Estrellas Funestas

Chapter 8

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Empeceu Maria das Dôres o plano, contradizendo-o com a precisão de mostrar aos seus detractores que alli estavam a pé quedo recebendo os tiros da calumnia; ajuntava ella que o mundo, vendo-os fugir, diria que elles tinham ido esconder a sua indignidade na provincia. E rematou d'este theor:

--Se te julgas bem condemnado pela opinião dos nossos _amigos e parentes_, vae tu para o Douro. Eu e Maria Henriqueta não damos o campo á inveja diffamadora. Ficaremos; e quando elles se calarem, iremos para onde quizeres. Em quanto á ida de tua filha para Arouca, esse é o desejo d'ella; mas é preciso que penses se a honra de Maria Henriqueta será mordida na sombra por estes rafeiros e rafeiras, dando tu a isso occasião, com encerrá-la por castigo n'um convento. Castigá-la, porquê? perguntará o mundo; e, se tu disseres que a encarceras por rejeitar a mão do conde, o mundo fará os seus commentarios de modo que o tal desdouro caia sobre ella como sobre ti. Pensa, Gonçalo, e não precipites uma resolução, em que temos muito a perder; e a ganhar não sei o quê. Um convento é uma casa com umas portas muito grossas; mas as portas abrem-se de par em par quando as pessoas, que não fizeram votos de lá estar, querem sair.

A força moral de Gonçalo estava exhaurida. O homem, desvirtuado ante si mesmo, deixava-se já ir no pendor da fatalidade. Não contrariou a mulher: não quiz mesmo ser ouvido em nada; prohibiu até que ao seu quarto entrasse o som dos boatos affrontosos, que avultava de dia para dia.

O conde de Monção não voltára ao Porto para deshonrar Gonçalo nem assoalhar o seu desdouro.

Procurou de saber em que quartel ou casa encontraria um tenente de cavallos, vindo de Lisboa tres dias antes. As pessoas, empenhadas n'esta averiguação, disseram-lhe que, no troço de cavallaria 6, destacado no Porto, entrára um tenente transferido de Lisboa, moço nobre de Traz-os-Montes. Deram-lhe o nome, a residencia e as miudezas desnecessarias.

Filippe Osorio descia as escadas do seu quartel, e viu o conde em attitude de entrar no pateo.

--O sr. conde!--disse Filippe com amigo sorriso.

--É verdade, meu caro sr. tenente; sou eu mesmo em pessoa que venho contar-lhe o resto da historia, se é que a não sabe.

Peço ao leitor que marque á margem do livro, com uma cruz, este dizer do conde, porque não acha outro, que valha a nota.

--O resto da historia?!... Refere-se v. ex.ª áquelle casamento, que fez favor de me contar ha dias?

--Pois então!

--Ah! agradeço extremamente a confidencia. Queira subir.

--Não subo.

--Como lhe aprouver, meu caro sr. conde de Monção. Não teimo, porque a minha casa é uma barraca de campanha, e tenho cadeira e meia como ornato. Se o não molesta a minha companhia, vamos andando e conversando até ao quartel, que tenho obrigações a cumprir.

O conde encarou-o com arremesso e disse:

--O senhor está certo de eu lhe dizer, quando o senhor me falou n'um amante da filha de Gonçalo Malafaya, _que ou eu ou elle_?

--Lembra-me d'isso, nem era possivel esquecer-me cousa de tanto porte, dita por v. ex.ª.

--Não esteja a brincar comigo, sr. tenente! Parece-me que zomba!

--Eu!... O sr. conde é exquisito! Zombar eu de cousa que não merece a zombaria!

--O senhor é o homem que D. Maria Henriqueta ama. Não o negue, que, m'o disse ella.

--Mesmo sem lh'o ella dizer, eu não o negaria. Adiante.

--Adiante o que?

--Vamos ao fim da historia, que eu tenho urgencia do tempo.

A historia acabou-se. Agora venho dizer-lhe que não será minha nem sua Maria Henriqueta. Juro-lh'o pelo meu sangue e pelo meu nome. Um de nós ha-de morrer.

--E o que viver póde casar com ella, não é assim? Eu cuidei que v. ex.ª tratava de a matar a ella, o que seria muito mais feio e triste. Em quanto a mim, sr. conde, posto que me sinta um pouco amante da vida, se fôr sua vontade arrisca'-la-hei contra a sua espada, por lhe dar gosto. V. ex.ª já fez favor de me dizer que teve em França muitos duellos, e eu sinceramente lhe digo que não tive ainda nenhum. Todas as vantagens são do meu contedor. Estou ás ordens, depois de cumpridas as do meu regimento. Está satisfeito?

--Os seus fóros?

--Os meus fóros de fidalgo, pergunta?

--Sim.

--Quer v. ex.ª saber se me ha de matar como fidalgo ou como peão?

--Não me meço com peões.

--Isso agora é uma impertinencia, sr. conde! Afflige-me esse seu zelo de gentil-homem, e por lhe conhecer a boa vontade que me tem, usarei a immodestia de lhe dizer que v. ex.ª sabe quem eu sou, nem eu creio que denegue fé á dama, que lhe disse meu nascimento e educação. Agora é minha vez de lhe perguntar pelos seus fóros, sr. conde de Monsão.

--Os meus... fóros? pergunta-me o senhor a mim...

--Pelos seus fóros de honra, os fóros da sua dignidade, os fóros da sua vergonha. Pergunto a um homem vil com que direito me vem pedir contas a mim do desprezo com que foi recebido por Maria Henriqueta. Pergunto ao desprezivel conde de Monção, se é mais estupido que abjecto, vindo provocar a duello um homem, que mal conhece, por que me vê entre si e uma senhora, que lhe repelle a philaucia e as grosseiras tentativas de a fazer perjura. A tal provocador é natural que eu pergunte pelos seus fóros de honra, de dignidade, e de vergonha. Se me elle responder com o espadim, hei de sacudir-lh'o das mãos e deshonrar-lh'o debaixo dos pés. Sr. conde, um miseravel da sua qualidade não péde contas a homens de bem; mata-se, e vae da'-las a Deus, quando a ignominia do mundo lhe pesa no vacuo da cabeça. Agora, meu fidalgo, deixe-me ir trabalhar no meu cargo, porque eu sirvo o rei, sirvo a patria, e poderei dar ámanhã o sangue por ella, em quanto v. ex.ª, cevando na inercia os seus estupidos orgulhos, quer desenfadar-se brincando com o credito e com o socego de uma senhora, que eu prezo como irmã, e v. ex.ª deseja como mulher, para desempenhar a sua casa destruida em dissipações. Nem este supremo desaire lhe falta! Até á vista!

O conde de Monção estava pertencendo ao dominio da farça. Olhos arregalados e queixo pendido é a maxima expressão do espanto. No conde era pavor a ridiculissima compostura ou descompostura de feições. A cada palavra da crescente apostrophe, os brios de duellista europeu derretiam-se em frigido sangue que lhe arripiava as arterias. Tinha razão o homem, que os olhos de Filippe Osorio afuzilavam raios, e os labios tremiam em crispações, que pareciam ascuas de lume. O conde ignorava que as idéas se podessem expressar d'aquelle modo, em bocca de um simples tenente. Ante si nunca elle vira um inimigo, jogando contra elle as armas do escarneo, e amostrando ao mesmo tempo outras, capazes de servirem á ferocidade. «Isto é um assassino!» dizia no fôro da sua consciencia o conde para cohonestar a cobardia do silencio. Cobardia não é o termo proprio. Cobardes são aquelles que sossobram na defeza de sua justiça. Outros, que atacam direitos d'outrem, e fogem aos aggredidos, que lhes fazem rosto, esses são apenas infames na aggressão; e, quando fogem, prestam involuntaria homenagem á justiça. Pode-se jurar que o conde de Monção não meditava n'estas distincções, ao retirar-se do local em que o deixára petrificado Filippe Osorio. Circumvagou os olhos, como a certificar-se de que ninguem presenceára o insulto, e foi seu caminho murmurando por entre os dentes cerrados:

--Tu m'as pagarás, ou eu não seja quem sou!

VI

Correspondiam-se, diariamente Maria Henriqueta e Filippe. Bafejava-os a fortuna na pessoa de Eugenia, que a certa hora da noite dava e recebia as cartas pelo muro do jardim. Eram felizes porque amavam, esperavam, e confiavam nos milagres da sua constancia.

O pae de Filippe era pessoa de grandes relações com a fidalguia transmontana. Os mais superciliosos cavalheiros prezavam-se de o chamarem primo. Todos se lhe prestavam a cooperar para persuadir a Gonçalo Malafaya o acerto do casamento com um moço tão bem prosperado em sua carreira militar, e de nascimento assaz illustre para emparelhar, sem desaire, com os mais qualificados no reino.

A fidalguia empenhada acertou de chamar a si os parentes de D. Maria das Dôres, que eram tambem os de Gonçalo; mas preponderavam n'ella mais. Confluiram á mãe de Henriqueta cartas de muitas senhoras suas amigas da mocidade, e das suas mais intimas no mosteiro de Arouca. Uma açafata de D. Carlota Joaquina escreveu-lhe em nome de sua ama. É onde podia chegar a influencia do fidalgo de Mirandella, mais por amor do filho que da riqueza da noiva.

Maria das Dôres inclinou-se a favor de Filippe, e mostrou ao marido a petição da açafata. Gonçalo Malafaya, quando tal viu, soffreu um accesso de vertigem furiosa, e rasgou a carta entre os dentes. D. Maria teve medo dos arremessos do marido, e deixou-o bravejar e urrar contra a conjuração dos seus matadores.

Maria Henriqueta, amoravel com seu pae por que tinha a trasbordar o amor do peito, affrontou-se com o medo, e foi supplicante aquietar-lhe os impetos. O velho repelliu-a com arrebatada virulencia.

Velho lhe chamei eu pela primeira vez: estava-o deveras; sem um cabello negro, e não tinha ainda quarenta e oito annos! Fibra no rosto uma só não tinha lisa do arar do fogo interior. Abaixo do rebordo das orbitas parece que o absyntho das lagrimas lhe calcinára a pelle. Inclinava-se já para o chão, como a pedir á terra que o acolhesse e escondesse do seu mau anjo! Nas horas de solidão, poderiam ouvi'-lo exclamar muitas vezes: «Ó Beatriz de Noronha! tira-me este calix dos labios, ou verte-m'o de uma vez no coração, para que eu morra de uma só agonia!»

Que flagello de vida no seio da riqueza! que inferno n'aquelle palacio, arreado de sedas, de librés, de equipagens, de tudo que morde a inveja, e conjura a pobreza contra a caprichosa partilha de Deus!

Ergueu-se um dia Gonçalo Malafaya, ao cabo de uma noite infinita de calculos dilacerantes. Alumiava-lhe o rosto o clarão sinistro da demencia. Viram-n'o esposa e filha, e gelaram de medo. Era a horas de almoço, ao qual desde muito o fidalgo não assistia. Entrou inesperado, cruzou os braços, e exclamou com energica vehemencia:

--É ámanhã!

--Ámanhã o quê, primo Gonçalo?

--Que a má filha ha de entrar no convento de Arouca, senão hei de dar-te um punhal para que m'o enterres no peito.

--Irei, meu pae, irei hoje mesmo, se v. ex.ª o determina.

--É ámanhã--bradou elle.--Eu morrerei depois de ámanhã. Quando eu estiver sobre terra, sáe do convento, cospe na minha cara, e levanta-te com a herança da casa de teus avós e com a minha maldição.

Maria Henriqueta encostou o peito ao bordo da mesa, e cobriu o rosto com as mãos. Chorava; e o pae sentiu-se mais desopprimido com as lagrimas da filha. Deu alguns passos até defrontar com ella, e disse:

--Essas são as menos amargas que tu choras. Outras virão... tenho aqui na alma o presagio de outras, que has de verter sobre o cadaver do homem que me aponta ao peito o ferro, com o braço guiado pela mão de minha mulher.

--Penso que enlouqueceste, primo!--disse Maria das Dôres.

--Emmudece, serpente!--exclamou em furia o transfigurado velho.--Enroscaste-te á minha mocidade, mataste aquella creatura divina, mataste a minha alegria, empeçonhaste o coração de tua filha, e estás agora minando-me a sepultura para esconderes de ti este phantasma de remorsos!...

A syncope, em que desfechou a desarrazoada apostrophe, delatava que os receios da loucura não eram de todo panicos. N'aquellas accusações era manifesta a injustiça.

Bem viram que Maria das Dôres foi de todo alheia ás desventuras de Beatriz de Noronha, sobre ser obrigada a acceitar o marido, proposto desde a sua infancia. O leitor póde negar sua sympathia ao caracter de Maria das Dôres; mas, se a punir com o seu odio, é injusto. Pender, em bem da filha, contra a imposição do casamento, é virtude para muitos louvores. Se o fez por animo contradictorio, feliz culpa a sua; se por experiencia de sua desgraça, abençoada defesa da pobre menina, e abençoada sempre, embora estes infelizes todos se venham a abismar guiados por suas estrellas funestas.

--Vae para o convento, Maria--disse a fidalga á filha.--Fia de mim que pouco tempo lá estarás. Eu hei de vencer teu pae, com habilidade e paciencia. Vou fazer, por teu amor, o sacrificio da humildade. Mas agora é preciso que vás. Se teu pae morre, tens de soffrer remorsos, e remorsos que hão de assaltar-te os dias todos da vida, embora os goses com o homem que amas. Com tempo, serás esposa d'elle; mas faz muito pelo seres com a consciencia tranquilla.

Maria Henriqueta rompeu em choro nos braços de sua mãe, e foi d'alli escrever a Filippe, contando-lhe o seu destino, e as promessas da mãe. O tão apaixonado como generoso moço incitou-lhe a coragem do sacrificio, pedindo-lhe que o offerecesse a Deus como merecimento para ambos lhe merecerem mais tarde a sua benção.

Ao outro día, Maria entrou n'uma liteira com sua mãe, seguidas do simples prestito do capellão, a ama, creadas e lacaios.

Maria das Dôres, a antiga aia da Santa rainha Mafalda, entrou no seu quarto de infancia, e no de suas defuntas tias; e os dias de então, e só esses do seu passado, lhe vieram á memoria e amolleceram o coração até ás lagrimas.

A reclusa menina, ao ver-se alli, no calado dos claustros, debaixo dos profundos firmamentos, n'um dia em que os sinos dobravam á agonia de uma religiosa, e quando outra recebia as ultimas honras da sepultura, Maria Henriqueta pensou que ia morrer, e assim o disse na primeira carta, enviada a Filippe.

Demorou-se a mãe alguns dias no mosteiro, e apressou a saída, quando receou pelos dias de Maria Henriqueta. Foi o seu proposito, ao retirar-se, mover o pae a consentir no casamento, ou romper abertamente com elle e com o mundo, protegendo a fuga da filha, se outro expediente não viesse em redempção d'ella.

Ausente a mãe, augmentaram os terrores de Maria, e as lastimas nas cartas escriptas a Filippe. Em algumas, pedia-lhe ella que a salvasse, pelo muito que ella o amára, e pelas muitas dôres com que quizera merecel'-o. Salval'-a era arrebata'-la do convento, fugir com ella, cumprir o juramento que lhe tinha feito, quando a chamou ao quarto da ama. Ao mesmo tempo, contava-lhe as nenhumas esperanças que a mãe lhe dava, e as diligencias que o pae fazia, para o remover para o ultramar, e tirar-lhes a possibilidade de se cartearem. D'isto lhe déra aviso a mãe, assegurando-lhe que as cartas de Filippe, apesar do suborno tentado no correio, haviam de chegar-lhe sempre á mão.

Enganára-se Maria das Dôres com as promessas do empregado na transmissão das cartas. Maria Henriqueta, ao fim de tres afflictivas semanas, enviou um proprio a Filippe, perguntando-lhe a razão porque a desamparára.

O tenente de cavallaria tinha de marchar n'aquelle dia com o regimento para Lisboa, onde se estava resenhando o exercito para começar a lucta com a França, cujos generaes se avisinhavam das fronteiras.

Pediu licença o tenente por dois dias: foi-lhe negada. Empenhou por si os seus amigos, senhores do segredo da sua vida; baldaram-se as solicitações. Filippe Osorio, á ultima hora, quando os clarins já tocavam a reunir á porta do quartel, viu a imagem de Maria Henriqueta, e ouviu um como gemido de moribunda, e um falar assim de quem se despede: «Vae, e volta alguma vez á minha sepultura!»

O tenente tomou as redeas do cavallo que o auxiliar lhe offerecia, passou por diante dos clarins que o chamavam, viu ao longe, no occidente das esperanças da gloria, sumir-se a sua estrella, e fitou os olhos n'outra, que o chamava sobre um leito de agonia.

Desertou.

A mancha era negra; mas o disco resplendoroso, que lhe alumiava o coração e o ar em que ia aspirando a liberdade louca de amante, não lhe deixava ver a negridão da deshonra militar.

Na primeira terra em que pôde escrever liberalisou estipendio a um portador que levasse uma carta a Mirandella. Era um aviso a seu pae. Noticiava-lhe a deserção e o intento de roubar Maria ao convento e á morte. Pedia-lhe que estivesse um clerigo prestes a recebe'-los, logo que alli chegassem, e o dinheiro necessario para se refugiarem em Hespanha ás penas militares, e á perseguição de Gonçalo Malafaya.

Apeou em Arouca, e procurou Maria. Nenhum impedimento lhe estorvou falar-lhe. Acolheram-no na aposentadoria monacal, como primo da fidalga, que as religiosas amavam pelo muito que a viam padecer. Deu ella o plano da fuga, não facil, nem talvez exequivel. Maria devia transpor um muro, que seria morte certa, se o pé lhe resvalasse de um galho de arvore, em que fiava o apoio para segundo salto á estrada. Impugnou-lhe o plano o susto de Filippe; e ella, para aquieta'-lo, prometteu pensar em menos perigosa evasiva; mas pediu-lhe que tivesse os cavallos arreados na seguinte noite.

A lua banhava de livido alvor as paredes do templo. O derradeiro nocturno tinha soado no campanario, alteroso vigia, como posto alli em guarda das esposas do Senhor. As paixões e as virtudes dormiam ou pareciam dormir lá dentro do mesmo somno. Cá fóra ramalhavam os arvoredos, e o norte assobiava nos agulheiros das torres.

Maria Henriqueta occupava um quarto sem rexas nem rotulos, logar privilegiado das reclusas, que inspiravam á prelada inteira confiança. O salto á cerca era facil e seguro, com o poderoso auxilio de um telhado de ermida contigua á parede. D'este ao jardim, só mulher que não amasse acharia perigoso o descer. Maria nem de leve sentiu o baque. Ficou sentada na relva, e ergueu-se logo, correndo para o muro, e procurando, entre as gabellas de varas podadas das videiras, uma escada de mão, que encostou á parede. Escalando o muro, tremeu da altura exterior, e viu que se enganára na distancia da arvore, que devia ajuda'-la na descida. Fincou os joelhos ao cume da parede, e foi-se arrastando até ao ponto da arvore, que o vento sacudia. Este inesperado incidente desalentou-a; só estando queda a arvore ella poderia aferrar-se aos ramos mais robustos, e verga'-los até tomar pé no galho chapotado. Estava ella assim aterrada e immovel com a vista desarmada a um e outro lado, quando, d'entre as arvores da outra orla do caminho, surgiu um vulto, que a gelára de medo, se a voz o não denunciasse ao mesmo tempo.

--Eu esperava isto...--disse Filippe.

--Já tenho animo!--exclamou ella.

--Espera!

Filippe, tirando o manto e a farda, que lhe empeciam os movimentos, marinhou pelo tronco da arvore até fincar o pé no rebento que dava sobejo e seguro apoio a maior peso. Depois cingiu com o braço esquerdo o tronco, e disse a Maria que se pendurasse no ramo mais forte, e eminente á cabeça d'elle. Maria correu as mãos mimosas por sobre as asperezas da ramagem, e recurvou os dedos no mais afastado e grosso ramo que poude. Deixou o corpo ao seu natural pendor, impellindo-se com o pé fóra do muro. O despenho seria infallivel, se Filippe a não repuxasse a si, apertando-a ao peito com o braço direito.

Maria Henriqueta ria n'esta situação, e dizia:

--E se caímos abraçados?!

--Firma-te!--disse serenamente Filippe.--Apega-te ao tronco da arvore, que eu vou descer. Passa os teus pés devagar para o logar dos meus... Assim... Agora, larga-me, e segura-te... Bem... espera um pouco.

Disse, e saltou ao caminho; mas não se susteve em pé porque era grande o salto. Maria sobresaltou-se, e quiz resvalar agarrada ao tronco; mas Filippe já estava erguido, rindo da sua queda para serenar Maria.

Encostou-se á arvore, e disse:

--Desce, até encontrares os meus hombros com os pés. Depois, sem largar o tronco, deixa-te descer conforme eu me fôr abaixando, e salta quando eu te disser.

A execução da facil manobra foi feliz. Elles ahi vão, embrulhados no mesmo manto. Maria está vestida de branco, e Filippe receia que o ar picante da noite a moleste. Coração em labaredas levam elles; mas o fogo intimo não basta a retemperar a temperatura da atmosphera. Os catarrhos são pensão de amadores nocturnos.

Estão os cavallos arreados na aldeia proxima, á mão do velho e leal creado de Filippe. Maria vê o velho, e chora pela sua ama, a quem não deu o ultimo abraço para a não ver morrer. Filippe quer consola'-la, mas não sabe. O creado velho sabe a razão das lagrimas, e diz:

--Quando chegarmos a terra segura, eu volto a buscar a velha. Arranja-se tudo; a morte é que não tem remedio.

Maria consolou-se.

Cavalgaram, e partiram. Ao dobrarem o primeiro outeirinho, Maria apontou para a torre do mosteiro, e disse:

--Que medo me faz aquillo! parece um phantasma! Que horriveis horas aquelle sino marcou na minha vida, ó Filippe!

--Deixa-o agora marcar annos de felicidade, minha esposa.

--Quantos marcará, ó Filippe?!!...

Soaram tres badaladas.

--Só?!--exclamou ella com supersticioso terror.

--Não sejas creança, Maria! disse Filippe.--Aquillo quer dizer que são tres horas.

Caminharam.

O frio da manhã golpeava o rosto de Maria, e as redeas caíam-lhe dos dedos entrezilhados.

Filippe sentou-a sobre as capas dos coldres, apertou-a ao seio, e aqueceu-lhe as mãos no acolchoado da farda. E assim caminharam, até que o sol dourou o melhor dia d'aquellas duas existencias.

VII

Entraram ao romper d'alva em Mirandella, a hora em que os irmãos de Filippe, desconfiados da demora do irmão, saíam a procura'-lo no caminho de Arouca. Ás dez horas da manhã d'esse dia, celebrou-se o casamento na capella da casa, por ministerio de um abbade parente do noivo, homem que não lera no Evangelho o preceito do consentimento paterno para a validade do sacramento. Foram testemunhas os irmãos do esposado, e padrinhos os paes.

Ao outro dia chegou a Mirandella a ditosa Eugenia, que o fiel creado fôra buscar, deixando em Amarante os amos. Contou ella que na tarde d'aquelle dia da fuga chegaram a Arouca alguns soldados de cavallaria, com um commandante, pedindo novas de um tenente, que desertára; e que n'essa mesma tarde tinham saído para outros sitios.

Comprehendeu Filippe o perigo da sua situação, e quiz fugir, antes que a Bragança, quartel do seu regimento, chegassem ordens para a sua captura. A parentella votou unanime pela resistencia, confiada no poderio que exercia sobre o povo. Filippe combateu o denodo inopportuno, por amor de sua esposa, a quem tristes festas de nupcias seria uma briga sanguinaria do povo com a tropa.

Muniu-se o desertor de basto dinheiro para dois annos de desterro, e internou-se em Hespanha, com os dois velhos creados, que entre si se queriam por terem sido, em seis annos, os confidentes dos infelizes amores de seus amos, já agora unidos sagradamente para sempre.

Deixemo'-los em Hespanha procurar o remançoso eden de seus anhelos. Irão a Sevilha? a Granada? a Cordova? Irão a toda a parte, hão de encontrar as delicias reflectidas do céo que levam na alma.

Deixa'-los, que é delicadeza não irmos de pós elles. A suprema felicidade de dois noivos tem o seu pudor, que se quer resguardado de olhos alheios.

Vamos ao Porto, e entremos em casa de Gonçalo Malafaya.

Ao amanhecer do dia immediato ao da fuga, chegou de Arouca o enviado da má nova. O fidalgo, que já sabia da deserção do tenente, e incitára a saída do destacamento para captura'-lo em Arouca, nem por isso ficou menos surprehendido. Correu ao quarto de Maria das Dôres, e exclamou:

--Maria Henriqueta fugiu do convento!

--Estás a sonhar, ou sou eu que sonho?!--disse a esposa.

--Alli está o portador de Arouca! Fugiu sua filha, senhora! Ahi tem a sua obra! Faltava-me esta deshonra: devo-lh'a, senhora, devo-lh'a, como ultimo golpe, que me ha de matar!

Disse, e refugiu para o seu quarto, tropeçando nos corredores, não aclarados ainda pela luz da manhã. Pouco depois, voltou á camara da esposa, e bradou:

--A senhora está na cama?! Levante-se que é preciso protestar contra a ignominia que pesa sobre nós! Levante-se, que d'aqui a pouco seremos insultados pela canalha! Vista-se de lucto, e quero que todos os meus brazões de armas, em todas as minhas casas e quintas, sejam cobertos de negro! Maldita seja a mãe que perdeu sua filha!

D. Maria agitou com força a campainha, e disse ao marido:

--Queira retirar-se, que vem as creadas vestir-me.

Entraram as creadas de baldão, quantas havia na casa, e a senhora disse a uma d'ellas: