Chapter 9
--Vae dizer ao capellão que procure os primos Mellos e os primos Peixotos, e lhes diga que venham cá ter mão no sr. Gonçalo que foi atacado de um accesso de demencia.
Foi a creada dar o recado. O capellão ouviu-o, e benzeu-se com a mão direita; saíu do quarto e benzeu-se com a esquerda; e ao transmittir a infausta noticia a Mellos e Peixotos, benzia-se com ambas as mãos.
Acudiram os primos e Gonçalo recusou-se a recebe'-los, cuidando que vinham ao cêvo do escandalo para ultraja'-lo com fingidas caramunhas. Ouviram a prima Maria, e convieram em que a fuga de Maria Henriqueta para casar com Filippe Osorio Vaz Guedes da Fonseca, tão fidalgo como ella, não merecia tamanhos alvorotos, nem a loucura do primo Gonçalo, por tal motivo, captivaria a compaixão publica.
Repellidos do quarto do velho, segunda e terceira vez, os fidalgos saíram a divulgar o caso sem o classificarem de deshonra, imputando, porém, a culpa d'ella, se culpa havia, ao pyrronismo de Gonçalo Malafaya, que sonhava com enxertar um conde na familia, ainda que o conde fosse um tolo e um perdulario.
Ao meio dia estava Gonçalo vestido de rigoroso lucto, e os lacaios de lucto tambem.
D. Maria das Dôres vestia de azul claro e ordenava ás suas creadas que se escusassem de completar a irrisão da casa.
Entrou o fidalgo na sua carruagem, e foi a casa de todos os magistrados do crime pedir justiça. Acolheram-n'o com respeitosa compaixão, e prometteram precatorias para os fugitivos serem presos, onde quer que a policia os descobrisse. Gonçalo a todos disse que dava os seus haveres pela captura de Filippe, e a si proprio se venderia para pagar os ultimos ceitis aos esbirros.
As cartas precatorias saíram desde logo para differentes pontos do reino, e algumas para Hespanha. E, ao mesmo tempo, as justiças militares tiravam summario despacho para a captura do desertor.
Maria das Dôres, sciente dos mandados judiciarios, enviou pessoa de sua confiança a Mirandella, avisando o pae de Filippe Osorio, e escrevendo a sua filha uma carta mais de indulgencia que de recriminação. «O mal está feito,--dizia-lhe ella--mas em parte considero-o sanado pelo casamento. Escondei-vos cautellosamente, em quanto a tempestade ameaça fulminar-vos com a vergonha de uma prisão. Não entreis em Portugal sem que eu vo'-lo diga; nem vos mostreis em Hespanha, porque as ordens hão de lá chegar, em mãos de quem primeiro as encheu de ouro nos cofres de teu pae, etc.»
A carta foi dar ás mãos de Maria Henriqueta, que a essa hora trajava de homem, e se chamava em Hespanha D. Luiz de Castro, irmão de D. Pedro de Castro, nomes inscriptos no passaporte de Filippe Osorio.
Estavam então em Sevilha, e tão descuidados, tão ebrios de seu amor, que nem a carta os alvoroçou. «N'esse tempo (dizem os apontamentos que tenho á vista) figurando ella de lindissimo moço, deu-lhe que fazer o amor das hespanholas, que morriam por elle; e _D. Luiz de Castro_ sustentava os namoros, para rir com o marido, mas sem saber que saída a final lhes daria.»
Pernoitavam os ditosos esposos em Segovia, onde os anteciparam cartas da capital da provincia, recommendando os dois _Castros_, cavalheiros portuguezes. Convidou-os o alcaide para uma tertulia, e banqueteou-os no dia seguinte, a pedido das filhas, que eram duas, e cada qual se apaixonára do seu Castro. Praticaram-se cousas de Portugal, e caíu a proposito perguntar o alcaide aos seus hospedes se conheciam um Filippe Osorio Vaz Guedes da Fonseca, desertor de cavallaria 6, que havia roubado de um mosteiro a filha de um _fidalgo_ de linhagem, solarengo no Porto.
Disse _D. Pedro de Castro_ que sobejamente conhecia o desertor. Contou miudamente a historia triste dos seus amores com a filha do fidalgo, e tão a enternecer o disse que as sensiveis hespanholas choraram de ouvi'-la, e o alcaide jurou que rasgaria a ordem, que tinha, de prende'-los se alguma vez reconhecesse os sympathicos fugitivos no seu districto. A intimidade cresceu tanto entre a auctoridade e os hospedes, que, decorridos alguns dias, Luiz de Castro appareceu vestido de Maria Henriqueta ao alcaide e ás filhas, que ouviram d'ella a historia, repetida com mais graça e affectuosa tristeza, dos seus amores com Filippe Osorio.
Desde essa hora, o magistrado hespanhol não velaria com mais zelo a segurança de seus filhos. Onde quer que iam, lá os antecipava a influencia do alcaide, de modo que se viam em toda a parte festejados os dois cavalheiros portuguezes, e requestados de quantas damas os abrasavam com os olhos e com o chocolate.
Segovia era o logar onde iam a desfadigar-se das excursões ás provincias, e onde as cartas do reino iam dar com elles.
Na casa do alcaide deu á luz Maria Henriqueta uma menina, findo o primeiro anno de casada. E então acabaram as excursões, e retiraram-se a uma quinta dos arrabaldes para, a salvo de suspeitas, se despirem das ficções, e viverem em toda a ingenuidade de esposos e paes. Lá lhes eram assidua companhia as duas filhas do generoso hespanhol, proprietario da quinta. Alli vieram os irmãos de Mirandella visitar o irmão, e dar-lhe a boa nova de quasi esquecimento em que estava sua deserção. N'este ensejo foram elles portadores de carta de D. Maria das Dôres, que, em resumo, dizia: estarem mais benignos os ares; mais brando o coração do pae, tendo já dito que antes queria ver a filha e perdoar-lhe, que receber a noticia da morte d'ella. Accrescentava que este dizer não a auctorisava a chamar a filha; porque o pae tinha intercadencias de prostração, quando perdoava, e de cólera quando pedia vingança aos céos, e insultava os magistrados como inertes. Terminava, recommendando-lhe que se tivesse sempre em guarda, e se fiasse só de sua mãe, quando a chamasse.
Decorreram seis mezes. Sempre o céo claro sem nevoa; sempre a ventura candida e pura como o sorriso da creancinha, que dissereis vinda do céo a completar o grupo da suprema bemaventurança na terra. Para cumulo de felicidade, chegou a Segovia uma carta de D. Maria das Dôres, dizendo á filha:
«Vem, agora sem receio. Venci teu pae, com as armas da humildade. Só por amor de ti as empregaria. Perdoa-te, recebe-vos, quer-vos para filhos. Sabe que tem uma neta. Disse-lh'o eu, quando o vi tão bom! Perguntou-me estupefacto como eu o sabia. Occultei-lhe os promenores; disse-lhe em suma, que eu fôra sempre mãe. Fitou-me de um certo modo, que me incutiu receios de me ter enganado: mas, em seguida, voltou á sua segunda natureza compadecida. O peor, filha, será o crime de teu marido, que o força a livrar-se, e agora as leis militares inglezas creio que são severas para desertores. Se vês que teu marido tem grandes trabalhos a vencer, antes o desterro com a liberdade; e mais ao diante valeremos mais com as leis se teu pae quizer protege'-lo etc.»
Ao mesmo tempo, o fidalgo de Mirandella dizia a seu filho que andava dispondo as cousas para elle ser julgado e absolvido. Que alcançára promessas favoraveis, e esperava em breve manda'-lo recolher á patria, com a certeza da absolvição.
Que luz tão formosa as estrellas funestas irradiam ás vezes! Como a desgraça negaceia com as suas victimas dilectas! Que pena me faz ir d'aqui através cincoenta annos, e por entre o pó de uma geração dispersa no ar, áquella quinta suburbana de Segovia, e contemplar aquelles dois esposos com a filhinha entre os peitos de ambos, arrobados de alegria, dando-se os parabens da sua final victoria, e saudando as alegrias da patria, só inferiores ás alegrias de dois corações triumphantes sem infamia, felizes sem remorsos! Com que vontade eu quebraria aqui a penna, se tenho de tirar d'ella paginas negras da vida dos dois tão dignos, tão abençoados, tão bemquistos da leitora que amou ou ama, do pae que perdoou ou tem de perdoar um dia, do mundo que sentenceia, ou já sentenciou paixões, que exorbitam do estadio commum! Ai! eu antes queria inventar, antes mentir, antes lançar de mim com asco estes apontamentos!
Eu sei como a vida podia ter lances de contentar a phantasia. Quantas vezes, em historias imaginadas, eu levo posto o fito n'uma caverna onde os meus personagens vão caír; e já perto, já com elles á borda do despenhadeiro, sustenho-me, chamo-os, acaricio-os, salvo-os, e dou-lhes a gloria, em vez do inferno que lhes fôra talhado! Como eu fico então contente de mim, e o leitor contente d'elles! Só n'estes conflictos é que eu avalio os thesouros da imaginação, e o segundo _fiat_ de mundos moraes que a magnanimidade divina concede aos romancistas.
N'esta historia queria, e não posso. Estou coacto e maniatado ás gramalheiras da noticia, que me foi ministrada por pessoa, que me obrigou o juramento de não falsear a verdade.
E, de mais, se eu conseguir levar ao tumulo dos meus infelizes uma lagrima da leitora; se alguma hora, subir da terra um pensamento ao céo dos martyres, não será esse favor da piedade um bem tão consolativo para elles? A quem hão de elles agradecer o pensamento e a lagrima se não a mim, que lhes contei os infortunios, e, em vez de um epitaphio, lhes colloquei uma urna para os que lá quizessem chorar, e a mais triste pagina d'este livro para quem quizer consolar-se das suas nas desventuras alheias?
FIM DA SEGUNDA PARTE
TERCEIRA PARTE
I
Vieram os esposos acompanhados até á fronteira pelo alcaide e suas filhas. Ahi se despediram com muitas saudades e esperanças de se encontrarem, passados dois annos, no Porto. O cavalheiroso hespanhol disse a Filippe Osorio e á consorte: «Se alguma vez fordes desgraçados na patria, lembrae-vos do céo de Hespanha, e do vosso segundo pae, e de vossas irmãs. Em nossa casa sois familia nossa; e já sabeis que em toda a Castella sois como bons filhos da nossa boa terra. Seja a nossa amizade um modelo do que deviam ser os irmãos da peninsula, os que se apartaram eternamente odientos em Aljubarrota e Montes-Claros. Se fordes felizes, nem por isso nos esqueçaes.»
Chegaram a Mirandella. D'ahi escreveu Maria Henriqueta a sua mãe perguntando-lhe se podia ir para o Porto confiada no perdão do pae. A resposta carecia de inteira affirmativa; mas accedia ao desejo da filha. «Teu pae, ponderava D. Maria--diz e desdiz; ora condemna, ora perdôa; todavia, eu conto comigo e tu com a tua filhinha. Por mais mal que te faça, serão só palavras: e palavras o vento as leva, e outras te dirá depois que te compensem algum dissabor. Em todo o caso, vem, que eu vou dar o ultimo assalto, e segurar o lanço.
Escripta esta carta, D. Maria das Dôres convidou o marido a passar duas horas em seu quarto, antes de recolher-se. Gonçalo accedeu ao geito blandicioso da esquiva prima, raras vezes meiga. A soledade, a tristeza, a velhice, e o quasi desamparo em que o deixaram amigos e parentes, crearam n'elle a precisão dos carinhos.
Foi Gonçalo ao quarto de sua mulher, e encontrou-a lendo a carta de sua filha.
--Quem te escreveu, prima?--disse elle.
--Foi a nossa pobre Maria Henriqueta.
--Tem fome por lá? O amante abandonou-a?
--Não digas «amante», primo. Marido é o nome que tem.
--Marido, sem o meu consentimento! As leis não me dispensam de ser ouvido.
--Dispensa-te a lei de Deus, meu Gonçalo. Estão casados, e eternamente casados.
--Pois que sejam felizes.
--A nossa filha só póde ser feliz com o teu perdão.
--Tu ahi tornas!...
--E tornarei sempre; quer Deus que eu seja a sua voz ao teu bom coração. Perdoa-lhe, primo!
--Foi para isto que me chamaste?! Eu logo vi que era demencia esperar allivios... Se ella tem fome, manda-lhe dinheiro; se está abandonada, diz-lhe que torne para o convento, e lá terá abundancia.
--Nem fome, nem abandono, Gonçalo! Parece que dás mui baixo preço a tua filha! Aquella menina tão linda e prendada, haveria homem que a abandonasse?
--Linda era a outra que...
--A outra qual?
--Nada...--disse Gonçalo, sacudindo a visão de Beatriz de Noronha.
--Ignoras tu--proseguiu D. Maria--que o pae de Filippe é rico, e extremoso pelo filho? Eu sei que os esposos viveram em Hespanha com todas as commodidades, e nunca Maria me pediu a menor cousa, nem as suas joias, nem os seus vestidos. O que ella pede é a estima de seu pae, e quer pedir-te perdão pela bocca de sua filhinha, que tem sete mezes. Não se te alegra o coração com a esperança de teres nos braços uma creancinha, filha de nossa filha?
--Que fatalidade!... Mais uma mulher!...--exclamou elle com entonação pouco abonatoria do seu bom siso.--Então isto é uma cadeia de desgraças? Melhor lhe fôra á mãe desobediente esmagar a filha no berço, para não crear ao seio a vibora que me ha de vingar!
--Cala-te, meu primo, meu querido Gonçalo! Que sombrios vaticinios os teus! Quando te alumiará a Providencia Divina essa escuridade em que vives?
--Ha de alumiar-m'a a lampada da sepultura. Isto em mim é o horror das trevas eternas, sem mais luz nem esperança!
--Ora, vem cá, filho!--tornou com extrema maviosidade a esposa, tomando-lhe as mãos, e aconchegando-as do peito--Não desprezes a luz que o céo te manda nos olhos carinhosos da tua netinha. Verás que vida nova se nos faz na velhice. Has de sentir o que é consolar-se a alma perdoando. Sabes tu quantas penas terá curtido nossa filha, desterrada, por terras extranhas, mudando de nome para não sacrificar o marido...
--O marido! atalhou em voz soturna Gonçalo--O marido! Se ella podesse convencer-me de que não casou... perdoava-lhe!
--Não digas tal, primo, por dignidade nossa e d'ella! Pois tu negas perdão á esposa, e da'-lo-ias á concubina?! Cala-te, que desvarias; a tua razão e coração devem contradizer esse desatino, que é uma doença do teu espirito. Eu sou mulher, e mãe, e não perdoaria á filha, que, contra nossos conselhos, se tivesse sacrificado a um infame seductor. Torna em ti, meu primo, e convence-me de que estás bem com a tua consciencia, perdoando o mal, que te fez a desgraçada, que só por amor invencivel poude desobedecer-te. Aqui tens a carta que me ella escreve de Mirandella; olha estas expressões: _Ás vezes penso que meu pae ha de amar muito esta creancinha, que tem já no rosto signaes de vir a ser muito parecida com elle. Se eu podesse mandar este anjo adiante de mim, seria elle quem me abrisse as portas do paraizo de minha familia_: Vês tu? É a tua Maria Henriqueta que fala assim ao teu coração. Tu já lhe perdoaste, não é verdade?--continuou a esposa com transporte, beijando-lhe as mãos e o rosto--Posso dizer-lhe que venha afouta beijar estas mãos, que eu beijo tão reconhecida como ella?
Gonçalo caíu sobre a cadeira d'onde, momentos antes, se levantára na tenção de fugir do quarto. Escondeu o rosto no seio, e passados anciosos instantes, murmurou:
--Que venha; mas que eu a não veja.
Saiu Maria das Dôres vaidosa do seu triumpho. As ultimas palavras do marido equivaliam ao perdão. Não querer ve'-la seria a transição para ve'-la, e ama'-la. N'este presupposto, deu como rehabilitada a filha e participou ufana aos seus parentes e visitas o ter ella congraçado Gonçalo com seu genro. Os parentes, alegres com a nova, iam da sala ao quarto do fidalgo felicita'-lo, com grandes louvores de seu juizo e nobreza d'alma, censurando ao mesmo tempo, que tardiamente o fizesse. Estes emboras irritaram o velho, por partirem de pessoas, que elle tinha em odio á conta de lhe molestarem os brios, chasqueando-o agramente por ter querido, á fina força, casar a filha com o conde de Monção.
--Eu não disse ainda que perdoava!--redarguia o fidalgo irado--A prima Maria das Dôres está brincando com a minha decrepitude. Não me arrependo do que fiz; hei-de ter brios até ao fim da vida, e muito desprezo para quem duvidar se eu os tenho.
Isto era pungentemente allusivo.
Os primos iam ter com a fidalga, e diziam-lhe que acautelasse a filha dos primeiros impetos do pae, cuja alma estava ainda muito crúa, e a soberba muito inflamada.
Debaixo da má impressão dos parabens, que elle imaginou ironicos e offensivos, saíu Gonçalo Malafaya a prevenir o chanceller, o regedor das justiças, e o juiz do crime de que sua filha estava em Mirandella com direcção ao Porto, e que vinha com ella o desertor. Os magistrados responderam-lhe que os crimes militares não entendiam com elles, executores da justiça civil. No que tocava a Maria Henriqueta, ajuntaram que, estando ella legitimamente casada, a lei lhes vedava aceitarem a intempestiva querella de pae.
--Mas eu hei de provar a nullidade do casamento--redarguia Gonçalo.
--É possivel--replicavam os magistrados--mas a prisão não póde antecipar-se á prova que v. ex.ª quer dar.
Mallogrado o mau intento voltou-se aquelle espirito enfermo para melhor paragem. Foi ao governador militar e denunciou estar no reino o desertor tenente de cavallaria Filippe Osorio. Disse-lhe o governador militar que já sabia da sua vinda com o proposito de responder e ser julgado; mas--accrescentou--admiro que a denuncia me seja feita pelo pae da esposa de Filippe Osorio! Que outrem o delatasse!... mas v. ex.ª denunciante de seu genro, que perdeu a carreira por amor de sua filha, que hoje é mulher d'elle e já mãe de uma menina!... É espantosa aberração!
--Eu hei de provar a nullidade do casamento de minha filha!--redarguiu Gonçalo Malafaya.
--Prove v. ex.ª tudo; mas abstenha-se de provar que todas as vinganças desairosas lhe servem. Eu conheci Filippe cadete do regimento em que eu era major, ha sete annos. Tive-o sempre no preço mais avantajado da intelligencia e decoro militar. Se eu fosse principe, dera-lhe a minha unica filha; e, sendo Gonçalo Malafaya, dera-lhe a filha, o coração, e o sangue todo de meus avós por um abraço.
Gonçalo abafava de raiva, e saíu convulsivo de ameaças de furia. Entrou em casa, e rompeu em alaridos descompostos contra Maria das Dôres, contra a filha, contra a justiça, e contra Deus. A mulher, fallecida de paciencia, perguntou ao capellão se seria prudente segurar o marido no seu quarto, antes que elle passasse a espancar a gente da casa.
Benzeu-se tres vezes o padre e disse:
--Seria bom segura'-lo antes que elle espancasse a gente da casa; mas eu não me metto n'isso, porque diz lá o ditado, com doudos nem para o céo, senhora fidalga!
Passados dois dias, chegaram ao Porto Filippe Osorio, Maria Henriqueta, a filhinha nos braços da ama, e os dois velhos creados.
Maria Henriqueta escreveu da hospedaria a sua mãe, noticiando-lhe a chegada. «Em que má hora!--dizia a mãe na resposta.--Está mais furioso que nunca teu pae. Ha dois dias que sae a mover contra teu marido os poucos amigos, que se condoem d'elle. Esteve tudo muito bem disposto; mas agora me consta que teu marido tem de responder da prisão pelo crime; e teu pae, aconselhado por vis letrados, que o exploram, vae intentar uma acção de nullidade de casamento. A tua vinda para aqui é imprudentissima.
Temos que combater um mentecapto em furias. Parecia-me que o melhor seria entrares no recolhimento de S. Lazaro, em quanto se não decide o julgamento de teu marido. A outra demanda póde levar tempo a decidir; mas o resultado ha de ser o que nós desejamos, se com effeito o teu casamento está legal, como cuido. Pensa n'isto, e dá-me resposta para meu governo. Se convieres em te recolheres a S. Lazaro, desarmarás d'esse modo a colera de teu pae, e terás meio caminho andado para a reconciliação.»
Lida esta desconsoladora carta, Filippe bebeu as lagrimas da esposa, e empenhou as mais seductoras ficções de seu espirito em persuadi'-la a recolher-se a S. Lazaro, em quanto elle respondia ao conselho de guerra.
--Apartar-me de ti!--exclamava ella.
--Por alguns dias, dias derradeiros da nossa tormenta de oito annos, sacrificio necessario para ganharmos a quietação, que virá mais cedo do que podemos espera'-la com a nossa desconfiança de infelizes. Escreve a tua mãe, que eu vou apresentar-me ao governo militar.
Filippe deixou sua mulher estupefacta, e escondeu-se a chorar. Se elle succumbisse, quem daria alentos á pobre esposa e mãe? Se o coração fosse sincero n'aquella hora, quantas torturas inuteis para ambos!
E Maria Henriqueta, como se voluptuosamente se estivesse dilacerando os seis d'alma, dizia entre si:
--A serenidade com que Filippe se aparta de mim! A frieza dos seus conselhos! Ó meu Deus! serei eu já aborrecida! Estará elle arrependido de se ter lançado na carreira da desgraça por minha causa, deixando a outra que tantas venturas lhe promettia! Mas, se me não ama, poderá despedir-se d'este anjinho com os olhos seccos?!
E abraçava com arrebatada ternura a menina.
Filippe apresentou-se ao governador militar. Foi esta a branda e animadora linguagem da auctoridade:
--É forçoso que se recolha ao castello da Foz. Escuso dizer-lhe que será absolvido, porque a Regencia quer que o seja. Espero que em menos de tres mezes esteja livre. Sua esposa tem licença para viver comsigo no castello.
--Não póde ser.
--Porque não póde ser?
--Meu sogro vae litigar a validade do meu casamento, as leis mandam que minha mulher seja judicialmente depositada, até á decisão. Por conselho de minha sogra, e meu, vae minha mulher entrar no recolhimento de S. Lazaro. Ámanhã vou entregar-me á prisão.
Voltou com risonho vulto o preso a casa, e disse a Maria que estavam unidos, passados tres mezes.
D. Maria das Dôres saltou de sua carruagem á porta da hospedaria, abraçou a filha e o genro, chorou de ternura beijando a neta, emprestou da sua instantanea alegria á contristada familia, e disse que o marido era contente com a resolução da filha, e fôra elle pessoalmente falar ao provedor da Misericordia para se mobilarem os melhores aposentos do recolhimento para ella. De tudo, inferia Maria das Dôres que as pazes se fariam brevemente, os desgostos a passar seriam curtos, em comparação dos futuros contentamentos.
Maria Henriqueta reanimou-se, e mais ainda quando encontrou o marido, em secreto, enxugando as lagrimas. A mulher que ama precisa ver chorar, para crear alentos. A coragem do homem que se despede parece uma offensa, ainda que o não seja; simula desamor, ainda mesmo que as lagrimas saiam do coração como gottas de ferro candente, e se derramem nas chagas do peito antes de chegarem aos olhos. A mulher amante quer, ao separar-se, levar a certeza de que deixa uma saudade, bastante a matar o coração que a ama. Isso é que lhe dá força para luctar e soffrer. A suprema desgraça é o desalento da duvida, quando a infeliz já por si não tem, contra o mundo e contra a desgraça, senão a certeza de ser amada. Por isso, Maria Henriqueta achou em si a antiga força, quando surprehendeu Filippe a chorar.
Na seguinte manhã, o preso ajoelhou aos pés de sua mulher, e disse-lhe:
--Não te peço amor, minha esposa; peço-te coragem, mulher. Aqui te deixo minha filha: fala-lhe de mim, e ella será o anjo mensageiro das minhas atribulações. Quanta mais força tiveres, mais digna serás do teu esposo. Mulher que tanto soffreu, e a tanto se arrostou, não póde fraquear agora em tres mezes de ausencia. Maria, eu não me engano com a tua alma, não? Has de viver e luctar com os desgostos por amor do teu Filippe, que ainda se não julga desgraçado?
Não lhe respondeu Maria. Lançou-se-lhe soluçante aos braços, e arquejou em convulsões sobre o peito em que lavrava um fogo occulto de morte, ao qual parece que as lagrimas da mulher amada se reseccam.
Tomou Filippe a filhinha dos braços da ama. Contemplou-a, e deteve-se até que a mãe lh'a tirou dos braços. É que da face d'elle se esvaíra lentamente a côr; o brilho dos olhos apagára-se subito; um tremor lhe correra os braços; o corpo ia inclinando, e a menina resvalava-lhe das mãos.
--Filippe! exclamou Maria--essa é a tua força, Filippe! Por Deus, reanima-te, que me tiras a coragem!
Sorriu-se o marido, beijou-a na face, e murmurou:
--Parecia-me que era a ultima vez que via nossa filha... O amor de pae tem estas visões passageiras. Deus me defenda de as ter a teu respeito semelhantes, minha esposa!
II