar as virtudes do bacharel. Verdadeiros, mas, ainda assim, inconsolativos argumentos!

Fallaram longo tempo. Valentim não deixara sahir o amigo n'aquella manhan, receoso de que a solidão lhe amargurasse a mais as apprehensões.

Quando o moço se impunha a si mesmo o preceito da força para o trabalho, e o velho insistia nos seus dictames insinuativos de coragem, entrou no escriptorio Fernando de Athaide.

Antonio de Azevedo, como a desentorpecer-se de um glacial spasmo, estendeu-lhe machinalmente a mão e deixou-se abraçar. Valentim fazia um alarido de exclamações de espanto, que não deixavam ouvir o adventicio.

--Vejo-o triste e demudado, senhor Azevedo!--disse o primo de Corinna.

--É oiro que está ainda ardendo da ultima prova!--respondeu o velho--A desgraça cuidou que o fulminava; mas a honra venceu.

Antonio d'Azevedo fez um gesto supplicante de silencio ao doutor, e disse a Fernando:

--Ninguem o esperava no Rio, senhor Athaide.

--Foi uma partida repentina. Assim é que se fazem as coisas!

--Como ficou Corinna?--perguntou Azevedo; e logo as lagrimas lhe saltaram a quatro, e uma ancia lhe ressumou á face em suor frio.

Sentou-se quebrantado, e murmurou:

--Desculpem-me: estou-me fazendo mulher... Estas lagrimas, se as não chorasse, matavam-me.

--São de saudade?--disse Fernando.

--São de desesperança, cuido eu--respondeu Azevedo, escondendo os olhos com as mãos.

--Anime-se!--exclamou Athaide--Que descorçoamento é esse, improprio d'uma alma de bronze! Azevedo, saia d'essa lethargia! Olhe que Corinna ama-o como sempre, e espera-o com a anciedade d'um anjo consolador de todas as suas mágoas.

--Tardia virá a consolação!--balbuciou o moço--Deus me livre de a condemnar a soffrer debaixo da minha estrella... Escreveu-me ella?

--Que pergunta! Tenho em casa uma carta sem fim, que o meu amigo ha de lêr como se ella mesma a estivesse fallando! Venha comigo, e cuidará que tem entre mãos, não uma carta, mas o proprio coração da sua Corinna!

--Agora consinto que vá!--disse o velho.

--E o doutor vem tambem--acudiu Fernando.

--Vamos lá!--voltou o velho--Vossês os rapazes andam comigo d'aqui p'r'ali, como se esta gotta não merecesse respeito nenhum á geração nova! Ora esperem ahi, que eu vou vestir a dalmacia, a casaca circumspecta! Sua senhora veio?

--Veio, sim.

--Ah!--disse Azevedo--está cá a senhora D. Felismina?!

--Pois eu havia de deixar lá a alma! Então vossê não sabe que marido eu sou! Minha mulher sou eu--disse com festivo semblante o millionario.

Sahiram.

--Isto veio do ceo!--disse Valentim--Quem distrahiria o meu pobre Antonio, se lhe não chegassem os bons amigos da patria! Vai ter um dia cheio, meu amigo! Quem lhe fallaria com mais ternura da sua Corinna que a irman querida! Felismina se chama ella: hoje é que é _feliz mina_ de consolações para o meu desterrado!

Assim, com estes dizeres affectuosos do alegre ancião, chegaram ao grandioso predio, que Fernando habitava.

Na primeira sala esperava-os Felismina. O doutor, que subia na dianteira, ao vêl-a, exclamou:

--Sim, senhores! É muito linda! Ha muito que não vi d'estes fructos da minha terra! Quero e gosto que as senhoras brazileiras vejam o que lá ha por Portugal!

Felismina sorriu-se ao galanteio do velho, e abraçou Antonio d'Azevedo.

--Como está abatido!--disse ella.

--Abatido no rosto, mas Sansão na alma!--acudiu Valentim.

--Acha-me velho?--disse Azevedo--N'este paiz acaba-se depressa o homem que se não exercita muito, e endurece ao fogo do sol. A sua familia, minha senhora, ficou boa? A senhora D. Corinna?

--Como faz essa pergunta, senhor Azevedo!...--disse Felismina--Que frialdade! Dar-se-ha caso que vossa senhoria não ame já minha irman?

--Por Deus, minha senhora!--respondeu o moço--Todos os infortunios podem menos sobre mim que uma injustiça, que deixa de ser injuria por ser dita por vossa excellencia.

--Se elle ama sua irman!--atalhou o velho--Ó minha senhora, se os meus cabellos brancos inspiram confiança, creia vossa excellencia que o meu Azevedo ama tanto sua irman que, por amor d'ella, excede-se a si proprio na prática das virtudes. Grande e distincto deve ser o amor que faz o virtuoso! Vicios e crimes é o que eu tenho visto resultar dos amores vulgares...

--Está o senhor Azevedo ancioso por que lhe entreguem a carta de Corinna--disse Fernando--Vai tu buscal-a, Felismina.

Abriu-se uma porta, e appareceu Corinna, exclamando:

--Não preciso que me tragam!

E cuidam que ella impallideceu, desmaiou, ou, pelo menos, expediu um ai de procedencia dramatica?

Não, senhores. Corinna entrou de corrida, leve como um gnomo, a rir e a chorar, purpureada, com os olhos a saltar-lhe fóra da face, os braços abertos e convulsos, a respiração como tomada, e os labios crispando nervosamente, sem poderem proferir o quer que era de que só os dramaturgos acham sempre uma expressão insipida, incolor e inverosimil.

Antonio de Azevedo é que (sem desaire seja dito) deu uns ares de idiotismo, que, na scena, seriam lastimaveis! Abraçou Corinna, como a medo: era a primeira vez que a sentia nos braços. Fitou-a como quem duvída; remirou-a, como quem teme um engano dos sentidos; estava-se acordando do sonho; invocava a sua razão; e, quando a razão lhe mostrou em volta d'elle todas as faces orvalhadas de lagrimas, é que Azevedo pôde exclamar:

--Bem hajas, anjo de Deus!...

Imagine agora a minha leitora os successos indescriptiveis d'este lance. Por pouco imaginativa que seja, vossa excellencia ha de avultal-o melhor em sua fantasia do que eu poderia dar-lh'o n'esta pagina. Uma só poesia creou a natureza para taes quadros: é a poesia da pintura.

Foram cinco minutos de febre, de delirio, de silencio, de ouvir-se o bater forte e descompassado de cinco corações. Ora pintem lá isto, a não ser em expressão de olhos, de labios, de feições que só, em casos d'estes, se vos deparam em pinturas christans, onde os enlevos são ceo, bemaventurança e alegria de santos. E haveis de notar que o proprio pincel profano antes se quer a pintar expressões angustiosas, porque as visagens da afflicção mais se prestam ao relevo, como em Niobe, em Laocoonte, em Ugolino. Quer tudo isto dizer que tenho diante dos olhos aquelle espectaculo de jubilos, e desisto de descrevel-o para de todo em todo me não capacitar de minha inhabilidade.

Porque hei de eu dizer tão affoitamente «espectaculo de jubilos», se Antonio d'Azevedo, momentos depois, se deixava senhorear da lembrança do irmão, banido do numero dos honrados! A candida Corinna encarava n'elle com olhos aguados, e no lacerante silencio de sua alma perguntava a si mesma, que fizera ella para ser menos amada! De que outro modo se explicaria a tristeza do moço n'aquella primeira hora!

Não pôde ter-se que o não chamasse a um ponto mais afastado da sala onde se tinham ficado Valentim e Fernando, em quanto Felismina sahira a dar ordens.

--Tu estás melancolico, Antonio!--disse ella, tomando-lhe a mão com estremecida ternura--Viria eu contrariar a tua vontade? Estaria eu enganada comtigo?...

--Vejo-me indigno de ti...--respondeu Azevedo.

--Indigno de mim!--tornou ella crescendo no afago da expressão convulsa de lagrimas--Pois tu não tens sido mais que nobre para seres digno da mais nobre e pura mulher! Quererás que eu te recorde as tuas virtudes, meu querido amigo!?

--As minhas virtudes--replicou o moço--tão frageis eram, que talvez a esta hora tenham sido reputadas hypocrisia.

--Ó filho!--exclamou ella--desconfio da tua razão! Muito deves ter padecido para te considerares assim, quando em volta de mim os teus merecimentos são louvados com admiração de todos!...

--Escuta-me para me consolares, Corinna. Deus quiz que tu viesses á hora em que toda a esperança me ia fugindo...

Antonio d'Azevedo contou a Corinna a ignominia de seu irmão, e levantou a voz de modo que Valentim, no angulo opposto da sala, ouviu tudo. Ergueu-se o velho, caminhou para elles, e interrompeu a exposição do bacharel.

--Senhor Antonio d'Azevedo, antes do infortunio de seu irmão, vossê, no Rio de Janeiro, gosava nome de intelligente, laborioso e honesto; depois do infortunio de seu irmão, o nome de Antonio d'Azevedo é proferido com o acatamento de que homem nenhum de sua idade se tem gosado. Os velhos honrados da sociedade brazileira querem conhecel-o: os portuguezes citam o seu glorioso procedimento com orgulho. O facto é de ha tres dias, e tem corrido de bôca em bôca como raras vezes acontece a uma boa acção. Ora pois! Eu sei bem o que é dignidade; achei que a sua se manteve sempre na altura dos mais dignos homens d'outros tempos; admirei-o e louvei-o pelo que outros chamariam demasias de orgulho sob capa de independencia; agora, porém, é chegada a hora de eu lhe dizer que, assim como a suave religião se descaminha até ao fanatismo execravel, assim a briosa dignidade, se perde o rumo do bom juizo, vai dar comsigo n'uns excessos rudes, insociaveis e repellentes. A sociedade applaude os virtuosos, mas desadora os que fazem de sua virtude uma tribuna para lhe censurar as fraquezas. O excesso do bem é um mal que não me aproveita a mim, nem a outrem. Eu quero que Antonio d'Azevedo se mostre alegre para que o mundo não diga que a honra tem uns pavores interiores refractarios ao contentamento. A boa consciencia é alegre, senhor. E o melhor beneficio que vossê póde fazer aos homens é convencel-os de que vai indo seu caminho, arrancando os espinhos dos pés, e sorrindo ás novas desventuras que o impecem. Fallou o velho. Diga agora o anjo, a nossa Corinna, o que será preciso fazer-se a esta criança decrepita para a levantarmos do seu abatimento?

--Se eu pudesse...--balbuciou Corinna.

Antonio d'Azevedo levou aos labios a mão de Corinna, e murmurou:

--Emenda tu os defeitos da minha desgraçada indole... Dá-me paz, Corinna; dá-me a uncção do teu amor, e eu me salvarei de mim proprio...

--Primeiro passo a dar!--exclamou Valentim da Costa--O primeiro passo a dar é casarem-se, meus filhos!

N'este momento entrou Felismina, e disse:

--Está o almoço na mesa.

Valentim continuou:

--Visto que está o almoço na mesa, o primeiro passo a dar, meus filhos, é... almoçar!

No decurso da conversação durante o almoço, disse Fernando de Athaide:

--Ahi vão novidades, meu caro Azevedo. O visconde da Cruz casa brevemente com Emma, e Luiz Taveira com Leonor. Eliza tem doze annos, e já é pretendida. Quem de certo nos fica solteira é a nossa Corinna! que pena!

Riram todos, e Valentim exclamou:

--Solteira! essa é boa! Não consentirei eu que a belleza assim seja ultrajada! Aqui está a minha mão, senhora D. Corinna! É um sacrificio que faço da minha isempção; mas faço-o para que suas manas se não riam de vossa excellencia.

XIX.

Tres mezes depois dos grandes successos froixamente descriptos no anterior capitulo, Fernando de Athaide e sua mulher vinham caminho de Portugal; e Corinna da Soledade e seu marido Antonio d'Azevedo habitavam, nos arrabaldes do Rio de Janeiro, uma chacara de modestas regalias.