Estrellas Funestas

Chapter 6

Chapter 64,023 wordsPublic domain

--Tu descóras, Maria!? Que tens? Desagrada-te o meu plano!? Responde...

Não respondeu, nem desmaiou.

Sacudiu-a com brandura o pae, tomando-a para o seio, e osculando-a na fronte.

--Fala, minha filha! Que sentes tu?

Maria pôde falar, quando os soluços lhe desembargaram a voz, e disse:

--Lembre-se, meu pae, do seu casamento. Queira a minha felicidade...

--Pois não quero, filha? Que maior prova posso dar-te que esta? Cuidar em fazer-te condessa de Monção!...

--Não posso acceitar tal marido, meu pae...

--Não pódes?!--atalhou, em tom menos suave.

--Não posso ama'-lo... e não amar um esposo deve ser a maior das desgraças...

Maria das Dôres entrou n'este momento, e ouviu as ultimas palavras da filha, que tremeu ao ve'-la.

--E como sabes tu que não hasde amar o conde, se o não viste ainda?!--replicou o pae.

--Sei que me é impossivel ama'-lo... Póde ser um anjo do céo, que eu não o amarei... Casar sem affecto, meu pae, sacrificar-me por toda a minha vida, estando eu tão nova, deve ser muito triste. Antes um mosteiro; eu de boa vontade professo, e me irei esconder e penar como filha desobediente; mas não me obriguem a casar, que eu tenho animo para me matar no dia seguinte.

--Tens razão, filha!--exclamou Maria das Dôres--Tens razão! Casamentos á força, em quanto eu fôr viva, não os tolero na minha casa. O homem vem ahi ámanhã. Se gostares d'elle, e elle gostar de ti, casem-se; se não, passe por lá muito bem o snr. conde, e tu deixa-te estar, que estás bem na tua casa.

--Que conselhos maternaes são esses, prima Maria das Dôres!--interrompeu Gonçalo.

--São conselhos, que minha mãe me não deu, primo Gonçalo. Repito: Maria Henriqueta não hade casar obrigada. Minha mãe, á hora da morte, pediu-me perdão de me ter obrigado a casar; e eu não quero nem heide pedir o mesmo perdão a minha filha.

--Temos uma grande lucta, Maria das Dôres!--exclamou o marido.

--Pois luctaremos--respondeu ella, esgrimindo com os braços e com a cabeça.--Maria Henriqueta! tu tens por ti a razão, e tua mãe... Veremos de quem é a victoria.

--Eu não queria que meus paes se indispozessem por minha causa--atalhou a menina--O que peço a ambos é que me queiram na sua companhia, e me deixem gosar o resto da minha mocidade. Sinto-me aqui feliz; para que heide eu ir procurar a felicidade onde eu sei que ella não está?

--Maria!--tornou severamente Gonçalo--Eu sei que saíste de Lisboa apaixonada. Calei-me, cuidando que o teu brinquedo ficaria por lá esquecido com os devaneios da mocidade; e calei-me porque um pae deve fingir-se extranho a creancices sem resultado. Agora vejo que é grave o teu desvario, e aceito a obrigação de t'o corrigir. Vamos a perguntas, que te devia ter feito. Quem é o militar, que levantou da calçada uma carta lançada por ti?

Respondeu Maria passando da pallidez ao escarlate, e vibrando toda n'uma convulsão afflictiva.

--Responda, senhora!--repetiu o pae com o aspecto mal assombrado.

--Responde, Maria Henriqueta, diz a verdade--ajuntou a mãe, em tom de mansidão, e modos protectores.

Maria murmurou:

--Era um tenente de cavallaria... Chama-se Filippe Osorio Guedes da Fonseca... É de Mirandella, e é fidalgo...

Gonçalo expediu uma casquinada de riso, e disse:

--Fidalgo!... tenente de cavallaria!... fidalgo de Mirandella!--quem são n'este mundo os Fonsecas de Mirandella?... Hei de perguntar por isso ao meu mordomo de Lamego, que é de Mirandella, e chama-se Melchior Fonseca. Precisamente é tio do sr. Filippe, tenente de cavallaria!...

E deu segunda casquinada, com uns tregeitos mal cabidos nos seus nobres ademanes.

Maria das Dôres não ria; nem via com bons olhos os sarcasmos do marido. Por espirito de contradicção, ou por pena da filha, tomou-a pelo braço, e disse-lhe:

--Vem d'ahi, Maria Henriqueta.

--Onde a leva? disse irritado o marido.

--Onde hei de eu leval'-a?--redarguiu a esposa na mesma entonação.

--Quero que ella me responda!

--Pois faça-lhe as perguntas com geito e modos. Que quer perguntar-lhe? Vamos, ella aqui está para responder. Diga lá.

--Tudo que tenho a dizer--retorquiu Gonçalo Malafaya exasperado contra mãe e filha--é que eu defendo a honra dos meus, e deixo de ser pae, quando é necessario ser juiz.

--Não quer mais nada?--concluiu D. Maria das Dôres.--Anda d'ahi, menina!

E saíram. Maria Henriqueta, com os olhos turvos de lagrimas, mal via o chão que pisava.

Gonçalo atirou-se sobre um canapé, e exclamou:

--Castigado até ao fim! Nem a submissão d'esta filha que eu amo tanto!... É de mais, ó meu Deus!

Entraram os creados a pedir ordens para a localisação das alfayas vindas da capital. Gonçalo saltou enfurecido do canapé com as mãos enclavinhadas nos cabellos, e exclamou:

--Peguem incendio a esta casa, e morra eu dentro della!

Os servos fizeram pé atraz e encontraram, ao saírem espavoridos, o capellão, que se estava persignando, com os olhos postos no tecto, á mingua de céo.

II

Era aquelle o dia em que devia entrar no Porto o conde de Monção. As carruagens da fidalguia, convidada por Malafaya a esperar o seu illustre hospede, estacionaram á porta do palacio, condemnado ás chammas, esperando que o dono descesse. Gonçalo, quando a parentella ia entrando, compoz o semblante, vestiu-se a primor, e saíu a entrar na sua melhor equipagem. Era tarde para sacudir a carga, que tão vaidosa e jubilosamente tomára.

O conde vinha pela estrada de Coimbra, onde passára alguns dias, visitando quintas suas nos arrabaldes d'aquella cidade. A comitiva chegou aos Carvalhos e esperou.

Era o conde de Monção um fidalgo creado em côrtes, e conhecido nas extrangeiras; mas, em todas, o mais graduado titulo de sua recommendação era a tolice, o dom de engranzar parvoiçadas, que relevavam de chiste por serem ditas n'uma algaravia de linguas, só perceptiveis por alguns vocabulos irrisoriamente pronunciados. Fôra menos exacto, ou nimiamente credulo Gonçalo Malafaya, dizendo que o conde de Monção sabia falar francez, por ter estado em França. O conde era refractario aos idiomas, e com o seu, propriamente, andava tão desavindo, que os fidalgos de Lisboa não o entendiam melhor que os de Pariz. A visinhança de Galliza, que defronta com Monção, introduzira na linguagem familiar do conde muitos termos espurios, cuja versão fiel só os aguadeiros de Lisboa podiam faze'-la competentemente. Galhofavam d'elle muito na côrte as damas e os moços intolerantes. A mim me quer parecer que a pecha de agallegados, que os de Lisboa gratuitamente nos põem, data das visitas do conde áquella cultivissima terra, que tem lá tambem os seus dizeres ridiculos, mas no proferi'-los vae tanta graça e tal affectação que não ha ahi cousa que mais diga!

Saía o conde de Coimbra em direitura ao Porto, quando ouviu tropel de cavallos que o seguiam. Olhou, e viu um cavalheiro com insignias militares, acompanhado de seu lacaio. Ao perpassar por elle o açodado cavalleiro, perguntou-lhe o conde:

--Vae para o Porto?

--Sim, senhor.

--Então podemos ir de camaradas.

--Com o maior prazer, se o cavalheiro esporear o seu bello alazão.

--Se não é mais do que isso, ahi vamos--disse o conde, atirando o acicate aos ilhaes do cavallo.

Filippe Osorio riu-se d'aquelle verbo--_vamos_, se é que Filippe Osorio podia rir.

Praticaram largamente n'aquelle dia de jornada, sobre diversos assumptos. As damas tiveram grande parte, como de direito deviam ter, nas palestras dos cavalleiros. Dizia o conde que as francezas tinham grande pancada na mola, e as inglezas costumavam cheirar os homens de longe, antes de lhes apertarem a mão. O tenente de cavallaria aventou logo que falava com um inepto, e cavou solicitamente na materia em que elle mais necedades dizia. Se alguma vez o conde revelou intervallo lucido de sensatez, foi quando disse que as senhoras do Porto eram muito formosas. Mencionou as que conhecia, e ajuntou que ia hospedar-se em casa de uma, cujo retrato possuia em marfim, e que era a mais linda mulher que seus olhos enxergaram na Europa. Proseguiu no mesmo theor esperando que o seu companheiro lhe perguntasse quem era a mulher mais linda da Europa; mas Filippe tão abstraído ia que nem a curiosidade o espertou.

--O meu nobre amigo, disse o conde arrebentando por dizer o nome da dama, talvez tenha ouvido falar na familia dos Malafayas...

--Tenho...--disse Filippe, empertigando-se na sella, como se uma barra de ferro lhe batesse no peito.

--Tem? pois a menina de que lhe falo é d'esta familia.

--Conheço um fidalgo chamado Gonçalo Malafaya.

--Sem tirar nem pôr. É o pae d'ella.

--Pae d'ella!... Como veio ás suas mãos o retrato de...

Susteve-se Filippe tão bruscamente, que só o conde de Monção deixaria de notar as perturbadas perguntas de companheiro.

--O retrato d'ella mostrou-m'o o pae, aqui ha um anno, quando veio de Lisboa, onde a mandou pintar. De mais a mais, a menina foi lá ensinada n'um collegio, e fala o francez perfeitamente.

Filippe, com quanto alvoroçado, estava longe de presentir o desfecho de taes revelações, e proseguia no inquirimento d'ellas para se recrear falando de Maria, quando mais não fosse.

--Mas,--insistiu elle--com que fim o sr. Gonçalo Malafaya mostrou ao meu amigo o retrato d'essa menina?

--Isso são contos largos; mas lá vae a historia. Em primeiro logar, o senhor não me conhece?

--Não tenho a honra...

--Eu sou o conde de Monção.

Filippe, d'esta feita, devia de sentir duas barras de ferro, uma ao peito, e outra nas costas, porque ficou hirto e rijo sobre o selim.

--Nunca ouviu falar de mim?--tornou o conde, notando a nenhuma reverencia com que o militar ouvira o seu nome.

--Ouvi, sim, senhor.

--Agora, se lhe não custa, diga-me o senhor quem é.

--Sou um official de patente; mas os meus appellidos são populares, e escuso de os dizer a v. ex.ª como recommendação.

--Isso que tem? Se não é fidalgo ainda o póde ser, que d'essa massa se fazem. Armas ou lettras, diz lá o ditado dos velhos. De cá se vae a lá. Meus avós tambem foram da militança, e eu ainda conheci na minha casa tres generaes velhos como a Sé de Braga.

--Mas vamos á historia, se lhe não custa--disse Filippe com simulado e affectuoso sorriso.

--Vamos á historia... Vinha-lhe eu dizendo que sou conde; mas, a falar-lhe a verdade, com as viagens estraguei um pouquito a minha casa, porque lá por fóra era umas mãos rotas. Aquellas francezas foram os meus peccados, meu caro senhor! Dei lá jantares a duquezas que era um pasmar! E olhe que em Pariz um jantar, que faz pasmo, já ha de ser de um tal tamanho!... Como lhe vinha contando, quando voltei a Portugal, e vi o empenho em que estava a minha casa, resolvi tomar estado com menina rica, ainda que me ficasse a perder de vista em fidalguia. Não póde ser tudo, meu amigo! Aquelle maldito pombal deu-nos cresta ás regalias, e fez com que o dinheiro se espalhasse por todas as mãos. No inferno esteja elle, e mais as suas leis!... Andava eu a cogitar n'isto, quando o negocio me saíu mesmo ao pintar, ainda melhor do que eu queria! Botei as minhas vistas ás ricas herdeiras da provincia, e soube que o melhor morgadio era o de Gonçalo Malafaya, por ter só uma filha. Fui até ao Porto, ha tres annos, assim como quem não quer a cousa, e fiz por me encontrar com o Malafaya. Comecei a tirar nabos do pucaro, como o outro que diz, e deixei-me dizer que me não desconviria ligar á minha casa uma menina que fosse tão nobre e tão boa herdeira como a filha d'elle. Não arranjei bem o palavreado?

--Perfeitamente--disse Filippe ancioso pelo remate, como se o não tivesse adivinhado, desde que soube que falava com _um conde_, que tantas lagrimas custára a Maria Henriqueta:

Continuou o conde:

--O Malafaya esteve a conversar muito tempo comigo, levou-me a casa, deu-me um bom jantar, e disse-me ao outro dia:--Deixemos completar a educação de minha filha, e depois falaremos.--Passados quasi dois annos, recebi em Monsão uma carta do Malafaya com o retrato da menina. Ó meu amigo! confesso-lhe que fiquei de bocca aberta! Era a cousa mais perfeita que cobre a roda do sol! Sabe o senhor o que é apaixonar-se um homem, não atinar mais com a cabeça? Foi o que me aconteceu a mim! Vim logo ao Porto, e disse a meu futuro sogro! «Eu quero a sua filha, mesmo sem nada, se é possivel!» Elle entrou a rir, e disse-me: «A minha filha, além da riqueza e da formosura, tem o melhor coração que Deus formou em peito de mulher.» Nunca me esqueceram estas palavras!...

Andei com o negocio de afogadilho para que o casamento se fizesse logo: mas metteram-se umas desordens tamanhas entre elle e a mulher--que é o diabo de saias segundo ouço--de modo que foram para Lisboa um por cada vez, e por lá se deixaram estar até ha pouco, que vieram para o Porto. Ha de haver quinze dias que o Gonçalo me escreveu, dizendo-me que era chegado o tempo de eu ser apresentado á minha noiva, e effectuar-se o casamento. Ora aqui tem a historia com todos os pontos e virgulas. Vou casar-me. Acabam-se as rapaziadas e as viagens; mas fico senhor de uma grande casa e da mulher mais bonita da Europa... Que diz o senhor a isto?

--Digo que faz muito bem; mas se me dá licença--continuou Felippe com a mais destra e bem fingida serenidade--farei uma advertencia.

--Diga lá sem cerimonia.

--Tem o senhor conde a certeza de ser amado pela sr.ª D... Chama-se ella?

--É Maria.

--Pela sr.ª D. Maria?

--Se tenho certeza de ser amado? Eu sei cá! Ella ainda me não viu.

--Pois por isso mesmo. Que certeza tem v. ex.ª de que ella o ame, vendo-o?

--O senhor está muito enganado comigo. Saiba que todas as mulheres gostam de mim. Ponto é que eu as metta á bulha! Diziam lá os meus caseiros, quando eu fazia em rapaz muitas travessuras, que eu tinha o besouro diabolico. Em França, onde eu estivesse, conhecia-se logo. Olhe que estive para me bater muitas vezes por causa de namoros muito serios com as açafatas da côrte.

--Tudo creio, porque reconheço em v. ex.ª meritos para tudo; mas supponha por um momento que D. Maria o não ama?

--Porque não ha de amar-me? Essa é fina!

--Supponha que ella ama outro homem?

--Se ama outro homem, faz de conta que nunca o viu.

--E v. ex.ª tambem faz de conta que o não sabe.

--Está claro.

--E se ella dér a esse homem a preferencia para casar com elle? Queira desculpar esta pergunta.

--Diz o senhor que ella póde rejeitar-me para casar com outro?

--É uma supposição...

--Ora deixe-se d'isso!... Nem o pae a deixava, nem eu era homem para essas brincadeiras. Ou eu ou elle.

--Iria v. ex.ª disputar a vida ao sujeito que D. Maria amasse?

--Se elle fosse fidalgo ia; senão, mandava-o varrer do meu caminho pelos meus lacaios.

Filippe, se outro fosse o interlocutor, tinha-se denunciado, quando soltou uma franca e estridula risada. O conde, afeito a provocar o riso, entendeu que a sua ameaça afidalgada dos lacaios tivera muito chiste. E riu tambem, em prova de que sabia avaliar o quilate do seu espirito.

Nunca mais o tenente de cavallaria pôde encarar no seu companheiro de jornada. Respondia-lhe sem fita'-lo; e de proposito se retardava ou adiantava para não emparelhar com elle.

Pernoitaram em Albergaria. Cada qual recolheu ao seu quarto depois da ceia, durante a qual o conde esteve em ferias de palavreado. Filippe chamou á meia noite o seu lacaio, e mandou arrear os cavallos. Cavalgou, e partiu para o Porto, deixando o conde no seu primeiro somno, o somno da felicidade estupida que lhe derramára nas palpebras as suas narcoticas urnas, e lhe instillava, talvez, na alma as dulcissimas visões de um noivo da mais formosa mulher da Europa.

Quando, pois, as carruagens dos fidalgos subiam a encosta de Gaya, descia a trote Filippe Osorio. De longe, conheceu que a primeira carruagem era de Malafaya, por ser das mais luxuosas que se ostentavam em Lisboa. Conheceu-lhe os creados da libré, tudo reconheceu, porque em tudo se atavam recordações de Maria Henriqueta. Desviou-se da estrada larga para uma travessa marginal, e deixou passar o prestito. Desempedida a estrada, ganhou o Porto em poucos minutos, apeou, e subiu a procurar o palacio de Malafaya. Parou diante do portão indicado, e ousou entra'-lo, e perguntar ao guarda, revestido de rica libré, se podia falar a uma mulher chamada Eugenia.

Eugenia era a ama de Maria Henriqueta. Nenhuma duvida lhe estorvou falar com a creada no seu proprio aposento, que distava muito das camaras das senhoras. A ama fez apavoradas visagens de espanto; mas ouviu-o. Urgia elle, lançando-lhe dinheiro em ouro ao regaço, que Maria alli viesse. Da negativa passou Eugenia á hesitação e d'ahi, movida pela angustia do moço--angustia com liga de ouro--foi disfarçadamente procurar a menina.

E a menina entrou no quarto da ama, e a ama com ella.

III

Maria Henriqueta ouvira a confidencia sobresaltada de sua ama, e ficou como estupida de alegria. Eugenia, temendo que D. Maria das Dôres a encontrasse n'aquelle extranho transporte, accelerou a ida, recommendando-lhe curta demora.

Á entrada do quarto, a menina, encarando em Filippe, soltou um grito, como se fosse inadvertida, e por surpresa, a apparição. O melhor recosto para um vágado era certamente o dos braços, que se abriram a recebe'-la: mas o accidente foi instantaneo: o coração predominou o espasmo nervoso.

Estava Eugenia, a um lado, contemplando com aguados olhos a scena pathetica; porém, o medo tinha-a tolhida. Apenas o prefacio de suspiros e lagrimas iria em meio, quando a ama acudiu pedindo que dissessem depressa o que tinham a dizer, antes que a senhora perguntasse pela menina.

--Não tenhas medo, disse Maria Henriqueta, que a mãe está dirigindo o arranjo dos aposentos do conde--E, voltando-se a Filippe, continuou:--Já podes imaginar quem é este infernal conde, que se espera...

Em breves termos contou o tenente as passagens que o leitor já teve a complacencia de ouvir; mas eu contei-lh'as a sorrir, e elle disse-as com tormenta desfeita de lagrimas a Maria Henriqueta.

Respondeu ella, relatando a lucta, que tivera com o pae, suavisada por ter captado em seu favor a mãe, cuja vontade era mais efficaz e prestante que a d'elle.

Passaram a combinações de futuro, prevendo hypotheses desgraçadas, como violencias de convento, maus tratos, divorcio de familia, que tudo era de antever, arvoradas as bandeiras hostis na casa.

Disse Maria que fiava muito de sua mãe, mas muito mais de si propria.

«Se a perseguição fôr tal, que me não deixem respirar--disse a menina--em tal extremo, fujo para ti, e depois... Deus se compadeça de nós, e da grandeza do nosso amor. Iremos ajoelhar a um padre para que abençoe a nossa eterna união, e assim unidos, sem vergonha do mundo, arrostaremos com todos os revéses.»

Filippe ouviu de joelhos esta celestial musica dos labios de Maria, e julgou-se superior a homem na felicidade que o embriagava. Para cumular o contentamento do coração da amada, contou-lhe que seu pae o protegia declaradamente com todo o dinheiro preciso para affectuar o seu casamento; e ajuntou que, sendo mister fugirem para o estrangeiro, em toda a parte encontrariam a abundancia para que a sua ventura fosse perfeita.

Maria Henriqueta deu insignificante valor a esta ninharia da abundancia no extrangeiro. Amor, amor, é que ella anhelava, como as aves do céo que avoejavam de horisonte a horisonte, e dobram as serras, e cortam a cupula dos mares, sem cuidarem de pedir á terra ou ás aguas um poucochinho de alimento.

Estas cousas, de si tão simples, ditas por amantes, embeberam duas rapidas horas, que pareceram annos á timorata Eugenia. Já D. Maria procurava a filha, quando Filippe Osorio descia ao pateo, seguido da ama, que lhe chamou sobrinho, ao despedir-se, na presença do guarda-portão.

Reparou a mãe no rubor febril da menina, e inquietou-se na supposição de que ella adoecesse, por effeito do susto em que a deixára o pae.

--Maria Henriqueta--disse D. Maria das Dôres--eu quero-te mais animada. Já te disse que á força não te casa teu pae. Conta commigo, e verás que tudo ha de ir por onde deve ir. Com isto não te quero dizer que cases com o militar; mas, mal por mal, antes d'elle que de um marido detestado.

Maria abraçou a mãe com tanta effusão de reconhecimento, que, para assim dizer, foi esta a primeira vez que Maria das Dôres sentiu arfar o coração de sua filha, e tão estranha e dôce lhe fôra a sensação, que poude n'esse instante ajuizar da ternura maternal.

Noite fechada, ouviu-se o estrepito das carruagens, passando sob o arco de Nossa Senhora de Vandoma. Maria tremeu e fugiu para o seu quarto, pedindo á mãe que a desculpasse de ir á sala por estar doente.

--Quero que vás á sala;--disse Maria das Dôres--Escusam-se fingimentos, quando as contas estão lançadas, eu sou por ti com a minha vontade de ferro.

Gonçalo Malafaya entrára carrancudo. Já elle presumia que o tenente de cavallos estivesse no Porto, ouvindo a relação que o pasmado conde fizera do militar, que o deixára a dormir em Albergaria despedindo-se em latim. Instou Malafaya em meudas averiguações, ás quaes o conde respondera sinceramente, dizendo mesmo as duvidas, que elle puzera, no tocante ao amor de Maria Henriqueta.

Isto bastou á desconfiança e penetração de um pae precavido.

O conde foi apresentado a D. Maria das Dôres, e teve o infortunio de acarear desde logo a mais formal das antipathias. A fidalga tinha odio a homens ruivos e baixos: e o conde era baixo e ruivo. Não detestava menos os pés grandes e o simonte; e o conde, sobre ter pés grandes, aspirava com desgraciosa pretenção o aroma do simonte de uma caixa de ouro com um relevo de cupido, a desfechar dardos, de dentro de uma mouta de flôres, sobre umas pastorinhas que teciam grinaldas de rosas. Foi a caixa muito admirada da numerosa turba dos convidados, e passou ás mãos de D. Maria.

--Essa caixa, minha senhora--disse o conde--esteve já nas mãos mais lindas de França. _Madame la duchesse de Choiseul_ honrou-me muitas vezes tomando pitadas da minha caixa.

--Quem?--disse D. Maria.

--A senhora duqueza de Choiseul.

--Tem as mãos muitos lindas?--replicou a fidalga.

--Lindissimas, minha senhora.

--Mas o nariz, se toma tabaco, não póde ser muito lindo... Aqui tem a sua caixinha, com o seu Cupido e as suas pastorinhas, sr. conde. É um traste muito bonito; mas o tabaco dá-lhe ares de um deposito de immundicie com paredes de ouro.

--Que grosseria!--murmurou Gonçalo ao ouvido da senhora.

D. Maria das Dôres olhou de través o marido e disse:

--Temos historia....

Gonçalo, inimigo das historias de sua mulher, voltou-lhe as costas, e prendeu a attenção ás variadas conversações dos fidalgos. D. Maria pediu licença, saíu da sala, e foi ajudar a vestir a filha com o mais roçagante e pomposo vestido de veludo escarlate, que trouxera de Lisboa.

--Quero que te admirem!--dizia ella pregando-lhe as suas melhores joias, e estrellando-lhe o toucado de pedras, e coalhando-lhe o seio de scintillantes colares.

Fez-se um silencio de egreja em festa de paixão, quando Henriqueta assomou ao limiar da sala. Era da etiqueta que os cavalheiros se adiantassem, em meia-lua, a recebe'-la ao centro do recinto; mas o espasmo collára aos tapetes os velhos e os novos fidalgos. O conde, a quem maior obrigação de cumprimento impunha o seu especial logar entre todos, deu alguns passos, como quem rompe um minuete, e acurvou-se com o braço direito afastado do tronco e a mão esquerda sobre o coração, que lhe dava corcovos no peito. Maria baixou ao chão os olhos, inclinou-se um pouco, e esperou que seu pae a conduzisse aos coxins do canapé. A garbosidade com que ella sacudiu a cauda para sentar-se de golpe, fez que muitos velhos puzessem os olhos no céo e os mancebos relanceassem olhares rancorosos sobre o conde. Offereceu Gonçalo ao hospede a cadeira mais nobre das quatro que ladeavam o canapé, e o fidalgo, que tratára duquezas de mano a mano, viu-se em apertos de acanhamento, antes de sentar-se milagrosamente no rebordo, da cadeira baixa, em que a seda do calção, que vestira nos Carvalhos, parecia rebentar pelas costuras repuxadas.

--Tive dois dias de boa jornada, minha senhora,--disse o conde gaguejando.